EPISTEMOLOGIA: Heurística – Epifania.

Epistemologia – Heurística.

Ao longo dos séculos, o termo grego epipháneia se prestou a entendimentos variados. Mas o sentido básico permaneceu: uma epifania é um ato cognitivo que se dá na ausência de mediação.

A festa cristã da Epifania comemora a manifestação reveladora de Jesus como divindade. Outras confissões religiosas empregam a palavra no mesmo sentido. Já as neurociências usam o termo para designar a súbita compreensão da essência de um fenômeno, a solução instantânea de um problema ou o assomo imediato de uma ideia à mente.  Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Acaso – Ésquilo em Alexandria.

Epistemologia.

Ptolomeu, neto do general de Alexandre, governou o Egito entre 246 e 221 AC. Não foi uma pessoa de bem. Presunçoso, forçou uma mudança do calendário para sincronizar o Tempo com o da sua dinastia. Gatuno, acumulou tesouros com pilhagens. Traiçoeiro, negociou com os atenienses a caução de 15 talentos de prata pelo empréstimo do exemplar único da obra completa de Ésquilo. Não a devolveu. Depositou-a na Biblioteca de Alexandria. Cobrou em espécie aos que a quiseram consultar. 

Terceiro do nome, Ptolomeu não tinha nem moral, nem instrução, nem estava preparado para o cargo. Havia chegado à faraó por puro acaso. 

O acaso está presente como enigma em todos os campos de todos os saberes. Um dos arcanos mais insondáveis da zoologia, por exemplo, é o das águias da Europa meridional, que elevam tartarugas até uns cem metros de altura e as deixam cair sobre as rochas para que a carapaça se quebre e as possam devorar. Como as aves vieram a apreender esta habilidade é um mistério que os etólogos ainda não podem decifrar. Um acaso da evolução, como casuais são os alvos escolhidos.  

Aconteceu que, no ano de 456 a.C., nos arredores de Gela, na Sicília, uma destas águias deixou cair a sua tartaruga sobre o que acreditava ser uma rocha. Até aí nada demais. Mas, o que a cem metros de altura parecia ser uma pedra redonda e lisa, era a calva de um ancião grego. Casualmente a de Ésquilo. O mesmo cuja obra seria sequestrada por Ptolomeu. 

Não sabemos o que se passou com a tartaruga. O velho Ésquilo morreu no ato. Ainda que tivesse sido avisado pelo Oráculo que seu fim viria do alto, e que, por isto, jamais saísse de casa em dias de tempestade ou passasse por baixo de escadas ou de árvores, Ésquilo não poderia se precaver contra a casualidade da aquilina pedrada. Chegado à velhice, havia depositado sua obra no Templo de Delfos. Também não teria como antecipar que, por acaso, o pérfido Ptolomeu, duzentos e treze anos depois, a furtasse e guardasse na Biblioteca de Alexandria.

A cadeia de ocorrências fortuitas não cessa neste incidente. Desconhecendo tanto Ésquilo quanto Ptolomeu, oito séculos mais tarde, em 22 de dezembro de 640, o general Amir ibn al-As, acatando ordem direta do Califa Omar, ordenou a queima total da Biblioteca, e, com ela, da coletânea remanescente da obra de Ésquilo. O argumento para a incineração não poderia ser mais imprevisível: os escritos que estão em desacordo com a palavra de Alá são blasfemos; os que estão de acordo, são supérfluos. 

Em pouco mais de um milênio o acaso havia determinado duas perdas inestimáveis: a do artista, atingido mortalmente pela águia, e o da sua arte, roubada por Ptolomeu e incendiada pelo Califa. Uma obra magnífica e extensa. As trilogias, sátiras e peças avulsas escritas por Ésquilo montavam a oitocentas obras. Quis o acaso que hoje restem apenas sete: As suplicantes, Os egípcios, As Danaides, Prometeu Acorrentado e a trilogia Orestiada

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EPISTEMOLOGIA: O instante heurístico.

Epistemologia – Heurística.

 

No prefácio à Metafísica, Tommaso Campanella descreveu o instante heurístico como um movimento da consciência por “tactum intrinsecum in magna suavitate”.

As narrativas colhidas nas investigações contemporâneas abonam que o descobrir e o inventar consistem em uma aquisição íntima, que assoma despercebida e com grande suavidade.

