Ética & Credibilidade

Manicheist compliance: the light side of force is calling you.

Ética.

A moda da compliance se origina no imperativo de deter a imoralidade fluida e frouxa praticada pelas corporações.

O movimento de conformidade/complacência (o termo admite duas denotações) é um maniqueísmo de botequim. O maniqueísmo verdadeiro jamais foi praticado na forma em que pretende o esforço de compliance.

A seita criada por Mani, na Pérsia, é um sincretismo judaico, zoroástrico e hinduísta. Compreende uma dualidade religiosa, cuja doutrina consiste em afirmar a existência do duelo cósmico entre o Reino da Luz (o bem) e o das Sombras (o mal). A divisão é e rigorosa. A ética mani não tem a crueldade da indeterminação cristã.   (mais…)

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Instrumentalização: o sistema contra-ataca.

Ética.

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A economia ocidental é uma economia de eficácia competitiva. No entanto, as corporações se declaram como pertencendo ao mundo da conformidade social. A esquizofrenia de pretender integrar duas esferas vitais díspares enfraquece os alicerces da moralidade que deveria sustentar o sistema.

O ethos (conjunto dos valores e hábitos) no âmbito das instituições, das condutas, das ideias e das crenças tem muitas faces. Duas delas são conflitantes. (mais…)

A reestruturação moral.

Ética.

Existe um ponto de fervura na dinâmica social em que toda a credibilidade evapora, como existe um ponto de condensação na ética em que toda crendice congela.

O descrédito e o moralismo só se resolvem quando postos em face de uma mudança estrutural, isto é, de exclusão ou da inclusão de elementos críticos no instituído.

A exclusão é um efeito, não uma causa. Tem o vezo da desolação (deixar só), de não mais se pertencer a. Nas sociedades ocidentais se excluem os miseráveis, os doentes, os velhos, os dissidentes, os insurgentes, os criativos. Não se excluem os tirânicos, os cordatos, os neuróticos, os explorados, os idiotas, os insolventes. (mais…)

Fontes da filosofia moral – John Dewey e o Pragmatismo.

Ética & Valores.

John Dewey (1859-1952), o mais influente pensador norte americano na primeira metade do século passado, entendeu a filosofia como método para resolver problemas morais.

Foi adepto do pragmatismo – a convicção de que o agir é moralmente justificável se, e somente se, for útil ao propósito de tornar a vida mais razoável.

Dewey deixou como legado à contemporaneidade:

  • O conceito de valorização como expressão de um comportamento aprendido que se tornou habitual, e a decorrente distinção entre os atos de atribuir valor e o de avaliar,
  • A equalização entre o justo e o social, isto é, a ideia de que devemos avaliar de acordo com as obrigações que temos para com os outros, e de que, portanto, a ética deve se centrar na busca do que é útil a um futuro desejável para todos os seres humanos.

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Isomoralidade: A pasteurização das condutas.

Ética & Trabalho.

A maioria dos estudos sobre a ética laboral tem como referência as sociedades WEIRD (Western, Educated, Industrialized, Rich & Democratic). O servilismo entranhado no management tupiniquim entende estas comunidades como universais e antigas. Mas elas são particulares e recentes.

Na forma que as ciências sócio-humanas estabelecidas a reconhece e estuda, a ética trabalhista é aberrante. Aplicar suas categorias às sociedades divergentes é mais do que um erro, é uma insanidade. (mais…)

O servidor público em sua armadilha.

Trabalho & Ética.

Há uma insistência surda em culpar o servidor pela desmoralização dos sistemas de ingresso e acesso na administração pública. A finalidade é perversa. Fazer da vítima o algoz.

A degradação moral que assistimos não decorre do servidor, mas da obsolescência dos ideais, da evolução dos esquemas de gestão, da ignorância sobre as mentalidades e da vilania dos governantes.

