EPISTEMOLOGIA: Heurística – Experiência e experimentação.

Epistemologia.

Muitas expressões heurísticas têm base empírica. Não porque advenham, como os métodos epistemológicos, da experimentação, mas porque derivam da experiência.

A experimentação consiste em observar, interpretar e descrever um fenômeno em condições controladas. A experiência é o conhecimento obtido por meio dos sentidos, da prática não organizada, ou da sabedoria adquirida de maneira espontânea.

Enquanto os procedimentos epistemológicos buscam leis e regularidades, os procedimentos heurísticos se voltam para singularidades. Na experimentação testamos para ver o que acontece. Na experiência absorvemos o que acontece a nós e ao mundo.

A experimentação é sempre uma fotografia. O que a imagem fotográfica oferece é uma emanação da realidade que se deu no passado. Um fato, um dado, um real morto. Não se pode revivê-lo. Só se pode lembrá-lo como notícia do sinal colhido, daquilo que já não é.

A experiência é presente. Existe enquanto dura. Só se pode vivê-la uma vez. Tudo na experiência permanece íntimo. Seu sinal é colhido como sensação intuitiva do que é.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Barthes, Roland (1984) A câmara clara: Nota sobre a fotografia. Trad. Julio Castanon Guimaraes. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.

EPISTEMOLOGIA – Heurística – Xenófanes: A invenção de Deus e a descoberta do Mundo.

Epistemologia.

A heurística tem um de seus próceres no filósofo jônico Xenófanes de Cólofon (ca. 570 a.C. — 475 a.C.).

Rapsodo, Xenófanes escreveu somente em versos, o que lhe permitiu desenvolver um tipo de reflexão comparativa e conciliadora. Sua na doutrina é a da unidade em todo subsistente. Observador dos elementos, foi o primeiro a identificar os fósseis longe da costa, concluindo sobre a lenta dinâmica da Natureza.  Observador da Humanidade, combateu o antropomorfismo, descobriu que a Terra é um globo e inventou o monoteísmo teórico.

Confrontando as reflexões de Empédocles, que havia sustentado que a Terra era plana, de Demócrito, que dissera que vivemos no oco do mundo, de Leucipo, que pensou a Terra como um tambor, de Heráclito, que havia dito que a Terra tinha forma de uma taça e de Anaximandro, que garantira que era infinita para baixo, Xenófanes deduziu que a Terra teria que ser globular, a única forma que compreende todas as demais.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Xenófanes estudou a relação que existe entre as imagens que diversas sociedades criam dos seus deuses. Verificou que eram similares às próprias características físicas. Em lugar de simplesmente registrar o fato, alcançou a conclusão de que existe um só Deus, único e eterno, e que este Deus, que reúne as características de todos os povos, tem uma forma esférica e, talvez, espelhada.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Gerd A. Bornheim (1967), Xenófanes de Cólofon. In, Os filósofos pré-socráticos. São Paulo. Cultrix.

Kirk, G.S., Raven, J.E. and Schofield, M. (1983) The Pre-Socratic Philosophers. Cambridge. Cambridge University Press [ chapter 5 pag. 163-80])

EPISTEMOLOGIA: Conceito – O que é a intuição.

Heurística.

 “Com a lógica se demonstra, com a intuição se inventa.” (Poincaré)

 

Descartes definiu a intuição evidente como oposta à dedução necessária. Kant, como tudo que o intelecto experimenta com rigor, em si mesmo ou na imaginação. Schopenhauer, como percepção direta, sem mediação do conhecimento discursivo e das suas relações. O pós-idealismo seguiu Schopenhauer.

No século passado, Husserl diferenciou a intuição empírica, que capta os objetos individuais; a intuição eidética, que capta a essência das coisas; e a intuição categorial, que capta as estruturas, os padrões e os números. A intuição empírica ou individual é transformada na visão da essência [ideação] que é uma abstração [algo insubsistente por si mesmo]. De modo que, para a fenomenologia, a intuição é uma faculdade que permite perceber o todo, no sentido de que se pode examinar um objeto, uma árvore, por exemplo, de muitos ângulos, mas só a intuição permite apreendê-lo integralmente.

