NOTAS: Adam Smith – o torpor da sua mente….

Notas.

No progredir da divisão do trabalho, o emprego muito maior daqueles que vivem do seu trabalho, isto é, do grande corpo do povo, se limita a algumas operações muito simples, frequentemente [se limita] a uma ou duas [operações]. Como, no entanto, os entendimentos da maior parte dos homens são necessariamente formados por seus empregos comuns, o homem cuja vida inteira é gasta na realização de algumas operações simples, cujos efeitos talvez sejam sempre os mesmos, ou quase os mesmos, não tem ocasião de exercer sua compreensão ou de exercer sua invenção ao descobrir expedientes para remover dificuldades que nunca ocorrem. Ele naturalmente perde, portanto, o hábito de tal esforço, e geralmente se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível para uma criatura humana se tornar. O torpor de sua mente o torna não apenas incapaz de saborear ou tomar parte em qualquer conversa racional, mas de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou terno e, consequentemente, de formar qualquer julgamento justo a respeito de muitos dos deveres comuns da vida privada.

In the progress of the division of labour, the employment of the far greater part of those who live by labour, that is, of the great body of the people, comes to be confined to a few very simple operations, frequently to one or two. But the understandings of the greater part of men are necessarily formed by their ordinary employments. The man whose whole life is spent in performing a few simple operations, of which the effects are perhaps always the same, or very nearly the same, has no occasion to exert his understanding or to exercise his invention in finding out expedients for removing difficulties which never occur. He naturally loses, therefore, the habit of such exertion, and generally becomes as stupid and ignorant as it is possible for a human creature to become. The torpor of his mind renders him not only incapable of relishing or bearing a part in any rational conversation, but of conceiving any generous, noble, or tender sentiment, and consequently of forming any just judgment concerning many even of the ordinary duties of private life.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Smith, Adam (1776). An Inquiry into the Nature and Causes of The Wealth of Nations.  Book V: On the Revenue of the Sovereign or Commonwealth. Chapter I: On the Expenses of the Sovereign or Commonwealth. Part III: On the Expense of Public Works and Public Institutions. Article II: On the Expense of the Institutions for the Education of Youth.

NOTAS: Trabalho em geral e trabalho em abstrato.

Notas.

 

john-locke

adam-smith

O que o trabalho do pedreiro tem a ver com o do profissional de TI? E o trabalho do médico como o de piloto de helicóptero? Muito pouco, diríamos. No entanto o trabalho como tema de formulações teóricas e práticas tem sido tratado como um fenômeno unívoco. Este entendimento, costume ou vício data do Renascimento. Até então sequer existia um termo genérico para o que hoje denominamos trabalho. São dois os pais da ideia: os filósofos John Locke, que em 1690 descreveu a noção de trabalho em geral, e Adam Smith, que em 1776 definiu o trabalho em abstrato. Com o passar do tempo, ficou evidente que estes conceitos se tornaram insuficientes para explicar o fenômeno do papel do fator humano na produção e para esclarecer sua situação no quadro econômico-organizacional. Esta é uma discussão que ressurge periodicamente, sem que, no entanto se avance na equalização das dificuldades que gera. O texto em anexo, publicado na Gestão.org, é uma contribuição para o processo de reconstrução do corpus conceitual contemporâneo do gerenciamento  de pessoas. Nele são analisadas as contribuições de John Locke e de Adam Smith, e examinados os que termos em que permanecem ou vêm perdendo vigência os atributos relativos ao conceito de trabalho em geral e ao conceito do trabalho em abstrato por eles formulado.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

Resumo: A evolução dos métodos administrativos e da tecnologia da informação, aliada à sucessão de crises morais e econômicas que assistimos na última década, determinou alterações profundas na forma de ordenar e de gerenciar as organizações. O entendimento do papel do fator humano na produção, particularmente no que se refere aos conceitos utilizados na gestão de recursos humanos, se tornou insuficiente para explicar o fenômeno do trabalho e para esclarecer sua situação no quadro econômico-organizacional contemporâneo. Neste artigo procuro contribuir para o processo de reconstrução do corpus conceitual do gerenciamento de pessoas que hoje se delineia. Analiso as contribuições de John Locke e de Adam Smith, examinando os que termos em que permanecem ou vêm perdendo vigência os atributos relativos ao conceito de trabalho em geral e ao conceito do trabalho em abstrato por eles formulado.

Palavras-chave: trabalho, racionalidade, administração, recursos humanos, Locke, Smith.

Abstract ∗ Artigo recebido em 19.10.2006, aprovado 20.12.2008 1 Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor e Pesquisador da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Praia de Botafogo, 190, sala 508, Rio de Janeiro, RJ, CEP: 22250-900. E-mail: Hermano.roberto@fgv.br Revista Gestão.Org – 7 (1):119-136 – Jan/Abr 2009 Hermano Roberto Thiry-Cherques Gerenciamento de Pessoas: Sobre a Formação dos Conceitos de Trabalho em Geral e em Abstrato: de John Locke a Adam Smith 120 The evolution of management and technology of information associated with the moral and economic crises we attend in the last decade determined deep transformations in the way we manage and design organizations. The understanding of human factor role in production, mainly the use of concepts employed in human resources management, became inadequate to explain the phenomenon of work and to clarify its situation in the economic-organizational contemporary frame. In this article I seek to contribute to today’s reconstruction of people management conceptual corpus analyzing John Locke’s notion of work in general and Adam Smith’s notion of abstract work.

