TRABALHO: Para uma despedida amena.

Trabalho.

É possível que algum dia você seja demitido. Ou talvez você se demita. Como quer que seja, você deve supor, constante e disciplinadamente, o advento de uma desvinculação dolorosa. 

Nietzsche retratou o Estado como o mais frio dos monstros frios. A descrição se aplica à quase totalidade das organizações. Por isso, procure ser tão frio quanto elas. Não espere nada, nem mesmo a consideração dos dirigentes.

Os executivos contemporâneos são diferentes do feitor que compelia à produção pelo látego nas costas. São gente civilizada. Incitam ao trabalho pela manipulação da espera. Primeiro incutem a esperança do que a organização pode dar. Depois, o terror, raso e obscuro, do que poderá não acontecer: não progredir, não ser considerado, não ser respeitado, não permanecer.

O afeto e a mágoa são sentimentos comuns e justificáveis no mundo do trabalho. Fuja deles. Não amar e não odiar são os antídotos eficazes contra a ansiedade e a perda. Cultive a insensibilidade. Lembre-se que o recrutador, o selecionador, o gestor trabalham sob a consciência do perecível. Eles também estão lutando para serem necessários. Estão próximos demais da realidade para não a sentirem. 

A aquisição da indiferença requer atenção e um longo treinamento. Procure não amar seu emprego, não amar seu posto de trabalho, sobretudo procure não amar a sua organização. Ela não é sua, mesmo que você seja o proprietário. As organizações são entes jurídicos ficcionais. Não são nossas, nós é que somos delas. Se nos deixamos ser.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Nietzsche, Friedrich (2014). Assim falava Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis. Vozes.

NOTAS: A Face Oculta do Parecerista.

Notas.

Nesse artigo exponho discussões éticas sobre o processo de avaliação de mérito de trabalhos científicos. O sistema de revisão cega pelos pares em periódicos, partindo do debate sobre as pressões para publicação presentes na comunidade acadêmica de Administração no Brasil.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Dilthey, Wilhelm; Introduction a l’etude des sciences humaines: essai sur le fondement qu’on pourrait donner a l’etude de la societe et de l’histoire ; Paris: Presses Universitaires de France, 1942.

__________ ; La esencia de la filosofia; Buenos Aires; Losada; 1952

 

TRABALHO: Magritte – a tentativa do impossível.

Trabalho.

Renè Magritte, La tentative de l’impossible, 1928, © PhotothËque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

La tentative de l’impossible é um óleo de 116 x 81 cm, em que o pintor belga René François Ghislain Magritte (1898 – 1967) dispôs a ele mesmo em roupas convencionais, e, nua, a Georgette, paixão, modelo e esposa por toda a vida.

Como em tudo o que gênio de Magritte construiu, há neste quadro um enigma a ser decifrado. Desde o título até as cores escolhidas, as interpretações diretas são lacunares. Isto, da completa incompletude, é um dos muitos paradoxos lançados pela obra. O impossível está na figura em volume, mas sem suporte, de Georgette. Na imagem robótica e semiacabada, que mostra o despropósito de representar o espírito. Na frieza desumana da persona, que a apresenta sendo antes de ser. Está na criatura inacabada, que parece esperar pacientemente para vir à existência; um ente em evolução que ainda não vive, mas sabemos nós, os expectadores, que logo viverá. Como sabemos que não é assim. Que a imagem está pronta, que o personagem em potência não se atualizará. 

Magritte nos obriga a pensar. Sobre ele mesmo, um trabalhador de classe média, que se conduziu sempre como um burguês de cidade pequena, mas que tinha a imaginação mais livre que se tem notícia. Sobre o seu trabalho, onde cada obra é um meme, uma imagem que fica pregada indelevelmente no cérebro de quem a vê. Sobre o trabalho da criação, a que qualquer tentativa de exegese da sua obra remete. 

Magritte morreu em 1967, mas suas personagens subsistem na memória de quantos viram os seus quadros. Georgette morreu em 1986. Ou, talvez, não. Impossivelmente, Georgette perdura entre o nada e a existência. A sua figura inacabada cristaliza para a eternidade o ato ainda em potência. Retrata o trabalho inventivo – poïesis – a tentativa absurda de manter em suspenso o que já foi criado.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Marcadé, Bernard (2016). Magritte.  Paris. Citadelles & Mazenod

TRABALHO: Autopoiese e o trabalho hoje.

Trabalho.

A expressão “autopoiese” designa a capacidade que têm as moléculas de replicarem a mesma rede molecular que as produziu. 

O termo foi cunhado, na década de 70 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana.  Tem origem no grego auto “próprio” + poiesis “criação”. Descreve o fenômeno dos sistemas vivos que se autorregulam, e, incessantemente, se autoproduzem. Estes sistemas mantêm interações externas, mas o meio apenas desencadeia as mudanças acolhidas por sua própria estrutura. 

Da denotação biológica, a expressão passou a outras áreas. Steven Rose a aplicou na neurobiologia, Niklas Luhmann na sociologia, Patrik Schumacher na arquitetura, e Gilles Deleuze e Antonio Negri na filosofia. 

Para estes autores, os seres orgânicos e sociais coexistem sistemicamente em recomposições autopoiéticas ininterruptas (nada é novo, nada é velho). As antigas e as novas formas são compreensíveis pelo modo em que atualizam sua composição, pelo hibridismo e pela diversidade.

A se considerar a teoria, que deste a sua concepção acolheu um sem-número de verificações empíricas, a atividade laboral requer capacidade de autoprodução e de reintegração, cuja presteza e acerto vieram a se tornar condições essenciais ao posicionamento e à conservação no mercado de trabalho.

