NOTAS: Ciclo do trabalho, roda da fortuna.

Notas.

Neste artigo procuramos estabelecer a forma e as razões da subsistência da ideia da Roda da Fortuna como fonte tanto técnica como popular da cultura econômica e organizacional. Examinamos a sua aplicação prática, a sua fundamentação e lançamos algumas hipóteses sobre os motivos da sua persistência.

In this article we attempt to establish the form and the reasons for the perseverance of the Wheel of Fortune’s notion as a source of both technical and non-technical economic and organizational cultures. We have analyzed its practical application,its theoretical basis and we have raised some hypothesis on the reasons of its persistence.

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UTILIZE E CITE A FONTE.
THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Ciclo do trabalho, roda da fortuna. Organ. Soc. [online]. 2004, vol.11, n.29, pp.71-79. ISSN 1984-9230.

ÉTICA: Williams & Jonas – Sorte moral e responsabilidade.

Ética.

O conceito de “sorte moral” (moral luck) decorre da constatação de que o cálculo probabilístico não se aplica aos julgamentos éticos.

O argumento, de Bernard Willians, é de que não havendo como conceber dados retroativos, nem malabarismos estatísticos que abonem um juízo sobre o futuro, a razão nos obriga a admitir que a moralidade de nossas escolhas corresponde a uma aposta, e a uma aposta que podemos perder, mesmo quando as leis da probabilidade dizem que deveríamos ganhar. 

Descartado o cálculo, o recurso que temos para fundamentar nossas escolhas em relação ao futuro é nos basearmos no “princípio da responsabilidade”. O argumento – este de Hans Jonas – é o de que a precaução razoável, alicerçada nos princípios e nas informações presentes, é a única justificativa que temos para quando o azar faz com que nossas decisões tenham efeito perverso. 

O exemplo que Willians apresenta é emblemático. O general americano Curtis LeMay, dirigente do Strategic Air Command na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial e responsável pela destruição com bombas incendiárias de mais de setenta cidades, além de transmissão da ordem de lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki, disse um dia: “se tivéssemos perdido, nós teríamos sido julgados e condenados como criminosos de guerra”. 

A observação é correta do ponto de vista político. Mas não da filosofia moral. Do ponto de vista da ética, LeMay, o presidente Truman e a democracia americana carregarão para sempre, para o túmulo e para além-túmulo, se houver um além-túmulo, a culpa pela morte de mais de 200 mil civis, dos quais cerca de 60 mil crianças.

Isto porque a assinatura da responsabilidade moral está em se abstrair os eventos projetados na fundamentação das ações presentes. No plano da ética, não são as gerações vindouras, nem somos nós, no futuro, os que julgarão. Os juízes, os inocentes e os culpados somos os presentes. Aqui e agora.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Jonas, Hans (1984). The Imperative of Responsibility: In Search of Ethics for the Technological Age (translation of Das Prinzip Verantwortung by Hans Jonas and David Herr. Chicago. University of Chicago Press.

Williams, Bernard (1981) Moral luck. London. Cambridge University Press.

Williams, Bernard (2005) Moral, uma introdução à ética Tradução de Remo Mannarino Filho. São Paulo. Martins Fontes.

NOTAS: Microsoft testa semana de quatro dias no Japão e produtividade aumenta 40%.

Notas.

Deu no Gizmodo por .

Em agosto desse ano, a Microsoft do Japão decidiu realizar um teste com seus funcionários, diminuindo o expediente para apenas quatro dias na semana. A companhia anunciou os resultados do experimento e eles indicam que a produtividade aumentou em quase 40%.

O projeto “Work-Like Choice Challenge Summer 2019” permitiu que os 2.300 funcionários da sede ganhassem cinco sextas-feiras livres, sem qualquer redução no salário ou desconto nos dias de férias.

De acordo com o Nikkei xTechcom um dia a menos na semana, os funcionários tiveram que ser mais econômicos e eficientes com o seu tempo, o que explica, em parte, o aumento da produtividade. Além disso, muitas reuniões também foram reduzidas, eliminadas ou conduzidas remotamente, evitando que as pessoas precisassem se deslocar até o escritório.

O projeto parece ter beneficiado não apenas os funcionários, mas representou uma economia para a empresa e para o próprio meio-ambiente. Com cinco dias a mais que a empresa esteve vazia, o gasto de eletricidade diminuiu 23,1% e foram impressas 58,7% menos páginas.

Não é de se surpreender que a aceitação por partes dos funcionários foi quase unânime, com 92,1% afirmando que gostaram da experiência de uma semana de trabalho mais curta.

Testes como esse já foram feitos em outros países, com resultados similares ao da Microsoft do Japão, e a própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um relatório em 2018 que mostra que expedientes mais curtos geralmente resultam em um aumento na produtividade.

A Microsoft Japão planeja repetir o experimento no próximo verão e, possivelmente, expandir para outras épocas do ano também. De acordo com o The Mainichia companhia ainda planeja subsidiar férias em família ou educação dos funcionários em até 100 mil ienes.

A expectativa é que o projeto acabe influenciando outras empresas e a cultura de trabalho do país, em geral . Segundo a CNBCum relatório do governo japonês de 2016 revelou que as empresas exigem que os seus funcionários trabalhem 80 horas extra por mês, sendo que muito vezes eles não recebem a mais por isso.

O país tem inclusive o termo “karoshi”, que significa “morte por excesso de trabalho”. Segundo o Conselho Nacional de Defesa para Vítimas de Karoshi, o número de mortes por esse fenômeno pode chegar a 10 mil por ano no Japão.

Leia mais sobre Karoshi.

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NOTAS: As condições de trabalho dos moderadores do Facebook são muito piores do que você imagina.

Notas.

Deu no Gizmodo por .

Durante anos, surgiram relatos detalhando os danos que a moderação de conteúdo on-line causa aos responsáveis ​​pela limpeza dos sites das mais poderosas empresas de tecnologia. O Facebook anunciou em maio que faria algumas mudanças para que uma parte dessa força de trabalho responsável pela moderação (embora nem toda) receba um salário um pouco maior e cuidado extra, mas uma nova reportagem indica que essas mudanças graduais são apenas curativos para o que é descrito como um ambiente de trabalho severamente angustiante.

A reportagem, publicada pelo The Verge, detalha as condições de trabalho dos moderadores de conteúdo em um centro de Tampa, Flórida. Ele é operado pela Cognizant, uma empresa de serviços profissionais que assinou um contrato de dois anos e US$ 200 milhões com o Facebook para liderar essas ações, disse um ex-funcionário ao The Verge.

“No começo, isso não me incomodou – mas depois de um tempo, começou a me prejudicar”, disse Michelle Bennetti, ex-funcionária terceirizada do escritório de Tampa, ao The Verge“Eu sinto como se tivesse uma nuvem – uma escuridão – pairando sobre mim. Eu comecei a ficar deprimida. Eu sou uma pessoa muito feliz e extrovertida, e eu estava [ficando] retraída. Minha ansiedade aumentou. Era difícil enfrentar isso todos os dias. Isso começou a afetar minha vida pessoal”.

Os detalhes da publicação são, na melhor das hipóteses, um relato sombrio das condições sujas e caóticas do local de trabalho e, na pior das hipóteses, uma visão perturbadora dos efeitos psicológicos que o trabalho pode causar.

Funcionários terceirizados disseram ao The Verge que encontravam “secreções nasais, unhas e pelos púbicos, entre outros itens” em suas mesas compartilhadas quando chegavam para seus turnos. O escritório era completamente limpo antes das visitas do Facebook.

“Cada canto daquele prédio era absolutamente repugnante”, disse um ex-funcionário ao Verge. “Se você fosse ao banheiro iria encontrar sangue menstrual e fezes por todo o lado. Estava sempre com um cheiro horrível”. Ela também caracterizou o local de trabalho como “uma sweatshop nos Estados Unidos”.

Em uma transmissão ao vivo no Facebook, um funcionário teria dito que queria “esmagar a cabeça de um gerente” e não recebeu nenhuma ação disciplinar porque outro gerente disse que o comentário era apenas uma piada. Outro funcionário ameaçou “disparar contra o prédio” em um grupo de troca de mensagens. A empresa deixou ele retornar após uma licença remunerada, e ele só foi demitido depois que uma segunda ameaça semelhante foi feita.

