NOTAS: Deveria haver um limite para o salário dos chefes?

Notícias.

Deu na BBC por Tim Harford. 

A chefe da empresa de apostas online Bet365, Denise Coates, recebeu um contracheque de 320 milhões de libras (quase R$ 1,7 bilhão), confirmando sua posição como o executivo mais bem pago do Reino Unido. O salário anual de 277 milhões de libras de salário, mais os dividendos, reacendeu o debate sobre quanto os chefes devem ganhar.

“Um executivo-chefe de uma grande empresa americana, segundo levantamento do Senado, recebe cerca de 100 vezes mais que um trabalhador médio da empresa. E nosso governo hoje recompensa esse excesso com isenção tributária, não importa qual ao alto seja esse pagamento. Isso é errado.”

A frase é de Bill Clinton durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1991, a qual ele venceu. Ele prontamente tirou do papel sua promessa de cercear pagamentos excessivos.

Em geralmente, salários são tratados como custo, reduzindo o lucro sobre o qual uma companhia paga tributos. O presidente Clinton mudou a lei americana, e companhias poderiam ainda pagar o quanto elas quisessem, mas salários anuais acima de US$ 1 milhão (cerca de R$ 4 milhões) não seriam mais dedutíveis.

A mudança teve um impacto enorme. Quando Clinton deixou o cargo, em 2000, a razão entre o pagamento do executivo-chefe e do trabalhador médio não era mais 100 para 1. Era 300 para 1.

Mas o que deu errado? Podemos abordar essa questão a partir das oliveiras da Grécia Antiga.

O filósofo Tales de Mileto, segundo se conta, foi desafiado a provar o valor da filosofia. Se ela era tão útil, por que Tales era tão pobre?

Filósofo Tales de Mileto

Filósofo Tales de Mileto – GETTY IMAGES

Aristóteles, que narra sua história, deixa claro que a questão é superficial.

É claro que os filósofos são espertos o bastante para ficarem ricos, mas eles também são sábios o bastante para não se importarem com isso. Podemos até imaginar Tales falando: “Ok, eu farei fortuna. Se eu precisar!”

À época, a filosofia incluía a leitura do futuro nas estrelas.

Tales previu uma safra abundante de azeitonas, o que significaria demanda alta no aluguel de prensas da cidade. Tales visitou cada dono de equipamento com uma proposta. Aristóteles é nebuloso nos detalhes, mas menciona a palavra “depósito”.

Talvez Tales tenha negociado o direito de usar a prensa na época da colheita, mas se ele decidisse não usá-la, o proprietário simplesmente ficaria seu depósito.

Nesse caso, é o primeiro exemplo registrado do que chamamos agora de opção. Uma má colheita de azeitonas, e a opção de Tales seria inútil.

Mas, por sorte ou por análise astronômica, ele estava certo. Aristóteles nos diz que Tales contratou as prensas “em que termos ele quis e coletou uma boa quantia de dinheiro”.

Atualmente, muitas opções são compradas e vendidas nos mercados financeiros.

Se você acha que o preço da ação da Apple vai subir, pode simplesmente comprar ações da empresa — ou pode comprar a opção de comprar ações da Apple por um preço específico numa data futura.

Uma opção é de alto risco e alto retorno. Se o preço da ação é menor do que minha opção de compra, eu perco tudo. Se é maior, eu posso exercer minha opção, vender a ação e tirar um grande lucro.

Mas há outro uso para essas opções, uma tentativa de resolver o que economistas chamam de problema do principal-agente. O principal é dono de algo, e ele emprega um agente para gerir isso para ele.

Imagine que eu me torno chefe da Apple, e você detém ações da empresa. Isso o torna o principal, ou um deles. Eu sou o agente, gerindo a companhia para você e outros acionistas.

Você precisa confiar em mim para trabalhar duro por seus interesses, mas você não pode ver o que eu faço o dia todo. Talvez eu tome minhas decisões consultando um astrólogo, talvez não tão esperto quanto Tales, mas eu sempre terei uma desculpa plausível de por que os lucros estão estagnados.

Mas se me derem opções de comprar novas ações da Apple em alguns anos? Agora eu teria a ganhar com o aumento do preço da ação. Claro, se eu exercer minha opção, isso vai diminuir o valor das ações, mas se o peço continuar subindo, isso não vai importar muito.