Contemporâneo da fenomenologia, Henri Bergson escreveu que a intuição é algo que se encontra entre o instinto e a intelecção. É o que apreendemos em um lampejo no espírito, aquilo que sabemos, mas que “não sabemos como dizer”. O intuído é o que fica na ponta da língua, o que se perde inevitavelmente na continuidade fluida do tempo, o verso melhor, que já não podemos recordar.

A definição contemporânea da intuição – faculdade interna de fazer inferências e chegar ao conhecimento de estruturas e de dinâmicas -, supera as distinções entre o sensível e o intelectual. Um longo caminho desde a filosofia Antiga e a Medieval, que deram a intuição (lat.ecl. intuitìo,ónis: imagem refletida no espelho) como ato puro da consciência, como a apreensão imediata das Ideias (Platão) e de Deus (S. Agostinho).

Esta capacidade de captar padrões e significados imediatamente do real ao intelecto permanece desde sempre no âmago do processo heurístico, que a distingue, da adivinhação, da fantasia, da inclinação, e de toda evidência.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Descartes, René (1989). Regras Para a Direção do Espírito [ III]. Tradução de João Gama. Lisboa. Edições 70.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura [I, passin, particularmente § 3] Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Idéias e Letras.

Kant, Immanuel (1989). Crítica da razão pura, Estética transcendental. I, 1. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

Paty, Michel (2005) Pensée rationnelle et création scientifique chez Poincaré. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00004166

Platon (1981) Fedro 247a .In Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali. Marid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Poincaré, Henri (1947). [1908]. Science et méthode, Flammarion, Paris. [137]

Santo Agostinho (2010). Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora Vozes

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Fatalismo: Encontro em Samarra.

Epistemologia.

Em Bagdá, faz tempo, Kaled ben Youssef tropeçou em uma mulher. Ela o olhou com estranhamento. Kaled viu naquele olhar uma ameaça. Com medo, viajou imediatamente para a longínqua Samarra, cidade grande e confusa, onde pretendia se esconder. A viagem durou o dia inteiro. À noite, na entrada de Samarra, Kaled viu a mesma mulher. Surpreso, foi até ela e lhe perguntou a razão daquele olhar. A mulher, que era a Morte, lhe respondeu: fiquei admirada porque ainda pela manhã você estava em Bagdá e tínhamos um encontro marcado para esta noite em Samarra.

Se tudo o que se pode saber e tudo o que pode nos acontecer já está escrito, o que leva um fatalista a tentar impedir o que não pode ser evitado, a descobrir o que não pode ser modificado?

Para compreender o impulso heurístico do determinismo fatalista é preciso distingui-lo dos determinismos metafísico e científico. Estes abraçam a crença de que a ação humana encontra motivo determinante no tempo que a antecede, de tal maneira que não está sob domínio da razão quando se efetua, mas que se pode deduzi-lo. Seus fundamentos estão na causalidade do acontecido (historicismo), do que pode acontecer (inducionismo, probabilismo) ou na intelecção dos desígnios de uma vontade superior e externa.

Já o fatalismo combina o destino individual e o destino social. Sua origem se perde no tempo. Pode ser rastreado desde a Antiguidade mais remota. Está em orientações pré-filosóficas, no pensamento asiático, no teatro grego, em algumas crenças religiosas. Abraça a doutrina de que os acontecimentos são fixados previamente, de maneira que não é possível alterar seu curso. Supõe uma causalidade e um finalidade não acalcável pela razão.

A convicção fatalista pareceria anular todo o impulso heurístico. Mas não é o que se passa. Ao longo da história, muitas descobertas dos filósofos, dos alquimistas, dos cabalistas, dos exegetas religiosos e dos sábios pré-científicos derivaram da certeza de que tudo o que foi, é ou será está escrito em um Livro.

Kaled pressente e questiona porque como fatalista tem a mente desbloqueada para a causalidade. O poder heurístico do fatalismo reside no estímulo ao desejo de saber o que é e o que será. Funciona porque o que incita a mente é o oculto, o ignorado e o que virá a ser, não o manifesto, o sabido e o que já foi.

