ÉTICA: O compromisso moral de Karl Marx.

Ética.

A insegurança constante e o transtorno contínuo distinguem a época burguesa de todas as precedentes. 

Até o século XVIII, a ideia de progresso foi a de um desenvolvimento gradativo, baseado nos valores da prudência e da virtú e no equilíbrio entre paciência e impaciência, característicos da formação clássica e humanista. Com a Revolução Industrial, o equilíbrio passou a ser visto como não progressivo, como indutor da “perenização do status quo“. As relações sociais, com seu cortejo de ideias antigas e veneráveis, se dissolveram. Os costumes e as instituições passaram a estiolarem antes que se cristalizassem. No advento da burguesia, tudo o que era sólido se desmanchou no ar (1966). 

O verbo no tempo passado, a bem da verdade, não é adequado. O processo não cessou, nem a história chegou ao fim. Em monótona insistência, segue-se fazendo da exploração e do desiquilíbrio o motor da economia. Continua-se sacrificando o bem-estar em favor do progresso, a sociedade em favor da individualidade, a massa trabalhadora em favor das elites econômicas.

Marx deixou escrito que a burguesia só pode existir revolucionando constantemente os instrumentos e as relações de produção (1982). Daí que o seu ativismo tenha sido orientado a quebrar esta pertinácia. Fundava-se, acima de tudo, em um imperativo ético: o de “derrubar todas as condições sociais em que o homem é rebaixado, submetido, abandonado, desprezível” (1998).  

A intenção era moralmente sublime. Quanto à posta em prática, o tempo passado da verbo não é fortuito.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Marx, Karl & Frederick Engels (1966). Manifeste du Parti Communiste. Paris. Sociales.
Marx, Karl (1982). L’Idéologie allemande, in, Œuvres. Paris. Gallimard, [II22-II23]
Marx, Karl (1998). Contribution à Ia critique de Ia philosophie du droit de Hegel. Trad. Jules Molinor, Paris. AIlia. [25]

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Epifania.

Epistemologia – Heurística.

Ao longo dos séculos, o termo grego epipháneia se prestou a entendimentos variados. Mas o sentido básico permaneceu: uma epifania é um ato cognitivo que se dá na ausência de mediação.

A festa cristã da Epifania comemora a manifestação reveladora de Jesus como divindade. Outras confissões religiosas empregam a palavra no mesmo sentido. Já as neurociências usam o termo para designar a súbita compreensão da essência de um fenômeno, a solução instantânea de um problema ou o assomo imediato de uma ideia à mente.  Continuar lendo

NOTAS: A girafa e o erro do Tipo 2.

Notas.

Na Revista Inteligência, meu artigo sobre os erros Tipo 2.

O leão é o único animal que figura em todas as representações da Arca de Noé. Seguem-se, pela ordem, o urso, o javali e o cervo. Em seguida vêm os quadrupedes ferozes. Depois, os mansos. Os seres aquáticos são retratados fora da Arca, flutuando ou submersos. São raras as aves. O corvo e a pomba são símbolos solteiros do egoísmo e da fraternidade, mais do que tipos de animais. Os insetos não são jamais representados. Nem as girafas.

Entende-se o caso dos insetos, mas e a omissão da girafa? Não seria pelo tamanho do pescoço, que alta era a Arca. O motivo, sabemos hoje, é o mesmo que dá fundamento a uma série de desacertos pseudocientíficos: os erros de Tipo 2, a não rejeição de uma hipótese falsa. Esse deslize secundário foi que levou a presumir, como causas da exclusão da Arca, o tamanho, os chifres peludos, ou, no caso das girafas, sua homossexualidade natural, cujos machos copulam alegremente entre si.

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UTILIZE E CITE A FONTE.

NOTAS: Deveria haver um limite para o salário dos chefes?

Notícias.

Deu na BBC por Tim Harford. 

A chefe da empresa de apostas online Bet365, Denise Coates, recebeu um contracheque de 320 milhões de libras (quase R$ 1,7 bilhão), confirmando sua posição como o executivo mais bem pago do Reino Unido. O salário anual de 277 milhões de libras de salário, mais os dividendos, reacendeu o debate sobre quanto os chefes devem ganhar.

“Um executivo-chefe de uma grande empresa americana, segundo levantamento do Senado, recebe cerca de 100 vezes mais que um trabalhador médio da empresa. E nosso governo hoje recompensa esse excesso com isenção tributária, não importa qual ao alto seja esse pagamento. Isso é errado.”

A frase é de Bill Clinton durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1991, a qual ele venceu. Ele prontamente tirou do papel sua promessa de cercear pagamentos excessivos.

Em geralmente, salários são tratados como custo, reduzindo o lucro sobre o qual uma companhia paga tributos. O presidente Clinton mudou a lei americana, e companhias poderiam ainda pagar o quanto elas quisessem, mas salários anuais acima de US$ 1 milhão (cerca de R$ 4 milhões) não seriam mais dedutíveis.

A mudança teve um impacto enorme. Quando Clinton deixou o cargo, em 2000, a razão entre o pagamento do executivo-chefe e do trabalhador médio não era mais 100 para 1. Era 300 para 1.

