Aristóteles

Heurística – Fantasia, o triunfo de Averróis.

Epistemologia.

No sexto volume do Kulliyat, Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) descreveu propriedades medicinais que só foram redescobertas oito séculos depois de sua morte. Há um tópico sobre as virtudes do azeite feito de “azeitonas puras e não fervidas” cuja descrição é idêntica a das publicações contemporâneas.

Isto foi possível graças à “phantasia”, uma habilidade de produção de descobertas perdida, que hoje se procura recuperar.

As fantasias são apresentações em potência de ideais e imagens sem precedentes. Diferem da imaginação, que é estéril, capaz unicamente de combinações extrínsecas. A fantasia é inteiramente intrínseca e particular. (mais…)

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Preliminares heurísticas: experimentos mentais.

Epistemologia.

As ferramentas heurísticas preambulares são a imaginação e a abstração. Ambas conformam experimentos mentais. A distinção principal entre estes experimentos e os reais está em que nos primeiros as circunstâncias não se descrevem, senão que se estabelecem e a ação se conjectura, não se presencia.

Os experimentos mentais datam dos primórdios do pensamento ocidental. São da ordem do contrafático (e se for assim?), e do especulativo (o que ocorreria?). Têm origem em Sócrates, que pergunta aos passantes na Ágora, nos diálogos platônicos, em Aristóteles. Atingem seu apogeu nas “obrigações”, uma prática da escolástica medieval. (mais…)

Trabalho voluntário & Trabalho espontâneo.

Trabalho & Produtividade.

Os dicionários comuns costumam dar “voluntário” e “espontâneo” como sinônimos. Mas estes conceitos são antagônicos. Voluntário significa o que se pode optar por fazer ou não. Espontâneo é o que se faz sem intervenção da vontade. (mais…)

Como funciona a universidade sem professores.

Notícias & Almanaque.

Deu na BBC por Matt Pickles.

Uma universidade revolucionária, sem professores, onde não há livros e nada é pago, acaba de ser aberta no Vale do Silício, na Califórnia. A ideia é receber por ano 1 mil estudantes interessados em programação de computadores e desenvolvimento de software. Durante o curso, os alunos trabalham sempre em grupo e avaliam os trabalhos uns dos outros.Sala da universidade sem professores (mais…)

O que é trabalho criativo?

Trabalho & Produtividade

Cosignificadookmo toda noção nova, ou que parece nova, a ideia de “economia criativa” abriu caminhos, despertou desconfianças, oxigenou a reflexão, suscitou palermices, gerou dúvidas.

A noção derivada de “trabalho criativo” replica estes desdobramentos. O que se segue é uma contribuição no sentido de elucidar o que viria a ser o conteúdo, o referente desta expressão.

O problema da criatividade remonta aos primórdios da filosofia. Platão dividiu as artes produtivas entre divinas e humanas. As artes divinas são criativas e miméticas, as artes humanas unicamente miméticas. Nada produzem, só reproduzem. No Timeu (29 e) expôs a criação como uma emanação a partir de um princípio pré-existente.

Aristóteles concebeu um céu natural (De Caelo), nele colocando um elemento primário, o Motor Imóvel, causador do movimento celeste (Metafísica) o que tornou o céu vivo e instituiu um Princípio (Dales; 1980; 532). O suposto deus unívoco dos gregos, como todos os deuses egípcios, gregos e romanos era demiurgo. A sua atividade era a poiesis (a obra, a produção), não a criação.

O monoteísmo judaico pensou o Universo como criado pela poder da voz de Deus. Mas os hebreus não professavam a criação ex-nihilo, já que na Torá o caos antecede ao ato da criação. Embora a tradição judaica fale na criação (Genesis I, 1. 1:2; Eclesiastes XVIII, 1), trata-se de uma criação a partir de alguma coisa, do chaos, literalmente da confusão. Eloin, Adonai, Jeová ou como quer que nos refiramos ao Deus único e inominável hebraico é, conceitualmente, também ele, um demiurgo.