Mas como uma ideia, um objeto, ou uma relação penetra na vida mental? 

Difícil responder. A consciência é, em si, um enigma. Um “não sei quê” (nescio quid), nas palavras de Leibniz. Conscientizar-se não é como adquirir um conhecimento. Sabemos todos que vamos morrer, mas quantos de nós estamos conscientes da inevitabilidade da própria morte? 

A consciência também não é uma sensação, nem deriva de um esforço científico. É algo que está simultaneamente nos campos da percepção e do juízo. A imagem exemplar é a de quando somos tocados pela arte. Sentimos, mas não podemos narrar o que sentimos. O belo e o feio, o significativo e o insignificante chegam à mente por um influxo interno, assim como áspero e o acetinado chegam ao tato. 

Ao tomarmos consciência alguma coisa é revelada. O intelecto se eleva sobre si mesmo. Ingressa em um estado em que o significado está em processo de aparecimento. O que ocorre então não pode ser descrito. Só recordado. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Agamben, Giorgio (2017). Gosto. Trad. Claudio Oliveira. Belo Horizonte. Autêntica Editora

Ernst, Germana (ed.) (2007). Tommaso Campanella: Le Livre et le corps de la nature. Paris, France. Les Belles Lettres.

Headley, John M. (1997). Tommaso Campanella and the transformation of the world. Princeton. Princeton University Press

Leibniz, Gottfried Wilhelm Leibniz (1989) The source of contingent truths. In, Leibniz: Philosophical Essays (Hackett Classics) Trad, Rogerl Ariew e Daniel Garber. Hackett Publishing Co. eBook Kindle

EPISTEMOLOGIA: O campo da heurística.

Epistemologia – Heurística.

A heurística é disciplina do invento e da descoberta. Seu foco é o da tomada de consciência de objetos e relações. 

A definição é importante porque as ciências particulares costumam empregar o termo “heurística” de forma limitada ou equívoca. Na ciência da história, entende-se a heurística como significando a pesquisa documental. Na pedagogia, considera-se método heurístico aquele que permite ao aluno descobrir o que se quer que aprenda. 

Fora do âmbito da filosofia, os atos e momentos heurísticos têm sido objeto apropriado de estudo da psicologia cognitiva e do aglomerado reunido sob a denominação de neurociências. Esses saberes se ocupam primordialmente dos processos de autodescoberta, de auto-diálogo, de auto-procura e do despertar das emoções e aberturas de sentido (Moustaka). 

Os estudos heurísticos contribuíram para a superação das restrições arcaicas e a consequente restauração da universalidade dos saberes. São exemplos do progresso alcançando a ruptura, fusão e empréstimos entre as disciplinas particulares; o surgimento de ramos de conhecimento como a fisioquímica, a biônica e a mecatrônica; bem como a outorga do Nobel de economia a Daniel Kahneman, um dos pais fundadores da psicologia heurística. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Moustaka, Clark (1990). Heuristic research: design, methodology, and applications. California. Sage Publications.

Nadeau, Robert (1999) Vocabulaire technique et analytique de l’épistémologie. Paris. Presses Universitaires de France. P. 290

EPISTEMOLOGIA: Heurística e epistemologia.

Epistemologia – Heurística.

Gabrielle d’Estrées 1995 – Aldéhy Phil

A heurística é a disciplina devotada ao estudo do descobrir e do inventar. Tem em comum com as epistemologias a busca dos atributos, condições e relações que subjazem à perplexidade, à dúvida ou à curiosidade. Mas o paralelo cessa aqui.

Contrariamente ao que ocorre na descoberta e na invenção, os métodos epistemológicos congregam princípios arbitrários que estabelecem o campo, os problemas e as modalidades de trabalho do cientista-praticante. 

Na forma afirmativa, as epistemologias compreendem temas, métodos, práticas e regras excludentes, como da recusa em absorver a mântica e o acaso. Na forma positiva, as epistemologias determinam os temas, procedimentos, e métodos que constituem o hardcore dos saberes particulares, e que os colocam a salvo dos dissidentes, dos refutadores, dos rebeldes, e, também, dos descobridores e dos inventores. 