UTILIZE E CITE A FONTE.
William Somerset Maugham (1933) W. Somerset Maugham, Sheppey - a Play in Three Acts. London: Heinemann.

EPISTEMOLOGIA: Derrida – A atitude heurística da desconstrução.

Epistemologia.

Abed Alem

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo terminal do século XX, filósofo inaugural do século XXI, demonstrou o esgotamento da capacidade explicativa do idealismo, da semiologia e das práticas analíticas que se fecham sobre seus sistemas pré-circunstanciados, pré-históricos, pré-conceituosos.

A “desconstrução” que inventou é uma variante da Destruktion, heideggeriana. Consiste em redesenhar criticamente o que Kuhn denominou de paradigma: o conjunto articulado de conceitos, práticas, métodos, instrumentos e técnicas que vige em uma determinada época e circunstância.

Desconstruir é rescindir uma estrutura para fazer aparecer seu esqueleto. O procedimento abandona a pretensão do conceito-signo, de ter acesso às coisas mesmas, em favor do conceito-rastro, do rastreamento do subjacente, do que foi apagado pelo tempo, pelas convenções, pelos espaços, pelas certezas.

Trata-se de uma analítica (gr. análusis, dissolver os laços) radical (até a raiz) dos conceitos e dos discursos. De deslocar os objetos, as ideias, os valores da funcionalidade estabelecida. De despolarizar dicotomias como homem/mulher, noite/dia, etc., e como o cortejo de oposições implícitas na metafísica – dentro/fora; essência/aparência; originário/derivado …

Derrida se esforçou para cunhar termos que não carregassem em si nenhuma definição precisa. “Indecidíveis”, “quase-conceitos”, que remetessem a objetos, sem darem conta de um significado fechado. Como “différance” em lugar de “différence“. Com isto, ele instaurou uma forma de ver autônoma, perturbadora, sediciosa. Um “racionalismo incondicional”, que descobre nas fraturas e incongruências do estabelecido os lapsos, os hiatos, os traços, expondo a fragilidade das significações, as cinzas das reduções, os resíduos das intenções.

Derrida inventou uma heurística a partir da identificação do inapreensível. Provou que só há “invenção” e “descoberta” quando se deixa de encontrar o que estava antecipado. Demonstrou que existem sempre e indefinidamente outras instâncias de sentido adormecidas, apagadas pela história, pela ideologia, pelo conforto da repetição. Que a única certeza é a de que não existem certezas.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Derrida, Jacques (1973). Gramatologia. Tradução Mirian Schneiderman e Renato Jeanine Ribeiro. São Paulo. Editora Perspectiva

Derrida, Jacques (1991). Margens da filosofia. Tradução de Joaquim Torres Costa & Antônio M. Magalhães. Campinas. Papirus Editora.

Derrida, Jacques (2014). L'écriture et la différence. Paris. Points-Essais.  

Heidegger, Martin (2012). Os problemas fundamentais da fenomenologia. Tradução: Marco Antonio Casanova Petrópolis. Vozes.

Kuhn, Thomas A. (1989). A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo. Editora Perspectiva.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – A premonição, o pressentimento e a precognição.

Epistemologia.

Oswaldo Guayasamín – Dos Cabezas, 1986-1987 – Óleo sobre tela

Não há provas de que a premonição, o pressentimento ou a precognição sejam capacidades reais. Advertir, sentir ou adquirir conhecimento prévio são sensações negadas pela ciência, vez que violam o princípio de que um efeito não pode ocorrer antes de sua causa.

Estas manifestações são explicadas por cinco ordens de esclarecimento: a do viés de seleção, a da criptomnésia, a da profecia autorrealizada, a da distorção mnemônica e a da ilusão estatística.

O viés de seleção é um condicionamento, natural no ser humano, para lembrar coincidências mais do que não-coincidências. Por exemplo, quando pensarmos em uma pessoa imediatamente antes que nos telefone, tendemos a esquecer das vezes em que pensamos na pessoa e ela não nos telefonou.