O relatório detalha como a estrutura e as regras extenuantes impostas aos trabalhadores os forçavam a trabalhar quando estavam doentes, para que não corressem o risco de perder seus empregos. Funcionários terceirizados do Facebook teriam que relatar via uma extensão de navegador sempre que usassem o banheiro, com direito a apenas um certo número de pausas.

O medo de ser demitido também era constante – “dias de bolsa vermelha” é um termo comumente utilizado entre os trabalhadores para se referir aos dias em que os gerentes demitem funcionários. Eles recebem bolsas vermelhas para colocar suas coisas.

“Trabalhamos com nossos parceiros de revisão de conteúdo para fornecer um nível de suporte e compensação líder no setor”, disse um porta-voz do Facebook ao Gizmodo por e-mail. “Haverá inevitavelmente desafios com funcionários ou insatisfações que colocam em dúvida nosso compromisso com esse trabalho e com os funcionários de nossos parceiros. Quando as circunstâncias justificam uma ação por parte da administração, nós garantimos que isso aconteça”.

O que fica claro nesta reportagem é que o Facebook ignorou as condições infernais de trabalho sofridas por uma grande parte de sua força de trabalho. Esses trabalhadores, a propósito, são responsáveis ​​por uma das tarefas mais vitais para a manutenção do Facebook: garantir que as postagens mais hediondas sejam tiradas do ar. O aumento do salário e dos benefícios oferecidos pelo Facebook este ano indicam que a empresa, no mínimo, responde às críticas da imprensa, mas as melhorias incrementais para funcionários terceirizados como os de Tampa não são suficientes para manter os trabalhadores felizes, saudáveis ​​e seguros.

Contratar mais moderadores pode ajudar a evitar que alguns vídeos terrivelmente violentos ou inadequados passem despercebidos, mas sem condições de trabalho justas e seguras, isso significa apenas sacrificar o bem-estar desses funcionários terceirizados pelos resultados financeiros da empresa.

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ÉTICA: A direita, a esquerda a filosofia política e a ética.

Ética.

As expressões “direita” e “esquerda” têm origem na distribuição dos parlamentares na Assembleia Nacional Constituinte francesa de julho de 1791. À direita do Presidente, sentavam-se os representantes dos interesses da aristocracia, dos proprietários, e do clero superior. Defendiam os institutos do Ancien Regime. À esquerda, sentavam-se os republicanos, os profissionais liberais e os que protegiam os trabalhadores e o baixo clero. Propunham a supressão dos institutos do Ancien Regime.

Não se tratava de ideologia, mas dos interesses dos constituintes. À direita havia os nacional socialistas, os rentistas, os empregados no comércio, os libertários individualistas, parte dos liberais e parte da pequena burguesia. À esquerda havia os socialistas, os socialdemocratas, os intelectuais, os libertários socialistas, os trabalhadores na indústria e na agricultura, parte dos liberais e parte da pequena burguesia.

No século XIX, os termos “esquerda” e “direita” vieram a nomear os seguidores de Hegel. Aqueles que pretenderam emparelhar o seu pensamento às religiões (direita) e os que se dirigiam contra a religiosidade (esquerda).

No século passado, a expressão “direita” nomeou os contrários às transformações que implicassem a instauração de igualdade política e econômica; a expressão “esquerda” nomeou os favoráveis a estas transformações. Em questão de décadas, parcelas extremistas de ambas a tendências passaram a advogar posições moralmente questionáveis: o totalitarismo, o populismo, o afrouxamento completo ou o controle estrito das estruturas políticas, econômicas e morais.

Na realidade substancial contemporânea, as pessoas que se consideram de esquerda veem a si mesmas como abertas e bem informadas. Pensam que os direitistas são opressores. Não conseguem entender por que a classe trabalhadora vota na direita. Imaginam que esteja sendo enganada.

As pessoas consideradas de direita creem ser necessário manter a estabilidade moral e institucional. Se associam a visões de mundo que sustentam valores comunitários tradicionais e hierárquicos. Pensam que os esquerdistas são tacanhos. Não conseguem entender por que pessoas instruídas votam na esquerda. Imaginam que estejam sendo enganadas.

No plano da filosofia moral, o contraditório decorre da equivalência dos imaginários. A direita fabula com a paz social; a esquerda com a justiça social. Estão convencidas que uma é prioritária em relação à outra. Ambas estão enganadas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bobbio, N. (1996). Left and right: The significance of a political distinction. Cambridge, United Kingdom: Polity Press.

Iyengar, S., Sood, G., & Lelkes, Y. (2012). Affect, not ideology. A social identity perspective on polarization. Public Opinion Quarterly, 76, 405–431.

Jost, John Thomas (2017). Ideological asymmetries and the essence of political psychology. Political Psychology, 38, 167–208.

Vecchione, M., Caprara, G. V., Schoen, H., Gonzàlez Castro, J. L., & Schwartz, S. H. (2012). The role of personal values and basic traits in perceptions of the consequences of immigration: A three nation study. British Journal of Psychology, 103, 359–377.

ALMANAQUE: Roda Capitalista.

Almanaque.

“A nossa economia baseia-se em gastar bilhões de dólares para persuadir as pessoas de que a felicidade está em comprar coisas, e depois insistir que a única maneira de ter uma economia viável é fazer coisas para as pessoas comprarem, então eles vão ter empregos e conseguir dinheiro suficiente para comprar as coisas.”

 Philip Slater – Comentarista esportivo da BBC.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: Heurística e epistemologia.

Epistemologia – Heurística.

Gabrielle d’Estrées 1995 – Aldéhy Phil

A heurística é a disciplina devotada ao estudo do descobrir e do inventar. Tem em comum com as epistemologias a busca dos atributos, condições e relações que subjazem à perplexidade, à dúvida ou à curiosidade. Mas o paralelo cessa aqui.

Contrariamente ao que ocorre na descoberta e na invenção, os métodos epistemológicos congregam princípios arbitrários que estabelecem o campo, os problemas e as modalidades de trabalho do cientista-praticante. 

Na forma afirmativa, as epistemologias compreendem temas, métodos, práticas e regras excludentes, como da recusa em absorver a mântica e o acaso. Na forma positiva, as epistemologias determinam os temas, procedimentos, e métodos que constituem o hardcore dos saberes particulares, e que os colocam a salvo dos dissidentes, dos refutadores, dos rebeldes, e, também, dos descobridores e dos inventores. 

Alguns teóricos aventam uma integração entre a heurística e as epistemologias. Argumentam que é possível passar da dedução, da indução e da abdução a um novo campo, a uma nova teoria, ou a uma hipótese de ruptura com o estabelecido. Não é o caso de disputar o ponto. Mas nada leva a crer que as epistemologias e seus métodos sejam heuristicamente mais férteis do que qualquer outra atividade intelectual. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Lakatos, Imre (1970). Falsification and the methodology of scientific research programmes, in Lakatos & Alan

Musgrave (ed.). Criticism and the growth of knowledge. Cambridge. Cambridge University Press.

NOTÍCIAS: Por que devemos focar no ‘como’ e não no ‘por que’ trabalhamos.

Notas.

Por que o trabalho moderno parece tão insatisfatório? Será que estamos cometendo o erro de procurar o “por que”, quando deveríamos desesperadamente responder “como”?

Se pudéssemos inventar empregos, teríamos que nos esforçar muito para criar algo tão pouco satisfatório quanto os trabalhos do início do século 21.

Uma série de reuniões intermináveis que nos fazem esquecer do nosso próprio nome, e-mails que parecem idênticos àqueles que deletamos no dia anterior – tudo isso em meio ao burburinho dos escritórios de design aberto, sem paredes ou divisórias.

Passei os últimos dois anos pesquisando e escrevendo um livro sobre como melhorar a cultura corporativa moderna – e o que observei foi um lembrete chocante do que precisa ser consertado.

Os desafios envolvendo os ambientes de trabalho modernos vão além das distrações, se traduzindo em algo mais substancial. A Mental Health Foundation (ONG dedicada à pesquisa da saúde mental) diz que 74% dos britânicos se sentiram sobrecarregados por estresse em algum momento do ano passado, sendo o trabalho a principal causa.