Mas o que deu errado? Podemos abordar essa questão a partir das oliveiras da Grécia Antiga.

O filósofo Tales de Mileto, segundo se conta, foi desafiado a provar o valor da filosofia. Se ela era tão útil, por que Tales era tão pobre?

Filósofo Tales de Mileto

Filósofo Tales de Mileto – GETTY IMAGES

Aristóteles, que narra sua história, deixa claro que a questão é superficial.

É claro que os filósofos são espertos o bastante para ficarem ricos, mas eles também são sábios o bastante para não se importarem com isso. Podemos até imaginar Tales falando: “Ok, eu farei fortuna. Se eu precisar!”

À época, a filosofia incluía a leitura do futuro nas estrelas.

Tales previu uma safra abundante de azeitonas, o que significaria demanda alta no aluguel de prensas da cidade. Tales visitou cada dono de equipamento com uma proposta. Aristóteles é nebuloso nos detalhes, mas menciona a palavra “depósito”.

Talvez Tales tenha negociado o direito de usar a prensa na época da colheita, mas se ele decidisse não usá-la, o proprietário simplesmente ficaria seu depósito.

Nesse caso, é o primeiro exemplo registrado do que chamamos agora de opção. Uma má colheita de azeitonas, e a opção de Tales seria inútil.

Mas, por sorte ou por análise astronômica, ele estava certo. Aristóteles nos diz que Tales contratou as prensas “em que termos ele quis e coletou uma boa quantia de dinheiro”.

Atualmente, muitas opções são compradas e vendidas nos mercados financeiros.

Se você acha que o preço da ação da Apple vai subir, pode simplesmente comprar ações da empresa — ou pode comprar a opção de comprar ações da Apple por um preço específico numa data futura.

Uma opção é de alto risco e alto retorno. Se o preço da ação é menor do que minha opção de compra, eu perco tudo. Se é maior, eu posso exercer minha opção, vender a ação e tirar um grande lucro.

Mas há outro uso para essas opções, uma tentativa de resolver o que economistas chamam de problema do principal-agente. O principal é dono de algo, e ele emprega um agente para gerir isso para ele.

Imagine que eu me torno chefe da Apple, e você detém ações da empresa. Isso o torna o principal, ou um deles. Eu sou o agente, gerindo a companhia para você e outros acionistas.

Você precisa confiar em mim para trabalhar duro por seus interesses, mas você não pode ver o que eu faço o dia todo. Talvez eu tome minhas decisões consultando um astrólogo, talvez não tão esperto quanto Tales, mas eu sempre terei uma desculpa plausível de por que os lucros estão estagnados.

Mas se me derem opções de comprar novas ações da Apple em alguns anos? Agora eu teria a ganhar com o aumento do preço da ação. Claro, se eu exercer minha opção, isso vai diminuir o valor das ações, mas se o peço continuar subindo, isso não vai importar muito.

Tudo isso soa perfeitamente sensível, e em 1990 os economistas Kevin J. Murphy e Michael Jensen publicaram um influente artigo sobre o assunto.

“Na maioria das companhias”, escreveram, “a compensação de altos executivos é virtualmente independente do desempenho”.

Então, quando o presidente Clinton cortou isenções para pagamentos de executivos, ele beneficiou recompensas ligadas à performance. Conselheiro do então mandatário, Robert Reich explicou o que aconteceu: “Só mudou a remuneração dos executivos de salários para opções sobre ações”.

Um mercado de ações em ascensão significava que até mesmo um executivo-chefe que consulta astrologia teria se dado bem. A diferença entre os salários dos patrões e dos trabalhadores aumentou. Um congressista da era Clinton diz que a lei “merece um lugar de destaque no Museu de Consequências Não Intencionais”.

Mas espere: se as opções incentivam os executivos a fazer um trabalho melhor, então isso não é necessariamente ruim, certo? Infelizmente, isso acabou sendo um grande “se”.

Quais opções realmente incentivam é maximizar o preço das ações de uma empresa em uma determinada data. Se você acha que é exatamente a mesma coisa que administrar bem uma empresa, tenho algumas ações da Enron para vendê-lo.

Se as opções de ações não são a melhor maneira de recompensar o desempenho, os conselhos de administração da empresa não deveriam procurar alternativas?

Em teoria, sim. É trabalho do conselho negociar com os chefes das empresas em nome dos acionistas. Na prática, esse é outro problema do principal-agente, pois os chefes costumam influenciar quem são os diretores e quanto são pagos. Existe um potencial óbvio de conflito de interesse.

No livro Pay Without Performance (“Remuneração sem Desempenho”, em tradução livre), Lucian Bebchuk e Jesse Fried argumentam que os diretores não se importam de verdade com uma ligação entre remuneração e desempenho, mas precisam “camuflar” essa indiferença dos acionistas. A melhor forma de compensar gatos gordos é a “compensação de camuflagem”, e opções sobre ações parecem ser uma maneira de fazer isso.

Talvez acionistas precisem ainda de outro agente para supervisionar como a diretoria recompensa os chefes.