Tudo isso soa perfeitamente sensível, e em 1990 os economistas Kevin J. Murphy e Michael Jensen publicaram um influente artigo sobre o assunto.

“Na maioria das companhias”, escreveram, “a compensação de altos executivos é virtualmente independente do desempenho”.

Então, quando o presidente Clinton cortou isenções para pagamentos de executivos, ele beneficiou recompensas ligadas à performance. Conselheiro do então mandatário, Robert Reich explicou o que aconteceu: “Só mudou a remuneração dos executivos de salários para opções sobre ações”.

Um mercado de ações em ascensão significava que até mesmo um executivo-chefe que consulta astrologia teria se dado bem. A diferença entre os salários dos patrões e dos trabalhadores aumentou. Um congressista da era Clinton diz que a lei “merece um lugar de destaque no Museu de Consequências Não Intencionais”.

Mas espere: se as opções incentivam os executivos a fazer um trabalho melhor, então isso não é necessariamente ruim, certo? Infelizmente, isso acabou sendo um grande “se”.

Quais opções realmente incentivam é maximizar o preço das ações de uma empresa em uma determinada data. Se você acha que é exatamente a mesma coisa que administrar bem uma empresa, tenho algumas ações da Enron para vendê-lo.

Se as opções de ações não são a melhor maneira de recompensar o desempenho, os conselhos de administração da empresa não deveriam procurar alternativas?

Em teoria, sim. É trabalho do conselho negociar com os chefes das empresas em nome dos acionistas. Na prática, esse é outro problema do principal-agente, pois os chefes costumam influenciar quem são os diretores e quanto são pagos. Existe um potencial óbvio de conflito de interesse.

No livro Pay Without Performance (“Remuneração sem Desempenho”, em tradução livre), Lucian Bebchuk e Jesse Fried argumentam que os diretores não se importam de verdade com uma ligação entre remuneração e desempenho, mas precisam “camuflar” essa indiferença dos acionistas. A melhor forma de compensar gatos gordos é a “compensação de camuflagem”, e opções sobre ações parecem ser uma maneira de fazer isso.

Talvez acionistas precisem ainda de outro agente para supervisionar como a diretoria recompensa os chefes.

Há um candidato: muitas pessoas detêm ações não de modo direto, mas por meio de fundos de pensão, e há algumas evidências de que esses chamados investidores “institucionais” podem persuadir conselhos de administração a serem negociadores mais duros.

Quando um grande acionista pode exercer algum tipo de controle, há um elo mais genuíno entre a remuneração dos executivos e a performance deles. No entanto, essa ligação parece também bastante rara.

Os pagamentos feitos a executivos são frequentes nas manchetes de jornais, mesmo em países nos quais é menor a diferença da remuneração deles em relação ao trabalhador comum.

De todo modo, há surpreendentemente poucas evidências do que faz sentido.

Quão possível é avaliar bem o que um chefe faz? Há divergências.

Os chefes estavam menos motivados nos anos 1960 porque ganhavam “apenas” 20 vezes mais que os trabalhadores comuns? Parece difícil.

Por outro lado, boas decisões no comando de uma grande empresa têm muito mais valor do que as ruins. Então, talvez aqueles executivos valham mesmo os salários de até nove dígitos. Talvez.

Mas se é isso mesmo, não está claro para eleitores e trabalhadores, muitos dos quais ainda irritados com o que Clinton deu voz nos anos 1990.

Talvez os chefes executivos devam aprender com Tales, que foi esperto o bastante para fazer mais dinheiro, mas sábio o suficiente para refletir se deveria.

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NOTAS: A Face Oculta do Parecerista.

Notas.

Nesse artigo exponho discussões éticas sobre o processo de avaliação de mérito de trabalhos científicos. O sistema de revisão cega pelos pares em periódicos, partindo do debate sobre as pressões para publicação presentes na comunidade acadêmica de Administração no Brasil.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Dilthey, Wilhelm; Introduction a l’etude des sciences humaines: essai sur le fondement qu’on pourrait donner a l’etude de la societe et de l’histoire ; Paris: Presses Universitaires de France, 1942.

__________ ; La esencia de la filosofia; Buenos Aires; Losada; 1952

 

EPISTEMOLOGIA: Dialética e epistemologia.

Epistemologia.

