Perplexidades & Filosofia

Efeitos das profecias autorrealizadas.

Trabalho.

https://i2.wp.com/seattlestravels.com/wp-content/uploads/2014/05/182.jpgA cristandade admite três carismas: a faculdade de sarar, a glossolalia e a profecia. Na Epístola aos Romanos (12, 6), São Paulo ressalva que essas graças (gr. khárisma,atos) de Deus devem ser exercidas em analogia e similitude da fé. Vale dizer, que são excluídos, in limine, do poder de restabelecer a sanidade, da capacidade de falar em língua desconhecida e do vaticínio carismático aqueles que não estão de acordo com a crenças cristã e com a interpretação eclesiástica.

Esta advertência tem duas implicações: i) as mudanças no posicionamento teológico invalidam retroativamente as curas, os discursos e as profecias; e, ii) as verdades históricas, como por exemplo, as relativas aos milagres, podem ser contestadas a qualquer momento. (mais…)

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Pensar em chinês.

Perplexidades.

Do que se depreende das rodadas de discussões sobre a economia internacional, é possível que a China venha a reduzir drasticamente a sua atividade econômica.

Alguns analistas duvidam desta possibilidade, uma vez que esta redução poderia gerar desemprego. Mas não é assim que pensam os chineses. Por duas razões. A primeira é cultural. O valor que emprestam aos vínculos empregatícios e ao trabalho em si mesmo é diferente da nossa forma de ver. A segunda é da esfera interna da sua economia. Com a população jovem encolhendo e a população de idosos crescendo, em breve pode haver mais empregos do que candidatos a emprego. Daí o fim da política de filho único e de outras iniciativas congêneres. Mas todas levarão longos anos chineses para surtir algum efeito. (mais…)

A miséria do aprendiz.

Perplexidades & Filosofia.

Dentre os relatos que constam nas Misères des apprentis imprimeurs en vers burlesques, publicado em Paris, no ano de 1710, o mais interessante é o das libertinagens da mulher do Mestre Impressor, que, apenas caída a noite, atraia à sua alcova os aprendizes para uma esbórnia desenfreada.

As misères são relatos do século XVIII. Narram a pouca comida, o ambiente insalubre, a falta de sono nas casas de ofício. Incluem caricaturas e obscenidades, como a da mulher do Mestre.

Em todas as épocas as misères prenunciam o fim de uma forma de organização do trabalho que já não se sustenta nem econômica nem moralmente.

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Repouso.

Trabalho & Filosofia.

No ano de 1885, em Roma, as escavações no monte Quirinal trouxeram à luz um bronze representando um pugilista.

Remanescente dos Banhos de Constantino, a obra é incrivelmente bem realizada. Os detalhes: a proteção das mãos e das genitais, a orelha, o dorso e a face com sinais das feridas, o nariz quebrado combinam perfeitamente com a expressão exausta de um lutador que aguarda pelo seu retorno à arena.

Exposta no Museo Nacionalle Romano – Palazzo Massimo, a estátua data, provavelmente, do primeiro século ac. O estado de preservação se deve a ter sido cuidadosamente enterrada, talvez como rito propiciatório, talvez para poupá-la quando os Godos, que atacavam Roma, destruíram o aqueduto que alimentava os Banhos. (mais…)

Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? (mais…)

Fontes da filosofia moral: Max Scheler

Ética & Filosofia

Max Ferdinand Scheler (1874, Munique – 1928, Frankfurt) procurou corrigir as antigas e frágeis concepções do bem e do dever. No processo, construiu uma teoria universal dos valores e das normas.

Legou à reflexão moral contemporânea as ideias: i) de que a questão da ética é subordinada à dos valores em geral e, ii) de que os valores podem ser objeto de uma intuição imediata, oferecida pela via da emoção. (mais…)

Podres poderes bizantinos.

Perplexidades & Filosofia.

Os paralelos históricos são descabidos e ilegítimos, mas não deixam de ser ilustrativos.

No declínio do Império Bizantino a estrutura burocrática se estilhaçou. Os postos oficiais se tornaram honoríficos. Os cargos caíram na escala de precedência. Novos títulos foram criados no topo da hierarquia.  Meia dezena de autocratas basileus e pelo menos nove césares chegaram a coexistir.

O costume e as normas bloquearam as demissões. Todo homem válido desempregado era encarregado de tarefas anódinas, sob ordem de questores. O moral dos soldados-policiais era mantido pelo relato de vitórias imaginárias.

Os poderosos se cercaram de eunucos, que, por lei, não podiam assumir poderes. A contestação, como a da heresia Bogomil, que desaprovava o trabalho e a procriação e adotara o princípio da resistência passiva, era simplesmente aniquilada.