Quer isto dizer que o trabalhador que não se reinventa, que não se dispõe a contorcer sua biografia e a desbotar sua identidade, está fadado à exclusão da vida econômica e ao escárnio dos condescendentes.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Fonseca, João D.  (2008). Autopoiésis: uma introdução às ideias de Maturana e Varela. São Paulo. CreateSpace Independent Publishing Platform.

Maturana, Humberto & Varela, Francisco J. (1980). Autopoiesis and cognition: the realization of the living. Dordrecht. D. Reidel Publishing Company.

NOTAS: Ciclo do trabalho, roda da fortuna.

Notas.

Neste artigo procuramos estabelecer a forma e as razões da subsistência da ideia da Roda da Fortuna como fonte tanto técnica como popular da cultura econômica e organizacional. Examinamos a sua aplicação prática, a sua fundamentação e lançamos algumas hipóteses sobre os motivos da sua persistência.

In this article we attempt to establish the form and the reasons for the perseverance of the Wheel of Fortune’s notion as a source of both technical and non-technical economic and organizational cultures. We have analyzed its practical application,its theoretical basis and we have raised some hypothesis on the reasons of its persistence.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.
THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Ciclo do trabalho, roda da fortuna. Organ. Soc. [online]. 2004, vol.11, n.29, pp.71-79. ISSN 1984-9230.

NOTAS: As condições de trabalho dos moderadores do Facebook são muito piores do que você imagina.

Notas.

Deu no Gizmodo por .

Durante anos, surgiram relatos detalhando os danos que a moderação de conteúdo on-line causa aos responsáveis ​​pela limpeza dos sites das mais poderosas empresas de tecnologia. O Facebook anunciou em maio que faria algumas mudanças para que uma parte dessa força de trabalho responsável pela moderação (embora nem toda) receba um salário um pouco maior e cuidado extra, mas uma nova reportagem indica que essas mudanças graduais são apenas curativos para o que é descrito como um ambiente de trabalho severamente angustiante.

A reportagem, publicada pelo The Verge, detalha as condições de trabalho dos moderadores de conteúdo em um centro de Tampa, Flórida. Ele é operado pela Cognizant, uma empresa de serviços profissionais que assinou um contrato de dois anos e US$ 200 milhões com o Facebook para liderar essas ações, disse um ex-funcionário ao The Verge.

“No começo, isso não me incomodou – mas depois de um tempo, começou a me prejudicar”, disse Michelle Bennetti, ex-funcionária terceirizada do escritório de Tampa, ao The Verge“Eu sinto como se tivesse uma nuvem – uma escuridão – pairando sobre mim. Eu comecei a ficar deprimida. Eu sou uma pessoa muito feliz e extrovertida, e eu estava [ficando] retraída. Minha ansiedade aumentou. Era difícil enfrentar isso todos os dias. Isso começou a afetar minha vida pessoal”.

Os detalhes da publicação são, na melhor das hipóteses, um relato sombrio das condições sujas e caóticas do local de trabalho e, na pior das hipóteses, uma visão perturbadora dos efeitos psicológicos que o trabalho pode causar.

Funcionários terceirizados disseram ao The Verge que encontravam “secreções nasais, unhas e pelos púbicos, entre outros itens” em suas mesas compartilhadas quando chegavam para seus turnos. O escritório era completamente limpo antes das visitas do Facebook.

“Cada canto daquele prédio era absolutamente repugnante”, disse um ex-funcionário ao Verge. “Se você fosse ao banheiro iria encontrar sangue menstrual e fezes por todo o lado. Estava sempre com um cheiro horrível”. Ela também caracterizou o local de trabalho como “uma sweatshop nos Estados Unidos”.

Em uma transmissão ao vivo no Facebook, um funcionário teria dito que queria “esmagar a cabeça de um gerente” e não recebeu nenhuma ação disciplinar porque outro gerente disse que o comentário era apenas uma piada. Outro funcionário ameaçou “disparar contra o prédio” em um grupo de troca de mensagens. A empresa deixou ele retornar após uma licença remunerada, e ele só foi demitido depois que uma segunda ameaça semelhante foi feita.

O relatório detalha como a estrutura e as regras extenuantes impostas aos trabalhadores os forçavam a trabalhar quando estavam doentes, para que não corressem o risco de perder seus empregos. Funcionários terceirizados do Facebook teriam que relatar via uma extensão de navegador sempre que usassem o banheiro, com direito a apenas um certo número de pausas.

O medo de ser demitido também era constante – “dias de bolsa vermelha” é um termo comumente utilizado entre os trabalhadores para se referir aos dias em que os gerentes demitem funcionários. Eles recebem bolsas vermelhas para colocar suas coisas.

“Trabalhamos com nossos parceiros de revisão de conteúdo para fornecer um nível de suporte e compensação líder no setor”, disse um porta-voz do Facebook ao Gizmodo por e-mail. “Haverá inevitavelmente desafios com funcionários ou insatisfações que colocam em dúvida nosso compromisso com esse trabalho e com os funcionários de nossos parceiros. Quando as circunstâncias justificam uma ação por parte da administração, nós garantimos que isso aconteça”.

O que fica claro nesta reportagem é que o Facebook ignorou as condições infernais de trabalho sofridas por uma grande parte de sua força de trabalho. Esses trabalhadores, a propósito, são responsáveis ​​por uma das tarefas mais vitais para a manutenção do Facebook: garantir que as postagens mais hediondas sejam tiradas do ar. O aumento do salário e dos benefícios oferecidos pelo Facebook este ano indicam que a empresa, no mínimo, responde às críticas da imprensa, mas as melhorias incrementais para funcionários terceirizados como os de Tampa não são suficientes para manter os trabalhadores felizes, saudáveis ​​e seguros.