Alguns teóricos aventam uma integração entre a heurística e as epistemologias. Argumentam que é possível passar da dedução, da indução e da abdução a um novo campo, a uma nova teoria, ou a uma hipótese de ruptura com o estabelecido. Não é o caso de disputar o ponto. Mas nada leva a crer que as epistemologias e seus métodos sejam heuristicamente mais férteis do que qualquer outra atividade intelectual. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Lakatos, Imre (1970). Falsification and the methodology of scientific research programmes, in Lakatos & Alan

Musgrave (ed.). Criticism and the growth of knowledge. Cambridge. Cambridge University Press.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – O enigma da invenção.

Epistemologia – Heurística.

Paul Klee – Senecio

O descobrir corresponde à revelação do desconhecido. O inventar corresponde à geração do novo. Descobre-se a América. Inventa-se o avião. 

Kant foi o primeiro filósofo a romper com a rotina de unir a imagem e a imaginação. Ambas são representações de objetos ausentes, mas a imagem tem, para ele, uma “função reprodutiva”, a de descobrir. Já a imaginação é uma capacidade de combinar significados díspares e gerar o inédito, tem uma função produtiva, a de inventar. 

Mas nem Kant conseguiu explicar como, exatamente, a imaginação gera algo que não existia. 

Quem chegou mais próximo de deslindar o arcano foi Koestler. A ideia nova despertaria na consciência no instante em que uma mistura de elementos, oriundos de duas matrizes independentes e viajando em sentidos distintos, casualmente se encontram. O significado seria dado por meio da “bissociação”, isto é, da analogia, da comparação, da metáfora, da categorização e da abstração. 

Um esquema engenhoso, mas meramente especulativo. Para a ciência, o “ponto de gênese” (Klee), “o momento eureca!” ou como quer se denomine a geração do novo, é um enigma que perdura.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Koestler, Arthur (1964) The act of creation. London. Hutchinson & Co.

Matherne, Samantha (s/d). Kant’s Theory of the Imagination, Routledge Handbook of the Imagination. https://www.academia.edu/11319761/Kants_Theory_of_the_Imagination. 

Paul Klee (2002) The Nature of Creation, Works, 1914-1940. London. Lund Humphries Pub Ltd 

EPISTEMOLOGIA: Dialética e epistemologia.

Epistemologia.

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Hegel torneou o pensamento de Heráclito até transformá-lo em um automatismo inexorável. Convenceu-se, e a muitos, de que o conhecimento sobre o homem e a sociedade nasceria da apreensão de um fluxo dialético de ocorrências contraditórias. 

A marcha da realidade seria descrita por meio de um discurso lógico, um discurso em que uma posição teórica produziria inevitavelmente sua contrapartida. Do jogo de posição e contraposição – tese e antítese – destes elementos surgiria algo novo, uma nova tese, que, inevitavelmente, produziria uma nova antítese, e assim por diante. 

Para que a dialética tivesse acolhida como método, foi necessária a admissão de duas crenças filosóficas improváveis (não passíveis de serem provadas): a da anima mundi e a da nulidade racional das singularidades e do acaso.

A Anima mundi (alma do mundo) é um conceito cosmológico. A convicção de que existe um espírito regente do universo, pelo qual o pensamento sobrenatural pode manifestar-se. Sua origem é o motor imóvel (asynkínitos kínisis) de Aristóteles

O exemplo mais conhecido desta convicção é o comentário sobre a entrada de Napoleão, em 1806, em Jena. Hegel escreveu ter visto “a alma do mundo a cavalo”. Para ele, os 16.000 mortos e o dobro de aleijados na Batalha de Jena–Auerstedt teriam um propósito, e um propósito inquestionável, já que só conhecido pela divindade.

A segunda crença, a da nulidade racional do acaso, é corolário da anima mundi. Reza que, se a natureza e a história fazem um sentido, este sentido deve ter uma direção, isto é, a natureza e a história não conformariam uma sucessão de acontecimentos acidentais, mas seriam fruto de um encadeamento lógico-dialético, uma articulação de eventos que geram sínteses. Este servomecanismo se aproximaria mais e mais do objetivo, até alcançar o absoluto, o empíreo, o socialismo, a redenção ou o que quer que norteasse o Mundo e a História. 

O exemplo mais conhecido desta convicção está nos textos de Marx em que expõe a inevitabilidade do esgotamento e alternância dos modos de produção. Para os que seguem esta forma de pensar, o simplismo do esquema, as superposições, o entremeio, as relações não econômicas e a dificuldade de descrever os meios de produção da nossa época são irrelevantes.