Keywords: work, rationality, management, human resources, Locke, Smith.

Recuperável em ➽ https://periodicos.ufpe.br/revistas/gestaoorg/article/view/21545/18239

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, H. R. T.. Gerenciamento de Pessoas: Sobre a Formação dos Conceitos de Trabalho em Geral e em Abstrato: de John Locke a Adam Smith. Gestão.Org, v. 7, p. 102, 2009.

Gerenciamento de Pessoas: Sobre a Formação dos Conceitos de Trabalho em Geral e em Abstrato: de John Locke a Adam Smith∗

People Management: On Concepts Formation of Work in General and Abstract, from John Locke to Adam Smith

O que é um valor?

Perplexidades & Filosofia

Conceitos & DefiniçõesValor é um bem subjetivo. Tanto no sentido abstrato, de ter valor, como no sentido concreto, de ser um valor, o termo designa um atributo das coisas que consiste em merecerem mais ou menos estima por um individuo ou por um grupo (serem desejadas), ou que consiste em satisfazerem certo fim ou interesse (serem úteis).

O valor não tem substância. É um objeto autônomo das realidades existentes. Não se pode ver o belo, mas podemos qualificar uma coisa de bela, ou de nociva, ou de boa, ou de cara …

O termo ‘valor’ tem origem econômica nos mercados da Grécia arcaica. A palavra grega para valor – áksios,a,on, – conota o bem, tangível ou não, que merece o preço que se paga por ele. A partir da Antiguidade, o conceito de valor percorre um longo caminho. Para os sofistas era uma apreciação relativa, expressa no dito de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Já Platão – contra a concepção dos sofistas de que os valores são conferidos pelos homens – sustentou que o valor deriva de uma apreciação absoluta. Tem valor o que é – em si – bom, belo, justo e verdadeiro.

Clique aqui para saber mais.

UTILIZE E CITE A FONTE.

Economia e fantasia

CATEGORIA TR

adam_smithEm uma noite de inverno anterior ao ano de 1776, em Glasgow, na Escócia, um amável professor de filosofia moral imaginou que se em um povo de caçadores custa habitualmente duas vezes mais tempo e sacrifício para matar um castor do que uma camurça, naturalmente um castor valerá ou se trocará por duas camurças.

É sobre esta postulação de Adam Smith (Kirkcaldy, 1723 — Edimburgo, 1790), que dá início ao sexto capítulo do livro primeiro de A riqueza das nações[i], que repousa grande parte da teoria contemporânea sobre o trabalho. E, no entanto, esta alegoria não passa de uma especulação inventiva sem fundamento antropológico.

De fato, não se tem notícia de que o tempo ou a dificuldade para obter um bem tenha servido ou sirva de base de atribuição de valor entre povos primitivos[ii]. Isto seria irrelevante se os avatares do conceito econômico do trabalho não se mantivessem desde então ancorados a esta fábula.

O exemplo de Smith teve o dom, ou a sina, de reduzir à categoria de trabalho toda atividade destinada a obter bens de consumo. Mais do que isto: reduziu o valor do trabalho ao tempo e à dificuldade requeridos para se obter um bem. Uma noção que repercutiu na conhecida formulação de Marx de que os valores das mercadorias são diretamente proporcionais ao tempo de trabalho empregado na sua produção e inversamente proporcional à força produtiva do trabalho empregado[iii].

A fantasia antropológica de Adam Smith cobra o preço de todo mito: obscurece a realidade ao se por no seu lugar. Nem só o trabalho primitivo – intermitente, esporádico, autofrenante (cessa imediatamente ao atingir seu objetivo) – é desvinculado do tempo ou da dificuldade. Historicamente, é desvinculado do tempo e da dificuldade toda a concepção de trabalho anterior às relações capitalistas de produção. Até então o trabalho era entendido como uma atividade descontínua, com vinculações mágicas e depois religiosas.

Ninguém sabe quanto tempo levou para que as gárgulas, anjos e santos medievais fossem esculpidos, nem quanto custou para encarapitá-las nos tetos e beirais das igrejas. Isto não interessava. Estas esculturas não foram feitas para uso ou para troca. Nem mesmo foram feitas para a elevação dos humanos. Se hoje realizamos acrobacias, nos fatigamos e nos arriscamos para apreciá-las é porque não foram feitas para nós, mas para que Deus nas alturas as visse.

Depois da Renascença a cristandade perdeu esta fé intensa nos cuidados de Deus para com os mortais. Talvez porque tenha se descoberto desvalida, talvez porque a prometida redenção ainda demore. Não é o caso da fé no conceito do trabalho fruto da imaginação adâmica. Passados mais de dois séculos da sua formulação, o paralelismo entre esforço, tempo e preço continua a viciar a ótica econômica do trabalho. Uma ideia que que não pode ser atribuída ao uisge beatha, mais tarde conhecido por whisky, já que até 1880 este álcool não teve difusão fora das granjas dos highlanders que o fabricavam[iv].


[i] Smith, Adam (1975). An induiry into the nature and causes of the wealth of nations; London; Encyclopaedia Britannica Inc.

[ii] Cartier, Michel (2001) org. Le travail et ses représentations; Paris; Éditons des Archives Contemporaines.

[iii] Marx, Karl (2013) Salário, preço e lucro. Trad. Edmilsom Costa; São Paulo; EDIPRO

[iv] MacLean, Charles (2005) Scotch Whisky: A Liquid History, London, Cassell Illustrated

UTILIZE E CITE A FONTE.