A criptomnésia é o fenômeno do conhecimento que se superpõe ao acontecimento. São deduções de fatos e dados apreendidos inconscientemente. Por exemplo, quando acreditamos ter adivinhado como dizer as coisas em uma língua que não dominamos.

Na profecia autorrealizada produzimos inconscientemente os eventos que pensamos ter pressentido conscientemente.

A distorção mnemônica deriva da combinação da memória seletiva com as memórias distorcidas, de modo que os devaneios são retrospectivamente encaixados em eventos que, na realidade, lhes sucedem.

Por último, a ilusão estatística é esclarecida por Robert Todd Carroll da seguinte forma: “As chances são de um milhão para um que, quando uma pessoa tem um sonho de um acidente de avião, haja um acidente no dia seguinte. Simplesmente porque com 6 bilhões de pessoas tendo uma média de 250 temas de sonhos por noite, deve haver cerca de 1,5 milhão de pessoas por dia que tenham sonhos que parecem clarividentes.

As explicações da ciência não retiram o poder heurístico da premonição, do pressentimento ou da precognição. Mesmo ilusórias, estas sensações despertam a curiosidade que incita à invenção e à descoberta.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Carroll, Robert Todd (2003) The Skeptic's Dictionary: A Collection of Strange Beliefs, Amusing Deceptions, and Dangerous Delusions. Indianapolis. Wiley. Pag 53

Chris French. (2012). "Precognition Studies and the Curse of the Failed Replications". The Guardian.

Popper, Karl (1989), In, Sorman, Guy. Os verdadeiros pensadores do nosso tempo; Rio de Janeiro; Imago

Sutherland, Stuart. (1994). Irrationality: The Enemy Within. pp. 312-313. Penguin Books. 

Tulving, E. (1972). Episodic and semantic memory. In E. Tulving and W. Donaldson (Eds.), Organization of Memory (pp. 381–402). New York: Academic Press.

Walsh, Jim (2009). "Loma Prieta predictor Jim Berkland still picking quake dates". Santa Cruz Sentinel. Retrieved May 31, 2011.

Zusne, Leonard; Jones, Warren H. (1989). Anomalistic Psychology: A Study of Magical Thinking. Lawrence Erlbaum Associates, Inc. p. 151.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Intuição: deixar fluir o simples.

Epistemologia.

(image credit: Lissy Laricchia)

O intuído é um simples que não de-forma a realidade. Mas a simplicidade da intuição é destruída pelas abstrações que tentam representá-la. Na tentativa de a exprimirmos, retificamos, justapomos, complicamos cada vez mais o lampejo que tivemos.

Tentar reconstruir o simples – o não-composto e invariável (Leibniz) – é como tentar reconstruir um objeto pela sombra que projeta (Platão). Mesmo um grande intuitivo, um grande artista não reconstitui a realidade e a emoção. Ele as representa de tal forma que as percebemos como verdadeiras.

O mundo congelado da ciência é uma sombra do real. Toma o passado como abolido e o futuro como inevitável. Entende passado e futuro como ausências. A inteleção mapeia o mundo como resultado de uma leitura da consciência (to read in himself. Hobbes). Mas o passado às costas, o futuro à frente, se referem ao espaço, não ao tempo.

A intuição se dá no tempo real da consciência, que não é redutível, nem divisível. Não é possível representar espacialmente o belo, o verdadeiro, o sentimento, …. Por isso, se quisermos provocar a intuição, devemos nos livrar dos hábitos que aprendemos no processo educacional (Rousseau) e dos vícios que toldam a apreensão das circunstâncias que vivenciamos (Husserl).

O simples é denso. Para nos abrirmos à intuição, devemos diferir os elementos constitutivos do seu meio. Não se trata sermos idealistas, mas de perguntarmos sobre o que há de material na madeira, o que há de vitalidade na vida, o que há de social na sociedade, o que há de essencial no intuído.

Se tivermos êxito, obteremos “imagens mediatrizes” (Bergson), impressões evanescentes. Essas imagens são como torrões de açúcar, que se dissolvem no café sem que possamos dizer como eram exatamente.