Contratar mais moderadores pode ajudar a evitar que alguns vídeos terrivelmente violentos ou inadequados passem despercebidos, mas sem condições de trabalho justas e seguras, isso significa apenas sacrificar o bem-estar desses funcionários terceirizados pelos resultados financeiros da empresa.

Clique aqui para ler o artigo original na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Foucault – o trabalho digital.

Trabalho.

O trabalho de si e a transmutação do sujeito.

Na alquimia, o inquérito da Pedra Filosofal deve coincidir com a recriação da alma. Os alquimistas pensavam que a transmutação dos metais ocorreria pari passu com a do espírito.

Tinham que o trabalho é prática asséptica, em que tanto o esforço produtivo como a Obra passam para segundo plano, se considerada a transformação do sujeito que os realiza.

O contraditório consta de uma passagem da Suma contra gentios que diz que o exercício da ars (o que inclui todas as técnicas e ofícios) não conduz à felicidade, ainda que o trabalho e a felicidade sejam, de certa forma, conexos. In operatione artis não encontramos a felicidade porque o propósito do trabalho é nos servir. O processo e o produto do trabalho não podem consistir na finalidade da vida porque o ser humano é sua finalidade, e não o contrário.

A ideia desta cisão foi recordada por Foucault, quem investigou as práticas e os dispositivos da antiguidade tardia. Mostrou que os exames de consciência, os exercícios ascéticos, o aperfeiçoamento do corpo e a elevação do espírito não estão voltados para o autoconhecimento, mas para o autogoverno. Práticas que compreendeu na denominação genérica de “cuidado de si”.

O trabalhar sobre si é o afazer do sujeito que procura dar-se forma: definir-se como ente social. Daí que a estética da existência, que Foucault postulou, não se refira a resultados, mas à conduta e à autoconstrução. É como se a vida fosse uma Obra que se constrói e se aperfeiçoa até a morte.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Agamben, Giorgio (2018). O fogo e relato: ensaios sobre a criação escrita, arte, e livros. Tradução de Andrea Saturbano e Patrícia Peterle. São Paulo. Boitempo. [p. 145 e ss.]

Foucault, Michel (2014) A hermenêutica do sujeito. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo. Editora WMF Martins Fontes.

NOTAS: Artigo – Foucault e a gestão do trabalho.

Notícias.

Estudos de Administração e Sociedade (ISSN 2525-9261).  v. 2, n. 1 (2017).

Este artigo trata dos efeitos das teorias de Michel Foucault no domínio da gestão do trabalho. Apresenta as noções fundamentais dos condicionantes do valor-trabalho a saberes e poderes circunstanciais. Discute como racionalidades contextuais e transitórias conformam as práticas gerenciais referidas ao esforço produtivo. O artigo conclui com uma interpretação das implicações dos conceitos inerentes à racionalidade técnica para o entendimento do fenômeno do trabalho na atualidade. 

This article deals with the effects of Michel Foucault’s theories on work management. It presents the fundamental notions of the conditioners of labor value to knowledge and circumstantial powers. It discusses how contextual and transitional rationalities conform the managerial practices referred to the productive effort. The article concludes with an interpretation of the implications of the concepts inherent to the technical rationality for the understanding of the work phenomenon in the present time. 

Este artículo trata de los efectos de las teorías de Michel Foucault en el ámbito de la gestión del trabajo. Presenta las nociones fundamentales de los condicionantes del valor-trabajo a saberes y poderes circunstanciales. Discute cómo las racionalidades contextuales y transitorias conforman las prácticas gerenciales referidas al esfuerzo productivo. El artículo concluye con una interpretación de las implicaciones de los conceptos inherentes a la racionalidad técnica para el entendimiento del fenómeno del trabajo en la actualidad. 

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Conservadores, liberais e progressistas.

Trabalho.

O gongorismo das doutrinas econômicas no capitalismo tardio as fez abdicar do ser humano. Entendem o trabalho exclusivamente como um dos recursos à disposição dos interesses de mercado.

Os conservadores acreditam que a responsabilidade das empresas se restringe à alocação eficiente de recursos humanos. As organizações não têm outros deveres do que a do salário em dia e o de abrigar o trabalhador do que possa interferir no seu desenho. Para os conservadores, a responsabilização social é um comportamento antimaximização de lucros. É um custo adicional, que não beneficia os acionistas e que opera contra os interesses da economia.

Os liberais pensam essencialmente o mesmo que os conservadores. Salvo que acreditam que a economia de mercado deve ser corrigida, porque não tem como prover os bens públicos e salvaguardar o trabalhador enquanto fator de produção. Para os liberais, as obrigações das empresas devem se restringir à complementação das falhas de mercado. Entendem que a responsabilidade social limitada é do interesse da economia.

Os progressistas têm uma visão crítica do mercado e da responsabilidade em relação ao trabalho. Pensam que a economia não é uma entidade sobrenatural autorregulada. Nem mesmo acreditam que seja inteiramente regulável. Para os progressistas, a busca unívoca do lucro tende a destruir a liberdade do mercado. Daí que a cooperação, e não exclusivamente a competição, deve constituir o cerne das condições de sobrevivência econômica. A responsabilidade sobre as condições do trabalho e sobre a vida dos trabalhadores é do interesse das organizações e da economia. 

Nada orienta estes raciocínios para os campos da convivência e da compaixão. São meras ramificações de autoridade insolente que se arroga a pretensão de imobilizar o que é fugidio, instável, ambíguo e por vezes até destituído de coerência: o ser humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: O crepúsculo das hierarquias.

Trabalho.

