Trabalho & Produtividade

Mauss – A dívida e a dádiva

Trabalho.

O ano de 2001 passou. As odisseias interplanetárias não ocorreram. O ano 1020 da Federação Galáctica não  se sabe quando ocorrerá. Ambas as datas têm em comum o fato de que no irrealizado mundo de Arthur Clarke e na colossal trilogia “Fundação”, de Isaac Asimov, os personagens viveriam do seu trabalho.

Por que esta falta de imaginação? Por que a nossa fantasia não pode conceber um mundo em que o trabalho não exista?

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A prorrogação do emprego.

Trabalho & Produtividade.

Michael Sowa

Quando, duas décadas após sua partida para Tróia, Ulisses retornou à Itaca, poucos o reconheceram. No entanto, a sociedade, os hábitos, as tecnologias não haviam mudado. Passados três mil anos, o mesmo ocorreu com Edmond Dantès, o Conde de Monte-Cristo. 

A coincidência não é excepcional. O lento decorrer do tempo nestas ficções foi crível para as respectivas épocas. Para nós é difícil entender como a mutação das sociedades demorava. A aceleração veio com a guerra total, que animou a evolução científica. Veio com a técnica e com a tecnologia, que viraram de ponta-cabeça a vida social e as instituições. (mais…)

Repouso.

Trabalho & Filosofia.

No ano de 1885, em Roma, as escavações no monte Quirinal trouxeram à luz um bronze representando um pugilista.

Remanescente dos Banhos de Constantino, a obra é incrivelmente bem realizada. Os detalhes: a proteção das mãos e das genitais, a orelha, o dorso e a face com sinais das feridas, o nariz quebrado combinam perfeitamente com a expressão exausta de um lutador que aguarda pelo seu retorno à arena.

Exposta no Museo Nacionalle Romano – Palazzo Massimo, a estátua data, provavelmente, do primeiro século ac. O estado de preservação se deve a ter sido cuidadosamente enterrada, talvez como rito propiciatório, talvez para poupá-la quando os Godos, que atacavam Roma, destruíram o aqueduto que alimentava os Banhos. (mais…)

O servidor público em sua armadilha.

Trabalho & Ética.

Há uma insistência surda em culpar o servidor pela desmoralização dos sistemas de ingresso e acesso na administração pública. A finalidade é perversa. Fazer da vítima o algoz. A degradação moral que assistimos decorre da obsolescência dos ideais, da evolução dos esquemas de gestão, da ignorância sobre as mentalidades e da vilania dos governantes.

A ilusão de Hegel, que propôs a função pública como garante da universalidade do Estado, expirou se nunca ter vigido. A idealidade weberiana do profissionalismo, da formalidade e da impessoalidade foi rebaixada à retórica dos discursos de posse.
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Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? (mais…)

Derrida: trabalho & “différance”.

Trabalho & Epistemologia.

focus face optical illusionO termo  différance (um homófono à différence) foi cunhado por Jacques Derrida (1930, El-Biar, Argélia; 2004, Paris). Significa a resultante da operação de “fazer diferir”, na tripla acepção de distinguir, de postergar e de discordar.

A  différance não é um conceito, mas a forma de fazer surgir um conceito. A técnica consiste em expor a fragilidade dos atos de fala. Aplicado ao conceito “nação”, por exemplo, evidencia imediatamente a distância entre o entendimento de nação-política, daquele de nação-cultura. Do que se trata, afinal, quando dizemos, ou quando nos dizem “a nação espera que…”, a “nação está ameaçada por…”? (mais…)

A ferramenta de Thoureau

Trabalho & Produtividade.

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Há exatos 163 anos Henry David Thoureau (Massachussets 1817-1862), poeta, naturalista e filósofo trazia à luz sua autobiografia-manifesto: Walden ou a vida nos bosques [1854] (tradução Astrid Cabral; Lisboa; Edições Antígona, 2009).