Em termos cognitivos, as premissas correlatas da anima mundi, da inexistência de singularidades e da negação do acaso são condições ásperas para se lidar. Mas o que inviabiliza a dialética como epistemologia generalizável é a impossibilidade de garantir a terceira condição requerida: a da confluência dos fatores em um todo pré determinável. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Burckhardt, Martin (2011). Pequena História das grandes ideias. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro. Tinta Negra

Englund, Steven (2005). Napoleão: Uma biografia política.  Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Zahar

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Invenção e acaso.

Epistemologia – Heurística.

Arthur Rimbaud escreveu poemas sem sujeito, sem intercorrências e auto-referidos à linguagem. Não sabemos como foi capaz disto, e especulamos sobre o que o levou a inventar algo tão diferente do que existia antes dele.

Rimbaud foi um gênio, mas o seu caso não é excepcional. O inventor e a invenção parecem ser frutos do puro acaso. Pelo menos, ninguém ainda conseguiu documentar a geração de uma singularidade nova que não fosse eventual e imprevisível. A única característica comum aos inventores, grandes e pequenos, que a neurociência pode determinar até agora, é a de fazerem parte do conjunto de pessoas que não têm medo de se expor ao fracasso.

A ideia de invenção está vinculada ao destino, não à origem. Barthes, em “A morte do autor” sustentou que o cronista diz quando e como Cesar atravessou o Rubicão e que o historiador interpreta o porquê e o para quê da ocorrência. O método histórico não cria nem Cesar, nem a travessia, nem o cronista. É o historiador quem suprime o incômodo do acaso. Inventa – o termo é este mesmo – uma explicação arbitrária para o fato, e uma interpretação a posteriori para que a ocorrência tenha sido notada.

Os domesticados pelas instituições acadêmicas não podem conviver com o acaso. Por isto se prendem às fontes e às tradições. Refratários ao fortuito, são como o rabino mítico que, ensandecido de tanto estudar, corre pelas ruas gritando: “tenho as questões corretas para as suas respostas”.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Barthes (1988) A morte do autor, in O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo. Editora Brasiliense S. A.

Mlodinow, Leonard (2009). O andar do bêbado. Tradução de Diego Alfaro. Rio de Janeiro. Zahar. [P. 19]

Rimbaud, Arthur (2014) Iluminuras. Tradução, notas e ensaio: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Editora: Iluminuras

EPISTEMOLOGIA: Retorno à Aristóteles.

Epistemologia.

De Aristóteles conservamos as ideias de que em todo objeto há algo imutável – sua essência – e elementos que se modificam – os acidentes.

Conservamos a ideia de que existem formas artificiais, como é o caso de uma estátua; naturais, como a alma; substanciais, como o corpo; acidentais, como a cor; inerentes, como a matéria; e exemplares, como em uma maquete.

Mas abandonamos a prática de procurar obsessivamente a essência das coisas e a compulsão de classificar rigidamente as formas em que os objetos se apresentam.

Conservamos a ideia de que existem categorias – conceitos unívocos – do pensamento: aquilo que tem a ver com as coisas, os tamanhos, as características, os relacionamentos, os locais, o tempo e o estado; com o ter, o fazer e o sofrer.

Mas levantamos dúvidas quanto estas categorias serem excludentes entre si, e sobre a possível existência de outras categorias.

De Aristóteles conservamos a ideia de que as relações entre o sujeito e o predicado de uma proposição obedecem a quatro tipos: a definição, que é conversível e essencial; a propriedade, que é conversível e não essencial; o gênero, que é não conversível e essencial e o acidente, que é não conversível e não essencial.

Mas não mantemos que inexistam outras predicações e predicações interpoladas.

Conservamos a evidência de que dirigimos nossa atenção em primeiro lugar ao que é passível de mudança. Por isto, seguimos afirmando a existência de uma natureza humana e nos atribuindo um potencial igualmente grande para experimentar tanto a tristeza quanto a felicidade, tanto entusiasmo quanto tédio.

Mas discordamos amplamente sobre o que venha a ser a natureza humana e se esta natureza é neutra e universal.

De Aristóteles, conservamos a ideia de que a razão prática procura determinar o melhor fim para agir. Isto é, que a ação racional consiste não em determinar os meios para um fim dado (instrumentalismo), não em fundamentar-se em leis eternas (normativismo), mas em encontrar o propósito (o fim) mais razoável para a ação.