Há um candidato: muitas pessoas detêm ações não de modo direto, mas por meio de fundos de pensão, e há algumas evidências de que esses chamados investidores “institucionais” podem persuadir conselhos de administração a serem negociadores mais duros.

Quando um grande acionista pode exercer algum tipo de controle, há um elo mais genuíno entre a remuneração dos executivos e a performance deles. No entanto, essa ligação parece também bastante rara.

Os pagamentos feitos a executivos são frequentes nas manchetes de jornais, mesmo em países nos quais é menor a diferença da remuneração deles em relação ao trabalhador comum.

De todo modo, há surpreendentemente poucas evidências do que faz sentido.

Quão possível é avaliar bem o que um chefe faz? Há divergências.

Os chefes estavam menos motivados nos anos 1960 porque ganhavam “apenas” 20 vezes mais que os trabalhadores comuns? Parece difícil.

Por outro lado, boas decisões no comando de uma grande empresa têm muito mais valor do que as ruins. Então, talvez aqueles executivos valham mesmo os salários de até nove dígitos. Talvez.

Mas se é isso mesmo, não está claro para eleitores e trabalhadores, muitos dos quais ainda irritados com o que Clinton deu voz nos anos 1990.

Talvez os chefes executivos devam aprender com Tales, que foi esperto o bastante para fazer mais dinheiro, mas sábio o suficiente para refletir se deveria.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Para uma despedida amena.

Trabalho.

É possível que algum dia você seja demitido. Ou talvez você se demita. Como quer que seja, você deve supor, constante e disciplinadamente, o advento de uma desvinculação dolorosa. 

Nietzsche retratou o Estado como o mais frio dos monstros frios. A descrição se aplica à quase totalidade das organizações. Por isso, procure ser tão frio quanto elas. Não espere nada, nem mesmo a consideração dos dirigentes.

Os executivos contemporâneos são diferentes do feitor que compelia à produção pelo látego nas costas. São gente civilizada. Incitam ao trabalho pela manipulação da espera. Primeiro incutem a esperança do que a organização pode dar. Depois, o terror, raso e obscuro, do que poderá não acontecer: não progredir, não ser considerado, não ser respeitado, não permanecer.

O afeto e a mágoa são sentimentos comuns e justificáveis no mundo do trabalho. Fuja deles. Não amar e não odiar são os antídotos eficazes contra a ansiedade e a perda. Cultive a insensibilidade. Lembre-se que o recrutador, o selecionador, o gestor trabalham sob a consciência do perecível. Eles também estão lutando para serem necessários. Estão próximos demais da realidade para não a sentirem. 

A aquisição da indiferença requer atenção e um longo treinamento. Procure não amar seu emprego, não amar seu posto de trabalho, sobretudo procure não amar a sua organização. Ela não é sua, mesmo que você seja o proprietário. As organizações são entes jurídicos ficcionais. Não são nossas, nós é que somos delas. Se nos deixamos ser.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Nietzsche, Friedrich (2014). Assim falava Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis. Vozes.

NOTAS: A Face Oculta do Parecerista.

Notas.

Nesse artigo exponho discussões éticas sobre o processo de avaliação de mérito de trabalhos científicos. O sistema de revisão cega pelos pares em periódicos, partindo do debate sobre as pressões para publicação presentes na comunidade acadêmica de Administração no Brasil.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Dilthey, Wilhelm; Introduction a l’etude des sciences humaines: essai sur le fondement qu’on pourrait donner a l’etude de la societe et de l’histoire ; Paris: Presses Universitaires de France, 1942.

__________ ; La esencia de la filosofia; Buenos Aires; Losada; 1952

 

ÉTICA: A ética do antes e do depois.

Ética.

O suspense tecnológico mostrado por Spielberg em Minority Report externa um paradoxo insolúvel: o juiz que mata os criminosos futuros, que assassina as pessoas que cometerão crimes, faz com que o crime não seja cometido, mas mata um inocente.

O futuro jamais oferece parâmetros éticos aceitáveis. O tempo, irreversível, obriga a que os princípios morais não se antecipem nem posterguem. Ademais, os predicados analíticos – bom, justo, valioso – e os predicados normativos – necessário, interdito, recomendável –, diferem entre os povos e as gerações.

Kant achava inconcebível que a marcha da humanidade fosse a construção de uma morada que apenas a última geração pudesse habitar. Tinha razão. Estenderia, se vivo fosse, a advertência sobre a imoralidade da redenção futura ao improvável advento da ordem perfeita ou do igualitarismo social.

O problema ético do antes e do depois é embaraçoso. Nem o mérito, nem a culpa retroagem. Na antecipação castiga-se o inocente. Na postergação, os culpados e as vítimas já terão deixado de existir.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kant, Immanuel (2010). Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. Tradução de Artur Mourão. São Paulo. Martins Fontes.
Minority Report (Filme) (2002). Direção Steven Spielberg. USA. 20th Century Fox Corporation.

NOTAS: Trabalhar demais aumenta o risco de AVC.

Notas.

Deu na RIF por Taíssa Stivanin.