Segundo algumas estimativas, funcionários dos quais se espera que permaneçam online após o expediente passam mais de 70 horas conectados ao escritório por semana.

Metade das pessoas que fazem horas extras apresentam os níveis mais altos de estresse.

É por isso que palestras de consultores motivacionais, como Simon Sinek, parecem ser cada vez mais incompatíveis com a experiência dos profissionais no ambiente corporativo.

Quando ‘por que’ não é suficiente.

Sinek ganhou fama e reconhecimento por insistir na tese de que os millennials precisavam entender o “por quê” do trabalho antes de se comprometerem com os desafios envolvidos.

“Grandes empresas não contratam pessoas qualificadas e as motivam, elas contratam pessoas motivadas e as inspiram”, declarou Sinek.

A inspiração, no caso, seria dizer “por que” eles estavam fazendo o trabalho. Mas está ficando claro que esse foco singular no “propósito” está criando dissonância e insatisfação no chão de fábrica.

Pessoas tomando café no trabalho

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Profissionais de todas as idades se deparam com um dos grandes “problemas de primeiro mundo”: “Como posso estar trabalhando nesta nobre organização orientada por propósitos e ainda assim não estar feliz?”

Um número cada vez maior de empregadores está sendo alvo de críticas dos funcionários pela disparidade entre o que prometeram a eles, quando se candidataram à vaga, e a realidade do trabalho.

Os protestos de funcionários do Google contra assédio sexual na empresa em 2018, um ano após a denúncia feita por Susan Fowler contra a Uber, são marcos importantes de uma longa trajetória de descontentamento no ambiente de trabalho – apesar de haver respostas grandiosas para a pergunta “por que”.

Está cada vez mais claro que, embora o foco no “por que” do trabalho possa criar uma visão atraente para um CEO se apoiar, não impede os funcionários de se sentirem desmotivados em suas mesas.

Parece que é hora de deixarmos para trás a bravata do “por que” para entrar em uma discussão relativamente mundana de “como”: “Como posso me sentir mais realizado e menos ansioso no trabalho?”

O poder das pequenas mudanças.

Embora não exista um Steve Jobs para revelar a versão mais nova e sofisticada do seu emprego, está ficando claro que somos capazes de promover mudanças no nosso dia a dia, por conta própria, que podem ajudar a tornar o trabalho menos desagradável.

Protesto de funcionários do Google

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Uma vez que os profissionais aceitam que o “como” é importante, muitos se sentem revigorados ao perceber que têm autonomia para iniciar a mudança. O maior fardo do trabalho para a maioria das pessoas é o maldito tempo gasto em reuniões. O simples ato de reduzir pela metade o número de participantes pode ser um ato de misericórdia.

O banco de investimentos Bridgewater Associates percebeu que reuniões com menos gente pareciam ser mais eficazes, elevando o nível das discussões. O desafio, neste caso, é que todo mundo acredita que é na reunião na qual não se está presente que todas as coisas boas acontecem.

Para provar que esse “medo de estar perdendo algo” era equivocado, eles começaram a gravar todas as reuniões – e o resultado foi que ninguém mais reclamou ao ser retirado da lista de participantes.

Há outras questões: os funcionários estão cada vez mais cientes de que é comprovado por pesquisas que fazer uma pausa adequada para almoçar de três a quatro vezes por semana melhora a tomada de decisão e reduz o cansaço acumulado de sexta-feira que atormenta tanta gente.

Indo mais além, se apropriar da tradição cultural sueca do fika para dar uma volta e tomar um café com um colega, como parte da rotina, parece ter efeitos positivos. Nos deixa menos intolerantes com os e-mails e refresca nossa cabeça à medida que encerramos a jornada de trabalho.

Na verdade, o proveito de caminhadas pode ser estendido – às reuniões, por exemplo, que poderiam ser conversas em movimento. A cientista Marily Oprezzo, de Stafford, no Reino Unido, descobriu que caminhar melhorou o pensamento criativo de 81% das pessoas que ela analisou.

Reunião de trabalho

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Colocar uma nova reunião na agenda pode parecer uma heresia quando tentamos organizar a semana de trabalho, mas as “reuniões sociais” estão se tornando populares.

Margaret Heffernan, que foi CEO de cinco companhias, descreveu a introdução de uma reunião social semanal em uma das empresas em que trabalhou, nos EUA, como “absolutamente transformadora” para a cultura corporativa.

Heffernan observou que incentivar os funcionários a passar um tempo socializando entre si durante a jornada de trabalho os tornava mais propensos a cooperar ao longo da semana.

Os ambientes corporativos estão contaminados pela síndrome da pressa, uma consequência das demandas implacáveis do trabalho moderno – e o impacto desse burnout (esgotamento físico e mental) pode ser complicado, especialmente para os profissionais mais jovens.

Quando o trabalho é impiedoso, o foco no objetivo grandioso do “por que” trabalhamos não vai ajudar, talvez seja hora de cuidar do “como”.

*Bruce Daisley é vice-presidente do Twitter para Europa, Oriente Médio e África. É autor do livro ‘The Joy of Work – 30 Ways To Reinvent Your Work Culture and Fall in Love With Your Job Again’ (“A alegria de trabalhar – 30 maneiras de reinventar seus hábitos e de se apaixonar novamente pelo seu trabalho”, em tradução livre).

Clique aqui para ler a matéria na íntegra e aqui para a matéria original (em inglês).

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Foucault – o trabalho digital.

Trabalho.

O trabalho de si e a transmutação do sujeito.

Na alquimia, o inquérito da Pedra Filosofal deve coincidir com a recriação da alma. Os alquimistas pensavam que a transmutação dos metais ocorreria pari passu com a do espírito.

Tinham que o trabalho é prática asséptica, em que tanto o esforço produtivo como a Obra passam para segundo plano, se considerada a transformação do sujeito que os realiza.

O contraditório consta de uma passagem da Suma contra gentios que diz que o exercício da ars (o que inclui todas as técnicas e ofícios) não conduz à felicidade, ainda que o trabalho e a felicidade sejam, de certa forma, conexos. In operatione artis não encontramos a felicidade porque o propósito do trabalho é nos servir. O processo e o produto do trabalho não podem consistir na finalidade da vida porque o ser humano é sua finalidade, e não o contrário.

A ideia desta cisão foi recordada por Foucault, quem investigou as práticas e os dispositivos da antiguidade tardia. Mostrou que os exames de consciência, os exercícios ascéticos, o aperfeiçoamento do corpo e a elevação do espírito não estão voltados para o autoconhecimento, mas para o autogoverno. Práticas que compreendeu na denominação genérica de “cuidado de si”.

O trabalhar sobre si é o afazer do sujeito que procura dar-se forma: definir-se como ente social. Daí que a estética da existência, que Foucault postulou, não se refira a resultados, mas à conduta e à autoconstrução. É como se a vida fosse uma Obra que se constrói e se aperfeiçoa até a morte.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Agamben, Giorgio (2018). O fogo e relato: ensaios sobre a criação escrita, arte, e livros. Tradução de Andrea Saturbano e Patrícia Peterle. São Paulo. Boitempo. [p. 145 e ss.]

Foucault, Michel (2014) A hermenêutica do sujeito. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo. Editora WMF Martins Fontes.

NOTAS: Crise de desemprego por automação já está acontecendo, só é invisível.

Notas.

Deu no Gizmodo por .

Foto: David J. Phillip (AP)

O que acontece com os trabalhadores quando uma empresa decide adotar a automação? A suposição mais comum parece ser de que os funcionários simplesmente desaparecem, substituídos um por um com uma interface de inteligência artificial ou por braços mecânicos.

E embora exista muita conversa fiada a respeito da ideia de que os “robôs estão vindo para tomar os nossos empregos”, uma ideia representada de forma equivocada, ainda há pouca pesquisa sobre o que realmente acontece com os trabalhadores.

Estudos têm tentado monitorar o impacto da automação sobre os salários agregados ou correlacionar os níveis de desemprego com os níveis de robotização. Porém, poucas investigações aprofundadas foram feitas sobre o que acontece com cada trabalhador depois que suas empresas implementam iniciativas de automação.