Mas aceitamos uma gama imensa de visões acerca da interferência do tempo e das circunstâncias sobre o ser humano.

Esta posição preserva outra ideia de Aristóteles: a do domínio do contingente nas nossas ações efetivas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Aristóteles (1982). Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones: Ética a Nicômaco, 1112-31; Tópicos. 1, 4, 101b e ss.; Sobre el alma.

EPISTEMOLOGIA: A academia – entre o medo e a angústia.

Epistemologia.

Edvard Munch – Anxiety 1894

As desavenças entre o positivismo e o historicismo, que aborreceram o final do século passado, levaram os saberes instituídos à um estado de perplexidade.

Por mais que tenham sido debilitados, nem o positivismo veio à óbito, nem a anunciada morte do historicismo ocorreu. Ao contrário. Um e outro partido seguem regurgitando suas frágeis razões.

Náufragos em meio à tormenta, os praticantes nas ciências sócio-humanas se equilibram em uma dinâmica que oscila entre o medo e a angústia.

O medo faz com que tentem validar a reflexão na positividade descarnada dos fatos e dos experimentos. Contraditoriamente, faz com que procurem refúgio na linhagem que vem do Círculo de Viena e que deveria ter terminado em Wittgenstein, ou, no máximo em Quine.

A angústia, no sentido de Kierkegaard, de aperto, de estreitamento, faz com que se aferrem à filosofia com sua carga histórica. Simultaneamente, faz com que a neguem, aderindo à linhagem que procede de Nietzsche e que chega aos que procuram conciliar uma teoria geral do Ser com o cotidiano das existências.

A dialética da angústia e do medo deixa sequelas. Entre elas o abandono da reflexão sobre questões insolúveis, como a das singularidades, a das formas, e a do acaso.

O que é inquietante.

Aquele que deixa de procurar o inencontrável e de pensar no insolúvel está fadado claudicar entre a mera constatação e o reencontro com o já sabido.

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EPISTEMOLOGIA: Heurística – Heráclito, os indícios e as singularidades.

Epistemologia – Heurística.

Banksy – Girl with Balloon.

O vigésimo terceiro dos fragmentos conhecidos do legado de Heráclito de Éfeso assinala: “O Senhor, de quem é o oráculo em Delfos, nem diz, nem oculta, mas dá indícios”.

Não é pouco. O indício é tudo o que se pode ter na descoberta de singularidades.

Uma singularidade é um termo ou uma proposição que denota um único objeto. Enquanto a proposição universal concerne à totalidade dos sujeitos de uma mesma classe, a proposição particular se relaciona à alguns sujeitos, a proposição singular se refere a um, e somente um sujeito.

Todo e qualquer singular é nomeado por um título: Cervantes, a Torre Eiffel, o pintor da Mona Lisa, o homem mais alto do mundo, eu, …

Da mesma forma que não se pode ter dois universais “seres humanos”, não se pode ter dois singulares “René Descartes”. Por isto, o singular nunca é uma derivação ou uma cópia. Os singulares devem ser descobertos ou inventados.

Em outro fragmento, o décimo oitavo, Heráclito deixou a lição de que “quem não espera… não encontrará o inencontrável e o inacessível”. De fato, o singular só ocorre àquele que espera, ao atento, ao consciente, ao que é capaz de identificar o incomum e o desusado.

Heráclito ficou conhecido como “o obscuro” e o “filósofo lastimoso”. Obscuro terá sido, mas a lástima não era por isto. Era pela estupidez humana, na maior parte incapaz de reconhecer os indícios do novo e do diferente.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Heráclito (1982). Fragmentos; Tradução de Luis Farre; Buenos Aires; Aguilar Argentina S.A. de Ediciones. 

Leibniz, Gottfried Wilhelm (2000) Novos ensaios sobre o entendimento humano. Tradução: Luiz João Baraúna. São Paulo. Nova Cultural. [IV, XVII § 8]

Mondolfo, Rodolfo (1971) O pensamento antigo: história da filosofia greco-romana; Tradução de Lycurgo Gomes da Motta; São Paulo; Mestre Jou. 

Pereira, Maria Helena da Rocha (1979). Estudos de história da cultura clássica; Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

EPISTEMOLOGIA: O ciclo anti-heurístico.