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Hegel torneou o pensamento de Heráclito até transformá-lo em um automatismo inexorável. Convenceu-se, e a muitos, de que o conhecimento sobre o homem e a sociedade nasceria da apreensão de um fluxo dialético de ocorrências contraditórias. 

A marcha da realidade seria descrita por meio de um discurso lógico, um discurso em que uma posição teórica produziria inevitavelmente sua contrapartida. Do jogo de posição e contraposição – tese e antítese – destes elementos surgiria algo novo, uma nova tese, que, inevitavelmente, produziria uma nova antítese, e assim por diante. 

Para que a dialética tivesse acolhida como método, foi necessária a admissão de duas crenças filosóficas improváveis (não passíveis de serem provadas): a da anima mundi e a da nulidade racional das singularidades e do acaso.

A Anima mundi (alma do mundo) é um conceito cosmológico. A convicção de que existe um espírito regente do universo, pelo qual o pensamento sobrenatural pode manifestar-se. Sua origem é o motor imóvel (asynkínitos kínisis) de Aristóteles

O exemplo mais conhecido desta convicção é o comentário sobre a entrada de Napoleão, em 1806, em Jena. Hegel escreveu ter visto “a alma do mundo a cavalo”. Para ele, os 16.000 mortos e o dobro de aleijados na Batalha de Jena–Auerstedt teriam um propósito, e um propósito inquestionável, já que só conhecido pela divindade.

A segunda crença, a da nulidade racional do acaso, é corolário da anima mundi. Reza que, se a natureza e a história fazem um sentido, este sentido deve ter uma direção, isto é, a natureza e a história não conformariam uma sucessão de acontecimentos acidentais, mas seriam fruto de um encadeamento lógico-dialético, uma articulação de eventos que geram sínteses. Este servomecanismo se aproximaria mais e mais do objetivo, até alcançar o absoluto, o empíreo, o socialismo, a redenção ou o que quer que norteasse o Mundo e a História. 

O exemplo mais conhecido desta convicção está nos textos de Marx em que expõe a inevitabilidade do esgotamento e alternância dos modos de produção. Para os que seguem esta forma de pensar, o simplismo do esquema, as superposições, o entremeio, as relações não econômicas e a dificuldade de descrever os meios de produção da nossa época são irrelevantes.

Em termos cognitivos, as premissas correlatas da anima mundi, da inexistência de singularidades e da negação do acaso são condições ásperas para se lidar. Mas o que inviabiliza a dialética como epistemologia generalizável é a impossibilidade de garantir a terceira condição requerida: a da confluência dos fatores em um todo pré determinável. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Burckhardt, Martin (2011). Pequena História das grandes ideias. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro. Tinta Negra

Englund, Steven (2005). Napoleão: Uma biografia política.  Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Zahar

TRABALHO: A domesticação pelo trabalho.

Trabalho.

Nas pinturas dos túmulos egípcios de 3.000 anos atrás veem-se bois padecendo sob o jugo de um arado. O agricultor que os flagela é uma figura curvada e abatida. Tratado da mesma forma que o animal, sofre a castração psíquica que lhe veda a satisfação das necessidades corporais, emocionais, intelectuais e sociais que conformam a natureza humana.

Milênios passados, mudou a forma, não o conteúdo ou a intenção. A Antiguidade grega registrou uma esperança de redenção do trabalho servil. Mas foi incidental e transitória. Os atributos do bem viver (a bella vita) e do adestramento da sociabilidade em Aristóteles – temperança, justiça, coragem e fortitude – vigoraram só para alguns e não resistiram ao cristianismo. As virtudes de resignação (fé, esperança e caridade), logo voltaram a impor a complacência como espelho ideal da vida autorizada.

É que a economia requer a domesticação, tanto no sentido do manejo da natureza, quanto no de assentamento (no domus). Requer que se amanse, seja o selvagem, o independente, o autárquico ou o livre, de modo que possa ser útil ao sistema.

Nos regimes organizacionais da atualidade, o martírio decorre da necessidade de manter coesa a plebe e baixa a lucidez. Desta necessidade procede o treinamento, na forma como a domesticação deriva do adestramento, como a submissão decorre da covardia, como o servilismo decorre do terror.