No início deste ano, porém, um artigo escrito pelos economistas James Bessen, Maarten Goos, Anna Salomons e Wiljan Van den Berge se propôs a fazer exatamente isso.

Diminuição da renda dos trabalhadores

Munidos de um conjunto de dados robusto — com acesso a dados administrativos e de funcionários, bem como informações sobre despesas com automação de 36.490 empresas holandesas e cerca de 5 milhões de trabalhadores — os economistas examinaram como a automação impactou os trabalhadores na Holanda entre 2000 e 2016.

Eles mediram os salários diários e anuais, as taxas de desemprego, o uso do seguro-desemprego e as receitas da previdência social.

O resultado do estudo é um retrato da automação do trabalho que, embora seja sinistro, é menos dramático do que geralmente é pintado por aí — mas isso não quer dizer que o tema não é urgente.

Por um lado, não haverá um “apocalipse robô”, mesmo após um processo pesado de automação corporativa. Ao contrário de demissões em massa, a automação não parece fazer com que os funcionários sejam mandados embora imediatamente.

Em vez disso, a automação aumenta a probabilidade de que os trabalhadores sejam afastados de seus empregos — sejam demitidos, realocados para tarefas menos gratificantes ou se demitam. Isso faz com que haja uma redução de renda a longo prazo para os trabalhadores.

O relatório conclui que “a automação a nível de empresas aumenta a probabilidade de os trabalhadores se desligarem dos seus empregadores e diminua os dias trabalhados, levando a uma perda acumulada de rendimentos salariais de 11% da renda de um ano”. Uma perda bastante significativa.

O estudo concluiu que mesmo na Holanda, que têm uma rede de segurança social generosa se comparada com os Estados Unidos, os trabalhadores só conseguiam compensar uma fração dessas perdas com benefícios concedidas pelo Estado.

Os trabalhadores mais velhos, por sua vez, tinham probabilidades maiores de se aposentar antes da hora — privados de anos de rendimento.

Efeitos generalizados, porém invisíveis

Os efeitos da automação foram sentidos de forma similar em todos os tipos de empresas — pequenas, grandes, industriais, orientadas para serviços e assim por diante. O estudo abrangeu todas as empresas do setor não-financeiro, e descobriu que o desligamento de trabalhadores e a perda de renda eram “bastante difundidas entre diversos tipos de trabalhadores, setores e empresas de diferentes tamanhos”.

A automação, em outras palavras, força um fenômeno mais difuso, de ação mais lenta e muito menos visível do que o papo de que os robôs vão roubar os nossos empregos de uma hora para outra.

“As pessoas focam os danos da automação no desemprego em massa”, diz o autor do estudo, James Bessen, economista da Universidade de Boston, numa entrevista ao Gizmodo. “E isso provavelmente está errado. O problema real é que há pessoas que estão sendo prejudicadas pela automação neste momento”.

Segundo Bessen, comparado com as empresas que não são automatizadas, a taxa de trabalhadores que deixaram seus empregos é mais alta, embora para quem vê de fora pareça que há uma rotatividade maior.

“Porém, é mais do que um desgaste”, diz ele. “Um percentual muito maior, 8% mais — está saindo”. E alguns nunca mais voltam ao trabalho. “Há uma certa porcentagem que sai da força de trabalho. Que cinco anos depois ainda não conseguiram um emprego”.

Mãos atadas e revés para o Estado

O resultado, diz Bessen, é uma pressão adicional sobre a rede de segurança social do Estado que não está preparada. À medida que mais e mais empresas se juntam à rede de automação — uma pesquisa da McKinsey de 2018 com 1.300 empresas em todo o mundo descobriu que três quartos delas tinham começado a automatizar processos ou planejado a automatização para o próximo ano — o número de trabalhadores forçados a sair das empresas provavelmente aumenta ou, pelo menos, se mantém estável. O que é improvável que aconteça, de acordo com esta pesquisa, é um êxodo em massa de empregos impulsionado pela automação.

É uma faca de dois gumes: embora seja melhor que milhares de trabalhadores não sejam demitidos de uma só vez quando um processo é automatizado em uma corporação, isso também significa que os danos da automação sejam distribuídos em doses menores e mais personalizadas e, portanto, menos propensos a provocar qualquer tipo de resposta pública urgente.

Se todo um armazém da Amazon fosse automatizado de repente, políticos poderiam ser incentivados a tentar resolver o problema; se a automação vem nos prejudicando lentamente há anos, é mais difícil obter algum tipo de apoio nesse sentido.

“Existe um sério desafio social”, diz Bessen. “Mesmo num lugar como a Holanda, que supostamente tem uma grande rede de segurança social, as coisas não estão funcionando”.

Bessen diz que precisamos reajustar essas redes de segurança social, pensar em como melhorar os programas de treinamento e retreinamento profissional para que se ajustem às necessidades locais e, em geral, modernizar nossos sistemas de apoio a trabalhadores vulneráveis à automação.

“Temos esse sistema maluco em que a saúde é fundamental para o seu trabalho”, diz ele. E exemplifica dizendo que a automação “aumenta o atrito social e a dor que está ligada ao trabalho”. “É preciso ter algum apoio para as pessoas que são demitidas”, completa.

Divisão injusta do bolo

A automação está aumentando a produtividade e a eficiência, mas está redirecionando a maior parte dos ganhos dos trabalhadores para os executivos. “Estamos produzindo mais bens com menos mão de obra, por unidade de capital”, acrescenta. “Estamos fazendo um bolo maior. A questão é quem está recebendo as fatias do bolo”.

(Bessen diz que acha que os resultados do estudo deve ter pouca proximidade com a realidade dos EUA, embora as taxas de perda de rendimento e de desemprego possam ser um pouco mais elevadas).

Assim, a automação continua a se desenvolver, de forma fragmentada, em empresas de todos os tamanhos e faixas. Após cada micro-automação dentro de uma empresa, os funcionários são forçados a sair. Alguns trabalhadores são demitidos, outros se demitem.

Agora imagine que isso aconteça dezenas de milhares — até mesmo milhões — de vezes ao longo de uma década, em intervalos e tempos variáveis de estabilidade econômica. Isso, de acordo com Bessen e a pesquisa, se traduz em impacto social da automação sobre a força de trabalho.

Não é um cenário apocalíptico, como o que Andrew Yang costuma pregar, mas um mal-estar crescente, ainda maciço, que fará com que mais e mais pessoas figurem nas estatísticas de desemprego.

O que Yang acerta, segundo Bessen, é potencial impacto político das empresas que automatizam postos de trabalho. Yang gosta de falar sobre como a automação levou Donald Trump à presidência por causa do esvaziamento de empregos, o que deixou os trabalhadores cada vez mais inseguros e irritados.

“Você pode falar sobre como isso é disruptivo”, diz Bessen, “falar sobre a grande parte dos trabalhadores que foram afetados nos últimos 10 a 20 anos e como eles têm potencial para se tornar uma força política disruptiva. Talvez seja essa a crise”.

PERPLEXIDADES – De Foucault à Deleuze: a aranha digital.

Perplexidades.

Faz pouco tempo, acreditava-se terminante a observação de Michel Foucault sobre as instituições de encerramento disciplinar. Mas as casernas, escolas, fábricas, escritórios, universidades, hospitais, asilos e hospícios estão claudicando. O poder e as organizações que o servem estão deixando de operar segundo clausura e disciplina.

Aos poucos, o diagnóstico de Gilles Deleuze vai se concretizando. Ingressamos em uma sociedade de controle e informação. Militares, escolares, operários, burocratas, universitários, enfermos, aposentados e loucos circulamos extramuros. Mas não estamos livres. Somos como o gado, que se marca, codifica e rastreia.

Esquadrinhados, nos resignamos ao controle do que compramos, do que vendemos, de onde estamos, do que fazemos. Formatados em corpora digitais e organizados em bancos de dados, deixamos que nos orientem sobre o que devemos querer e sobre o que devemos pensar.

Estamos presos a uma teia (web). Diversamente da rede (net), a teia tem um núcleo central. Pequenos insetos, caminhamos para onde a aranha da banalidade possa devorar nosso espírito.

