Epistemologia & Método

Heurística – Fantasia, o triunfo de Averróis.

Epistemologia.

No sexto volume do Kulliyat, Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) descreveu propriedades medicinais que só foram redescobertas oito séculos depois de sua morte. Há um tópico sobre as virtudes do azeite feito de “azeitonas puras e não fervidas” cuja descrição é idêntica a das publicações contemporâneas.

Isto foi possível graças à “phantasia”, uma habilidade de produção de descobertas perdida, que hoje se procura recuperar.

As fantasias são apresentações em potência de ideais e imagens sem precedentes. Diferem da imaginação, que é estéril, capaz unicamente de combinações extrínsecas. A fantasia é inteiramente intrínseca e particular. (mais…)

Mântica heurística – Divinatória.

Epistemologia & Método.

Que a profecia, a adivinhação, o pressentimento e as demais categorias de impressionismo heurístico carecem de aceitação científica, é um fato. Que seguem sendo praticados nos laboratórios e nos centros de pesquisa, não resta dúvidas.

O recurso à adivinhação não é, como pode parecer, um ato estranho à busca do conhecimento. Houve, ou ainda há, uma disciplina capaz de prever o futuro: a mântica (gr. Mantiké téchnē, de mantikós,ê,ón, adivinho).

A mântica se divide em dois ramos: a de inspiração divinatória e a do deciframento dos signos. Na da adivinhação, a mântica de Apolo, a alma dos deuses se apossa do sujeito e fala por sua boca, como acontece no sonho ou na possessão. Na outra mântica, a de Hermes, existem duas vertentes. Na vertente profética o futuro é antecipado pela inspiração ou pela intuição. Na vertente interpretativa o futuro é conhecido pela decifração de signos, como o voo dos pássaros, a leitura dos fígados de bois, a quiromancia, etc.

Trataremos aqui da primeira: a mântica espiritual, divina ou de Apolo, que se ocupa dos presságios e dos vaticínios. (mais…)

Heurística – Conceito.

Epistemologia & Método.

A heurística é a disciplina que se ocupa da descoberta dos fenômenos. Diz respeito ao encontrar, ao dar-se conta. Trata do que alguns psicólogos (e os adolescentes) denominam de “momento do aha!”.

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Derrida: trabalho & “différance”.

Trabalho & Epistemologia.

focus face optical illusionO termo  différance (um homófono à différence) foi cunhado por Jacques Derrida (1930, El-Biar, Argélia; 2004, Paris). Significa a resultante da operação de “fazer diferir”, na tripla acepção de distinguir, de postergar e de discordar.

A  différance não é um conceito, mas a forma de fazer surgir um conceito. A técnica consiste em expor a fragilidade dos atos de fala. Aplicado ao conceito “nação”, por exemplo, evidencia imediatamente a distância entre o entendimento de nação-política, daquele de nação-cultura. Do que se trata, afinal, quando dizemos, ou quando nos dizem “a nação espera que…”, a “nação está ameaçada por…”? (mais…)

Preliminares heurísticas: experimentos mentais.

Epistemologia.

As ferramentas heurísticas preambulares são a imaginação e a abstração. Ambas conformam experimentos mentais. A distinção principal entre estes experimentos e os reais está em que nos primeiros as circunstâncias não se descrevem, senão que se estabelecem e a ação se conjectura, não se presencia.

Os experimentos mentais datam dos primórdios do pensamento ocidental. São da ordem do contrafático (e se for assim?), e do especulativo (o que ocorreria?). Têm origem em Sócrates, que pergunta aos passantes na Ágora, nos diálogos platônicos, em Aristóteles. Atingem seu apogeu nas “obrigações”, uma prática da escolástica medieval. (mais…)

Fé & heurística.

Epistemologia.

Ortega y Gasset definiu “ideia” como aquilo que se forja no ser humano quando a crença vacila, quando não podemos mais “contar com”. Toda poïesis, toda criação humana – as ciências, a filosofia, as religiões, as artes – deriva de instabilidades da fé, de oscilações das certezas. Por outro lado, a descrença e a descoberta não coexistem. Sem atos de fé não haveria suposições, hipóteses, teses, conjecturas.