As tecnologias aplicadas ao trabalho são parte dos processos psicagógicos, [a arte de guiar as almas pelo melhor caminho]. Os operadores coletivos, ao converterem exterior em interior, amansam a interioridade, de forma que o humano não se dê conta de que continua servindo aos poderosos e se preste a avassalar o seu semelhante.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Hagen, Rose-Marie et Rainer (2016) Les dessous des chefs-d’œuvre: un regard sur les grands maîtres. Köln. Taschen Bibliotheca Universalis.

EPISTEMOLOGIA: Retorno à Aristóteles.

Epistemologia.

De Aristóteles conservamos as ideias de que em todo objeto há algo imutável – sua essência – e elementos que se modificam – os acidentes.

Conservamos a ideia de que existem formas artificiais, como é o caso de uma estátua; naturais, como a alma; substanciais, como o corpo; acidentais, como a cor; inerentes, como a matéria; e exemplares, como em uma maquete.

Mas abandonamos a prática de procurar obsessivamente a essência das coisas e a compulsão de classificar rigidamente as formas em que os objetos se apresentam.

Conservamos a ideia de que existem categorias – conceitos unívocos – do pensamento: aquilo que tem a ver com as coisas, os tamanhos, as características, os relacionamentos, os locais, o tempo e o estado; com o ter, o fazer e o sofrer.

Mas levantamos dúvidas quanto estas categorias serem excludentes entre si, e sobre a possível existência de outras categorias.

De Aristóteles conservamos a ideia de que as relações entre o sujeito e o predicado de uma proposição obedecem a quatro tipos: a definição, que é conversível e essencial; a propriedade, que é conversível e não essencial; o gênero, que é não conversível e essencial e o acidente, que é não conversível e não essencial.

Mas não mantemos que inexistam outras predicações e predicações interpoladas.

Conservamos a evidência de que dirigimos nossa atenção em primeiro lugar ao que é passível de mudança. Por isto, seguimos afirmando a existência de uma natureza humana e nos atribuindo um potencial igualmente grande para experimentar tanto a tristeza quanto a felicidade, tanto entusiasmo quanto tédio.

Mas discordamos amplamente sobre o que venha a ser a natureza humana e se esta natureza é neutra e universal.

De Aristóteles, conservamos a ideia de que a razão prática procura determinar o melhor fim para agir. Isto é, que a ação racional consiste não em determinar os meios para um fim dado (instrumentalismo), não em fundamentar-se em leis eternas (normativismo), mas em encontrar o propósito (o fim) mais razoável para a ação.

Mas aceitamos uma gama imensa de visões acerca da interferência do tempo e das circunstâncias sobre o ser humano.

Esta posição preserva outra ideia de Aristóteles: a do domínio do contingente nas nossas ações efetivas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Aristóteles (1982). Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones: Ética a Nicômaco, 1112-31; Tópicos. 1, 4, 101b e ss.; Sobre el alma.

EPISTEMOLOGIA: O fato, o dado, o real e o abstrato.

Epistemologia.

Os platônicos intuíram que as ideias são realidades. Os aristotélicos intuíram que as ideias são generalizações. Os idealistas são platônicos. Os realistas aristotélicos. Divergem, mas nem uns, nem outros pensam que ideias e fatos são a mesma coisa. Ambos reconhecem que os fatos não se apresentam sob a forma de linearidade causal.

Nem mesmo são necessariamente conectados.

Alçar o factual à condição de real, como faz a maior parte dos métodos de investigação nas ciências sócio-humanas, é um contrassenso. As linhas de causa e efeito que dão “validade” e “representatividade” a estas investigações são constructos, são ponderações de um sentido que a vida não tem.

Aliada ao temor de desarranjar os esquemas acadêmicos, esta inconsistência leva a acomodações explicativas artificiais, erige distorções sobre o que foi e o que é.

Não se trata de uma simples fraude. O pseudo-realismo dos modelos epistemológicos provoca uma euforia cega. Graças a eles, a realidade deixa de ser assustadoramente obscura e estranha: torna-se conveniente, clara e familiar. Um espelho do que se gostaria que ela fosse.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.

ÉTICA: Ética e moral.

Ética.

