Perplexidades & Filosofia

Hi-tech (3)

Almanaque.

Tecnologia de ponta (3).

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Heidegger – Convívio & Convivência.

Perplexidades.

O termo “convívio denota a circunstância. O termo “convivência” alude a uma conquista. O convívio é uma formalidade, uma situação em que as pessoas se encontram. Como quando nos referimos ao convívio familiar. A convivência é uma escolha, como na convivência pacífica. O convívio (lat. – convívi,is,vixi,victum,ère, viver com), não pressupõe animosidade latente. A convivência (lat. convivìum,ìi, participação em banquete), corresponde a situações em que um embate é potencial.

Alex Alemany

É esta distinção que Heidegger assinala em Ser e Tempo. Queiramos ou não, diz ele, os outros fazem parte da nossa vida. Mesmo o estar só designa uma ausência: é estar sem os outros. Nunca estamos sós. Os outros estão nas nossas memórias, nos nossos projetos, no nosso trabalho. (mais…)

Efeitos das profecias autorrealizadas.

Trabalho.

https://i2.wp.com/seattlestravels.com/wp-content/uploads/2014/05/182.jpgA cristandade admite três carismas: a faculdade de sarar, a glossolalia e a profecia. Na Epístola aos Romanos (12, 6), São Paulo ressalva que essas graças (gr. khárisma,atos) de Deus devem ser exercidas em analogia e similitude da fé. Vale dizer, que são excluídos, in limine, do poder de restabelecer a sanidade, da capacidade de falar em língua desconhecida e do vaticínio carismático aqueles que não estão de acordo com a crenças cristã e com a interpretação eclesiástica.

Esta advertência tem duas implicações: i) as mudanças no posicionamento teológico invalidam retroativamente as curas, os discursos e as profecias; e, ii) as verdades históricas, como por exemplo, as relativas aos milagres, podem ser contestadas a qualquer momento. (mais…)

Pensar em chinês.

Perplexidades.

Do que se depreende das rodadas de discussões sobre a economia internacional, é possível que a China venha a reduzir drasticamente a sua atividade econômica.

Alguns analistas duvidam desta possibilidade, uma vez que esta redução poderia gerar desemprego. Mas não é assim que pensam os chineses. Por duas razões. A primeira é cultural. O valor que emprestam aos vínculos empregatícios e ao trabalho em si mesmo é diferente da nossa forma de ver. A segunda é da esfera interna da sua economia. Com a população jovem encolhendo e a população de idosos crescendo, em breve pode haver mais empregos do que candidatos a emprego. Daí o fim da política de filho único e de outras iniciativas congêneres. Mas todas levarão longos anos chineses para surtir algum efeito. (mais…)

A miséria do aprendiz.

Perplexidades & Filosofia.

Dentre os relatos que constam nas Misères des apprentis imprimeurs en vers burlesques, publicado em Paris, no ano de 1710, o mais interessante é o das libertinagens da mulher do Mestre Impressor, que, apenas caída a noite, atraia à sua alcova os aprendizes para uma esbórnia desenfreada.

As misères são relatos do século XVIII. Narram a pouca comida, o ambiente insalubre, a falta de sono nas casas de ofício. Incluem caricaturas e obscenidades, como a da mulher do Mestre.

Em todas as épocas as misères prenunciam o fim de uma forma de organização do trabalho que já não se sustenta nem econômica nem moralmente.

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Repouso.

Trabalho & Filosofia.

No ano de 1885, em Roma, as escavações no monte Quirinal trouxeram à luz um bronze representando um pugilista.

Remanescente dos Banhos de Constantino, a obra é incrivelmente bem realizada. Os detalhes: a proteção das mãos e das genitais, a orelha, o dorso e a face com sinais das feridas, o nariz quebrado combinam perfeitamente com a expressão exausta de um lutador que aguarda pelo seu retorno à arena.

Exposta no Museo Nacionalle Romano – Palazzo Massimo, a estátua data, provavelmente, do primeiro século ac. O estado de preservação se deve a ter sido cuidadosamente enterrada, talvez como rito propiciatório, talvez para poupá-la quando os Godos, que atacavam Roma, destruíram o aqueduto que alimentava os Banhos. (mais…)

Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? (mais…)

Fontes da filosofia moral: Max Scheler

Ética & Filosofia

Max Ferdinand Scheler (1874, Munique – 1928, Frankfurt) procurou corrigir as antigas e frágeis concepções do bem e do dever. No processo, construiu uma teoria universal dos valores e das normas.