A força heurística da fé é polissêmica. Os exemplos se multiplicam. Tomemos, a título de ilustração, o caso de Saint-Denis, o patrono da França. (mais…)

Crendices generalizantes.

Notícias & Epistemologia.

Brian Nosek, psicólogo, professor da Universidade de Virginia, publicou recentemente um artigo na Science em que arrasa com as pesquisas na sua área. O texto é uma metanálise envolvendo a replicação de 100 investigações por 270 pesquisadores diferentes. Nosek informa que apenas 36% das repetições confirmaram os resultados das pesquisas originais.

Nada que surpreenda quem é do ramo. Absurdos como a análise dos efeitos da precognição, disparates, como os premiados pelo IgNobel, e simples fraudes são revelados com frequência. Não só no campo das ciências sócio-humanas, mas também no das ciências naturais, especialmente na medicina , os relatos de falhas, improcedências e simples má fé são recorrentes mais ou menos na mesma proporção denunciada por Nosek. (mais…)

Foucault e os cachorros de Obama.

Notícias & Epistemologia.

Revistas científicas precisam acelerar mudanças para acompanhar as novas demandas das sociedades.

Por por Thomaz Wood Jr em Carta Capital.

Revistas científicas constituem um dos pilares da ciência. Seus editores são, supostamente, os guardiões da relevância e da qualidade do que é veiculado. Pesquisadores as utilizam para expor e disseminar seus mais recentes achados. Ter um artigo publicado em uma revista importante é conquista a ser celebrada, pois reflete o reconhecimento do trabalho realizado.

A façanha costuma ser fruto de trabalho longo e extenuante. As principais revistas científicas operam como verdadeiros funis, com centenas de artigos concorrendo por espaços de publicação limitados. Os trabalhos enviados passam por uma triagem severa, que envolve editores e avaliadores. (mais…)

DESENCALHANDO A PESQUISA: DADÁ E A DESORDEM EXPERIMENTAL.

Epistemologia & Método.

Quando, em 1916, liderados por Tristan Tzara (romeno), Hugo Ball (alemão) e Jean Arpes (francês), escritores, poetas e artistas plásticos se encontraram no Cabaret Voltaire de Zurique, estavam desesperados.

No segundo ano da guerra que há um século aniquilou o que melhor havia na Europa, estes intelectuais de todas as nacionalidades – alguns refugiados, outros desertores -, procuravam encontrar uma saída para o impasse entre a sensatez e a realidade.

Não era mais o caso de zombar do tradicionalismo dos filisteus da cultura. Havia ficado evidente o fracasso das ideias estabelecidas diante da crueldade da guerra. A realidade nua e crua havia alcançado a todos e o conforto do sabido e do constituído estava em ruínas.

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O que é compreender?

Epistemologia & Método.

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A epistemologia deve muito ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833 – 1911) que procurou fundamentar o que batizou de “ciências do espírito” para explicar a vida e a sociedade. Foi Dilthey quem rompeu os laços que prendiam ao kantianismo, ao demonstrar que as verdades têm uma história e que o sentido do mundo e de si mesmo é dado e mudado pelo homem na sua trajetória pela vida.

Atônito ante a inépcia dos seus contemporâneos, Dilthey recuperou o pensamento filosófico desde o Renascimento, e aplicou um arsenal inteiramente renovado de conceitos ao conhecimento do humano. O conceito que mais influência exerceu e exerce é o do verbo “compreender”. (mais…)

A ordem do querer dizer.

Epistemologia & Método.

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A previsibilidade do entendimento e da internalização dos signos é uma aspiração que está longe de ser alcançada. O que está fora de alcance não é somente a complexidade da mente humana, mas a sintetização computacional das interações sígnicas. Por mais que os devotos das epistemologias em vigor insistam, a equalização do processo de entendimento esbarra no distanciamento entre a recepção do percebido e sua compreensão. (mais…)

Tente outra vez.

Almanaque & Epistemologia.

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Beckett, Samuel(1984). Worstward Ho. New York. Grove Press.


O filósofo e maman.

Epistemologia & Método.