Kandinsky – Composición VIII 1923

Até o início do século XIX, a tradução latina “moralis” para o termo grego “ethikos” foi julgada exata. A diferenciação entre os termos ética e moral são recentes e arbitrárias:

  • a ética seria afeta à busca do bem viver (a bela vida, o conatus, o esforço para realizar a natureza humana), e a moral à noção de enunciado de obrigações (baseada em Aristóteles);
  • a ética seria referida às prescrições particulares, convenientes à “realização de si”, ao desejo de dar sentido à própria existência; e a moral seria afeta aos deveres universais, conveniente à autonomia do sujeito enquanto parte da humanidade (popularizada por Habermas);
  • a ética seria referida à conduta pública e coletiva, e a moral à conduta privada e social (sem fonte precisa. Talvez se deva a que o termo ethos denote também “comportamento” e “caráter”, como na expressão “o ethos de um povo”);
  • a moralidade indicaria o aspecto subjetivo da conduta e a intenção do agente, e a eticidade indicaria o conjunto de valores morais efetivamente realizados na história (Hegel):
  • a ética seria universal, se dirigiria a todos, enquanto a moral seria particular, se dirigiria a cada pessoa (sem fonte precisa);
  • a ética seria a ciência que tem por objeto as ideias morais justificadas, e a moral denotaria a boa conduta segundo os preceitos socialmente aceitos.

A última acepção empresta ao termo “ética” uma conotação filosófica: a da reflexão sobre a conduta e sobre os princípios que permitem separar o bem do mal, o certo do errado; e empresta à moral uma conotação antropológica, ligada à cultura e à história. Este é o entendimento da maior parte dos filósofos, que segue a distinção dos estoicos entre os atos conformes (katorthômata) e os atos convenientes (kathekonta).

UTILIZE E CITE A FONTE.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1997) Princípios de filosofia do direito. Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo. Martins Fontes. (§ 106 e ss. e § 142 e ss)

Cicéron (2002) Les Paradoxes des Stoïciens. Texte établi et traduit par: J. Molager. Paris. Belles Lettres. [Parad. III]

Heurística – Fantasia, o triunfo de Averróis.

Epistemologia.

No sexto volume do Kulliyat, Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) descreveu propriedades medicinais que só foram redescobertas oito séculos depois de sua morte. Há um tópico sobre as virtudes do azeite feito de “azeitonas puras e não fervidas” cuja descrição é idêntica a das publicações contemporâneas.

Isto foi possível graças à “phantasia”, uma habilidade de produção de descobertas perdida, que hoje se procura recuperar.

As fantasias são apresentações em potência de ideais e imagens sem precedentes. Diferem da imaginação, que é estéril, capaz unicamente de combinações extrínsecas. A fantasia é inteiramente intrínseca e particular. Continuar lendo

Preliminares heurísticas: experimentos mentais.

Epistemologia.

As ferramentas heurísticas preambulares são a imaginação e a abstração. Ambas conformam experimentos mentais. A distinção principal entre estes experimentos e os reais está em que nos primeiros as circunstâncias não se descrevem, senão que se estabelecem e a ação se conjectura, não se presencia.

Os experimentos mentais datam dos primórdios do pensamento ocidental. São da ordem do contrafático (e se for assim?), e do especulativo (o que ocorreria?). Têm origem em Sócrates, que pergunta aos passantes na Ágora, nos diálogos platônicos, em Aristóteles. Atingem seu apogeu nas “obrigações”, uma prática da escolástica medieval. Continuar lendo

Trabalho voluntário & Trabalho espontâneo.

Trabalho & Produtividade.

Os dicionários comuns costumam dar “voluntário” e “espontâneo” como sinônimos. Mas estes conceitos são antagônicos. Voluntário significa o que se pode optar por fazer ou não. Espontâneo é o que se faz sem intervenção da vontade. Continuar lendo

Como funciona a universidade sem professores.

Notícias & Almanaque.

Deu na BBC por Matt Pickles.

Uma universidade revolucionária, sem professores, onde não há livros e nada é pago, acaba de ser aberta no Vale do Silício, na Califórnia. A ideia é receber por ano 1 mil estudantes interessados em programação de computadores e desenvolvimento de software. Durante o curso, os alunos trabalham sempre em grupo e avaliam os trabalhos uns dos outros.Sala da universidade sem professores Continuar lendo

O que é trabalho criativo?

Trabalho & Produtividade

Cosignificadookmo toda noção nova, ou que parece nova, a ideia de “economia criativa” abriu caminhos, despertou desconfianças, oxigenou a reflexão, suscitou palermices, gerou dúvidas.

A noção derivada de “trabalho criativo” replica estes desdobramentos. O que se segue é uma contribuição no sentido de elucidar o que viria a ser o conteúdo, o referente desta expressão.