Epistemologia – Anti-Heurística.

“A realidade é o que tomamos como verdade.

O que tomamos como verdade é aquilo em que acreditamos.

Aquilo em que acreditamos é baseado em nossa percepção.

O que percebemos depende do que nós procuramos.

O que nós procuramos varia de acordo com o que pensamos.

O que nós pensamos depende do que nós percebemos.

O que percebemos determina o que acreditamos.

Aquilo em que nós acreditamos determina o que tomamos como verdade.

O que tomamos como verdade é nossa realidade.”

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
De uma palestra de David Bohm, físico de Berkeley, citado por Ricard,  Matthieu & Thuan,  Trinh Xuan (2004). The
Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet. New York. Broadway Books.

EPISTEMOLOGIA: Anti-heurística – Popper, o irrelevante acadêmico.

Epistemologia – Anti-Heurística.

O epistemólogo Karl Popper sustentou que a coerência científica de uma época não reside na forma e na natureza das respostas que dá, mas nas questões que ela se coloca.

Tinha razão.

Na atualidade, ante o engessamento das abstrações ideológicas, como ocorre no marxismo, e da fixação em situações pretéritas, como ocorre no positivismo (aquilo que esteve posto), vivemos em uma época de indigência intelectual.

Pressionados pelo arcaísmo estabelecido, os universitários das áreas sócio-humanas se homiziam atrás de matérias sobre as quais já se demonstrou o essencial (sim as mulheres são exploradas, os pobres abandonados, a educação equivocada, a saúde esquecida, ….).

Ao se lançarem sobre temas desconectados das premências das sociedades contemporâneas, ao se repetirem, ao replicarem, ao reiterarem o já sabido, as frações da academia que se autodenominam de ciências aplicadas, se dedicam, em sua maioria, ao inaplicável.

As ciências básicas não devem, é claro, se sujeitar às demandas do momento. Deixariam de ser básicas ou puras, como alguns preferem denominar. Mas os saberes instituídos não deveriam marginalizar os temas do momento: fundamentalismos, opressão governamental, drogas, fim do emprego, tirania empresarial, criação e acesso, ….

É verdade que sempre houve, e deve mesmo haver, uma defasagem entre o foco da instituição acadêmica e o interesse das sociedades. Mas esta defasagem tem um limite: o da irrelevância.

Viciados em chavões, os universitários se tornaram monomaníacos. Especialistas em autores e não em ideias, desenvolveram competências unicamente para a repetição.

Como os papagaios.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Popper, Karl (2008) Conjecturas e refutações: o progresso do conhecimento científico. Brasília, tradução Sérgio
Bath. Editora da UNB

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Trânsito cultural: a pós-produção.

Epistemologia – Heurística.

Fonte (1917), Marcel Duchamp

O processo heurístico de “inventar novamente”, implicado no ato de recepção, foi descrito por Max Weber como “trânsito cultural”.

A prática é antiga. Já estava formalizada nos centões, conglomerados em que o escritor reordena versos de outros poetas, como o centão de Antônio, que compôs um epitálamo (hino nupcial), com versos de Virgílio para celebrar as bodas de Valentiniano.

No século passado, o tráfego cultural esteve no urinol–touro de Duchamp, na poesia compósita de Eliot, na “montagem” das Passagens de Walter Benjamin. Esteve em Jorge Luis Borges, que não copiou ninguém, mas que atribuiu a quem o lesse a coautoria dos seus textos; não por generosidade, mas por ter constatado que, ao absorver a criação alheia, nós a reinventamos.

A técnica contemporânea de fazer transitar elementos coexistentes em vários segmentos culturais é denominado pós-produção. No essencial, o exercício segue a tradição de regenerar, deslocar, recontextualizar e rearranjar ideias, imagens e imaginários.

De valor heurístico exemplar, a pós-produção operacionaliza sistemas de interação (wiki, redes sociais, compartilhamentos) e de recriação (cut and paste; mashups, editores de imagens e até geradores de trololó). Com isto, contribui extraordinariamente para a descoberta de novas afinidades sociais e de formas inéditas de entendimento do mundo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Borges, Jorge Luis (1996). Textos cautivos. In Obras Completas. Barcelona. Emecé Editores España S.A.