Estudo realizado por pesquisadores europeus e americanos provou pela primeira vez a relação entre o excesso de trabalho e os ataques cerebrais. Os resultados foram publicados no fim de junho na revista científica Stroke.

Aviso aos workaholics de plantão: trabalhar mais de dez horas por dia, pelo menos 50 dias por ano, aumenta em 29% a possibilidade de ter um AVC (acidente vascular cerebral). O perigo cresce com o tempo. Se a situação persiste por mais de dez anos, o risco cresce 45%. É o que mostra uma pesquisa realizada por um grupo de cientistas europeus e americanos, entre eles o pesquisador francês Alexis Descatha, especialista de doenças profissionais do hospital Raymond-Poincaré, situado em Garches, na região parisiense.

O estudo pôde ser realizado graças a grupo de 200 mil pacientes que frequentam hospitais e centros públicos e integram um banco de dados colocado à disposição dos cientistas. Muitos deles tinham histórico de AVC, o que permitiu aos cientistas fazerem as comparações necessárias para chegar às conclusões estabelecidas na pesquisa. “Temos agora uma análise importante que evidencia esse risco moderado e que é estatisticamente significativo. O que é interessante notar é que ele é significativo a partir de dez anos de exposição. No consultório, é algo que já podemos observar. Então temos a confirmação de algo que, em termos de duração, nunca havia sido constatado até agora”, diz Descatha, em entrevista à RFI.

Quais outras razões poderiam explicar a ocorrência de um AVC, que é um problema relativamente raro, em caso de excesso de trabalho? Por enquanto os cientistas formulam hipóteses, lembra Alexis Descatha, que ainda não foram confirmadas pelo estudo publicado na revista Stroke. Eles ainda não sabem dizer ao certo se os ataques cerebrais seriam uma consequência direta da carga de trabalho ou do tipo de trabalho realizado, explica.

Segundo ele, há atividades que têm um efeito direto nas funções cardiovasculares, no ritmo cardíaco e na coagulação. Os horários noturnos, apos às 22h, por exemplo, e alternados, são comprovadamente nocivos para a saúde, exemplifica, porque afetam o relógio biológico. Algumas funções também estimulam comportamentos pouco saudáveis, como o tabagismo, a falta de atividade física, a alimentação inadequada, consequência do ritmo profissional e o consumo excessivo de álcool. Problemas como insônia também são frequentes. “Há uma modificação do comportamento ligada ao trabalho, principalmente ao excesso de trabalho a longo prazo, o que pode justamente, acarretar a ocorrência de um acidente cardiovascular”, diz.

O pesquisador francês explica que o estudo não detalha quais atividades profissionais tornam as pessoas mais propensas aos ataques cerebrais, mas os médicos já sabem que o trabalho que continua a ser executado de casa (envio de e-mails e telefonemas, por exemplo) também influencia negativamente a saúde, com todos seus riscos. “Nosso objetivo agora é entender os mecanismos que estão por trás desse risco, preveni-los, e diminuir a incidência dos acidentes vasculares cerebrais”, reitera Descatha. Seus próximos estudos agora deverão analisar qual a relação entre o trabalho excessivo e outras doenças cardiovasculares, e a maneira exata como os efeitos diretos e indiretos afetam os indivíduos. Somente desta forma poderá ser possível efetuar uma prevenção eficaz, reitera.

As próximas pesquisas também buscam entender se a carga de trabalho extrema exerce a mesma influência em acidentes vasculares hemorrágicos, quando há ruptura de uma veia ou artéria bloqueada por excesso de colesterol, por exemplo, ou vasculares isquêmicos, nos quais o cérebro fica temporariamente sem oxigênio, mesmo sem antecedentes. A pesquisa leva a crer, diz Descatha, que o excesso de trabalho pode ser a razão das isquemias cerebrais em jovens que não apresentam fatores de risco. “É o que constatamos no estudo, quando tentamos analisar os casos mais jovens, de adultos de menos de 50 anos. É mais do que claro que todo mundo pode ser vitima de um AVC, jovens ou nem tanto.”

Como criar um programa de prevenção?

“Dizer às pessoas para trabalhar menos não tem sentido”, diz o pesquisador francês. “O que é certo, por diferentes razões, que sejam sociais ou financeiras, ou de carreira profissional, é que trabalhar mais do que a média, mais de 10 horas por dia e 50 dias por anos, é algo comum, já que 30% da população declara estar nessa situação. Mas se essa situação se prolonga por mais de dez anos, há efeitos na saúde que devem levar a uma prudência maior da gestão de Recursos Humanos e do tempo de trabalho”, diz Alexis Descatha. A prevenção para evitar essa situação, ressalta, deve ser coordenada entre o médico do trabalho e outros setores da empresa.

Essa situação de risco existe em empresas de todo o mundo, lembra o especialista francês, e já foi demonstrada em estudos asiáticos, americanos e europeus. As pesquisas demonstram que a prevenção passa pelo equilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho e à vida pessoal. “Há limites que não devem ser ultrapassados”, conclui. O objetivo agora do pesquisador francês e de sua equipe é ir mais longe nos estudos para compreender se é carga cognitiva, física ou ambas que afetam a saúde e se isso depende da maneira como o individuo lida com essa situação. “O objetivo é fazer a prevenção. E já sabemos que trabalhar demais por muito tempo afeta a saúde.”