O Império ruiu não devido à indolência, mas devido à profusão burocrática. Não foi a carência, mas a saturação de poderes que encerrou mil anos de história.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Runciman, Steven (1966). Byzantine Civilization. London. Methen & Co. Ltd.

Fontes de filosofia moral: G.E. Moore.

Ética & Filosofia.

Edward George Moore BBC Your Paintings George Edward Moore 18731958Na obra Principia Ethica, George Edward Moore (1873 – 1958) demonstrou a constância de uma “falácia naturalista” na filosofia moral:  a pretensão de analisar e de definir o “bem”, um termo abstrato, claramente inanalisável e indefinível.

Moore, professor em Cambridge, mostrou que o “estupor filosófico”, não estava dirigido ao mundo, mas a filosofia mesma. Frases incômodas como:  “cada coisa é aquilo que é, e nada mais”, marcaram o pensamento analítico, então nascente. Questionamentos do tipo: “se o tempo não existe, como sustentam, como posso dizer que almocei antes do jantar?”, conduziram a filosofia não para um retorno ao realismo, como muitos temiam, mas ao mundo real. (mais…)

O tempo do kronos, o esquecimento do kairós.

Perplexidades & Filosofia.

Roman Galley Color by joaoMachayEm 24 de junho de 1812, quando a Grande Armée atravessou o rio Niemen e marchou Lituânia adentro, Napoleão tinha as razões e os meios para crer que venceria rapidamente a Campagne de Russie. Estava errado. Passados seis meses, seus exércitos e sua carreira congelavam no inverno de Moscou.

Napoleão nunca se perdoou. (mais…)

Fontes da filosofia moral: Henry Sidgwick.

Ética & Filosofia.

Na obra Os métodos da ética, de Henry Sidgwick (1838; 1900), figuram duas constatações que informam a filosofia moral contemporânea:

1. os procedimentos racionais de determinação do justo, e o julgado habitualmente correto são heterogêneos;

2. a busca da felicidade própria e a busca da felicidade alheia, as duas fontes tradicionais da moral, não convergem naturalmente. (mais…)

Mobilização mesmérica.

Perplexidades & Filosofia.

Franz MesmerO suábio Franz Anton Mesmer, aliás Friedrich Mesmer, aliás Franz Mesmer (1734-1815), médico, advogado, músico, charlatão e psicólogo brilhante foi o criador da teoria do magnetismo animal e da pajelança conhecida como mesmerização.

Estudioso do histerismo, Mesmer casou com uma rica herdeira détraquée, Maria Anna von Bosch, o que lhe permitiu transferir-se para Paris. Instalado, passou a curar pessoas mediante a liquefação do fluido sutil que, como se sabe (ou não se sabe), corre em todos os corpos humanos. A fluidificação, segundo Mesmer, permitiria corrigir as enfermidades decorrentes da interrupção das correntes do imponderável líquido. Para tanto seria requerida e suficiente a excitação dos polos magnéticos dos pacientes em crise, onde quer que tais polos se localizassem. (mais…)

Bergson – a involução pelo trabalho.

Perplexidades & Filosofia.

bergsonAs superstições genéricas sobre o valor do trabalho não sobrevivem à análise criteriosa de Henri Bergson (Paris, 1859-1941).

O cotejo das dicotomias razão & intuição e tempo & duração, que o filósofo da evolução criadora realizou com disciplina irretorquível, confere às modalidades de trabalho valores evolutivos distintos, às vezes de sinais contrários. (mais…)

Kierkegaard – A decisão na vida real.

Perplexidades & Filosofia.

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IMAGEM: Manoj Sharma

O termo dēcidere significa cortar fora (dē + caedere). Uma decisão cinde o pensar e agir. As teorias de decisão e de escolha racional costumam ignorar tanto o antecedente como o consequente desta cisão. Não levam em conta que o ato decisório ocupa um interstício entre o refletir e o agir.

Quem primeiro, ou quem melhor chamou a atenção para isto foi o filósofo existencialista Søren Kierkegaard (Copenhague; 1823-1855). Disse ele que, no mundo concreto da existência, sempre estamos em situação de sermos obrigados à reflexão antes de decidir o que queremos ser e o que devemos fazer. (mais…)

Boécio – Consolação do trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia.

boecio

Ancius Maulius Torquatus Severinus Boecius, ou, simplesmente, Boécio (Roma, 480; Pavia, 526), considerado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos, foi poeta, matemático, músico e filósofo. Deixou uma obra que tem sido o esteio dos inconsolados e o alento dos inconsoláveis.

Acusado de trair o imperador Teodorico, rei dos Ostrogodos, em favor de Justino I, imperador do Oriente, Boécio foi condenado ao suplício e à morte. Enquanto aguardava as idas e vindas dos pedidos de revisão e das súplicas por clemência, escreveu a Consolação da Filosofia (1998), um diálogo a modo platônico, redigido em cinco livros, em prosa e em verso.