Legou à reflexão moral contemporânea as ideias: i) de que a questão da ética é subordinada à dos valores em geral e, ii) de que os valores podem ser objeto de uma intuição imediata, oferecida pela via da emoção. (mais…)

Podres poderes bizantinos.

Perplexidades & Filosofia.

Os paralelos históricos são descabidos e ilegítimos, mas não deixam de ser ilustrativos.

No declínio do Império Bizantino a estrutura burocrática se estilhaçou. Os postos oficiais se tornaram honoríficos. Os cargos caíram na escala de precedência. Novos títulos foram criados no topo da hierarquia.  Meia dezena de autocratas basileus e pelo menos nove césares chegaram a coexistir.

O costume e as normas bloquearam as demissões. Todo homem válido desempregado era encarregado de tarefas anódinas, sob ordem de questores. O moral dos soldados-policiais era mantido pelo relato de vitórias imaginárias.

Os poderosos se cercaram de eunucos, que, por lei, não podiam assumir poderes. A contestação, como a da heresia Bogomil, que desaprovava o trabalho e a procriação e adotara o princípio da resistência passiva, era simplesmente aniquilada.

O Império ruiu não devido à indolência, mas devido à profusão burocrática. Não foi a carência, mas a saturação de poderes que encerrou mil anos de história.

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Runciman, Steven (1966). Byzantine Civilization. London. Methen & Co. Ltd.

Fontes de filosofia moral: G.E. Moore.

Ética & Filosofia.

Edward George Moore BBC Your Paintings George Edward Moore 18731958Na obra Principia Ethica, George Edward Moore (1873 – 1958) demonstrou a constância de uma “falácia naturalista” na filosofia moral:  a pretensão de analisar e de definir o “bem”, um termo abstrato, claramente inanalisável e indefinível.

Moore, professor em Cambridge, mostrou que o “estupor filosófico”, não estava dirigido ao mundo, mas a filosofia mesma. Frases incômodas como:  “cada coisa é aquilo que é, e nada mais”, marcaram o pensamento analítico, então nascente. Questionamentos do tipo: “se o tempo não existe, como sustentam, como posso dizer que almocei antes do jantar?”, conduziram a filosofia não para um retorno ao realismo, como muitos temiam, mas ao mundo real. (mais…)

O tempo do kronos, o esquecimento do kairós.

Perplexidades & Filosofia.

Roman Galley Color by joaoMachayEm 24 de junho de 1812, quando a Grande Armée atravessou o rio Niemen e marchou Lituânia adentro, Napoleão tinha as razões e os meios para crer que venceria rapidamente a Campagne de Russie. Estava errado. Passados seis meses, seus exércitos e sua carreira congelavam no inverno de Moscou.

Napoleão nunca se perdoou. (mais…)

Fontes da filosofia moral: Henry Sidgwick.

Ética & Filosofia.

Na obra Os métodos da ética, de Henry Sidgwick (1838; 1900), figuram duas constatações que informam a filosofia moral contemporânea:

1. os procedimentos racionais de determinação do justo, e o julgado habitualmente correto são heterogêneos;

2. a busca da felicidade própria e a busca da felicidade alheia, as duas fontes tradicionais da moral, não convergem naturalmente. (mais…)

Mobilização mesmérica.

Perplexidades & Filosofia.

Franz MesmerO suábio Franz Anton Mesmer, aliás Friedrich Mesmer, aliás Franz Mesmer (1734-1815), médico, advogado, músico, charlatão e psicólogo brilhante foi o criador da teoria do magnetismo animal e da pajelança conhecida como mesmerização.