O problema da criatividade remonta aos primórdios da filosofia. Platão dividiu as artes produtivas entre divinas e humanas. As artes divinas são criativas e miméticas, as artes humanas unicamente miméticas. Nada produzem, só reproduzem. No Timeu (29 e) expôs a criação como uma emanação a partir de um princípio pré-existente.

Aristóteles concebeu um céu natural (De Caelo), nele colocando um elemento primário, o Motor Imóvel, causador do movimento celeste (Metafísica) o que tornou o céu vivo e instituiu um Princípio (Dales; 1980; 532). O suposto deus unívoco dos gregos, como todos os deuses egípcios, gregos e romanos era demiurgo. A sua atividade era a poiesis (a obra, a produção), não a criação.

O monoteísmo judaico pensou o Universo como criado pela poder da voz de Deus. Mas os hebreus não professavam a criação ex-nihilo, já que na Torá o caos antecede ao ato da criação. Embora a tradição judaica fale na criação (Genesis I, 1. 1:2; Eclesiastes XVIII, 1), trata-se de uma criação a partir de alguma coisa, do chaos, literalmente da confusão. Eloin, Adonai, Jeová ou como quer que nos refiramos ao Deus único e inominável hebraico é, conceitualmente, também ele, um demiurgo.

A creatio ex-nihilo é uma ideia exclusiva dos cristãos (Romanos 4:17; Hebreus, 11:3), que pretendiam, como seguem pretendendo, que, se Deus criou tudo o que existe, não poderia haver um algo anterior a Ele, mas só um inconcebível Nada. O vazio anterior à criação foi aventado pelos gregos e pelos romanos que o rejeitaram por contra intuitivo e contrafático. De modo que, afora a suposta faculdade até hoje só atribuída ao Incriado Deus do cristianismo, a replicação do ideal abstrato, a Criação (do latim, causativo de cresco, brotar) refere não propriamente a uma geração a partir do nada, mas a um engendramento, a uma poiesis.

De novo aqui é preciso uma diferenciação entre o ato de reproduzir algo, o ato da produção e o ato gerador. Aristóteles (Et. Nic. I, 1094ª) distingue entre os objetos que têm como fim (telos) um produto, seja material ou imaterial (a saúde é o telos da medicina) e os objetos que tem como fim a atividade em si mesma, entre poiesis e praxis, produção e ação. Na Metafísica (1050ª) refina o conceito. Dá ergon como “estar em trabalho”, em funcionamento, em processo (en-energeia) para distinguir o telos da energeia do telos da en-telecheia (estar em realização). Na poiesis a energeia está na coisa gerada, enquanto na práxis a energeia está naquele que produz. O trabalho “poético” é aquele referido à coisa gerada. É o novo a partir do existente, o inventado, seja ele tangível ou intangível.

Temos assim que desde a Antiguidade latina o vocábulo “criativo” aplicado à economia, às organizações, ao trabalho, ou às pessoas é equívoco. O termo correto seria “inventivo” (do latim invent, particípio passado de invenīre, dar com, achar). Mesmo no cristianismo, os anjos e os mortais não procedem a um criar, mas a um inventar, a um encontrar, como se encontra um item no inventá-rio. Nem Leonardo da Vinci foi um criador, mas um descobridor, como sustenta Paul Valery que abraça a postulação do matemático Jules Poincaré de que a invenção é um descobrimento (Steiner 2012; 1227).

Além do equívoco terminológico, a expressão “trabalho criativo” comporta uma ambiguidade de referência. Toma a parte pelo todo (falácia de composição). Não existe uma tarefa, uma profissão, um campo em que o trabalho não possa ser inventivo. O designer industrial não exerce uma função menos criativa do que o escultor. O burocrata que aperfeiçoa um processo administrativo exerce mais criatividade do que o roteirista de cinema que sequencia chavões, como o da carroça derrubada na correria, a câmara focada nos pés do assassino que se aproxima, etc.

A criatividade é uma parcela de qualquer trabalho e não um atributo essencial de uma categoria específica de trabalho. O que há é uma variação de escala e de relevância. A fantasia coral de Beethoven, primeiro a unir uma peça para piano a um canto, seria o pináculo do trabalho criativo.  A invenção do sutiã por uma costureirinha no século XIX teria menos relevância e mérito. Ou talvez não para as mulheres da época, insanamente comprimidas nos espartilhos.