Além das bordas da teia não há nada nem ninguém. Somente o vazio e a solidão. A existência marginal e camuflada é a alternativa que restou aos espíritos livres.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Deleuze, Gilles (1990). Pourparlers. Paris. Les Éditions de Minuit.
Foucault, Michel (1998). Vigiar e Punir. Petrópolis. Vozes.
Lapoujade, David (2013). Potências do tempo. Tradução Hortencia Lencastre. São Paulo. N-1 edições.
Lapoujade, David (2015). Deleuze: os movimentos aberrantes. Tradução Laymert Garcia dos Santos. São Paulo. N-1 edições.

NOTAS: Artigo – Foucault e a gestão do trabalho.

Notícias.

Estudos de Administração e Sociedade (ISSN 2525-9261).  v. 2, n. 1 (2017).

Este artigo trata dos efeitos das teorias de Michel Foucault no domínio da gestão do trabalho. Apresenta as noções fundamentais dos condicionantes do valor-trabalho a saberes e poderes circunstanciais. Discute como racionalidades contextuais e transitórias conformam as práticas gerenciais referidas ao esforço produtivo. O artigo conclui com uma interpretação das implicações dos conceitos inerentes à racionalidade técnica para o entendimento do fenômeno do trabalho na atualidade. 

This article deals with the effects of Michel Foucault’s theories on work management. It presents the fundamental notions of the conditioners of labor value to knowledge and circumstantial powers. It discusses how contextual and transitional rationalities conform the managerial practices referred to the productive effort. The article concludes with an interpretation of the implications of the concepts inherent to the technical rationality for the understanding of the work phenomenon in the present time. 

Este artículo trata de los efectos de las teorías de Michel Foucault en el ámbito de la gestión del trabajo. Presenta las nociones fundamentales de los condicionantes del valor-trabajo a saberes y poderes circunstanciales. Discute cómo las racionalidades contextuales y transitorias conforman las prácticas gerenciales referidas al esfuerzo productivo. El artículo concluye con una interpretación de las implicaciones de los conceptos inherentes a la racionalidad técnica para el entendimiento del fenómeno del trabajo en la actualidad. 

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NOTAS: Novo app Uber Works passa a oferecer vagas temporárias de emprego nos EUA.

Notícias.

Deu no Gizmodo por .

Dentre as tantas polêmicas enfrentadas pela Uber, talvez a maior delas seja sobre as questões trabalhistas. Enquanto ainda luta para defender a ideia de que motoristas não podem ser considerados funcionários, a empresa apostou em um movimento, digamos, interessante, e lançou uma plataforma para trabalhos temporários.

O aplicativo Uber Works já estava sendo testado em Chicago e agora será disponibilizado oficialmente na cidade e, futuramente, em outras regiões dos Estados Unidos. A ideia é conectar negócios a profissionais em busca de trabalhos temporários.

Caso funcione da maneira que a Uber diz, a ferramenta parece ser promissora e bem útil para trabalhadores autônomos. No app, é possível visualizar detalhes sobre o serviço solicitado, incluindo informações sobre pagamento, local de trabalho, habilidades necessárias e até mesmo o tipo de traje exigido.
Outro recurso da plataforma é a possibilidade de gerenciar o tempo de serviço prestado, permitindo incluir o horário de início, pausas e encerramento do turno.

De acordo com a publicação no blog da Uber:

Acreditamos que encontrar trabalho não deve ser um trabalho em si. Para cargos tão diversos como cozinheiro, funcionário de depósito, faxineiro comercial ou equipe de eventos, o Uber Works tem como objetivo facilitar encontrar e se oferecer para um serviço.

No entanto, conforme observado pelo Engadget, a empresa parece estar adotando uma estratégia muito cautelosa com a nova plataforma. O Uber Works contará com a parceria de agências que serão responsáveis pelos processos de contratação e financeiros, ou seja, toda a parte burocrática de contratos e pagamentos.

Apesar de parecer uma boa ideia a existência de uma plataforma que permite encontrar trabalho de forma fácil e rápida, existem algumas questões que valem ser observadas na prática. As parcerias com essas agências, por exemplo, podem ser uma forma de livrar a Uber de responsabilidades futuras, caso surja algum problema entre as empresas e os prestadores de serviço.

Outro ponto é que isso pode, de alguma forma, incentivar as empresas a optarem cada vez mais por contratos temporários. Ou seja, haveria um aumento de empregos informais e cada vez menos garantias e direitos para os trabalhadores.

Por outro lado, para quem já tem um emprego fixo e busca apenas um complemento na renda, o Uber Works pode ser útil. Outro público potencial do aplicativo são aqueles que, por alguma razão, precisam de trabalhos que ofereçam flexibilidade de horários pois não conseguem atender às exigências dos empregos tradicionais.

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ÉTICA: Entre a singularidade coletiva e a pluralidade individual.

Ética.

Caim perguntou a Deus porque deveria cuidar do seu irmão. Não obteve resposta. Pareceria natural que devêssemos cuidar uns dos outros. Mas não é assim. E nem todos pensam que deva ser assim.

Na metáfora da Caverna, de Platão, o que foi libertado para a luz não é obrigado a voltar para resgatar os demais. Tendo alcançado a mais alta forma de vida – o bios theorétikos, a sophía, a phrónesis –, por que alguém deveria retroceder e se misturar com a gente comum? O próprio Platão argumenta que aqueles que constatam a insensatez da multidão e que reconhecem que não há nada de sadio em administrar a coletividade, têm escolha. Podem cuidar de si, viverem livres das injustiças e das obras ímpias, ou podem cuidar dos outros, tentar livrá-los da ignorância e trazê-los para o campo das obras pias.

A segunda opção é a do agir de acordo com a ética altruísta, uma invenção que os gregos justificaram por lógica. Para eles – e, desde então, para muitos no Ocidente – a conquista da liberdade, de sair para a luz do espaço aberto, não seria completa se não incluísse a emancipação de tudo o que a alteridade possui em valores negativos.

Inexiste solução categórica para o pêndulo que oscila entre o altruísmo e o egoísmo. No presente, o horror ao comunismo – muitas vezes inconfessado – é o de ver interditada a opção individual. Não existe o comunismo que não seja o de caserna, o da disciplina coletiva, em que se é obrigado a agir segundo o que foi determinado como sendo o interesse de todos. Do outro lado, o horror ao liberalismo econômico – muitas vezes inconfessado – é o de ver impedido o convívio franco. Não existe liberalismo que não seja o da salvaguarda do interesse próprio, o da competição, o do homem lobo do homem. 

Passados tantos séculos, o dilema perdura. Não podemos nos negar moralmente a nós mesmos, nem podemos negarmo-nos aos outros, porque o negarmo-nos aos outros é nos negar moralmente a nós mesmos.

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NOTAS: Não são os robôs que irão roubar o seu emprego, são os gestores.

Notas.

Deu no Gizmodo por .

Jim Cooke/Gizmodo

“Robôs” não estão chegando para roubar o seu trabalho. Espero ser bem claro aqui – neste momento particular, os “robôs” não são capazes de procurar e concorrer a vagas de emprego para tomar sua com base nos seus méritos comparativamente superiores.

Os “robôs” não escaneiam o LinkedIn com um algoritmo que tem a intenção de tirar o seu lugar usando inteligência artificial. Os “robôs” também não estão reunidos nos fundos de um depósito conspirando para tomar empregos das pessoas. Um robô não está “buscando”, ou “roubando” ou “matando” ou “ameaçando” empregos. A gestão das empresas é que está.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – O enigma da invenção.

Epistemologia – Heurística.

Paul Klee – Senecio

O descobrir corresponde à revelação do desconhecido. O inventar corresponde à geração do novo. Descobre-se a América. Inventa-se o avião. 

Kant foi o primeiro filósofo a romper com a rotina de unir a imagem e a imaginação. Ambas são representações de objetos ausentes, mas a imagem tem, para ele, uma “função reprodutiva”, a de descobrir. Já a imaginação é uma capacidade de combinar significados díspares e gerar o inédito, tem uma função produtiva, a de inventar. 

Mas nem Kant conseguiu explicar como, exatamente, a imaginação gera algo que não existia. 