A creatio ex-nihilo é uma ideia exclusiva dos cristãos (Romanos 4:17; Hebreus, 11:3), que pretendiam, como seguem pretendendo, que, se Deus criou tudo o que existe, não poderia haver um algo anterior a Ele, mas só um inconcebível Nada. O vazio anterior à criação foi aventado pelos gregos e pelos romanos que o rejeitaram por contra intuitivo e contrafático. De modo que, afora a suposta faculdade até hoje só atribuída ao Incriado Deus do cristianismo, a replicação do ideal abstrato, a Criação (do latim, causativo de cresco, brotar) refere não propriamente a uma geração a partir do nada, mas a um engendramento, a uma poiesis.

De novo aqui é preciso uma diferenciação entre o ato de reproduzir algo, o ato da produção e o ato gerador. Aristóteles (Et. Nic. I, 1094ª) distingue entre os objetos que têm como fim (telos) um produto, seja material ou imaterial (a saúde é o telos da medicina) e os objetos que tem como fim a atividade em si mesma, entre poiesis e praxis, produção e ação. Na Metafísica (1050ª) refina o conceito. Dá ergon como “estar em trabalho”, em funcionamento, em processo (en-energeia) para distinguir o telos da energeia do telos da en-telecheia (estar em realização). Na poiesis a energeia está na coisa gerada, enquanto na práxis a energeia está naquele que produz. O trabalho “poético” é aquele referido à coisa gerada. É o novo a partir do existente, o inventado, seja ele tangível ou intangível.

Temos assim que desde a Antiguidade latina o vocábulo “criativo” aplicado à economia, às organizações, ao trabalho, ou às pessoas é equívoco. O termo correto seria “inventivo” (do latim invent, particípio passado de invenīre, dar com, achar). Mesmo no cristianismo, os anjos e os mortais não procedem a um criar, mas a um inventar, a um encontrar, como se encontra um item no inventá-rio. Nem Leonardo da Vinci foi um criador, mas um descobridor, como sustenta Paul Valery que abraça a postulação do matemático Jules Poincaré de que a invenção é um descobrimento (Steiner 2012; 1227).

Além do equívoco terminológico, a expressão “trabalho criativo” comporta uma ambiguidade de referência. Toma a parte pelo todo (falácia de composição). Não existe uma tarefa, uma profissão, um campo em que o trabalho não possa ser inventivo. O designer industrial não exerce uma função menos criativa do que o escultor. O burocrata que aperfeiçoa um processo administrativo exerce mais criatividade do que o roteirista de cinema que sequencia chavões, como o da carroça derrubada na correria, a câmara focada nos pés do assassino que se aproxima, etc.

A criatividade é uma parcela de qualquer trabalho e não um atributo essencial de uma categoria específica de trabalho. O que há é uma variação de escala e de relevância. A fantasia coral de Beethoven, primeiro a unir uma peça para piano a um canto, seria o pináculo do trabalho criativo.  A invenção do sutiã por uma costureirinha no século XIX teria menos relevância e mérito. Ou talvez não para as mulheres da época, insanamente comprimidas nos espartilhos.

O termo “trabalho criativo” é, portanto, escalar. Conota o quantum de trabalho é referido ao esforço intelectual de geração de uma ideia (conceito), de um bem (artístico ou científico, intelectual ou material) ou de um serviço antes inexistentes, isto é, o grau em que uma categoria de trabalho implica na transformação de potência em ato. O trabalho será tanto mais criativo (inventivo) quanto mais atualizar um potencial.

 

utilize

Aristóteles (2011). Obra completa; Miguel Candel. ed.; Madrid: Editorial Gredos.
Dales, Richard C. (1980). The de-animation of the heavens in the Middle Ages; Journal of the History of Ideas; vol. 41 (4). Oct-Dec. 1980 [531-550]
Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.
Steiner, George (2012). La poesia del pensamento. Trad. De Maria Condor; Madrid; Ediciones Siruela [Kindle edition].