O termo “trabalho criativo” é, portanto, escalar. Conota o quantum de trabalho é referido ao esforço intelectual de geração de uma ideia (conceito), de um bem (artístico ou científico, intelectual ou material) ou de um serviço antes inexistentes, isto é, o grau em que uma categoria de trabalho implica na transformação de potência em ato. O trabalho será tanto mais criativo (inventivo) quanto mais atualizar um potencial.

 

utilize

Aristóteles (2011). Obra completa; Miguel Candel. ed.; Madrid: Editorial Gredos.
Dales, Richard C. (1980). The de-animation of the heavens in the Middle Ages; Journal of the History of Ideas; vol. 41 (4). Oct-Dec. 1980 [531-550]
Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.
Steiner, George (2012). La poesia del pensamento. Trad. De Maria Condor; Madrid; Ediciones Siruela [Kindle edition].

A verdade sobre o trabalho

CATEGORIA PT

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Uma obra que marca a crítica contemporânea, “A verdade em pintura”, de Jaques Derrida, oferece uma pista dos caminhos a serem percorridos após a superação do positivismo no século XXI pelas investigações sócio-humanas.

A forma de análise proposta por Derrida resolve ou contorna a impossibilidade de se abarcar a totalidade das dimensões de um fenômeno como o do trabalho. A ampliação do conhecimento estabelecido deriva da evidenciação da sua fragilidade, pela denúncia dos sectarismos, dos reducionismos ou das simples evocações contidas na proposição “o trabalho é ..isto ou aquilo”.

Derrida mostra que desde a descrição do que se vê até o julgamento do significado, passando pela interpretação das intenções, persiste o que denominou de “fantasmas”. Espectros que projetam significados que turvam uma pretensa verdade sobre o objeto analisado. Levanta em ponto fulcral e de difícil aceitação: o de que os sentidos da verdade são múltiplos e contestáveis.

Na tradição filosófica temos múltiplos entendimentos sobre a verdade. O mais antigo é o da teoria grega da correspondência com o real (Alethéia) que faz Platão diferir o verdadeiro do aparente, e Aristóteles o verdadeiro do falso. A teoria latina da coerência (Veritas) opõe a verdade à mentira. Existem outras concepções. As mais frequentadas na atualidade talvez sejam a que dá a verdade como uma idealização fundamentada por um ser cognoscente e a que imputa o verdadeiro à experimentação. Derrida prefere trabalhar com a verdade como a representação do percebido – o testemunho – e a verdade como a adequação do significado.

Qualquer que seja a acepção de verdade, a análise de Derrida evidencia a insuficiência da interpretação dos fenômenos segundo teses, convicções sobre origens ou sobre lógicas. Os equívocos desta natureza podem carreiam efeitos significativos sobre as avaliações ditas científicas. Por exemplo, a “verdade” que as pessoas almejam a liderança, as posições de chefia nas organizações é errônea e incompleta. Não há uma psique que seja universal, como não há uma biografia que não seja individual. A história da vida e a circunstâncias espaço-temporais tendem à particularização.

A sociedade, o management, as ideias dominantes inibem a expressão das individualidades, não as suprimem. A crítica mostra de imediato a fantasmagoria da aspiração à liderança, da cobiça aos postos de chefia. Um pressuposto que orienta um sem número de teses, de atitudes, de conflitos, 51SH8PN55ML._SX288_BO1,204,203,200_e que não tem outra fundamentação do que a crendice estabelecida. Uma verdade que causa prejuízos pessoais, inadaptações profissionais, mas, também, dificuldades organizacionais que acabam repercutindo na produtividade laboral.

A análise crítica na forma desconstrutivista proposta por Derrida evidencia que as definições inconsistentes (de-finir, mostrar os fins, os limites) do que vem a ser o fenômeno do trabalho não consideram, ou, ao menos, não consideram suficientemente, instâncias tais como meio cultural, diferenças biográficas como idade, sexo, estrato econômico de origem e orientação psíquica dos indivíduos. Denuncia as superstições convencionais que orientam as pesquisas que se querem cientificas. Mostram que a única e definitiva verdade sobre o trabalho é a de que não existe uma verdade única e definitiva sobre o trabalho.

Derrida, Jacques (2010). La vérité en peinture. Paris. Flammarion.