A trama é simples: a Filosofia, travestida de uma Nobre Dama, discute com Boécio sobre a vida e o destino que o aguarda. As alegações são as de que a verdadeira felicidade não depende das circunstâncias biográficas, mas da Providência divina, de que os bens materiais e a gloria pessoal de nada valem e de que só a bondade eleva o homem.

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UTILIZE E CITE A FONTE.

Efeméride.

Perplexidades & Filosofia.

hegelEm Stuttgart, neste dia 27 de agosto, mas de 1770, nascia Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

O ano de 2016 marca o bicentenário do seu ingresso como professor em Heidelberg. Hegel tinha 46 anos e já havia publicado a Fenomenologia do Espírito e a Ciência da Lógica.

As datas devem ser comemoradas com discrição e recato.

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O executivo e o conatus de Spinoza.

Perplexidades & Filosofia.

O executivo contemporâneo, premido pela competitividade impositiva, vê-se constrangido a anular sua identidade na tentativa de ser mais do que o outro, de ocupar um lugar ao sol no lúgubre pináculo corporativo.

Dente da engrenagem desatinada em que as metas são ditadas unicamente pelos interesses menores de poder (liderança), de riqueza (salários e bônus), de status (a duvidosa respeitabilidade dos bem sucedidos), vê-se impelido a defraudar o tempo e o estatuto da introspeção. (mais…)

Kant: trabalho criativo ou vazio existencial

Perplexidades & Filosofia.

kantNa Antropologia (2006), Kant deixou escrito que a partir do momento em que tomamos consciência do tempo que passa sobrevém o horror ao vácuo (horror vacui), a sensação da morte lenta, da vida que se esvai.

É o sentimento de vacuidade que nos faz procurar as diversões, os prazeres, os passatempos, os jogos, a sociabilidade inócua. Mas logo nos damos conta que o desperdício do tempo vital não o substitui.  O ser humano preenche sua vida através de ações e não através de distrações. No lazer, na ociosidade, experimentamos uma “falta de vida”. (mais…)

O que é uma instituição?

Perplexidades & Filosofia

humor de arquitectura

Etimologicamente, o termo “instituição” refere a algo instituído (in+stäre), isto é, fixado, estabelecido ou instaurado.

Nas ciências sócio-humanas a palavra “instituição” denomina as estruturas, crenças ou formas de conduta consagradas pela coletividade.

Durkheim (e a sociologia depois dele) explicou que os indivíduos integram uma realidade composta de instituições preexistentes a eles. De forma que as pessoas insertas em uma sociedade devem compreender suas instituições, mesmo que de algum modo as rejeitem.

Esta compreensão está longe de ser pacífica. O conceito de instituição, que parece claro e indubitável é, no entanto, ambíguo.

Ambiguidade

Os entendimentos etimológico e sociológico primários de “instituição” têm sido objeto de severos reparos ao longo dos dois últimos séculos. Não por acaso, já que o termo é francamente equívoco. Ao denotar uma estrutura normativa que define as relações de um segmento da sociedade, abarca entidades díspares, como a família, o governo, a escola, a Igreja, um banco, etc.

O conceito corresponde a cortes diferentes do social: um referido à forma outro ao conteúdo.

De uma parte exprime um padrão organizado de condutas ou de atividades (estabelecido por lei ou costume) consistente, autorregulado e recorrente (Huntington), regido por normas reconhecidas e aceitas por uma comunidade (Weber). São exemplos deste significado os institutos políticos – que regulam as formas de se alcançar e de se exercer o poder -, a família e o que é considerado uma família, as entidades econômicas – que regulam a produção e distribuição de bens e serviços -, e assim por diante

De outra parte, o termo “instituição” refere ao estabelecimento, fundação ou organização criada para promover um determinado tipo de empreendimento. São exemplos deste significado as organizações bancárias, as universidades, a instituição militar, etc.

Desambiguação

A mais aceita desambiguação do conceito é a oferecida pelo filósofo lógico John Searle, que define uma instituição como: um sistema de regras constitutivas (procedimentos, práticas) aceito coletivamente que nos permitem criar fatos institucionais.

A definição de Searle incorpora as ideias tradicionais de Durkheim, de Huntington e de Weber. É restrita bastante para determinar os limites do que se pode denominar instituição e ampla o suficiente para abarcar as duas acepções – formal e de conteúdo – do termo.

O conceito assim definido remete a três elementos essenciais:

  • as regras constituintes,
  • os fatos institucionais,
  • a função de status, e
  • os poderes deônticos.

Elementos de significado

Estes elementos se articulam da seguinte forma: as regras de constituição compreendem a geração de um fato institucional como uma atribuição coletiva de uma função de status. O ponto característico da função de status é a geração de poderes deônticos, isto é de coisas que se pode e que não se pode fazer no contexto institucional (obrigações, permissões, interdições, etc.).