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: Acaso – Ésquilo em Alexandria.

Epistemologia.

Ptolomeu, neto do general de Alexandre, governou o Egito entre 246 e 221 AC. Não foi uma pessoa de bem. Presunçoso, forçou uma mudança do calendário para sincronizar o Tempo com o da sua dinastia. Gatuno, acumulou tesouros com pilhagens. Traiçoeiro, negociou com os atenienses a caução de 15 talentos de prata pelo empréstimo do exemplar único da obra completa de Ésquilo. Não a devolveu. Depositou-a na Biblioteca de Alexandria. Cobrou em espécie aos que a quiseram consultar. 

Terceiro do nome, Ptolomeu não tinha nem moral, nem instrução, nem estava preparado para o cargo. Havia chegado à faraó por puro acaso. 

O acaso está presente como enigma em todos os campos de todos os saberes. Um dos arcanos mais insondáveis da zoologia, por exemplo, é o das águias da Europa meridional, que elevam tartarugas até uns cem metros de altura e as deixam cair sobre as rochas para que a carapaça se quebre e as possam devorar. Como as aves vieram a apreender esta habilidade é um mistério que os etólogos ainda não podem decifrar. Um acaso da evolução, como casuais são os alvos escolhidos.  

Aconteceu que, no ano de 456 a.C., nos arredores de Gela, na Sicília, uma destas águias deixou cair a sua tartaruga sobre o que acreditava ser uma rocha. Até aí nada demais. Mas, o que a cem metros de altura parecia ser uma pedra redonda e lisa, era a calva de um ancião grego. Casualmente a de Ésquilo. O mesmo cuja obra seria sequestrada por Ptolomeu. 

Não sabemos o que se passou com a tartaruga. O velho Ésquilo morreu no ato. Ainda que tivesse sido avisado pelo Oráculo que seu fim viria do alto, e que, por isto, jamais saísse de casa em dias de tempestade ou passasse por baixo de escadas ou de árvores, Ésquilo não poderia se precaver contra a casualidade da aquilina pedrada. Chegado à velhice, havia depositado sua obra no Templo de Delfos. Também não teria como antecipar que, por acaso, o pérfido Ptolomeu, duzentos e treze anos depois, a furtasse e guardasse na Biblioteca de Alexandria.

A cadeia de ocorrências fortuitas não cessa neste incidente. Desconhecendo tanto Ésquilo quanto Ptolomeu, oito séculos mais tarde, em 22 de dezembro de 640, o general Amir ibn al-As, acatando ordem direta do Califa Omar, ordenou a queima total da Biblioteca, e, com ela, da coletânea remanescente da obra de Ésquilo. O argumento para a incineração não poderia ser mais imprevisível: os escritos que estão em desacordo com a palavra de Alá são blasfemos; os que estão de acordo, são supérfluos. 

Em pouco mais de um milênio o acaso havia determinado duas perdas inestimáveis: a do artista, atingido mortalmente pela águia, e o da sua arte, roubada por Ptolomeu e incendiada pelo Califa. Uma obra magnífica e extensa. As trilogias, sátiras e peças avulsas escritas por Ésquilo montavam a oitocentas obras. Quis o acaso que hoje restem apenas sete: As suplicantes, Os egípcios, As Danaides, Prometeu Acorrentado e a trilogia Orestiada

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: O instante heurístico.

Epistemologia – Heurística.

 

No prefácio à Metafísica, Tommaso Campanella descreveu o instante heurístico como um movimento da consciência por “tactum intrinsecum in magna suavitate”.

As narrativas colhidas nas investigações contemporâneas abonam que o descobrir e o inventar consistem em uma aquisição íntima, que assoma despercebida e com grande suavidade.

Mas como uma ideia, um objeto, ou uma relação penetra na vida mental? 

Difícil responder. A consciência é, em si, um enigma. Um “não sei quê” (nescio quid), nas palavras de Leibniz. Conscientizar-se não é como adquirir um conhecimento. Sabemos todos que vamos morrer, mas quantos de nós estamos conscientes da inevitabilidade da própria morte? 

A consciência também não é uma sensação, nem deriva de um esforço científico. É algo que está simultaneamente nos campos da percepção e do juízo. A imagem exemplar é a de quando somos tocados pela arte. Sentimos, mas não podemos narrar o que sentimos. O belo e o feio, o significativo e o insignificante chegam à mente por um influxo interno, assim como áspero e o acetinado chegam ao tato. 

Ao tomarmos consciência alguma coisa é revelada. O intelecto se eleva sobre si mesmo. Ingressa em um estado em que o significado está em processo de aparecimento. O que ocorre então não pode ser descrito. Só recordado. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Agamben, Giorgio (2017). Gosto. Trad. Claudio Oliveira. Belo Horizonte. Autêntica Editora

Ernst, Germana (ed.) (2007). Tommaso Campanella: Le Livre et le corps de la nature. Paris, France. Les Belles Lettres.