A verdade sobre o trabalho

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Uma obra que marca a crítica contemporânea, “A verdade em pintura”, de Jaques Derrida, oferece uma pista dos caminhos a serem percorridos após a superação do positivismo no século XXI pelas investigações sócio-humanas.

A forma de análise proposta por Derrida resolve ou contorna a impossibilidade de se abarcar a totalidade das dimensões de um fenômeno como o do trabalho. A ampliação do conhecimento estabelecido deriva da evidenciação da sua fragilidade, pela denúncia dos sectarismos, dos reducionismos ou das simples evocações contidas na proposição “o trabalho é ..isto ou aquilo”.

Derrida mostra que desde a descrição do que se vê até o julgamento do significado, passando pela interpretação das intenções, persiste o que denominou de “fantasmas”. Espectros que projetam significados que turvam uma pretensa verdade sobre o objeto analisado. Levanta em ponto fulcral e de difícil aceitação: o de que os sentidos da verdade são múltiplos e contestáveis.

Na tradição filosófica temos múltiplos entendimentos sobre a verdade. O mais antigo é o da teoria grega da correspondência com o real (Alethéia) que faz Platão diferir o verdadeiro do aparente, e Aristóteles o verdadeiro do falso. A teoria latina da coerência (Veritas) opõe a verdade à mentira. Existem outras concepções. As mais frequentadas na atualidade talvez sejam a que dá a verdade como uma idealização fundamentada por um ser cognoscente e a que imputa o verdadeiro à experimentação. Derrida prefere trabalhar com a verdade como a representação do percebido – o testemunho – e a verdade como a adequação do significado.

Qualquer que seja a acepção de verdade, a análise de Derrida evidencia a insuficiência da interpretação dos fenômenos segundo teses, convicções sobre origens ou sobre lógicas. Os equívocos desta natureza podem carreiam efeitos significativos sobre as avaliações ditas científicas. Por exemplo, a “verdade” que as pessoas almejam a liderança, as posições de chefia nas organizações é errônea e incompleta. Não há uma psique que seja universal, como não há uma biografia que não seja individual. A história da vida e a circunstâncias espaço-temporais tendem à particularização.

A sociedade, o management, as ideias dominantes inibem a expressão das individualidades, não as suprimem. A crítica mostra de imediato a fantasmagoria da aspiração à liderança, da cobiça aos postos de chefia. Um pressuposto que orienta um sem número de teses, de atitudes, de conflitos, 51SH8PN55ML._SX288_BO1,204,203,200_e que não tem outra fundamentação do que a crendice estabelecida. Uma verdade que causa prejuízos pessoais, inadaptações profissionais, mas, também, dificuldades organizacionais que acabam repercutindo na produtividade laboral.

A análise crítica na forma desconstrutivista proposta por Derrida evidencia que as definições inconsistentes (de-finir, mostrar os fins, os limites) do que vem a ser o fenômeno do trabalho não consideram, ou, ao menos, não consideram suficientemente, instâncias tais como meio cultural, diferenças biográficas como idade, sexo, estrato econômico de origem e orientação psíquica dos indivíduos. Denuncia as superstições convencionais que orientam as pesquisas que se querem cientificas. Mostram que a única e definitiva verdade sobre o trabalho é a de que não existe uma verdade única e definitiva sobre o trabalho.

Derrida, Jacques (2010). La vérité en peinture. Paris. Flammarion.

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Arendt: o sentido do trabalho

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Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

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Metamorfose e trabalho

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kafka1Há tempos se fala e se escreve sobre a metamorfose do trabalho. Metamorfose, (gr. metamórphósis,eós), no sentido de Kafka significa uma mutação: de homem a inseto. No sentido clássico de Ovídio, significa os renascimentos incessantes, mas sob forma diversa, como no budismo.