Estas “regras de constituição” têm a forma “X conta como (vale como – count as) Y em um contexto C”, onde um objeto, pessoa, ou estado de coisas X é atribuído um estatuto especial, o status Y, de modo que a pessoa ou o objeto possa executar funções que não poderia executar isoladamente, isto é, fora do contexto institucional.

“Fatos institucionais” são ocorrências próprias das instituições.  Os fatos institucionais derivam de “intencionalidades coletivas”.

Intencionalidade é um termo filosófico. Não tem a ver com a intenção, o ter um propósito deliberado. Designa a característica da mente de se dirigir para objetos e eventos. As esperanças, os medos, os desejos, as emoções em geral são intencionalidades. São sentimentos e emoções não deliberados em relação aos objetos.

“Intencionalidades coletivas” são intencionalidades compartilhadas por um grupo. As crenças, as esperanças, os medos, os desejos compartilhados são indicativos de um perfil institucional. As famílias, as confissões religiosas, as universidades, o sistema democrático, as forças armadas, a economia de mercado ou de controle centralizado são instituições porque, entre outras características, correspondem a intencionalidades coletivas determinadas, como no passado corresponderam a intencionalidades coletivas o duelo e a primazia dos nobres sobre as virgens.

A “atribuição de funções” é à capacidade de impor o emprego de objetos que não tem originalmente a função para o qual é empregado. Ferramentas ou, mais primitivamente, o uso de um tronco de árvore como assento, são atribuição de funções.

As atribuições de funções específicas de status são casos particulares em que o objeto ou a pessoa a quem é atribuída a função a desempenha unicamente em virtude da aceitação coletiva de que o objeto ou a pessoa tem o status necessário para desempenhá-la. Esta atribuição tem a forma X vale como Y no contexto C. Por exemplo, o movimento M no jogo de futebol conta como gol, isto é vale um ponto. Exemplos de atribuição de funções são o valor da moeda em um pais, o lugar da mulher em uma comunidade, a propriedade privada de um habitante da cidade, o cargo na polis grega, etc.

As intenções coletivas e as atribuições de funções de status geram e regulam “poderes deônticos”, isto é, direitos, deveres, obrigações, permissões, iniciações, requisitos, certificações, etc., reconhecidos e aceitos pela coletividade. Os poderes deônticos conformam a estrutura de poder institucional.

Circularmente, as regras constitutivas das instituições determinam funções de status reconhecidas e aceitas pela coletividade. Funções de status estas que são desempenhadas devido a este reconhecimento e aceitação.

Síntese

Para que um segmento do social possa ser considerado e criticado como uma instituição é necessário:

  1. Discriminar as crenças, as esperanças, os medos, os desejos, isto é, as intencionalidades coletivas próprias deste segmento social;
  2. Verificar a existência de atribuição de funções de status a pessoas ou a objetos específicos deste segmento social. Isto é, a existência de sistemas de valoração, de gradação, de hierarquização de pessoas e objetos que caracterizem o segmento;
  3. Especificar poderes deônticos (deveres, interdições, etc.) próprios do segmento em questão.

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Durkheim, Emile(1984)Règles de la méthode sociologique p. XXIII. http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/regles_methode/durkheim_regles_methode.pdf
Huntington, Samuel P. (1965). "Political Development and Political Decay" (PDF). World Politics 17 (3): 386–430. JSTOR 2009286
Searle, John R. (2005). What is an institution?. Journal of Institutional Economics; 1: 1, 1–22; The JOIE Foundation 2005 doi:10.1017/S1744137405000020.
Weber, Max Cf. Sheldon S. Wolin (1981). Max Weber: Legitimation, Method, and the Politics of Theory. Political Theory. Vol. 9, No. 3 (Aug., 1981), pp. 401-424

O habitante da baia.

Perplexidades & Filosofia

criatividade

As baias nos escritórios compartilhados carregam o destino milenar dos labirintos: o insulamento, as rotas angulares, os encontros importunos.

Os espaços divididos são avatares do extravio e da temida proximidade com o Outro. Por trás das divisórias, espreita o chefe-minotauro, o colega debochado, toda a alteridade kafkiana.

No início o inquilino do escritório se alarma com os ecos, com os odores, com os reflexos, com o que sente sem ver. Depois se habitua. Amortece a sensibilidade.

Encerrado no seu cubículo, o habitante da baia leva a existência como a leva o tigre enjaulado de Borges. Mas existe uma diferença.

O animal preso desconhece que está ali para sempre. Sereno, aguarda o passar dos dias. No labirinto, o assalariado, consciente da possibilidade de outro destino, conforma-se. Entorpece sua consciência.

O passar do tempo, o escoar da vida a revogará.

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