A ilusão de Hegel, que propôs a função pública como garante da universalidade do Estado, expirou sem nunca ter vigido. A idealidade weberiana do profissionalismo, da formalidade e da impessoalidade foi rebaixada à retórica dos discursos de posse.
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Fontes da filosofia moral: Max Scheler

Ética & Filosofia

Max Ferdinand Scheler (1874, Munique – 1928, Frankfurt) procurou corrigir as antigas e frágeis concepções do bem e do dever. No processo, construiu uma teoria universal dos valores e das normas.

Legou à reflexão moral contemporânea as ideias: i) de que a questão da ética é subordinada à dos valores em geral e, ii) de que os valores podem ser objeto de uma intuição imediata, oferecida pela via da emoção. (mais…)

Fontes de filosofia moral: G.E. Moore.

Ética & Filosofia.

Edward George Moore BBC Your Paintings George Edward Moore 18731958Na obra Principia Ethica, George Edward Moore (1873 – 1958) demonstrou a constância de uma “falácia naturalista” na filosofia moral:  a pretensão de analisar e de definir o “bem”, um termo abstrato, claramente inanalisável e indefinível.

Moore, professor em Cambridge, mostrou que o “estupor filosófico”, não estava dirigido ao mundo, mas a filosofia mesma. Frases incômodas como:  “cada coisa é aquilo que é, e nada mais”, marcaram o pensamento analítico, então nascente. Questionamentos do tipo: “se o tempo não existe, como sustentam, como posso dizer que almocei antes do jantar?”, conduziram a filosofia não para um retorno ao realismo, como muitos temiam, mas ao mundo real. (mais…)

Trabalho & Tecnologia: questões éticas.

Trabalho & Ética.

As discussões éticas associadas à relação entre trabalho e tecnologia podem ser distribuídas em cinco grandes grupos: o da supressão de postos de trabalho, o da exclusão econômica, o da obsolescência dos conhecimentos, o da instrumentalização dos seres humanos e o da sujeição disciplinar.

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Fontes da filosofia moral: Henry Sidgwick.

Ética & Filosofia.

Na obra Os métodos da ética, de Henry Sidgwick (1838; 1900), figuram duas constatações que informam a filosofia moral contemporânea:

1. os procedimentos racionais de determinação do justo, e o julgado habitualmente correto são heterogêneos;

2. a busca da felicidade própria e a busca da felicidade alheia, as duas fontes tradicionais da moral, não convergem naturalmente. (mais…)

Dejours: preconceito e produtividade.

Ética & Credibilidade.

Desde a era dos engenheiros (Taylor, Ford, Toyota) tem-se a estupidez como atributo do trabalhador que executa tarefas. Insiste-se sobre a necessidade de adestrar à exaustão e sobre a imposição de controles aos supostamente ineptos.

Christophe Dejours, psiquiatra e psicanalista; fundador da disciplina “Psicodinâmica do Trabalho”, mostrou que isto é mera superstição. Como os preconceitos derivados das diferenças visíveis – cor da pele, aspecto físico, sexualidade – o preconceito intelectual é uma crendice nefasta para a economia, para a sociedade e, claro, para a existência humana. (mais…)

A ética de si – orientação moral em uma sociedade mutante.

Ética & Credibilidade.

robotsDiversas perspectivas – como as de Sartre[1], de Cavell[2] e de Foucault[3] –  postulam o auto aperfeiçoamento moral como caminho de ajustamento às situações e significados no mundo contemporâneo.

Conciliadas sob a denominação genérica de “éticas de si”[4], estas formas de ver são desdobramentos da proposição de Heidegger[5], da responsabilidade que temos sobre a nossa própria existência.

O seu ponto de partida é a constatação da inevitabilidade da perda dos valores referenciais. O deslocamento do padrão moral como algo que ocorreu e que continuará ocorrendo aceleradamente face à metamorfose das instituições sociais, econômicas, políticas. (mais…)

Ocasionalismo – o que é?

Ética & Credibilidade.

ocasionalismoOrigem

O termo deriva do latim occidere, cair, como o cair do sol (o ocaso), o lugar onde o sol se põe (o Ocidente), o que recai conforme a circunstância (o caso) ou a oportunidade (a cadência).

