O “como-se” da era digital.

Perplexidades.

A filosofia do como-se (Die Philosophie des Als Ob) do alemão Hans Vaihinger (Nehren, 1852 – Halle, 1933) apresenta os valores como ficções úteis. Diz que construímos sistemas de pensamento e agimos como-se o mundo correspondesse aos nossos modelos, vivemos como-se não fossemos morrer, respeitamos as instituições como-se merecessem ser respeitadas, amamos como-se o amor fosse eterno.

O livro de Vaihinger, nada fácil de ler, foi um sucesso de vendas. Atribuiu-se esse êxito ao poder anestesiante do argumento, que remonta à visão cética sobre a impostura sociopolítica e o embuste das convenções estéticas, econômicas e morais. Os analistas viram na justificação da perda da dignidade dos valores um reflexo da circunstância em que Vaihinger viveu. Uma época e um lugar, o da Europa do entre-guerras, em que prevalecia o falso, a imitação, o supérfluo. O como-se espelharia, em formato kantiano, a sociedade dos salamaleques sociais, da arquitetura de colunatas inúteis, dos retratos de antepassados imaginários, dos chapéus femininos enfeitados, dos monóculos decorativos.

A atribuição à circunstância é verdadeira, mas a restrição é indevida. Vaihinger é atemporal. Ainda ontem mesmo fingia-se uma vida familiar harmoniosa, reverenciava-se o Sr. Diretor, ia-se às cerimônias vazias e escandalizava-se com a sexualidade alheia. Na atualidade digital, vivemos o como-se da farsa do tempo gasto no trabalho on-line, da cortesia sumária dos diálogos do zap ou das respostas automáticas nos e-mails.

Nada mudou. Apenas no distanciamento social está-se a um passo do divórcio definitivo entre a vida interior e o teatro da vida. Alcançamos a possibilidade da hipocrisia de nos relacionarmos como-se os outros fossem relevantes para nós.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – O “como-se” da era digital. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/25/o-como-se-da-era-digital/

 

REFERÊNCIAS.
Vaihinger, Hans (2011). A filosofia do Como se: sistema de ficções teóricas, práticas e religiosas da humanidade, na base de um positivismo idealista. Tradução de Joanes Kretschmer. Chapecó. Argos Editora

 

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