Corporate Power (Angelo Lopez, 2008)

Os atributos das hierarquias piramidais – a chefia encadeada e a distribuição de encargos unívocos – têm uma origem precisa e um promotor conhecido: datam da alta Idade Média e são obra da imaginação de um bispo sírio que se fazia passar por Dionísio, do tempo de São Paulo.  

Conhecido como Pseudo-Dionísio Areopagita, o bispo foi o artífice de uma fabulosa hierarquia celeste. Seu propósito, bem-sucedido, era o de impor uma ordem terrestre espelhada na estrutura organizacional dos querubins, serafins, anjos, arcanjos etc., que voejam no Empíreo.

O organograma mais difundido nasce, portanto, das circunstâncias, necessidades, quereres e crenças desta época e lugar. Curiosamente seus elementa, a divisão interna do trabalho e a ordenação em estratos superpostos, resistem através dos séculos. Há tanto tempo, que o arrastro da inércia fez com que o Ocidente desse o seu estatuto ontológico como natural. 

As interações digitais não se adequam, evidentemente, à hierarquia fixa de comando. Ante a defunção do modelo, um impasse se instalou: ou bem tratamos de conduzir as modificações de ajuste das estruturas do trabalho à sua dinâmica, ou as corporações seguirão enclausurando o trabalhador em um esquema hierárquico caduco. Um esquema que, na acepção do termo, decaiu.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Pseudo-Dionysius, the Areopagite (1987). Pseudo-Dionysius: the complete work. New Jersey. Paulist Press. 

Suarez-Nani, Tiziana (2002). Les anges et la philosophie, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin.

TRABALHO: No destino, a liberdade.

Trabalho.

O termo anarquismo, do grego anarkhía,as , ausência de chefe, diz respeito a uma índole, a um ideal e a uma ideologia.

Como índole, refere ao caráter de um indivíduo ou de um povo para quem toda submissão hierárquica é abominável. O anarquismo é um temperamento.

Como ideal, alude à imagem de uma existência comunitária em que inexista a dominação de um ser humano sobre outro. O anarquismo é uma aspiração.

Como ideologia, corresponde à meta de se chegar a uma acracia, um sistema político sem Estado e sem segmento socioeconômico dominador. O anarquismo é um projeto.

Os anarquistas ou bem aguardam, ou bem lutam pelo advento do terceiro ciclo da emancipação laboral. O primeiro ciclo fez dos escravos servos; o segundo, dos servos assalariados; o terceiro colocará o controle da produção nas mãos de associações livres e voluntárias de cidadãos-trabalhadores.

O ideário anarquista é utópico, mas no sentido que Merton dá ao termo: o de um programa alternativo de organização social capaz de realizar potencialidades humanas concretas.

A esperança do anarquismo contemporâneo é a de que, à medida que a sociedade industrial seja substituída pela sociedade digital, se torne possível uma abertura para a efetivação de vários dos seus desígnios.

A perspectiva não é descabida. As redes abrem a possibilidade de associações temporárias para fins específicos. Não só valem para informar e para protestar, como servem para produzir. A economia cooperativa é exemplo de estrutura libertária que já vige. A difusão de informações em grande escala, contra toda resistência, amplia o acesso ao conhecimento, e abre a possibilidade de os trabalhadores se tornem senhores dos seus próprios e imediatos interesses.

A sociedade, e com ela o trabalho, parece estar evoluindo para o ideal libertário anarquista. O dinamismo desta progressão é reprimido pelas instituições degeneradas do Estado e do capitalismo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Buber, Martin (2006) Caminos en utopía. Traducción J. Rovira Armengol.  México. Fondo de Cultura Económica

Merton, Robert K. – Craig Calhoun ed. (2010). Sociology of science and sociology as science. New York. Columbia University Press

NOTAS: Escrevedor.

Notas.

Deu no The Guardian.

Inteligência artificial financiada por Elon Musk escreve tão bem que seus criadores estão com medo.

Pesquisadores do grupo de pesquisa sem fins lucrativos OpenAI só queriam treinar seu novo software de geração de texto para prever a próxima palavra em uma frase. Só que ele superou todas as suas expectativas e foi tão bom em imitar a escrita de seres humanos que eles decidiram puxar o freio da criação enquanto imaginam os danos que poderiam ser causados se caísse em mãos erradas.

Elon Musk já deixou claro que ele acredita que a inteligência artificial é a “maior ameaça existencial” para a humanidade. Musk é um dos principais inanciadores do OpenAI e, embora tenha assumido um papel secundário na organização, seus pesquisadores parecem compartilhar suas preocupações sobre a abertura de uma caixa de Pandora de problemas.

Esta semana, o grupo de pesquisa compartilhou um artigo cobrindo seu mais recente trabalho sobre tecnologia de geração de texto, mas eles não seguiram sua prática padrão de divulgar a pesquisa completa para o público. Os cientistas estão com medo de que pessoas mal-intencionadas possam cometer abusos se tiverem acesso ao software. Em vez de lançar o modelo totalmente treinado, o grupo liberou um modelo menor para outros pesquisadores testarem.

Os especialistas usaram 40 GB de dados extraídos de 8 milhões de páginas da web para treinar o software GPT-2. Isso é dez vezes a quantidade de dados que eles usaram na primeira iteração da GPT. O conjunto de dados foi reunido no Reddit, selecionando links para artigos com mais de três votos positivos.

Quando o processo de treinamento foi concluído, eles descobriram que o software poderia ser alimentado com uma pequena quantidade de texto e continuar a escrever de forma convincente. Ele tem problemas com “tipos de conteúdo altamente técnicos ou esotéricos”, mas quando se trata de uma escrita mais conversacional, gerou “amostras razoáveis” em 50% do tempo.