O ocasionalismo é uma concepção do filósofo francês Nicolas de Malebranche (Paris; 1638-1715), décimo terceiro filho do conselheiro de Luiz XV, rei de França.

Destinado ao sacerdócio, sem para isto ter vocação, Malebranche dedicou-se aos estudos eclesiásticos de má vontade. (mais…)

Orwell e o crepúsculo do estamento impudente.

Ética & Credibilidade.

George Orwell photo portraitEm 25 de junho de 1903, há 113 anos, nascia em Motihari, Índia, Eric Arthur Blair.

Aventureiro, militante socialista, escritor e ensaísta, Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, foi uma pessoa singular. Viveu o que pregou e pregou o que viveu.

Filho de uma família da elite da era vitoriana estudou em Eton. Para entender e escrever sobre as classes mais pobres, morou em favelas, trabalhou como operário e como mineiro. Viu de perto, como policial em Burma e como soldado na guerra civil espanhola, o descaso com os miseráveis e a derrota dos ideais mais nobres. (mais…)

Emprego e emancipação.

Ética & Credibilidade

hegel copyA fórmula jurídica que regia a aquisição de um escravo na Roma dos césares – a mancipatio (literalmente, “agarrar com as mãos”) – continha a seguinte declaração capital:

Afirmo que este escravo é de minha propriedade, de acordo com o direito quiritário (dos patrícios romanos) e que foi comprado mediante cobre pesado”.

Os sistemas atuais de contratação não diferem ideologicamente da mancipatio.

Deveres como os de cumprir horários, conduzir-se socialmente de determinada maneira, executar tarefas sabidamente inúteis limitam a liberdade do trabalhador.

Obrigações como a do vínculo e imposição sindical e das férias em períodos não desejados são francamente tutelares.

Artifícios como o do 13º salário e o das contribuições compulsórias para a aposentadoria, seja pela retenção de direitos até uma data que pode não ser a da conveniência do empregado, seja pela expropriação sem retorno ou alternativa de seus rendimentos, servem mais para financiar as instituições e o capital que se apropria (torna sua a propriedade) do direito sobre as escolhas vitais do trabalhador.

Ao equalizarem deveres de servidão a regras castradoras de liberdade as formas jurídicas que regulam os vínculos empregatícios lançam a mão sobre a autarkéia, o direito do trabalhador de definir sua vida e seu destino. Pertencem à esfera da mancipatio, não do seu contrário, a emancipação.

 

utilize

Burckhardt, Martin (2011) Pequena história das grandes ideias; como a filosofia inventou o nosso mundo; Tradução de Petê Rissatti; Rio de Janeiro; Tinta Negra Bazar Editorial. Pg. 54

Entre contemplação e indolência

Trabalho & Produtividade

The Woman with the Stylus - Pompeii, Italy Roman

Na Antiguidade grega o trabalho, ou, mais propriamente, a necessidade de trabalhar era julgada indutora de indignidade.

Para os antigos, o que conferia humanidade era o raciocínio especulativo, a contemplātĭo. A contemplação ou, em grego, theoria [théa (através) + horós (ver)], era considerada o mais alto grau de conhecimento que se pode atingir, a conjunção da ciência e da sabedoria.

A contemplação não deve ser confundida com a elevação mística ou com a beatitude. Nem são seus objetos as coisas úteis, temporárias e contingentes. Os objetos do raciocínio especulativo são as coisas abstratas, imateriais, perenes. Objetos como os números, as designações, a figuras geométricas e, acima de tudo, os atributos imutáveis, necessários e eternos: os elementos da metafísica, da gnosiologia, da ética. A contemplação tem valor nela mesma. Não é um meio para atingir objetivos. É a reflexão que se destina exclusivamente a descobrir a verdade, único fim que realiza plenamente o ser humano.