Estudioso do histerismo, Mesmer casou com uma rica herdeira détraquée, Maria Anna von Bosch, o que lhe permitiu transferir-se para Paris. Instalado, passou a curar pessoas mediante a liquefação do fluido sutil que, como se sabe (ou não se sabe), corre em todos os corpos humanos. A fluidificação, segundo Mesmer, permitiria corrigir as enfermidades decorrentes da interrupção das correntes do imponderável líquido. Para tanto seria requerida e suficiente a excitação dos polos magnéticos dos pacientes em crise, onde quer que tais polos se localizassem. (mais…)

Bergson – a involução pelo trabalho.

Perplexidades & Filosofia.

bergsonAs superstições genéricas sobre o valor do trabalho não sobrevivem à análise criteriosa de Henri Bergson (Paris, 1859-1941).

O cotejo das dicotomias razão & intuição e tempo & duração, que o filósofo da evolução criadora realizou com disciplina irretorquível, confere às modalidades de trabalho valores evolutivos distintos, às vezes de sinais contrários. (mais…)

Kierkegaard – A decisão na vida real.

Perplexidades & Filosofia.

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IMAGEM: Manoj Sharma

O termo dēcidere significa cortar fora (dē + caedere). Uma decisão cinde o pensar e agir. As teorias de decisão e de escolha racional costumam ignorar tanto o antecedente como o consequente desta cisão. Não levam em conta que o ato decisório ocupa um interstício entre o refletir e o agir.

Quem primeiro, ou quem melhor chamou a atenção para isto foi o filósofo existencialista Søren Kierkegaard (Copenhague; 1823-1855). Disse ele que, no mundo concreto da existência, sempre estamos em situação de sermos obrigados à reflexão antes de decidir o que queremos ser e o que devemos fazer. (mais…)

Boécio – Consolação do trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia.

boecio

Ancius Maulius Torquatus Severinus Boecius, ou, simplesmente, Boécio (Roma, 480; Pavia, 526), considerado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos, foi poeta, matemático, músico e filósofo. Deixou uma obra que tem sido o esteio dos inconsolados e o alento dos inconsoláveis.

Acusado de trair o imperador Teodorico, rei dos Ostrogodos, em favor de Justino I, imperador do Oriente, Boécio foi condenado ao suplício e à morte. Enquanto aguardava as idas e vindas dos pedidos de revisão e das súplicas por clemência, escreveu a Consolação da Filosofia (1998), um diálogo a modo platônico, redigido em cinco livros, em prosa e em verso.

A trama é simples: a Filosofia, travestida de uma Nobre Dama, discute com Boécio sobre a vida e o destino que o aguarda. As alegações são as de que a verdadeira felicidade não depende das circunstâncias biográficas, mas da Providência divina, de que os bens materiais e a gloria pessoal de nada valem e de que só a bondade eleva o homem.

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Efeméride.

Perplexidades & Filosofia.

hegelEm Stuttgart, neste dia 27 de agosto, mas de 1770, nascia Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

O ano de 2016 marca o bicentenário do seu ingresso como professor em Heidelberg. Hegel tinha 46 anos e já havia publicado a Fenomenologia do Espírito e a Ciência da Lógica.

As datas devem ser comemoradas com discrição e recato.

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O executivo e o conatus de Spinoza.

Perplexidades & Filosofia.

O executivo contemporâneo, premido pela competitividade impositiva, vê-se constrangido a anular sua identidade na tentativa de ser mais do que o outro, de ocupar um lugar ao sol no lúgubre pináculo corporativo.

Dente da engrenagem desatinada em que as metas são ditadas unicamente pelos interesses menores de poder (liderança), de riqueza (salários e bônus), de status (a duvidosa respeitabilidade dos bem sucedidos), vê-se impelido a defraudar o tempo e o estatuto da introspeção. (mais…)

Kant: trabalho criativo ou vazio existencial

Perplexidades & Filosofia.

kantNa Antropologia (2006), Kant deixou escrito que a partir do momento em que tomamos consciência do tempo que passa sobrevém o horror ao vácuo (horror vacui), a sensação da morte lenta, da vida que se esvai.

É o sentimento de vacuidade que nos faz procurar as diversões, os prazeres, os passatempos, os jogos, a sociabilidade inócua. Mas logo nos damos conta que o desperdício do tempo vital não o substitui.  O ser humano preenche sua vida através de ações e não através de distrações. No lazer, na ociosidade, experimentamos uma “falta de vida”. (mais…)