Em um exemplo, o software foi alimentado com este parágrafo:

Em um achado chocante, o cientista descobriu uma manada de unicórnios vivendo em um remoto vale anteriormente inexplorado, na Cordilheira dos Andes. Ainda mais surpreendente para os pesquisadores foi o fato de que os unicórnios falavam inglês perfeito.

Com base nessas duas frases, a inteligência artificial foi capaz de continuar escrevendo essa fantasiosa notícia por mais nove parágrafos de uma forma que poderia ter sido escrita por um ser humano. Aqui estão os próximos parágrafos de máquina que foram produzidos pela máquina:

Clique aqui para a matéria original (em inglês).

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: A domesticação pelo trabalho.

Trabalho.

Nas pinturas dos túmulos egípcios de 3.000 anos atrás veem-se bois padecendo sob o jugo de um arado. O agricultor que os flagela é uma figura curvada e abatida. Tratado da mesma forma que o animal, sofre a castração psíquica que lhe veda a satisfação das necessidades corporais, emocionais, intelectuais e sociais que conformam a natureza humana.

Milênios passados, mudou a forma, não o conteúdo ou a intenção. A Antiguidade grega registrou uma esperança de redenção do trabalho servil. Mas foi incidental e transitória. Os atributos do bem viver (a bella vita) e do adestramento da sociabilidade em Aristóteles – temperança, justiça, coragem e fortitude – vigoraram só para alguns e não resistiram ao cristianismo. As virtudes de resignação (fé, esperança e caridade), logo voltaram a impor a complacência como espelho ideal da vida autorizada.

É que a economia requer a domesticação, tanto no sentido do manejo da natureza, quanto no de assentamento (no domus). Requer que se amanse, seja o selvagem, o independente, o autárquico ou o livre, de modo que possa ser útil ao sistema.

Nos regimes organizacionais da atualidade, o martírio decorre da necessidade de manter coesa a plebe e baixa a lucidez. Desta necessidade procede o treinamento, na forma como a domesticação deriva do adestramento, como a submissão decorre da covardia, como o servilismo decorre do terror.

As tecnologias aplicadas ao trabalho são parte dos processos psicagógicos, [a arte de guiar as almas pelo melhor caminho]. Os operadores coletivos, ao converterem exterior em interior, amansam a interioridade, de forma que o humano não se dê conta de que continua servindo aos poderosos e se preste a avassalar o seu semelhante.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Hagen, Rose-Marie et Rainer (2016) Les dessous des chefs-d’œuvre: un regard sur les grands maîtres. Köln. Taschen Bibliotheca Universalis.

NOTAS: Max Weber – o processo de racionalização e o desencantamento do trabalho nas organizações contemporâneas.

Notas.

Este artigo indica algumas implicações do pensamento weberiano sobre a compreensão do trabalho e da forma de administrá-lo. Com base nos conceitos weberianos de racionalidade e de racionalização, é feita uma apreciação do trabalho na história ocidental, com ênfase no momento da passagem do capitalismo tradicional para o contemporâneo. A tese central é a de que as teorias de Weber são um modo válido para compreender o trabalho desencantado da atualidade.

This article discusses some implications of Weber’s thoughts about understanding and managing labor. Based on Weber’s concepts of rationality and rationalization, the article develops an account of the transformations of labor in Western history, stressing the shift from early to contemporary capitalism. The central thesis is that Weber’s theories are a well grounded way to explain today’s disenchanted work.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.
THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Max Webero processo de racionalização e o desencantamento do trabalho nas organizações contemporâneas. Rev. Adm. Pública [online]. 2009, vol.43, n.4, pp.897-918. ISSN 0034-7612.

NOTAS: Múltiplas telas invadirão ambiente de trabalho.

Notas.

Deu no WSJ por Sara Castellanos.

Displays ajudarão funcionários a realizar várias tarefas simultaneamente e elevar produtividade.

Tela de gerenciamento na cozinha de um restaurante em Pequim com inteligência artificial. Foto: ZHANG CHEN/XINHUA/ZUMA PRESS.

Muitas vezes empoeirado, perdido na bagunça de uma mesa de trabalho que oculta sua posição como janela para a transformação digital e de negócios que está em curso, o monitor de computador precisa ser recriado.

Nos próximos dez anos, será mais comum que os locais de trabalho abriguem múltiplos monitores, de diversos tipos e tamanhos, entre os quais telas de computador e de tablet, e displays que facilitam experiências de realidade virtual e aumentada.

As chamadas “experiências ambientais”, nas quais mundos virtuais e físicos se combinam em tempo real por meio de diversos aparelhos e displays, se tornarão a norma.

“Vai haver mais e mais displays, para todos esses aspectos da vida, o que dará ao usuário uma experiência contínua”, disse Tuong Nguyen, principal analista do grupo de pesquisa Gartner, cuja especialidade são as tecnologias e tendências emergentes.

Novos locais de trabalho emergirão, com displays múltiplos e telas maiores, panorâmicas, em grande parte porque os dados estão se tornando o foco central de todos os setores, o trabalho multitarefas é necessário e os trabalhadores mais jovens exigem produtos de melhor qualidade nos seus escritórios, segundo Bert Park, vice-presidente sênior e diretor-geral de software e periféricos da Dell, subsidiária da Dell Technologies.

Os displays de computador continuarão a ser “pontos de ancoragem” para a produtividade do trabalho, porque a demanda por visualizar dados, o que inclui gráficos e tabelas, continuará a crescer, diz Park.
“Muita gente executará múltiplas tarefas, o que significa que mais espaço de tela será necessário”, afirmou.

