Avicena

Mântica heurística – Divinatória.

Epistemologia & Método.

Que a profecia, a adivinhação, o pressentimento e as demais categorias de impressionismo heurístico carecem de aceitação científica, é um fato. Que seguem sendo praticados nos laboratórios e nos centros de pesquisa, não resta dúvidas.

O recurso à adivinhação não é, como pode parecer, um ato estranho à busca do conhecimento. Houve, ou ainda há, uma disciplina capaz de prever o futuro: a mântica (gr. Mantiké téchnē, de mantikós,ê,ón, adivinho).

A mântica se divide em dois ramos: a de inspiração divinatória e a do deciframento dos signos. Na da adivinhação, a mântica de Apolo, a alma dos deuses se apossa do sujeito e fala por sua boca, como acontece no sonho ou na possessão. Na outra mântica, a de Hermes, existem duas vertentes. Na vertente profética o futuro é antecipado pela inspiração ou pela intuição. Na vertente interpretativa o futuro é conhecido pela decifração de signos, como o voo dos pássaros, a leitura dos fígados de bois, a quiromancia, etc.

Trataremos aqui da primeira: a mântica espiritual, divina ou de Apolo, que se ocupa dos presságios e dos vaticínios. (mais…)

O legado do trabalho

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Sobreviver ao trabalho

Karl Marx denominou de trabalho morto a parcela do esforço que conserva-se em cada objeto, em cada processo herdado e apropriado pelo capital. Na mesa sobre a qual escrevemos, na forma de expressão que usamos estão depositados o trabalho do carpinteiro que primeiro aparou uma madeira, do remoto gramático que torneou a primitiva oração.

O trabalho morto não refere a uma realidade. É uma figura de retórica. Sinédoque, que lembra que a riqueza é uma construção, que a cultura é uma edifício, que seguimos os que nos precederam, que somos anões no ombro de gigantes. A figura não dá conta da questão filosófica de saber o que, de fato, subsiste do nosso trabalho depois que nos vamos.

As inumeráveis soluções oferecidas a esta questão derivam de quatro argumentos clássicos: o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Orígenes, o de Avicena.

O argumento socrático, constante no Fédon, é de que fica a memória dos outros. Nada físico, nada psíquico, nada pragmático restará de nós no mundo quando já não formos.

O argumento aristotélico, cristianizado por S. Tomás de Aquino ao explicar a ressurreição dos corpos, é a de que a existência, dependente que é da corporeidade, deixa ao partir as marcas do que fizemos: a nós e ao mundo.

Orígenes, que teve que se haver com a fé na consumação dos corpos, tomou a frase de Cristo que diz que no Céu de nada recordaremos, para assegurar que não restará matéria. Reduzidos (ou elevados) à condição de pneuma, uma mistura de ar e fogo, se algo do nosso trabalho ficar, não será marca nem memória, mas o evanescente.

Avicena, o filósofo do Islã, argumentou que a materialidade do corpo só é necessária para construir a Identidade, um ego metafísico. Transitada pelo mundo, a Identidade não dependerá do corpo para subsistir. Do nosso trabalho morto não restará resquício, não ficará nem mesmo a memória. A nossa ou a dos objetos.

A tênue marca, a fugida memória, o evanescente ou o nada. Parece sensato trabalharmos para a posteridade?

Referências
Marx, Karl (1974). Para a crítica da economia política, in Os Pensadores, Vol. XXXV, Abril Cultural, São Paulo.
Fédon in Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali; Marid; Aguilar S.A. de Ediciones
Jaeger, Werner (1995) Aristóteles, Fondo de Cultura Económica, México, México.

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