Bosco, Francisco (2013). O futuro da ideia de autor. In, Mutações: o futuro não é mais o que era. org. Adauto Novaes. São Paulo. Edições SESC SP. p. 403

Kalinowski, Isabelle (2015) Réception. In, Berner, Christian & Thouard, Denis (direction). L’interprétation : un dictionnaire philosophique. Traduit de l’allemand par Christian Berner. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.

Weber, Max (2010) Le judaísme antique. Paris. Flamarion.

EPISTEMOLOGIA: Foucault – Na análise das epistemes, a chave heurística.

Epistemologia – Heurística.

Foucault utilizou a palavra grega épistémè (entendimento) para significar as relações que conectam os diferentes tipos de discurso em uma situação espaço-temporal.

A episteme é um mosaico que conforma uma totalidade, como os pixels conformam uma imagem. Discrimina o modo de perceber, de conceituar, de definir e de agrupar os elementos de um meio cultural dado.  Estabelece um corpo de prescrições cuja função é vigiar os desvios dos paradigmas tidos como verdadeiros.

A análise das epistemes rompe com o dogma da identificação de problemas. Entende que quando nos referimos ao problema moral, ou ao problema do trabalho ou de qualquer outro objeto, incorremos em uma petição de princípio: a de que a ética, o trabalho, ou qualquer objeto são dificuldades, antes de serem temas de reflexão.

As análises tradicionais abordam o objeto sócio-humano problematicamente; como algo que deve ser resolvido; isto é, que deve ter uma solução na forma matemática, mas, também, na forma em que os nazistas falavam do “problema judaico” e que hoje o Ocidente fala do “problema muçulmano”.

A abordagem prescrita por Michel Foucault abandona a interrogação sobre o conteúdo do objeto; desmonta a estrutura de normas de relacionamento entre elementos dos discursos; concentra-se no entendimento da constituição do seu significado.

O valor heurístico da análise das epistemes está em observar os interstícios da narrativa, em abrir-se para além da constatação e da hermenêutica, em trazer à luz (ou em inventar) a chave que poderá rescindir o quadro das inadequações sociais persistentes.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Foucault, Michel (2007). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo. Martins Fontes.

EPISTEMOLOGIA: Compreender, explicar, entender, preconizar.

Epistemologia.

por Igor Morski

Compreender é o ato de alcançar os elementos essenciais de uma situação. Explicar é o ato de tornar inteligível o compreendido. Entender é o ato que precede e torna possível pautar a ação racional.

Entendemos nos explicando, isto é, “lendo” a memória e a circunstância da mesma forma que lemos um texto: tratando de inferir significados para que possamos apreender o mundo e a nós mesmos.

A visão oitocentista, de Marx à Comte, procurou compreender a gênese e a projeção da vida social. Não chegou a entendê-la. Insistiu sobre a essencialidade da sociologia numérica, da demografia computacional e da investigação estatística. Graças a esta forma de ver, até hoje nada se perquire que não seja o antecipado. As regularidades que se constata repousam sobre convicções, sobre convenções, sobre incompreensões.

Os saberes acadêmicos se cristalizaram. Não encontram significados, mas congruências. Ignoram, ou preferem esquecer, que a ordenação econômica ou as estruturas organizacionais em que estamos naufragados são artificialidades.

As epistemologias dominantes nas ciências sócio-humanas, produtos normativos vencidos, preceituam o futuro como repetição do ocorrido. Buscam solucionar dificuldades da existência que já não vigem. São incapazes de descobrir o real ou de pensar ordenamentos socioeconômicos diferentes dos consagrados. Propõe-se entender sem ler, sem decifrar os signos sussurrantes do passado, sem escutar os gritos lancinantes do presente.

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Elogio da solitude.

Epistemologia – Heurística.

Os dicionários não assinalam a disparidade, mas os termos latinos de së e sölus têm distintas conotações. A solidão – o sentir-se só – difere da solitude – o estar só.

A solidão é o atributo do abandonado e do segregado. A solitude é o atributo do retirado e do autárquico.

Joy Umali – Mobile Engineer & Product Designer San Francisco, USA

 

Enquanto a solidão é involuntária e patológica, a solitude é voluntária e terapêutica. Deve ser buscada para que a invenção e a descoberta sejam possíveis (Platão).