Francoise.jpgNo Domingo de Ramos de 1728, fugindo do duro sistema de ensino a que era submetido na sua Genebra natal, Jean-Jacques Rousseau, foi acolhido pela baronesa Françoise-Louise de Warens, que à época, por razões não muito claras, auxiliava o padre Monsieur de Pontverre na conversão de jovens protestantes.

Os três anos que passou na maison de Charmettes, na Savoia, usufruindo os favores de Mme. de Warens, a quem Jean-Jacques traçava amavelmente – ela com 29 anos, ele com 16 – e a quem, freudianamente, chamava de “maman”, foram os da sua conversão, os de seu adestramento existencial e os da sua formação filosófica. (mais…)

Epistemologia conta.

Notícias & Almanaque

f39c4fa88330e058094aa3f550848cf65c1c6f91“Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo que conta pode ser contado.”

Esta frase, atribuída a Einstein, tem circulado nos círculos de crítica à epistemologia vigente. É um ponto verdadeiro, mas nunca foi dito por Einstein. Figura em um livro do sociólogo William Bruce Cameron:

“It would be nice if all of the data which sociologists require could be enumerated because then we could run them through IBM machines and draw charts as the economists do. However, not everything that can be counted counts, and not everything that counts can be counted.”

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Cameron, William Bruce (1963). Informal Sociology: A Casual Introduction to Sociological Thinking. London. Random House Publishing.

A medida da felicidade

Epistemologia & Método

Happiness-hot-air-balloon-590x393Uma constelação de intelectos de primeira categoria, que inclui Karl Krauss, Wittgenstein, Heidegger e Canetti, recusou in limine primo a teoria psicanalítica[1].

A rejeição decorre da fragilidade da teoria, não da epistemologia adotada por Freud.

Os materiais de prova de que Freud dispunha – os sonhos, os atos de fala, os gestos – correspondem à Europa judaica, classe média, fin-de-siècle de uma estreiteza quase absurda. Eram incompletos, inconsistentes. Caducaram. Ainda assim, Freud extraiu deles um método analítico de grande alcance e seriedade. Uma epistemologia que leva em conta marcadores e não escalas, comutações (presente / ausente), e não medidas.

Freud teria sido infantil se quisesse graduar uma pulsão, um desejo, um sentimento. Soube evitar a tolice para a qual resvalaram as ciências sócio-humanas. Estas disciplinas servem-se da tèchnè, das tradições e das ilusões em partes iguais; recorrem mais aos sentimentos, aos expedientes, à imaginação, do que à razão lógica. Parodiam a Ciência, que tomam como referencia absoluta, então se tornam um pastiche, um feixe mal amarrado de crendices e técnicas numéricas desconexas[2].

É preciso desfaçatez, uma visão simplória do mundo ou um transtorno psicanalítico para aceitar que unidades escalares meçam universalmente contínuos – como a riqueza e a felicidade – e definam em graus os limites que separam a miséria da vida modesta, a indiferença da exaltação delirante.

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[1] Steiner, George (2012) Tigres no espelho e outros textos da revista The New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo. Globo
[2] Enriquez, Eugène (2013) A vida como tempo da experiência sempre inacabada, in Adauto Novaes (org.). Mutações: o futuro não é mais o que era; São Paulo; Edições SESC SP.

Conceitos operacionais em Pierre Bourdieu

Epistemologia & Método

O ponto de partida da sóciofilosofia de Pierre Bourdieu é o de que, na construção do objeto investigado, é preciso separar as categorias que pré-organizam o mundo social e que se fazem esquecer por sua evidência. O que significa levar à campo conceitos sistêmicos, ideias que pressupõem uma referência permanente ao sistema completo das suas inter-relações, noções que estão referidos a uma teoria.

Os conceitos primários formulados e aperfeiçoados por Bourdieu são o de ‘habitus’ e o de ‘campo’. A estes se agregam outros, secundários, mas nem por isto menos importantes, e que formam a rede de interações que orienta a sociologia relacional, a explicação, a partir de uma análise, em geral fundada em estatísticas, das relações internas do objeto social. A teoria do ‘habitus’ e a teoria do campo são entrelaçadas. Uma é o meio e a consequência da outra.

O texto completo está no livro Métodos Estruturalistas.

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