Ao representar o intuído, nós o turvamos. Infelizmente, não há outro modo de anunciar o inédito.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Hobbes, Thomas (1975). Leviatã [I, 6]. In, Leviathan, or, matter form, and power of a Commonwealth ecclesiastical and civil. London. Encyclopaedia Britannica.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Ideias e Letras.

Leibniz, Gottfried (2009) A monadologia e outros textos. Tradução de Fernando Luiz Barreto Gallas de Souza. São Paulo. Hedra. [§ 1]

Platão, República. In, Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Rousseau, Jean-Jacques (1979). Emilio ou da educação. Tradução de Sérgio Millet. Rio de Janeiro. DIFEL

EPISTEMOLOGIA: Nietzsche – A heurística do deslocamento.

Epistemologia.

O que costumamos denominar projeções objetivas não passam de representações ingênuas e de antecipações acanhadas. São perspectivas centralizadas, imagens e imaginários lançados na direção de um ponto diretamente adiante no espaço e no tempo.

A convergência de linhas de profundidade em um ponto de fuga é uma forma de ver tão simples e natural que parece única. É muito antiga. Figura já nos modestos cenários do teatro grego. Leonardo da Vinci a descreveu no seu Tratado de pintura como arte primogênita, anterior mesmo à música. Está presente em todos os domínios do saber. Nicole de Oresme (ca. 1360) formulou, em seu “Tratado sobre a mutação monetária”, a projeção idealizada de um estado em projeção direta no futuro.

A perspectiva central foi a forma de ver dominante nas artes, na filosofia e na ciência até que, no século XIX, os Impressionistas rechaçaram a representação naturalista, os poetas e músicos transcenderam as formas e Nietzsche postulou o perspectivismo, a consideração de um objeto e do mundo segundo diversos pontos de vista.

A heurística da transposição de cenário deriva remotamente de Leibniz, mas Nietzsche foi o primeiro a criticar a condição pela qual cada centro de força constrói todo o resto do universo partindo de si mesmo. Não só propôs ver como o outro veria, mas ver de outra maneira. Fundou, com isso, uma heurística do deslocamento de perspectiva, a prática de introduzir variações sucessivas das ligações do campo perceptivo com o objeto para fazê-lo emergir numa configuração não habitual, que nutriu o método fenomenológico de Husserl e que rege grande parte da gnosiologia contemporânea.

Um exemplo do deslocamento de perspectiva é o uso de artifícios como a microscopia ou a telescopia temporal. Dilatando ou contraindo a escala do tempo, como na aceleração ou no slow motion cinematográficos, esclarecem-se as causas das flutuações de preços, da mancha de ozônio, do mercado de trabalho, da bolsa, etc.

Nietzsche abriu caminho para entender os objetos não só do lugar e do tempo de onde falamos, mas para os descobrir na fluidez do seu transcurso. Reivindicou a possibilidade de uma transfiguração do banal. Legou à heurística não uma episteme da ruptura, como, mais tarde, fez Bachelard, mas uma ruptura da episteme que havia vigorado até a sua data.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bachelard, Gaston (1996) A Formação do espírito científico. Trad. Esteia dos Santos Abreu. Rio de Janeiro. Contraponto

Da Vinci, Leonardo (2004). Tratado de pintura. Tres Cantos, España. AKAL Ediciones.

Hülsmann, Jörg Guido(s/d). Nicolás Oresme y el primer tratado monetario. Recuperável em http://www.institutoacton.com.ar/articulos/12arthulsmann2.pdf

Husserl, Edmund (1981); Pure phenomenology, its method and its field of investigation, (inaugural lecture at Freiburg im Bresgau – 1917) in McCormick, Peter e Elliston, Frederick A. Editores; Husserl: Shorter works; Indiana; University of Notre Dame Press.

Leibniz, Gottfried W. (2009). A Monadologia e outros textos. Trad. Fernando Luiz B. G. e Souza. São Paulo: Hedra.

Nietzsche, Friedrich (2009). Genealogia da Moral. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo. Cia das Letras.

EPISTEMOLOGIA: Anti-heurística regressiva.