Esta forma de ver pouco se alterou na Antiguidade romana. Sêneca criticou as vidas dissipadas na busca da riqueza, da glória e do poder. Argumentou, realisticamente, que se as necessidades materiais nos impedem de sermos contemplativos, não há razão que nos impeça de compensar a indignidade do trabalho com a sabedoria. Por que, perguntou, não organizarmos a vida para o máximo de tempo e dedicação ao conhecimento? (Da brevidade da vida).

Marca a forma de ver dos romanos a distinção de Sêneca entre dois tipos de conduta: a dos occŭpāti, os que trabalham e negociam na busca de bens sobre os quais jamais refletem, e a dos ōtĭōsi, que administram a sua vida com equilíbrio e sabedoria.

Os occŭpāti se agitam, sacrificam sua individualidade, formam laços (redes) de dependência uns em relação aos outros, conformam-se em serem elos, em não serem. Quando despertam para vida, quando e se acumulam as condições materiais para começar a viver, a vida já está no fim. A biologia e o intelecto decadentes já os impedem de fruí-la. “Jazem no seu leito, em plena solidão”. Descansam interinamente a espera do repouso definitivo.

O oposto dos occŭpāti são os ōtĭōsi, que não são os indolentes (pĭgĕr), mas os que têm controle da sua existência, os que se isolam da multidão e da vida laboral. Os ōtĭōsi dedicam o tempo que podem ao exame da própria consciência, ao estudo do mundo, aos exercícios espirituais e físicos, à prática das virtudes (excelências) e ao lazer. O ōtĭum, na acepção romana, não é a inatividade preguiçosa e estéril (dēsĭdĭa), mas a construção e a reconstrução de si e da relação com o mundo circundante.

Ao final da Antiguidade, a Igreja, ávida de dominação e fausto, matou a contemplātĭo e o ōtĭum. Santo Agostinho e as ordens monásticas deram o golpe de misericórdia no primeiro humanismo ao imporem a substituição da contemplação pela prece e do ócio pelo labor.

O crime é antigo, já prescrito, mas é importante recordá-lo para advertir que inexiste fundamento lógico ou argumento moral que impeça os que puderem de se voltar à contemplação e ao ócio, mesmo que, infelizmente, a maioria ainda deva sofrer o cativeiro do trabalho decorrente da necessidade material, mesmo que a minoria sobrante tenha que padecer sob a repreensão da moralidade arcaica da cristandade, que persiste na impostura de identificar a fruição da vida com a indolência.

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Seneca (sd). The complete works of Seneca, the younger, Kindle – Delphi Classics. On the shortness of life.

O que é um valor?

Perplexidades & Filosofia

Conceitos & DefiniçõesValor é um bem subjetivo. Tanto no sentido abstrato, de ter valor, como no sentido concreto, de ser um valor, o termo designa um atributo das coisas que consiste em merecerem mais ou menos estima por um individuo ou por um grupo (serem desejadas), ou que consiste em satisfazerem certo fim ou interesse (serem úteis).

O valor não tem substância. É um objeto autônomo das realidades existentes. Não se pode ver o belo, mas podemos qualificar uma coisa de bela, ou de nociva, ou de boa, ou de cara …

O termo ‘valor’ tem origem econômica nos mercados da Grécia arcaica. A palavra grega para valor – áksios,a,on, – conota o bem, tangível ou não, que merece o preço que se paga por ele. A partir da Antiguidade, o conceito de valor percorre um longo caminho. Para os sofistas era uma apreciação relativa, expressa no dito de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Já Platão – contra a concepção dos sofistas de que os valores são conferidos pelos homens – sustentou que o valor deriva de uma apreciação absoluta. Tem valor o que é – em si – bom, belo, justo e verdadeiro.

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Conceito: oblomovismo

CATEGORIA TR

 

oblomo_ivan_gontcharovDe Oblómov, um mito literário russo, personagem do romance de Ivan Gontcharóv, publicado em 1859, que retrata o inativo preguiçoso e sonhador.

O livro foi exaltado por Tolstói e por Dostoiévski. Originou o termo oblomovismo (inglês oblomovism, francês, oblomovisme), uma maneira eslava de ser, de pensar, de imaginar, de esperar, de viver a passagem das estações.