O solitário está sem os outros, mesmo quando está entre eles. Já o autárquico não prescinde das relações oferecidas pelo ambiente e pela vida cotidiana. Apenas procura se retirar para a comunicação com a natureza, com a verdade e com os seres humanos. Os coexistentes, os do passado e os do futuro.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Hall, Donald. (2016). Between solitude and loneliness. In, The New Yorker. October, 15, 2006 

Platão (1981). Sofista. In, Platón, Obras completas (1981). Traducción y notas de María Araujo et al. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

EPISTEMOLOGIA: O fato, o dado, o real e o abstrato.

Epistemologia.

Os platônicos intuíram que as ideias são realidades. Os aristotélicos intuíram que as ideias são generalizações. Os idealistas são platônicos. Os realistas aristotélicos. Divergem, mas nem uns, nem outros pensam que ideias e fatos são a mesma coisa. Ambos reconhecem que os fatos não se apresentam sob a forma de linearidade causal.

Nem mesmo são necessariamente conectados.

Alçar o factual à condição de real, como faz a maior parte dos métodos de investigação nas ciências sócio-humanas, é um contrassenso. As linhas de causa e efeito que dão “validade” e “representatividade” a estas investigações são constructos, são ponderações de um sentido que a vida não tem.

Aliada ao temor de desarranjar os esquemas acadêmicos, esta inconsistência leva a acomodações explicativas artificiais, erige distorções sobre o que foi e o que é.

Não se trata de uma simples fraude. O pseudo-realismo dos modelos epistemológicos provoca uma euforia cega. Graças a eles, a realidade deixa de ser assustadoramente obscura e estranha: torna-se conveniente, clara e familiar. Um espelho do que se gostaria que ela fosse.

 

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EPISTEMOLOGIA: Heurística – Indutivismo – quase-nulidade heurística.

Epistemologia.

O Indutivismo é a doutrina de que toda pesquisa científica deve proceder seguindo os passos: observação, classificação, interpretação das relações entre os fenômenos, generalização e predição.

Na inferência indutiva passa-se de indícios percebidos à realidade desconhecida, do especial ao mais geral, dos indivíduos às espécies, das espécies ao gênero, dos fatos às leis.

Embora seja de uso quase obrigatório nas publicações acadêmicas do campo sócio-humano, a indução envolve generalizações não comprováveis, só se aplica a observações diretas e dificilmente gera descobertas ou invenções.

Como instrumento heurístico, o processo indutivo tem pouco ou nenhum valor. Tende a gerar novas proposições, mas não novos conceitos, isto é, conceitos que não aparecem na base de dados considerada.

Não sendo possível observar a partir do nada, as hipóteses lançadas pelo pesquisador ou bem são infundadas ou bem são programáticas, ou seja, predeterminadas no que se refere à relevância dos dados e informações.

Ao se inferir indutivamente encontra-se – ou não – o que se esperava encontrar, sendo possível, no entanto, como em qualquer forma de experiência, que o simples exercício de investigar leve casualmente a descobertas e invenções.

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EPISTEMOLOGIA: Heurística – Wittgenstein: Assim é, se lhe parece.

Epistemologia – Heurística.

Ilustrador polonês Igor Morski

Na conversão do Tractatus para as Investigações, Wittgenstein levantou um ponto irrefutável: as epistemologias geram representações antecipadas daquilo que se propõem a investigar.

De fato, os métodos epistemológicos prefiguram um quadro dotado da faculdade de orientar as manobras destinadas às garantirem como estabelecedoras da verdade.

Desde o mais delirante idealismo até o materialismo mais fideísta, as epistemologias disciplinam e ordenam o real. Constrangem o fato e o dado a obedecerem a esquemas conceituais, estratégias e atos de investigação recebidos acriticamente e incorporados aos hábitos dos pesquisadores.

O argumento de Wittgenstein esbate qualquer pretensão de descoberta e invenção das epistemologias. Não só porque assumem como patente uma realidade autoconstituída, mas porque estão atadas a determinações arbitrárias do como investigar, do que se deve investigar, e do que é possível ser encontrado.

Do ponto de vista heurístico, as epistemologias não diferem da mítica religiosa e das lendas pré-científicas.

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Gargani, Aldo Giorgio (2013). Le savoir sans fondements. Traduction Charles Alunni. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.

Wittgenstein, Ludwig. (2005) Observações Filosóficas. Tradução de Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo. Edições Loyola.