Quem chegou mais próximo de deslindar o arcano foi Koestler. A ideia nova despertaria na consciência no instante em que uma mistura de elementos, oriundos de duas matrizes independentes e viajando em sentidos distintos, casualmente se encontram. O significado seria dado por meio da “bissociação”, isto é, da analogia, da comparação, da metáfora, da categorização e da abstração. 

Um esquema engenhoso, mas meramente especulativo. Para a ciência, o “ponto de gênese” (Klee), “o momento eureca!” ou como quer se denomine a geração do novo, é um enigma que perdura.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Koestler, Arthur (1964) The act of creation. London. Hutchinson & Co.

Matherne, Samantha (s/d). Kant’s Theory of the Imagination, Routledge Handbook of the Imagination. https://www.academia.edu/11319761/Kants_Theory_of_the_Imagination. 

Paul Klee (2002) The Nature of Creation, Works, 1914-1940. London. Lund Humphries Pub Ltd 

TRABALHO: Conservadores, liberais e progressistas.

Trabalho.

O gongorismo das doutrinas econômicas no capitalismo tardio as fez abdicar do ser humano. Entendem o trabalho exclusivamente como um dos recursos à disposição dos interesses de mercado.

Os conservadores acreditam que a responsabilidade das empresas se restringe à alocação eficiente de recursos humanos. As organizações não têm outros deveres do que a do salário em dia e o de abrigar o trabalhador do que possa interferir no seu desenho. Para os conservadores, a responsabilização social é um comportamento antimaximização de lucros. É um custo adicional, que não beneficia os acionistas e que opera contra os interesses da economia.

Os liberais pensam essencialmente o mesmo que os conservadores. Salvo que acreditam que a economia de mercado deve ser corrigida, porque não tem como prover os bens públicos e salvaguardar o trabalhador enquanto fator de produção. Para os liberais, as obrigações das empresas devem se restringir à complementação das falhas de mercado. Entendem que a responsabilidade social limitada é do interesse da economia.

Os progressistas têm uma visão crítica do mercado e da responsabilidade em relação ao trabalho. Pensam que a economia não é uma entidade sobrenatural autorregulada. Nem mesmo acreditam que seja inteiramente regulável. Para os progressistas, a busca unívoca do lucro tende a destruir a liberdade do mercado. Daí que a cooperação, e não exclusivamente a competição, deve constituir o cerne das condições de sobrevivência econômica. A responsabilidade sobre as condições do trabalho e sobre a vida dos trabalhadores é do interesse das organizações e da economia. 

Nada orienta estes raciocínios para os campos da convivência e da compaixão. São meras ramificações de autoridade insolente que se arroga a pretensão de imobilizar o que é fugidio, instável, ambíguo e por vezes até destituído de coerência: o ser humano.

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NOTAS: O exercício físico não irá nos salvar.

Notas.

Deu no The Guardian por

O estilo de vida sedentário está nos matando. Precisamos desenvolver atividades físicas em nossas vidas cotidianas, não apenas deixá-las para a academia.

Nosso relacionamento com o exercício físico é complicado. Relatórios do Reino Unido e dos EUA mostram que é algo com que lutamos persistentemente.

Por que queremos nos exercitar? O que esperamos que isso faça por nós? Todos nós sabemos que devemos exercitar, mas centenas de milhões de pessoas não conseguem fazer isso. É possível que o problema esteja no cerne da ideia do próprio exercício.

O exercício é o movimento dos músculos e membros para um resultado específico, geralmente para melhorar a aptidão física. Para a maioria de nós, é uma simples adição opcional ao dia útil. Não passa de outro item em uma longa lista de responsabilidades. Mas como o principal beneficiário do exercício somos nós mesmos, é uma das tarefas mais fáceis de evitar. No final do dia de trabalho, milhões de nós preferem entrar em atividades de lazer sedentárias, em vez do que todos sabemos ser bom para nós: um treino.

As manias fitness são como dietas: se alguma delas funcionasse, não haveria tantas.

O CrossFit, o treino  intensamente físico que incorpora pesos, agachamentos, flexões e assim por diante, ainda tem menos de 20 anos.

As aulas de spinning – exercícios vigorosos em bicicletas ergométricas – existem há cerca de 30 anos.

A aeróbica era uma mania há mais de uma década atrás, embora muitas de suas rotinas de alta energia já existissem há algum tempo. (O horror pastel do Jazzercise da década de 1970 provavelmente deve ser esquecido.)

Antes disso, havia a revolução do jogging, que começou nos EUA no início da década de 1960. O Joggers Manual, publicado em 1963 pela Oregon Heart Foundation, era um folheto buscava abordar o pânico do pós-guerra sobre estilos de vida sedentários, incentivando uma forma acessível de atividade física, explicando que “fazer jogging é um pouco mais do que uma caminhada ”. O boom do jogging levou alguns anos para conseguir tração, atingindo seu ritmo em meados dos anos 80, mas continua sendo uma das formas mais populares de exercício, agora também em grupos.

A mania de exercícios que dominou a década de 1950 não era, estranhamente, nem mesmo um exercício. O cinto vibratório prometeu que os usuários poderiam alcançar a perda de peso sem esforço, agitando violentamente sobre a barriga. Não funcionou, mas você ainda pode encontrar máquinas semelhantes disponíveis para compra hoje.

Então, nossa obsessão com a aptidão física está fadada a ser uma sequência de fases constrangedoras? O exercício em si é uma moda passageira?

Não é novidade que estamos nos tornando mais sedentários como espécie. O problema vem surgindo há gerações. Como a indústria e a tecnologia resolveram as demandas físicas do trabalho manual, criaram-se novos desafios para o corpo humano.

Evidências sobre a força e densidade óssea coletadas de fósseis de humanos primitivos sugerem que, por centenas de milhares de anos, os níveis normais de movimento eram muito mais altos que os nossos hoje. E a variedade de trabalho exigido do corpo humano para subsistir era considerável: procurar comida, encontrar água, caçar, construir abrigos, fabricar ferramentas, fugir de predadores. O registro fóssil nos diz que muitos humanos pré-históricos eram mais fortes e mais aptos do que os atletas olímpicos de hoje.

Cem anos atrás, quando a vida já era mais fácil do que tinha sido para os nossos antepassados ​​caçadores-coletores, ainda era necessário fazer as compras, lavar o chão, cortar madeira, lavar roupas a mão.

Hoje os ambientes urbanos modernos não exigem nada parecido no nosso corpo. Não é fácil correr atrás do prejuízo quando as cidades são construídas para priorizar carros e tratar os pedestres como secundários. Não somos demandados por nossos ambientes a nos mover como costumávamos por diversas razões ligadas à motivação, segurança e acessibilidade.

As inovações tecnológicas levaram a reduções dos menores de movimento. Para limpar um tapete na década de 1940, a maioria das pessoas o levava para o quintal e arrancou os batia por 20 minutos. Algumas décadas depois, já podemos configurar aspiradores de pó robôs para passear por nossas salas de estar enquanto encomendamos algumas compras para serem entregues, colocamos os pratos na máquina de lavar louça, admiramos o forno de auto-limpeza e colocamos uma cápsula na cafeteira. Cada um desses dispositivos está dificultando um pouco a nossa movimentação regular durante todo o dia.

À medida que avançamos com várias inovações, tendemos a pensar no trabalho que não é mais necessário como “salvo”. A limpeza de um tapete queimou cerca de 200 calorias, enquanto a ativação de um robô usa cerca de 0,2 – uma queda de atividade em mil vezes, sem nada para substituí-la. Ninguém, quando compra um dispositivo de economia de trabalho, pensa: “Como vou substituir o movimento que salvei?”

Uma grande quantidade de energia também é economizada nos tipos de trabalho que fazemos agora. No final do século XIX, o mercado de trabalho começou a mudar radicalmente. Os funcionários do escritório foram o grupo ocupacional que mais cresceu na segunda metade do período. O censo do Reino Unido de 1841 sugere que 0,1% dos trabalhadores executavam trabalhos administrativos ou de escritório naquela época. Em 1891, o número havia aumentado vinte vezes e continuava aumentando. Uma pesquisa recente nos EUA estimou que 86% da força de trabalho de hoje está em empregos sedentários.