Headley, John M. (1997). Tommaso Campanella and the transformation of the world. Princeton. Princeton University Press

Leibniz, Gottfried Wilhelm Leibniz (1989) The source of contingent truths. In, Leibniz: Philosophical Essays (Hackett Classics) Trad, Rogerl Ariew e Daniel Garber. Hackett Publishing Co. eBook Kindle

NOTAS: Google está sendo investigado novamente por práticas trabalhistas.

Notícias.

Deu no Gizmodo por

Imagem: Getty Image

Para uma empresa associada ao acesso rápido a todo o conhecimento humano, o Google certamente está lutando para se manter dentro até mesmo dos termos mais gerais da legislação trabalhista dos EUA.

Pouco antes do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving), o Google demitiu repentinamente quatro de seus engenheiros, todos os quais, aliás, haviam se envolvido fortemente em protestos liderados por funcionários contra o comportamento da empresa. Os “Thanksgiving Four”, como ficaram conhecidos, prometeram contestar suas demissões por meio de uma acusação de práticas trabalhistas injustas junto ao Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB), e receberam o apoio do sindicato dos Trabalhadores das Comunicações da América logo em seguida.

O Google chegou a um acordo com o NLRB em setembro, que impediu a empresa de ameaçar ou retaliar seus próprios trabalhadores e permitindo que eles falassem livremente com a mídia sobre as condições de seu local de trabalho. A empresa está sendo criticada há anos por demitir, afastar ou reprimir ativistas dentro da companhia, tentou limitar o acesso dos trabalhadores a ferramentas de organização (como e-mail) e foi recentemente revelado que ela não apenas tentou cancelar uma reunião liderada por um sindicato em seu campus em Zurique, mas também contratou a empresa IRI como consultora, conhecida por práticas contra sindicatos.

Quando pedimos um comentário, o Google não se deu ao trabalho de escrever um novo comunicado e enviou a mesma que eles enviaram ao Gizmodo e a outros meios de comunicação na semana passada:

Demitimos quatro indivíduos envolvidos em violações intencionais e muitas vezes repetidas de nossas políticas de segurança de dados de longa data, incluindo acesso e disseminação sistemática de materiais e trabalho de outros funcionários. Ninguém foi demitido por levantar preocupações ou debater as atividades da empresa.

Clique aqui para ler a matéria original.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Magritte – a tentativa do impossível.

Trabalho.

Renè Magritte, La tentative de l’impossible, 1928, © PhotothËque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

La tentative de l’impossible é um óleo de 116 x 81 cm, em que o pintor belga René François Ghislain Magritte (1898 – 1967) dispôs a ele mesmo em roupas convencionais, e, nua, a Georgette, paixão, modelo e esposa por toda a vida.

Como em tudo o que gênio de Magritte construiu, há neste quadro um enigma a ser decifrado. Desde o título até as cores escolhidas, as interpretações diretas são lacunares. Isto, da completa incompletude, é um dos muitos paradoxos lançados pela obra. O impossível está na figura em volume, mas sem suporte, de Georgette. Na imagem robótica e semiacabada, que mostra o despropósito de representar o espírito. Na frieza desumana da persona, que a apresenta sendo antes de ser. Está na criatura inacabada, que parece esperar pacientemente para vir à existência; um ente em evolução que ainda não vive, mas sabemos nós, os expectadores, que logo viverá. Como sabemos que não é assim. Que a imagem está pronta, que o personagem em potência não se atualizará. 

Magritte nos obriga a pensar. Sobre ele mesmo, um trabalhador de classe média, que se conduziu sempre como um burguês de cidade pequena, mas que tinha a imaginação mais livre que se tem notícia. Sobre o seu trabalho, onde cada obra é um meme, uma imagem que fica pregada indelevelmente no cérebro de quem a vê. Sobre o trabalho da criação, a que qualquer tentativa de exegese da sua obra remete. 

Magritte morreu em 1967, mas suas personagens subsistem na memória de quantos viram os seus quadros. Georgette morreu em 1986. Ou, talvez, não. Impossivelmente, Georgette perdura entre o nada e a existência. A sua figura inacabada cristaliza para a eternidade o ato ainda em potência. Retrata o trabalho inventivo – poïesis – a tentativa absurda de manter em suspenso o que já foi criado.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Marcadé, Bernard (2016). Magritte.  Paris. Citadelles & Mazenod

NOTAS: Fórum Econômico Mundial prevê que robôs farão mais tarefas que humanos em 2025.

Notícias.

Deu no Gizmodo por Leo Escudeiro. 

A perspectiva da tomada de empregos por robôs pode ser menos sombria do que imaginamos, pelo menos de acordo com um relatório feito pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês).

A organização prevê que os robôs deverão tomar 75 milhões de empregos humanos globalmente até 2022, mas que, por sua vez, deverão criar mais 133 milhões de novas vagas. Por outro lado, o relatório do WEF também afirma que, em 2025, os robôs deverão desempenhar 52% das tarefas profissionais atuais, em comparação com 29% atualmente.