Oblómov, um herdeiro de terras, deixa passar o tempo em um estado de resignação onírica. Ao longo dos dias, vai da cama para o sofá e volta. Jamais cogita em trabalhar. À questão de Hamlet, “ser ou não ser?”, responde com um enfático “não”.

Oblomov é explorado, traído, despojado de tudo que possuía. Perde inclusive a mulher amada e a saúde. Mas não age. Nunca reage. Letárgico, consome apenas o necessário para continuar vivo. Bondoso, aceita tranquilamente o destino. Ao cabo, tem uma morte, poética, como tinha sido a sua vida. Uma vida tranquila e feliz.

Por que não?


 

Gontcharóv Ivan (2014). Oblómov. Tradução e apresentação de Rubens Figueiredo. São Paulo. Cosac

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Metamorfose e trabalho

CATEGORIA PT

kafka1Há tempos se fala e se escreve sobre a metamorfose do trabalho. Metamorfose, (gr. metamórphósis,eós), no sentido de Kafka significa uma mutação: de homem a inseto. No sentido clássico de Ovídio, significa os renascimentos incessantes, mas sob forma diversa, como no budismo.

O que provoca uma metamorfose é o evento estrutural. A inclusão (o nascimento, a instauração, …), a exclusão (a morte, a falência, ….) ou o deslocamento radical (a mutação, a passagem do eixo da vida para o eixo da economia, …) de um ou mais elementos axiais da estrutura pregressa.

As metamorfoses podem ser induzidas. Antes de Ésquilo, os dramas não passavam de recitativos. Tespis foi o primeiro a introduzir um hipócrita, [gr. hupokritês,oû, o que dá uma resposta] um ator que representava um personagem e que se colocava em uma plataforma acima da orquestra. Elevado sobre seu coturno, o hipócrita, vestido de negro ou de púrpura e portando uma máscara – indicadora do seu humor e simultaneamente amplificadora – compartilhava a cena com os doze corifeus.

Foi Ésquilo, conforme se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles[i], quem introduziu um segundo ator, e com ele o diálogo. O teatro grego teve outras mutações, mas a metamorfose introduzida por Ésquilo, do hipócrita feito protagonista [gr. prôtos, primeiro + agónistês, lutador], e do segundo ator, o antagonista, transformou o simples recitativo em arte dramática.

Não parece que uma metamorfose do trabalho esteja próxima. Para que tivesse realidade, dependeria de mudanças estruturais radicais seja da forma de valorar – a troca do tempo pela qualidade – seja do vínculo preponderante – a tônica do emprego substituída pela do profissionalismo – seja do conteúdo – o foco deslocado da reprodutividade para a autoria.

[i] Aristóteles (1974). Obras, São Paulo, Abril Editorial e Cultural

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Avatares do trabalho

CATEGORIA PT

VishnuHá décadas fala-se sobre o fim do trabalho e o trabalho não desaparece. O que desapareceu foram as certezas. Muito do que se tinha por certo sobre o trabalho e o trabalhador mostrou-se falso, irrelevante. O que desapareceu foram os avatares de uma abstração hipostasiada.

No campo das ciências humana e sociais persiste a recusa em aceitar o fato de que o determinismo, seja na forma natural do destino biológico, seja na forma espiritual de vocação histórica, é falso. A ideia de que a vida é uma tarefa a realizar e a ideia de que a vida é uma resultante dialética inevitável são suposições improváveis, no duplo sentido de que são meras especulações e de que não podem ser provadas.

A consequência destas idealizações infundadas é o acúmulo de estatísticas e de experimentos versando sobre o inexistente. O afã de superar a incerteza e a ignorância sobre a atividade laboral redundou em um quadro fantasmagórico de codificações restritas (trabalho=emprego), viciadas (trabalho=ocupação), formalistas (trabalho=registro legal) infundadas (trabalho=destino manifesto), ou simplesmente absurdas (trabalho=necessidade natural).

 

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