Como resultado de nosso estilo de vida, nossos ossos estão mais finos e nossos músculos mais fracos, e, embora esses não sejam problemas em si, o movimento (ou melhor, a falta dele) está entregando os humanos aos maiores assassinos globais. As doenças cardíacas e derrames são responsáveis ​​por cerca de 17 milhões de mortes por ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Rastreadores de atividades como o Apple Watch e o Fitbit tentaram fazer uma intervenção nessa caixa de areia que é o sedentarismo. O uso generalizado de wearables pode estar ajudando as pessoas a se moverem mais, mas a tecnologia que criou o trabalho e o lazer sedentários, não pode resolver tudo sozinha.

Um relatório de 2015 da Academia de Faculdades Reais Médicas chamado Exercise – the Miracle Cure disse que o exercício regular pode ajudar na prevenção de derrames, alguns tipos de câncer, depressão, doenças cardíacas e demência, reduzindo o risco em pelo menos 30%. Com exercícios regulares, o risco de câncer de intestino cai em 45% e de osteoartrite, pressão alta e diabetes tipo 2 em 50%.

O exercício, nesses termos, não é uma moda passageira, nem uma opção, nem um complemento ao nosso estilo de vida ocupado: está nos mantendo vivos. Mas antes que funcione realmente, toda a nossa abordagem precisa mudar.

Como resultado do relatório Miracle Cure, os médicos começaram a recomendar exercícios regulares aos seus pacientes. Obviamente, os seres humanos precisam de atividades regulares, mas o mundo moderno se esforça para tirar todo e qualquer esforço de nossas vidas. A modernidade é caracterizada por imperativos para simplificar, melhorar e maximizar a eficiência. Da mesma forma, os órgãos médicos que tentam motivar a população a se exercitar, prometem grandes resultados com o mínimo absoluto de perturbação em nossas vidas ocupadas e sentadas.

O governo americano recomenda “pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada, como andar de bicicleta ou caminhada a cada semana, e exercícios de força em 2 ou mais dias da semana que exercitem todos os principais músculos (pernas, quadris, costas, abdômen, peito, ombros e braços) ”.

Se 150 minutos – ou meia hora, cinco vezes por semana – é demais para você, e os dados sugerem que é sim, para a maioria de nós, outra estratégia de saúde pública promove a eficácia de ser ativo por apenas 10 minutos por dia. A Public Health England lançou sua campanha Active10 com o argumento de que apenas 10 minutos de caminhada por dia “contam como exercício” e “podem reduzir o risco de doenças graves como doenças cardíacas, diabetes tipo 2, demência e alguns tipos de câncer”.

Ainda menos tempo é necessário para o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que pode envolver sessões de apenas 20 segundos de esforço intenso, algumas vezes por semana. Parece que há boas evidências para a eficácia de exercícios anaeróbicos curtos e extenuantes, como correr ou pedalar com força, seguidos por um breve período de recuperação. O treinamento com intervalos pode melhorar a sensibilidade à insulina e a circulação de oxigênio e aumentar a massa muscular. Mas um dos primeiros pesquisadores do HIIT, o cinesiologista Martin Gibala, preocupou-se com o fato de que, apesar de seus benefícios, exigia “um nível extremamente alto de motivação”, porque o esforço total é desagradável e pode levar a tonturas, vômitos ou lesões. “Dada a natureza extrema do exercício”, escreveu ele, “é duvidoso que a população em geral possa adotar o modelo com segurança”.

Embora os três modos de exercício sejam eficazes de maneiras diferentes, e cada um tenha seus proponentes e seguidores comprometidos, nenhum deles é uma solução completa para um corpo humano “adequado”. Mas o problema não está realmente nos próprios exercícios; é o que costumamos fazer entre essas explosões de atividade.

Os efeitos de ser sedentário são tão comuns e reconhecíveis quanto graves. Ansiedade, depressão, doenças cardíacas, câncer de mama e cólon, diabetes tipo 2, pressão alta, obesidade, osteoporose, osteoartrite e a principal causa de incapacidade global, dores nas costas, são todos motivados por comportamentos sedentários.

Para que nosso corpo funcione corretamente, ele trabalha com a suposição de que estaremos queimando calorias ao longo do dia, e não em breves explosões. É claro que o sedentarismo é ruim para o corpo humano, e algum exercício sempre serão melhor que nenhum; o problema não está relacionado aos tipos de exercícios, mas à nossa abordagem a eles e ao que esperamos que eles alcancem. É notório que a relação humana com o exercício é predominantemente caracterizada como opcional e adicional a uma vida sedentária. Fato é que, enquanto a atividade física se divorciar do trabalho real de nossas vidas, encontraremos razões para não fazê-lo.

Uma pesquisa de saúde pública na Inglaterra no ano passado constatou que lá as pessoas estão se tornando tão inativas que 40% das pessoas com idades entre 40 e 60 anos andam por menos de 10 minutos por mês. As razões são numerosas, mas parecem estar relacionadas à nossa noção de exercício, e à diferença entre breves rajadas de corrida ou ciclismo e atividade física sustentada.

A ascensão do exercício é sinônimo de ascensão do lazer. Associamos isso ao início da Revolução Industrial, mas na verdade data de muito antes. Depois que os humanos se estabeleceram e começaram a construir, há vários milhares de anos, hierarquias começaram a se formar, principalmente nas cidades, assim como a lacuna entre mestre e servo. Ser uma elite significava que outros estavam fazendo o trabalho físico para você. Para os mestres, havia tempo para preencher e, nesse espaço, surgiu a ideia de lazer. O exercício também emerge aqui, no desequilíbrio criado na disseminação do trabalho realizado em uma população. Desde então, vimos um elo poderoso entre exercício e desigualdade.

Os homens ricos da Grécia antiga, privados de trabalho por seus escravos e com atividades para fazer, inventaram um novo local chamado ginásio, um espaço aberto na cidade onde podiam se despir e brincar nus, competindo em desafios inventados para manter um ao outro apto para a guerra.

Mais tarde, os romanos também comemoraram o valor do exercício. Cícero, político e advogado romano, disse: “Somente o exercício apoia os espíritos e mantém a mente vigorosa.” Plínio, o Jovem, escritor e também advogado, disse: “É notável como a inteligência de alguém é aguçada pelo exercício físico”. Como os colegas de academia gregos, esses homens eram privilegiados e ricos. Eles entenderam que, embora a classe escrava fizesse seu trabalho por eles, o exercício e a atividade física eram essenciais para uma vida longa e sã.

Após os gregos e romanos, o exercício físico praticamente desapareceu da cultura ocidental. Ressurgiu adequadamente no século 18, quando a inatividade se tornou um problema para certa classe de cavalheiros. Em 1797, a Monthly Magazine anunciou uma nova patente da Gymnasticon de Francis Lowndes, a mais antiga das máquinas de exercício estáticas – uma estrutura na qual o usuário estava sentado, girando um eixo com os braços e operando um pedal com os pés. O artigo observou que quando ocupações peculiares ou sedentárias impõem o confinamento à casa, ela promete ser igualmente útil tanto para os saudáveis ​​quanto para os doentes. O comerciante, sem desviar a atenção de suas contas, e o aluno, enquanto ocupado por escrever ou ler, pode manter seus membros inferiores em constante movimento com o menor esforço ou a assistência de uma criança. O cabo da engenhoca no eixo inferior foi pensado de modo que, se desejado, uma criança pudesse girar a roda.

No início do século 20, a ginástica ficou popular entre as pessoas com meios limitados de gastar energia física. Nas páginas de abertura de Howards End, de EM Forster, de 1910, fomos apresentados à família Wilcox quando eles entram e saem no jardim de uma casa de campo. Eles são “dinheiro novo”; eles vêem o mundo instrumentalmente e também são alérgicos a ele.

Em 1831, o Journal of Health definiu a calistenia como “um emprego razoável, metódico e regular dos exercícios melhor calculados para desenvolver o  físico das meninas, sem prejudicar o aperfeiçoamento das faculdades morais”. Sua adoção foi necessária porque “as meninas jovens não têm a mesma liberdade que os meninos em seus exercícios ao ar livre, e seus divertimentos e ocupações habituais, quando não estão na escola, são de natureza mais sedentária”.