Referência na luta pela autárkeia, a emancipação social ambicionada desde os filósofos da Academia e do Pórtico, Walden iria inspirar mobilizações abolicionistas e libertárias em todo o mundo. Proposições como “não peço imediatamente a destituição dos governos, mas exijo imediatamente um governo melhor” se encontram nas bases dos movimentos beat, hippie e dos atuais manifestantes, indignados e occupy.

Thoureau não poderia antecipar o que passaria um século e meio depois da sua morte. Não poderia prever a alienação hiperbólica provocada pela automação do trabalho. No entanto, deixou publicada – 13 anos antes do Capital de Marx – a lastimosa constatação de que já no seu tempo “as pessoas haviam se tornado ferramentas das suas ferramentas”. 

postado originalmente em 21/02/2014.
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Trabalho voluntário & Trabalho espontâneo.

Trabalho & Produtividade.

Os dicionários comuns costumam dar “voluntário” e “espontâneo” como sinônimos. Mas estes conceitos são antagônicos. Voluntário significa o que se pode optar por fazer ou não. Espontâneo é o que se faz sem intervenção da vontade. (mais…)

Trabalho & Tecnologia: questões éticas.

Trabalho & Ética.

As discussões éticas associadas à relação entre trabalho e tecnologia podem ser distribuídas em cinco grandes grupos: o da supressão de postos de trabalho, o da exclusão econômica, o da obsolescência dos conhecimentos, o da instrumentalização dos seres humanos e o da sujeição disciplinar.

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O Trabalho Inqualificável.

Trabalho & Produtividade.

Ao longo das últimas décadas, o nível de qualificação para o trabalho descreveu uma trajetória parabólica. Ao trabalho sem qualificações, majoritário nos esforços de produção até a primeira Grande Guerra, sucedeu o trabalho qualificado, do operário adestrado. Em meados do século passado, graças ao esforço qualificante da educação técnica, chegou-se ao ápice do enobrecimento do trabalho. Sobreveio, então, o declínio: a gradual padronização que pende para a degradação do trabalho meramente quantificado. (mais…)

Rousseau – O trabalho e a vontade geral.

Trabalho & Produtividade.

As chamadas conquistas trabalhistas atendem ao interesse comum? Não necessariamente, e cada vez menos.

Costuma-se definir o interesse comum como o somatório dos interesses particulares. Mas se entendermos que a vontade de cada um é a de viver sem ser obrigado a trabalhar, a soma das vontades particulares implicaria no banimento do trabalho, o que, certamente, não seria de interesse comum.

O diagnóstico da incongruência lógica é de Jean-Jacques Rousseau, quem, para resolvê-la, propôs a conciliação dos interesses particulares e dos interesses de todos com base no que denominou de “vontade geral”. (mais…)

O trabalho sem qualidades.

Trabalho & Produtividade.

O emblema de um produto artesanal como obra de arte é o saleiro fabricado para o rei da França, Francisco I, pelo pintor, escultor, escritor e multimídia florentino Benvenuto Cellini (1500 – 1571), cujos quinhentos e dezessete anos de nascimento se comemoram neste 3 de novembro.

A peça, de 26 x 33,5 cm, pode ser vista no Museu Kunsthistorisches de Viena. Consta de um pequeno barco onde se coloca o sal, rodeado pelas personagens mitológicas Cibele e Netuno, a deusa da terra e o deus do mar. Esferas de marfim incrustadas sob o pedestal permitem deslocar o saleiro na superfície da mesa. (mais…)

Santo Agostinho: o futuro do trabalho.

Trabalho & Produtividade.