O que provoca uma metamorfose é o evento estrutural. A inclusão (o nascimento, a instauração, …), a exclusão (a morte, a falência, ….) ou o deslocamento radical (a mutação, a passagem do eixo da vida para o eixo da economia, …) de um ou mais elementos axiais da estrutura pregressa.

As metamorfoses podem ser induzidas. Antes de Ésquilo, os dramas não passavam de recitativos. Tespis foi o primeiro a introduzir um hipócrita, [gr. hupokritês,oû, o que dá uma resposta] um ator que representava um personagem e que se colocava em uma plataforma acima da orquestra. Elevado sobre seu coturno, o hipócrita, vestido de negro ou de púrpura e portando uma máscara – indicadora do seu humor e simultaneamente amplificadora – compartilhava a cena com os doze corifeus.

Foi Ésquilo, conforme se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles[i], quem introduziu um segundo ator, e com ele o diálogo. O teatro grego teve outras mutações, mas a metamorfose introduzida por Ésquilo, do hipócrita feito protagonista [gr. prôtos, primeiro + agónistês, lutador], e do segundo ator, o antagonista, transformou o simples recitativo em arte dramática.

Não parece que uma metamorfose do trabalho esteja próxima. Para que tivesse realidade, dependeria de mudanças estruturais radicais seja da forma de valorar – a troca do tempo pela qualidade – seja do vínculo preponderante – a tônica do emprego substituída pela do profissionalismo – seja do conteúdo – o foco deslocado da reprodutividade para a autoria.

[i] Aristóteles (1974). Obras, São Paulo, Abril Editorial e Cultural

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O legado do trabalho

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Sobreviver ao trabalho

Karl Marx denominou de trabalho morto a parcela do esforço que conserva-se em cada objeto, em cada processo herdado e apropriado pelo capital. Na mesa sobre a qual escrevemos, na forma de expressão que usamos estão depositados o trabalho do carpinteiro que primeiro aparou uma madeira, do remoto gramático que torneou a primitiva oração.

O trabalho morto não refere a uma realidade. É uma figura de retórica. Sinédoque, que lembra que a riqueza é uma construção, que a cultura é uma edifício, que seguimos os que nos precederam, que somos anões no ombro de gigantes. A figura não dá conta da questão filosófica de saber o que, de fato, subsiste do nosso trabalho depois que nos vamos.

As inumeráveis soluções oferecidas a esta questão derivam de quatro argumentos clássicos: o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Orígenes, o de Avicena.

O argumento socrático, constante no Fédon, é de que fica a memória dos outros. Nada físico, nada psíquico, nada pragmático restará de nós no mundo quando já não formos.

O argumento aristotélico, cristianizado por S. Tomás de Aquino ao explicar a ressurreição dos corpos, é a de que a existência, dependente que é da corporeidade, deixa ao partir as marcas do que fizemos: a nós e ao mundo.

Orígenes, que teve que se haver com a fé na consumação dos corpos, tomou a frase de Cristo que diz que no Céu de nada recordaremos, para assegurar que não restará matéria. Reduzidos (ou elevados) à condição de pneuma, uma mistura de ar e fogo, se algo do nosso trabalho ficar, não será marca nem memória, mas o evanescente.

Avicena, o filósofo do Islã, argumentou que a materialidade do corpo só é necessária para construir a Identidade, um ego metafísico. Transitada pelo mundo, a Identidade não dependerá do corpo para subsistir. Do nosso trabalho morto não restará resquício, não ficará nem mesmo a memória. A nossa ou a dos objetos.

A tênue marca, a fugida memória, o evanescente ou o nada. Parece sensato trabalharmos para a posteridade?

Referências
Marx, Karl (1974). Para a crítica da economia política, in Os Pensadores, Vol. XXXV, Abril Cultural, São Paulo.
Fédon in Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali; Marid; Aguilar S.A. de Ediciones
Jaeger, Werner (1995) Aristóteles, Fondo de Cultura Económica, México, México.

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