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Arendt: o sentido do trabalho

CATEGORIA PT

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Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

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Metamorfose e trabalho

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kafka1Há tempos se fala e se escreve sobre a metamorfose do trabalho. Metamorfose, (gr. metamórphósis,eós), no sentido de Kafka significa uma mutação: de homem a inseto. No sentido clássico de Ovídio, significa os renascimentos incessantes, mas sob forma diversa, como no budismo.

O que provoca uma metamorfose é o evento estrutural. A inclusão (o nascimento, a instauração, …), a exclusão (a morte, a falência, ….) ou o deslocamento radical (a mutação, a passagem do eixo da vida para o eixo da economia, …) de um ou mais elementos axiais da estrutura pregressa.

As metamorfoses podem ser induzidas. Antes de Ésquilo, os dramas não passavam de recitativos. Tespis foi o primeiro a introduzir um hipócrita, [gr. hupokritês,oû, o que dá uma resposta] um ator que representava um personagem e que se colocava em uma plataforma acima da orquestra. Elevado sobre seu coturno, o hipócrita, vestido de negro ou de púrpura e portando uma máscara – indicadora do seu humor e simultaneamente amplificadora – compartilhava a cena com os doze corifeus.

Foi Ésquilo, conforme se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles[i], quem introduziu um segundo ator, e com ele o diálogo. O teatro grego teve outras mutações, mas a metamorfose introduzida por Ésquilo, do hipócrita feito protagonista [gr. prôtos, primeiro + agónistês, lutador], e do segundo ator, o antagonista, transformou o simples recitativo em arte dramática.

Não parece que uma metamorfose do trabalho esteja próxima. Para que tivesse realidade, dependeria de mudanças estruturais radicais seja da forma de valorar – a troca do tempo pela qualidade – seja do vínculo preponderante – a tônica do emprego substituída pela do profissionalismo – seja do conteúdo – o foco deslocado da reprodutividade para a autoria.

[i] Aristóteles (1974). Obras, São Paulo, Abril Editorial e Cultural

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O legado do trabalho

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Sobreviver ao trabalho

Karl Marx denominou de trabalho morto a parcela do esforço que conserva-se em cada objeto, em cada processo herdado e apropriado pelo capital. Na mesa sobre a qual escrevemos, na forma de expressão que usamos estão depositados o trabalho do carpinteiro que primeiro aparou uma madeira, do remoto gramático que torneou a primitiva oração.

O trabalho morto não refere a uma realidade. É uma figura de retórica. Sinédoque, que lembra que a riqueza é uma construção, que a cultura é uma edifício, que seguimos os que nos precederam, que somos anões no ombro de gigantes. A figura não dá conta da questão filosófica de saber o que, de fato, subsiste do nosso trabalho depois que nos vamos.

As inumeráveis soluções oferecidas a esta questão derivam de quatro argumentos clássicos: o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Orígenes, o de Avicena.

O argumento socrático, constante no Fédon, é de que fica a memória dos outros. Nada físico, nada psíquico, nada pragmático restará de nós no mundo quando já não formos.

O argumento aristotélico, cristianizado por S. Tomás de Aquino ao explicar a ressurreição dos corpos, é a de que a existência, dependente que é da corporeidade, deixa ao partir as marcas do que fizemos: a nós e ao mundo.

Orígenes, que teve que se haver com a fé na consumação dos corpos, tomou a frase de Cristo que diz que no Céu de nada recordaremos, para assegurar que não restará matéria. Reduzidos (ou elevados) à condição de pneuma, uma mistura de ar e fogo, se algo do nosso trabalho ficar, não será marca nem memória, mas o evanescente.

Avicena, o filósofo do Islã, argumentou que a materialidade do corpo só é necessária para construir a Identidade, um ego metafísico. Transitada pelo mundo, a Identidade não dependerá do corpo para subsistir. Do nosso trabalho morto não restará resquício, não ficará nem mesmo a memória. A nossa ou a dos objetos.

A tênue marca, a fugida memória, o evanescente ou o nada. Parece sensato trabalharmos para a posteridade?

Referências
Marx, Karl (1974). Para a crítica da economia política, in Os Pensadores, Vol. XXXV, Abril Cultural, São Paulo.
Fédon in Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali; Marid; Aguilar S.A. de Ediciones
Jaeger, Werner (1995) Aristóteles, Fondo de Cultura Económica, México, México.

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