Foto: Santo Agostinho criou uma filosofia que deu suporte racional ao cristianismo

As profecias sobre o trabalho atrelam-se às lembranças míticas e às expectativas idílicas. Sabemos que o trabalho será diferente no futuro. E no entanto nos aferramos ao passado imediato e ao presente para figurar o porvir do trabalho. É um contrassenso. Ainda que, por hipótese, nós, os humanos, permanecêssemos inalterados como indivíduos e como grupos, as relações que determinam a posição do trabalho no mundo da vida se modificariam, porque, como disse Sto. Agostinho, “… o tempo é feito da mudança das coisas, de variações e transformações das formas …” (Confissões, L. XII, 8)

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Laborar, produzir, agir.

Trabalho & Produtividade.

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Hoje, 14 de outubro, Hanna Arendt faria 110 anos.

Arendt foi o pensador (ela não gostava de ser chamada de filósofa) que mais contribuiu para o entendimento da condição humana na atualidade.

Fez com que compreendêssemos a existência como uma série de atividades – o laborar, o produzir e o agir – em relação as quais abrimos ou fechamos os caminhos que condicionam a nossa existência. (mais…)

Stiegler: Calculabilidade, o plural do singular.

Trabalho & Produtividade.

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“Calculabilidade generalizada” é uma noção posta em voga pelo filósofo Bernard Stiegler. Designa o controle digital da vida contemporânea. O conceito se articula com o entendimento de que a “miséria simbólica” do “capitalismo autodestrutivo” torna a existência calculável, desqualificando as relações sociais (Stiegler; 2009). (mais…)

Bauman: nós, os supérfluos.

Trabalho & Produtividade.

Três conceitos fundamentais do sociólogo teórico Zygmunt Bauman ajudam a compreender as implicações da eliminação dos postos de trabalho. São eles: o de modernidade líquida, o de resíduos humanos, o de populações supérfluas. (mais…)

Liderança autêntica, liderança libidinosa.

Trabalho & Produtividade.

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Frequentemente olhamos para o cenário político e não vemos em quem confiar, não vemos uma pessoa sequer que possa nos liderar.

Na esfera corporativa não é diferente. No caso em que a modalidade de comando por liderança é tecnicamente recomendável, o que está longe de ser a regra, procura-se quem possa assumir a tarefa e não se encontra.

Ainda assim se opta pelo sistema de liderança. Uma escolha que tem raízes no conservadorismo, na insistência em se manter ou em se adotar uma estrutura de direção convencional, mesmo quando se mostra ineficaz. (mais…)

Trabalhar dormindo.

Trabalho & Produtividade.

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A permeabilidade entre trabalho e lazer é característica da era digital. Pouco a pouco as competências, os gestos, as linguagens entre as duas esferas da vida se tornam indistintas.

Confirma-se, em linhas gerais, a tese de Jonathan Crary de que formas de ser e de agir dominariam a estrutura 24/7 (24 horas por dia, 7 dias por semana) embaralhando as atividades reservadas ao tempo e ao lugar de trabalho. (mais…)

As novas galés.

Trabalho & Produtividade.

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As galés eram embarcações de guerra. Havia de vários feitios. As galés ditas sutis não tinham porões.  As galés grossas e as bastardas dispunham de vários conveses. Todas possuíam velas, mas a principal força motriz eram os condenados, que cumpriam suas penas acorrentados aos remos.

O sistema de trabalhos forçados nas galés durou até chegada da navegação à vela no século XVI. No Brasil este tipo de apenamento só foi abolido pela constituição de 1891, dando lugar a outras modalidades de punição. Em todo o mundo os galés tardaram a desaparecer e deixaram rastros.

Em meados do século XX o trabalho burocrático, o trabalho operário e o trabalho comercial ainda guardavam características da servidão nas galés. Houve, então, a promessa de uma libertação definitiva. A esperança de que a tecnologia digital viria a nos emancipar dos grilhões do emprego, inaugurando uma época de trabalho partilhado, autônomo, intelectualizado. As estruturas rígidas de produção dariam lugar a relações colaborativas. A fluidez da informação anularia a contabilidade de processos, tempos, movimentos, certificações. A qualidade, a inovação, a customização seriam os novos parâmetros de avaliação. (mais…)