Pode ser que ter telas maiores, ou telas separadas para email, videoconferências e tabelas, por exemplo, se tornem comum também para trabalhadores de outros setores, além das finanças, que hoje precisam alternar múltiplas janelas em uma só tela.

Telas separadas podem resultar em economia de tempo, elevar a produtividade e possivelmente ajudar os trabalhadores a recordar os fatos corretamente.

Visitante da SXSW, nos EUA em estande da Lockheed Martin: empresa usa headsets de realidade aumentada para acelerar o aprendizado dos engenheiros. Foto: Suzanne Cordeiro.

Displays transparentes, como os headsets de realidade virtual e aumentada que sobrepõem imagens geradas por computador ao campo visual real do usuário, também podem se tornar mais comuns no ambiente de trabalho, dentro de três a cinco anos, diz Park.

Empresas já começaram a testar headsets e tablets de realidade aumentada, primariamente para orientar trabalhadores sobre processos industriais e de manutenção. A demanda por displays de realidade aumentada também pode se estender à pesquisa e desenvolvimento e ao design de produtos, disse Park.
“O profissional poderia começar a construir a próxima versão de um produto e introduzir melhoras via realidade virtual de modo interativo.”

A divisão espacial da Lockheed Martin está usando headsets de realidade aumentada para acelerar o aprendizado dos engenheiros sobre os processos de construção de espaçonaves, por exemplo.

Os dispêndios mundiais em realidade aumentada e realidade virtual devem atingir US$ 20,4 bilhões neste ano, de acordo com a IDC, empresa de pesquisa de mercado. Isso representa um grande salto ante o investimento estimado de US$ 12,1 bilhões em 2018.

Os trabalhadores mais jovens, entre os quais os da geração milênio, abraçarão essas novas tecnologias e ajudarão a popularizá-las nos locais de trabalho, disse Park. Mas trabalhadores mais velhos também optarão por usar os novos displays e headsets para a solução de determinados problemas, ele acrescentou.

A realidade virtual, que envolve o uso de headsets que permitem interação com representações digitalizadas mas que parecem reais, está avançando na força de trabalho, se bem que em ritmo mais lento, disse Park.

A empresa de entregas UPS, por exemplo, usa a realidade virtual para simular a experiência de dirigir seus caminhões, antes que motoristas novos comecem a trabalhar nas ruas.

A Genentech, divisão da Roche Holding, está usando a realidade virtual como ferramenta de treinamento para cirurgiões oculares, em um teste clínico que executivos esperam que conduza ao uso generalizado da tecnologia.

Os headsets de realidade virtual terão de superar alguns desafios nos próximos anos. Como ficam muito perto dos olhos do usuário, a resolução precisa ser maior para oferecer “imagens reais”.

A informação em tempo real é importante nos negócios, e por isso a tecnologia dos chips precisa evoluir para resolver questões de latência que retardam a informação, ele disse.

O futuro da realidade virtual e da realidade aumentada depende em muito do sucesso da tecnologia 5G de comunicação sem fio, que pode resultar em redução considerável da latência.

“A tecnologia que temos hoje está na adolescência”, disse Nguyen, do Gartner.

“Parece já ser crescida, mas ainda terá de passar por diversas fases incômodas.”

Clique aqui para ler a matéria traduzida por Paulo Migliaccina e aqui para a matéria original (em inglês).

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Elogio da mobilização.

Trabalho.

Os indutores da produtividade são a motivação e a mobilização. A motivação emana da emocionalidade. A mobilização, da credibilidade.

Ao se basearem no sistema de recompensa–punição, os esforços motivacionais são marcados pela efemeridade dos resultados e pelo encurtamento dos efeitos.

Ao se referenciarem aos sistemas de êxito–sacrifício, os esforços mobilizadores tendem a obter resultados mais sólidos e duradouros.

A disparidade ocorre porque não há como esperar que seres pensantes sejam motivados pelos mesmos fatores. Existe – como ninguém pode ignorar depois de Nietzsche e de Freud -, uma clivagem entre o que é próprio do ser humano – como ter vontades, ter projetos, e assim por diante – e o que é próprio de cada ser humano individual – o sofrimento, as lembranças, os desejos, ….

Os apelos às emoções generalizam expectativas que são pessoais. Por isso, as tentativas para motivar têm resultado incerto e imprevisível. Já os estímulos mobilizadores são culturalmente circunscritos, afetos a grupos e comunidades. Além disto, as tentativas de mobilização são imediatamente aferíveis, já que seus efeitos são discretos: ou bem satisfazem, ou bem fracassam.

Os discursos motivacionais são destinados a cativar e a criar fantasias. Focam o nível operacional mais baixo da (re-) produção de bens e serviços. São baseados em esquemas psicológicos primários, os que os torna disfuncionais no nível mais intelectualizado da geração e da criação.

Os esforços mobilizadores são funcionais neste nível. No entanto, requerem domínio técnico específico, base cultural ampla, sensibilidade para as diferenças individuais e a capacidade de ajustar interesses diversificados.

São exercitados em um patamar muito acima do que se discute e do que se pode aprender nas escolas de administração e de negócios.

UTILIZE E CITE A FONTE.

NOTAS: Workaholic.

Notas.

Deu no The New York Times e no Estadão por Erin Griffith.

A cultura de veneração do trabalho gera debates sobre exploração, eficiência e ambições profissionais.

Nos sites da WeWork, em Nova York, algumas inscrições em almofadas imploram que você “faça aquilo de que gosta”. Letreiros em néon pedem: “Lute mais”. E murais espalham a boa nova: “Graças a Deus é segunda”. Até os pepinos nos seus recipientes refrigerados têm um programa. “Não pare quando está cansado”, alguém gravou recentemente nos legumes flutuantes. “Pare quando tiver terminado”.