Segundo o relatório, os avanços na computação deverão liberar os trabalhadores para novas tarefas, mas tem quem afirme que esse progresso não traz garantias de que empregos perdidos sejam substituídos.

O Fórum Econômico Mundial afirma que robôs e algoritmos deverão melhorar e muito a produtividade dos empregos atuais, além de levar a vários novos empregos nos próximos anos.

Atualmente, as máquinas desempenham 29% dos trabalhos, segundo firmas pesquisadas pelo Fórum Econômico Mundial. Esse número, segundo a organização, deverá subir para 42% em 2022 e 52% em 2025. O relatório afirma ainda que os humanos deverão trabalhar em uma média de 58% das horas de tarefa até 2022, em comparação com 71% hoje em dia.

Na visão da organização, o resultado disso seria um número maior de especialistas em redes sociais, desenvolvedores de software, analistas de dados e também outros cargos que exigem traços humanos, como prestadores de serviços e professores.

No entanto, o Fórum Econômico Mundial alerta que isso implicaria em mudanças significativas em relação ao panorama atual, com as empresas precisando treinar novamente os funcionários para conseguirem novas habilidades e governos impactados pelas mudanças tendo que implementar redes de segurança para os trabalhadores que deverão perder seus empregos. Para a organização, vagas em firmas, fábricas, correios e cargos de secretariado e em caixas de supermercado devem ser substituídos por robôs.

“Existe um imperativo tanto moral quanto econômico de se fazer isso (investir no desenvolvimento dos trabalhadores). Sem abordagens proativas, empresas e trabalhadores poderão perder o potencial econômico da Quarta Revolução Industrial”, disse Saadia Zahidi, chefe do Centro para a Nova Economia e a Sociedade, do Fórum Econômico Mundial.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, a perspectiva hoje é mais positiva porque as empresas entendem melhor os tipos de oportunidades disponíveis, graças aos desenvolvimentos na tecnologia. No entanto, vale apontar que essa é apenas a conclusão a que chegou a organização em sua própria consulta.

Outros grupos de pesquisa já trouxeram perspectivas piores. Um estudo encomendado pelo Bank of England em 2015, por exemplo, previu que, até 2035, 80 milhões de empregos seriam perdidos nos Estados Unidos, além de 15 milhões no Reino Unido. Em dezembro do ano passado, por outro lado, um relatório da McKinsey trouxe uma visão mais positiva, estimando que o balanço entre perda e criação de empregos seria basicamente igual até 2030.

O relatório do Fórum Econômico Mundial foi feito a partir de pesquisas com funcionários de recursos humanos, executivos de estratégia e CEOs de mais de 300 empresas no mundo todo , em uma série de indústrias. Os consultados representaram mais de 15 milhões de empregados e 20 economias desenvolvidas e emergentes, que somam 70% da economia global.

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ÉTICA: A imoralidade contraproducente.

Ética.

O minguado senso moral dos gerentes da era da competição sem limites costuma estimular a adoção de práticas danosas ao trabalho, às organizações, à economia e, em última instância, à sociedade.

Dentre as quebras na produtividade imputáveis ao descaso com a ética, figuram, em cambulhada, as interdições da fala, os protocolos de metas, a mentalidade mercenária e a surdez comunicacional.

O hábito de tolher a comunicação entre trabalhadores tem dois efeitos. Camufla a ineficácia na cadência de tarefas e cristaliza as rotinas, que se atrasam em relação as mudanças no ambiente técnico-econômico.

A estipulação de metas dissemina fantasias numéricas. Convida a pequenos ajustes, lacunas e deslocamentos, que se acumulam nos relatórios corporativos. Conciliações inúteis que desfiguram a realidade. Um exemplo é o da transferência dos resultados da primeira quinzena de janeiro para dezembro do ano anterior, de modo a cumprir metas anuais. Outro, é o das pedaladas e químicas orçamentárias, que, de tão frequentes, tornaram-se norma nas grandes corporações públicas e privadas.

O vício mercantilista, desde o comércio de horas trabalhadas até a atitude dos gerentes que buscam resultados de curto prazo para aumentar seu bônus anual ou para ascender na carreira, favorece disposições prejudiciais à rentabilidade e à fidelização do trabalhador.

Por fim, a surdez comunicacional desmoraliza a busca de produtividade. Se ninguém se dispõe a escutar sobre o que possa balançar o barco, como denúncias de assédio e de maus tratos, e ninguém se sente estimulado a delatar a incompetência gerencial, nem os desperdícios e os defeitos nos produtos e serviços, o barco tende a naufragar sem ter balançado.

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EPISTEMOLOGIA: O campo da heurística.

Epistemologia – Heurística.

A heurística é disciplina do invento e da descoberta. Seu foco é o da tomada de consciência de objetos e relações. 

A definição é importante porque as ciências particulares costumam empregar o termo “heurística” de forma limitada ou equívoca. Na ciência da história, entende-se a heurística como significando a pesquisa documental. Na pedagogia, considera-se método heurístico aquele que permite ao aluno descobrir o que se quer que aprenda. 