Como nosso modo de vida moderno nega a muitos de nós o esforço físico que manteve nossos ancestrais saudáveis, uma maneira de obter capital social é adicioná-lo novamente.

Qualquer tipo de exercício comunitário nos dá uma sensação de pertencimento, de valores e esforços compartilhados, além de seus benefícios físicos e mentais em geral. Quando as pessoas se reúnem em uma academia ou em uma aula de ginástica, pelo menos um aspecto do que estão fazendo é se unirem em uma atividade cívica que garante sua sobrevivência coletiva, assim como os gregos antigos antes deles.

Se estar em forma promove uma vida longa, espera-se que um atleta de elite deva atingir uma idade avançada, certo? Não. Os atletas olímpicos têm em média 2,8 anos a mais, de acordo com um estudo de 2012. Dedicar sua vida ao esporte e ao exercício lhe dará mais tempo, mas uma vez que você considere a atenção duradoura dos atletas olímpicos à dieta e vida saudável, além de dezenas de milhares de horas gastas em treinamento, 2,8 anos não parecem uma recompensa suficiente.

Em vez disso, as pessoas mais aptas e saudáveis ​​do planeta nunca foram a uma academia. Essas pessoas, que relatam altos níveis de bem-estar e vivem vidas extraordinariamente longas, habitam o que foi chamado de “zonas azuis” – áreas onde estilos de vida levam a uma longevidade peculiar. O termo foi cunhado por dois demógrafos, Gianni Pes e Michel Poulain, que, ao coletar dados sobre grupos de centenários da ilha da Sardenha, identificaram lugares de alta longevidade em seu mapa com uma caneta azul. Como aglomerados de pessoas longevas são freqüentemente encontrados em lugares geograficamente remotos (incluindo também partes de Okinawa, Costa Rica e Grécia), os genes da sorte grande podem explicar sua longevidade. Mas um famoso estudo de gêmeos dinamarqueses concluiu que uma vida longa parece ser apenas “moderadamente herdável”. Ao longo dos anos, muitos estudos analisaram o estilo de vida das pessoas nas “zonas azuis” e descobriram que vários de seus costumes e hábitos contribuem para uma vida longa (tudo, desde um sentimento de pertencimento e propósito a não fumar, ou comer predominantemente uma dieta baseada em vegetais). Na lista de fatores contribuintes, há uma notável ausência de exercício.

Viajei para a Sardenha para conhecer Pes e saber mais sobre o trabalho dele. Ele tem um grande interesse na longevidade. Seu tio-avô era um supercentenário (vivendo além de 110). Os anos em que Pes está interessado em descobrir mais são os bons, não aqueles gastos com atendimento 24 horas em um lar de idosos (também não há nenhum deles nas zonas azuis da Sardenha). Um estudo realizado por um grupo de gerontologistas da Universidade de Boston relatou que 10% dos supercentenários chegaram aos três meses finais de suas vidas sem serem incomodados pelas principais doenças relacionadas à idade.

Em minha conversa com Pes, ele enfatizou repetidamente que, embora a dieta e o ambiente sejam componentes importantes da longevidade, ser sedentário é o inimigo e atividades longas e de baixo impacto são a chave que as pesquisas dele e de outros descobriram: não são as intensas atividade que tendemos a associar ao exercício, mas energia gasta ao longo do dia. Os supercentenários com quem ele trabalhou percorreram vários quilômetros todos os dias ao longo de suas vidas profissionais. Eles nunca passaram muito tempo sentados às mesas.

Pes recentemente estudou trabalhadores em uma das regiões de longevidade da ilha Seulo (população em torno de 1.000). Ele descobriu um grupo de mulheres que passaram a vida profissional sentadas, mas mesmo assim atingiram uma grande idade. Elas estavam trabalhando em pedais (máquinas de costura acionadas por pedal), o que significava que queimavam regularmente calorias suficientes para obter os benefícios da longevidade de permanecer ativo. (A ginástica de Lowndes, que funciona como um pedal, começa a parecer um pouco menos ridícula como solução para trabalhadores sedentários.)

Para todos os trilhões investidos em saúde, ano após ano, existem regiões em países de alta renda (como o Reino Unido e os EUA) onde a expectativa de vida ainda é tão baixa quanto em meados dos anos 60. Em Tower Hamlets, uma das partes mais pobres de Londres, os homens só podem esperar uma média de 61 anos de boa saúde – e as mulheres apenas 56.

Até agora, os pesquisadores concordam que períodos prolongados de atividade de baixo impacto parecem funcionar bem. Almejar 10.000 passos por dia é uma boa ideia, mas 15.000 se assemelham melhor às distâncias percorridas por nossos ancestrais pré-históricos e, de fato, por esses centenários da Sardenha.

Para aqueles de nós que não podemos nos mudar para a Sardenha, uma revisão publicada no Lancet em 2016 descobriu que “altos níveis de atividade física de intensidade moderada (isto é, cerca de 60 a 75 minutos por dia) parecem eliminar o aumento do risco de morte associado ao alto tempo sentado”.

Portanto, mesmo se formos à academia no sábado de manhã, nossa inatividade absoluta em outros momentos ainda poderá ser prejudicial ao corpo. Atividade baixa e moderada por períodos mais longos ou sustentados parece produzir os melhores resultados. Parece que a atividade excessiva de alta intensidade (do tipo que vemos nos atletas de elite) impulsiona o metabolismo e a renovação celular e pode até, quando certos fatores são levados em conta, acelerar o processo de envelhecimento.

À medida que esses rastreadores de atividades durante todo o dia continuarem amadurecendo, certamente encontrarão melhores maneiras de nos encorajar a sair de nossas cadeiras. No momento, porém, eles só podem contar as coisas que fizemos, não as oportunidades de movimento que perdemos. Eles nos tornam mais propensos a estar atentos à nossa atividade do que à nossa inatividade.

Após dois séculos de tentativas, devemos aceitar que o exercício não está funcionando como uma estratégia global de condicionamento físico. Continua sendo um acréscimo à jornada de trabalho. As diretrizes do governo no Reino Unido e em outros países que incentivam o esporte e o exercício estão falhando. Estamos tentando fazer as pessoas desistirem do pouco tempo de lazer que têm para realizar atividades que exigem um esforço substancial.

Talvez devêssemos encorajar as pessoas a tomar decisões diárias que resultam em uma vida mais saudável. O que é necessário são estratégias que tornariam o exercício desnecessário. O planejamento urbano que lide melhor com a experiência ao ar livre e incentive o movimento seria uma parte essencial dessa mudança. Porém, em um nível individual, podemos pensar em retomar um pouco do atrito que a tecnologia suavizou tão sutilmente para nós ao facilitar a realização de tarefas. O exercício se torna atividade física quando faz parte de sua vida diária.

Há um ano, meu contrato de aluguel de carro deveria ser renovado. Eu dirigi por quase 30 anos, mas depois de toda a pesquisa alarmante que li sobre o impacto dos estilos de vida modernos, não pude mantê-lo. Agora ando quilômetros mais do que costumava. Sem carro, chegar à academia envolvia uma viagem de ida e volta de 70 minutos. No momento em que eu caminhava lá e voltava, os exercícios pareciam menos necessários, então cancelei minha inscrição.

Eu tentei outras coisas também. Experimentei uma mesa de pé, mas sabia pela pesquisa de Pes na Sardenha que não é ruim sentar-se, mas a inatividade associada a ela. Ficar em um lugar por horas é apenas um pouco melhor do que ficar sentado lá. A ginástica também está voltando. Sua nova encarnação é a mesa-com-esteira, que busca manter os trabalhadores de escritório permanentemente em movimento. Do ponto de vista da saúde, parece excelente, mas dificilmente é prático. Conseguir uma cadeira de escritório menos confortável provavelmente seria uma estratégia tão eficaz, tornando menos fácil se acomodar por longos períodos de imobilidade.

Você não precisa ingressar em uma academia. Os números nos dizem que o exercício não é a solução para os problemas associados à inatividade física, pela simples razão de que essas duas coisas não são opostas. O antídoto é a atividade: encontrar e recuperar parte do movimento que a vida moderna vem retirando de nós há séculos.

Texto em tradução livre. Clique aqui para a matéria original (em inglês).

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