Bem-vindo à cultura da atividade frenética, da obsessão pelo esforço incessantemente positivo, desprovido de humor e inescapável. Rise and Grind (algo como “levante e vá à luta”) é o tema de uma campanha da Nike e o título de um livro. Novas startups como a Hustle, que produz um conhecido boletim para empresas e séries de conferências, e a One37pm, uma companhia de conteúdo criada pelo santo patrono da agitação, Gary Vaynerchuk, glorificam a ambição não como meio para um fim, mas como estilo de vida.

“O atual status do empreendedorismo é maior do que uma carreira”, diz a página do site About Us” da One37pm. “É ambição, coragem e luta. É uma atuação viva que ilumina a sua criatividade… uma sessão de treino que faz circular as suas endorfinas”. Não só uma pessoa nunca para de trabalhar, ela nunca abandona uma espécie de fascínio pelo trabalho, em que o propósito principal de treinar ou de assistir a um concerto é buscar a inspiração que leva o indivíduo de volta à luta. Na nova cultura do trabalho, suportar ou simplesmente gostar do próprio emprego não basta. Os trabalhadores devem amar o que fazem, e depois promover aquele amor nas redes sociais, fundindo assim a própria identidade à dos empregadores.

Taylor Callery

Este é o glamour da labuta, e está se tornando o princípio corrente. Da maneira mais visível, WeWork – que oferece espaços de trabalho compartilhados para startups de tecnologia, e que recentemente foi avaliada pelos investidores em 47 bilhões de dólares – exportou sua marca de workaholismo performático para 27 países, com 400 mil inquilinos, incluindo os trabalhadores de 30% das 500 da Fortune Global.

Em janeiro, o fundador da WeWork, Adam Neumann, anunciou que a sua startup passaria a chamar-se We Company, a fim de refletir sua expansão no setor de imóveis residenciais e na educação. Descrevendo a mudança, a revista de negócios Fast Company afirmou que “em vez de apenas alugar mesas, a companhia visa abranger todos os aspectos da vida das pessoas, tanto no mundo físico quanto no digital”.

Imaginamos que o cliente ideal seja alguém tão apaixonado pela estética do escritório da WeWork que dorme em um apartamento WeLive, malha em uma academia Rise da We, e manda as crianças em uma escola WeGrow.

Uma iniciativa sinistra e exploradora

Há os que acreditam que o trabalho duro não significa necessariamente trabalhadores felizes. David Heinemeier Hansson, cofundador da empresa de software Basecamp e autor do livro It Doesn’t Have to Be Crazy at Work, disse que “a grande maioria das pessoas que insistem na mania do esforço nada tem a ver com as que fazem concretamente o trabalho. São os gerentes, financistas e proprietários”.

Heinemeier Hansson afirmou que, embora os dados mostrem que longas horas de trabalho não melhoram nem a produtividade nem a criatividade, os mitos sobre o excesso de trabalho persistem porque justificam a riqueza criada para a elite de tecnólogos. “É uma coisa sinistra e abusiva”, acrescentou.

Elon Musk, que deverá garantir uma compensação em ações superior a US$ 50 bilhões se sua companhia, a Tesla, atingir os patamares certos de desempenho, é um exemplo da glorificação do trabalho de muitos que o beneficiarão em primeiro lugar. Ele tuitou em novembro que há lugares mais fáceis para se trabalhar do que a Tesla. “Por outro lado, ninguém jamais mudou o mundo trabalhando 40 horas semanais”. O número correto de horas “varia de uma pessoa para outra”, mas é de cerca de “80, podendo chegar ao pico de 100”.

É possível que a indústria tecnológica tenha adotado esta cultua quando empresas como a Google começaram a alimentar, agradar e bancar consultas médicas para seus funcionários. As regalias visavam ajudar as companhias a atrair o melhores talentos e a manter os funcionários o maior tempo possível sentados em suas mesas de trabalho.

Talvez todos nós tenhamos, até certo ponto, fome de significado. A participação em uma religião organizada está diminuindo, principalmente entre os integrantes da geração americana do milênio. Em San Francisco, o conceito de produtividade assumiu uma dimensão quase espiritual.

Os tecnólogos interiorizaram a  ideia – arraigada na ética protestante – de que o trabalho não é algo que as pessoas fazem para conseguir o que querem; o trabalho em si é tudo. Portanto, tudo o que torna a vida mais agradável ou as regalias de uma empresa que otimiza seu dia a fim de adequá-lo a mais trabalho ainda é intrinsecamente boa.

Aidan Harper, que criou uma campanha europeia chamada 4 Day Week, afirma que esta é uma coisa desumana e perversa. “Ela cria o pressuposto de que só valemos enquanto seres humanos pela capacidade de produzir – pela capacidade de trabalhar, e não pela nossa humanidade”, afirmou. Segundo Harper, é uma espécie de culto para convencer os trabalhadores a aceitarem a exploração com a mensagem de que mudarão o mundo. “Ela cria a ideia de que Elon Musk é nossos grande sacerdote”.

Desperdiçar tempo em tudo o que não esteja relacionado ao trabalho tornou-se uma razão para sentir-se culpado. Jonathan Crawford, um empreendedor de San Francisco, disse que sacrificou seus relacionamentos pessoais e engordou cerca de 20 quilos enquanto trabalhava na Storenvy, sua startup de comércio eletrônico. Se ele conseguia socializar-se, era em algum evento de rede. Se lia, era um livro relacionado a negócios.