Fora do âmbito da filosofia, os atos e momentos heurísticos têm sido objeto apropriado de estudo da psicologia cognitiva e do aglomerado reunido sob a denominação de neurociências. Esses saberes se ocupam primordialmente dos processos de autodescoberta, de auto-diálogo, de auto-procura e do despertar das emoções e aberturas de sentido (Moustaka). 

Os estudos heurísticos contribuíram para a superação das restrições arcaicas e a consequente restauração da universalidade dos saberes. São exemplos do progresso alcançando a ruptura, fusão e empréstimos entre as disciplinas particulares; o surgimento de ramos de conhecimento como a fisioquímica, a biônica e a mecatrônica; bem como a outorga do Nobel de economia a Daniel Kahneman, um dos pais fundadores da psicologia heurística. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Moustaka, Clark (1990). Heuristic research: design, methodology, and applications. California. Sage Publications.

Nadeau, Robert (1999) Vocabulaire technique et analytique de l’épistémologie. Paris. Presses Universitaires de France. P. 290

NOTAS: Adam Smith – o torpor da sua mente….

Notas.

No progredir da divisão do trabalho, o emprego muito maior daqueles que vivem do seu trabalho, isto é, do grande corpo do povo, se limita a algumas operações muito simples, frequentemente [se limita] a uma ou duas [operações]. Como, no entanto, os entendimentos da maior parte dos homens são necessariamente formados por seus empregos comuns, o homem cuja vida inteira é gasta na realização de algumas operações simples, cujos efeitos talvez sejam sempre os mesmos, ou quase os mesmos, não tem ocasião de exercer sua compreensão ou de exercer sua invenção ao descobrir expedientes para remover dificuldades que nunca ocorrem. Ele naturalmente perde, portanto, o hábito de tal esforço, e geralmente se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível para uma criatura humana se tornar. O torpor de sua mente o torna não apenas incapaz de saborear ou tomar parte em qualquer conversa racional, mas de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou terno e, consequentemente, de formar qualquer julgamento justo a respeito de muitos dos deveres comuns da vida privada.

In the progress of the division of labour, the employment of the far greater part of those who live by labour, that is, of the great body of the people, comes to be confined to a few very simple operations, frequently to one or two. But the understandings of the greater part of men are necessarily formed by their ordinary employments. The man whose whole life is spent in performing a few simple operations, of which the effects are perhaps always the same, or very nearly the same, has no occasion to exert his understanding or to exercise his invention in finding out expedients for removing difficulties which never occur. He naturally loses, therefore, the habit of such exertion, and generally becomes as stupid and ignorant as it is possible for a human creature to become. The torpor of his mind renders him not only incapable of relishing or bearing a part in any rational conversation, but of conceiving any generous, noble, or tender sentiment, and consequently of forming any just judgment concerning many even of the ordinary duties of private life.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Smith, Adam (1776). An Inquiry into the Nature and Causes of The Wealth of Nations.  Book V: On the Revenue of the Sovereign or Commonwealth. Chapter I: On the Expenses of the Sovereign or Commonwealth. Part III: On the Expense of Public Works and Public Institutions. Article II: On the Expense of the Institutions for the Education of Youth.

TRABALHO: Autopoiese e o trabalho hoje.

Trabalho.

A expressão “autopoiese” designa a capacidade que têm as moléculas de replicarem a mesma rede molecular que as produziu. 

O termo foi cunhado, na década de 70 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana.  Tem origem no grego auto “próprio” + poiesis “criação”. Descreve o fenômeno dos sistemas vivos que se autorregulam, e, incessantemente, se autoproduzem. Estes sistemas mantêm interações externas, mas o meio apenas desencadeia as mudanças acolhidas por sua própria estrutura. 

Da denotação biológica, a expressão passou a outras áreas. Steven Rose a aplicou na neurobiologia, Niklas Luhmann na sociologia, Patrik Schumacher na arquitetura, e Gilles Deleuze e Antonio Negri na filosofia. 

Para estes autores, os seres orgânicos e sociais coexistem sistemicamente em recomposições autopoiéticas ininterruptas (nada é novo, nada é velho). As antigas e as novas formas são compreensíveis pelo modo em que atualizam sua composição, pelo hibridismo e pela diversidade.

A se considerar a teoria, que deste a sua concepção acolheu um sem-número de verificações empíricas, a atividade laboral requer capacidade de autoprodução e de reintegração, cuja presteza e acerto vieram a se tornar condições essenciais ao posicionamento e à conservação no mercado de trabalho.

Quer isto dizer que o trabalhador que não se reinventa, que não se dispõe a contorcer sua biografia e a desbotar sua identidade, está fadado à exclusão da vida econômica e ao escárnio dos condescendentes.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Fonseca, João D.  (2008). Autopoiésis: uma introdução às ideias de Maturana e Varela. São Paulo. CreateSpace Independent Publishing Platform.

Maturana, Humberto & Varela, Francisco J. (1980). Autopoiesis and cognition: the realization of the living. Dordrecht. D. Reidel Publishing Company.