Crawford mudou o seu estilo de vida depois de se dar conta de que isso acabara com sua vida. Agora, ele aconselha seus colegas fundadores a procurarem atividades diferentes ou a lerem ficção, a verem filmes ou a se dedicarem a algum jogo. Bernie Klinder, um consultor de tecnologia, disse que tentou limitar-se a 11 horas diárias de trabalho cinco dias por semana. No entanto, ele é realista a respeito desta corrida destrutiva. “Procuro lembrar de que, se eu cair morto amanhã, todos os meus prêmios em acrílico pelo meu desempenho irão para o lixo no dia seguinte”, escreveu, “e a minha vaga estará no jornal antes mesmo do meu obituário”.

As armadilhas do excesso de atividade

O fim lógico da atividade excessiva é o esgotamento. É o tema de um ensaio viral de Anne Helen Petersen, crítica de cultura do site BuzzFeed, que trata de uma das incongruências da mania de trabalhar dos jovens. Ou seja: se os jovens millenials fossem supostamente preguiçosos, como poderiam também estar obcecados por seus empregos?

Os millenials, de acordo com Anne, só lutam desesperadamente para realizar suas grandes expectativas. Uma geração foi criada para esperar que boas notas e super-realizações extracurriculares os premiariam com empregos maravilhosos que lhes permitiriam cultivar suas paixões. Ao contrário, eles acabaram com um trabalho precário, sem sentido e com a dívida da universidade. Portanto, posar de rise and grinder começa a fazer sentido como mecanismo de defesa.

A maioria dos empregos – até os melhores empregos – está repleta de trabalho duro e inútil. A maioria das corporações acaba nos decepcionando de algum modo. E no entanto, muitas companhias ainda promovem as virtudes do trabalho com mensagens de fundo filosófico. A Spotify, que nos permite ouvir música, diz que sua missão é “revelar o potencial da criatividade humana”.

David Spence, professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha, diz que esta postura das companhias, de economistas e políticos data pelo menos do surgimento do mercantilismo na Europa, no século 16. “Os empregadores se esforçam constantemente para venerar o trabalho com o fim de distrair de seus aspectos nada atraentes”, ele disse, mas esta propaganda pode ser contraproducente. Na Inglaterra do século 17, o trabalho era venerado como cura do vício, segundo Spencer, entretanto a verdade não compensadora simplesmente levava os trabalhadores a beber mais. Um cálculo equivocado?

As companhias de internet talvez tenham errado em seus cálculos ao encorajar seus funcionários a equilibrarem o trabalho com seu valor intrínseco enquanto seres humanos. Depois de uma longa era comprazendo-se com uma avaliação positiva, a indústria tecnológica agora experimenta uma reação negativa com temas que vão desde um comportamento monopólico à difusão da desinformação e à incitação à violência racial. Enquanto isso, os trabalhadores estão descobrindo o poder que eles têm.

Em novembro, cerca de 20 mil funcionários do Google participaram de um protesto de rua contra assédio sexual na companhia. Os funcionários de outras empresas  anularam um contrato de inteligência artificial com o Departamento da Defesa dos Estados Unidos que poderia fazer com que drones militares  se tornassem mais letais.

Heinemeier Hansson mencionou os protestos dos funcionários como uma evidência de que os trabalhadores millenials poderiam revoltar-se contra a cultura do excesso de trabalho. “As pessoas não vão defender esse tipo de coisa ou comprar a propaganda segundo a qual a eterna felicidade está em monitorar as próprias pausas para ir à toalete”, disse.

Ele se referia a uma entrevista que a ex-diretora executiva da Yahoo, Marissa Mayer, deu em 2016, em que afirmou que trabalhar 130 horas por semana era possível, “desde que o funcionário estabeleça uma estratégia para controlar seu sono, o uso do chuveiro e a frequência com que vai ao banheiro”.

Enfim, os trabalhadores precisam decidir seu grau de devoção. Os comentários de Marissa Mayer foram amplamente divulgados, mas desde então alguns compartilharam ansiosamente as próprias estratégias imitando seu cronograma. Do mesmo modo, os tuítes de Musk foram muito criticados, mas também geraram seguidores e pedidos de emprego. A triste realidade de 2019 é que pedir emprego a um bilionário via Twitter não é considerado algo embaraçoso, mas um expediente perfeitamente plausível para sobreviver.

Clique aqui para ler a matéria na íntegra e aqui para a matéria original (em inglês).

UTILIZE E CITE A FONTE.

NOTAS: Em que estágio da montanha você está?

Notas.

UTILIZE E CITE A FONTE.

 

TRABALHO: Técnica e desrazão.

Trabalho.

Resultado de imagem para tecnologia no mercado de trabalhoO significado da palavra “técnica” (téchne) permanece aquele dado pelos estoicos: um sistema definido de práticas destinadas a conseguir um fim.

Também permanece viva a discussão levantada pelos epicuristas: saber se o fim da técnica refere à medida humana ou se teremos que nos submeter à servidão que nós mesmos promovemos.

Na atualidade, a balança parece tender para segunda vertente. As descrições da vida coisificada de Kafka e da vida programada de Aldous Huxley, que antecederam as críticas filosóficas de Heidegger e de Adorno, denunciam o mundo laboral que aí está: destinos fechados, carreiras banais, trabalho mecânico.

O adestramento do ser humano para a economia binária o tornou preciso e ágil. Mas converteu parte dos trabalhadores em máquinas capazes de controlar as demais; em seres que não temem a morte do espírito porque nunca chegaram, de fato, a exercitá-lo.

Como em outras épocas, a dinâmica do trabalho se encontra hoje à mercê de uma casta de operadores tecnocratas que simplesmente ex-istem (estão fora), que não têm uma experiência interior, uma vida introspectiva que os humanize.

UTILIZE E CITE A FONTE.