Epistemologia.

Revelation by Heidi Taillefer.

A busca de aconselhamento no passado e a busca de conhecimento no futuro são empresas insensatas. Tanto o tempo passado como o tempo futuro não advém, mas sobrevém. O passado, porque é da natureza da recordação assomar ao espírito. O futuro, porque é da natureza do futuro estar em aberto.

A lembrança e a antecipação compartilham o deleite impune da fantasia. Como crianças, que de um pedaço de madeira fazem um automóvel ou uma boneca, as recordações nos permitem adoçar ou salgar o que já foi, e as projeções nos permitem dourar ou obscurecer o que ainda não é. Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Heurística – A Máquina de Lúlio.

Epistemologia.

A Ars compendiosa inveniendi veritatem seu ars magna et maior, de Raimundo Lúlio, é um sistema de articulação das categorias da memória, da descoberta e da cognição. O seu fundamento é a certeza de que tudo o que existe é espelho do divino. O seu propósito é o da aproximação da Verdade. A sua dinâmica é a do esgotamento sistemático de todas as combinações elementais possíveis.

Em 1272, Lúlio (Ramón Lulll; Mallorca; 1235 – 1315), filósofo neoplatônico, havendo subido ao monte Randa, sofreu a experiência mística que lhe revelou os princípios da Ars. Inventou, então, a Máquina de Pensar que lhe deu fama. Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Freud e a transposição.

Epistemologia.

interpretazione dei sogni  freud  jung“…em sonhos, …, muitos homens deitaram com a própria mãe”. Nesta fala, a de número 1105 de Édipo Rei, Freud se inspirou para descobrir o complexo de Édipo. No clássico Über der Natur, para inventar sua profissão.

O método longitudinal de Freud deriva da exegese talmúdica, da aceitação judaica do espírito oculto na Letra, da tradição alemã das “ciências do espírito”. Mas a força heurística da psicanálise repousa na imensa cultura literária do seu fundador. Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Benjamin, pescador de pérolas.

Epistemologia.

Em um ensaio quase sentimental, Hannah Arendt escreveu que Walter Benjamin “despertava os mortos”, para, com eles, construir uma nova iluminação. No fundo do mar do esquecimento, recobrava “pérolas do passado”, colhia relações e esclarecia o eterno.

Pescador de pérolas, Benjamin recuperou gemas de pensamento. Buscou no fundo do mar do passado o inesperado, o estranho e o omitido. Repensou poeticamente a memória; não para restaurar eras extintas, mas para reaver algo outrora vivo e que, cristalizado, sobrevive no âmago da sabedoria. Continuar lendo

Heurística – Nostradamus: a mântica profética de Hermes.

Epistemologia.

A advertência é antiga: Jerusalém mata seus profetas, Atenas, seus pensadores. Por isto os profetas bíblicos professavam, e não profetizavam. Cautelosos, voltavam-se para o passado, para a Aliança do Povo com Yaveh e para o que ocorre (não há tempo futuro em hebraico e em aramaico) com aqueles que a rompem. Apelavam à religião interior, à verdade inscrita nos corações (Jeremias, 31).

A exceção foi José do Egito, que podia prever o futuro. Chamou sobre o si o ódio porque prenunciava, não se limitava a anunciar. A história de José, vendido como escravo pelos irmãos ao egípcio Putifar, resgatado e elevado à vizir pelo Faraó, não é inconcebível. O que o profeta diz tem poder performativo (faz com que aconteça), e poder preventivo (evita que aconteça). Difere das fantasmagorias dos videntes e adivinhos. Corresponde à conjectura “artificial” dos augures, dos harúspices e dos nigromantes. Sobrevive na heurística dos astrólogos e economistas. Continuar lendo

Saturação em pesquisa qualitativa: estimativa empírica de dimensionamento.

Notícias & Epistemologia.

Artigo ➽ Cherques, Hermano Roberto Thiry – Saturação em pesquisa qualitativa: estimativa empírica de dimensionamento. PMKT: Revista Brasileira de Pesquisas de Marketing, Opinião e Mídia, v. 3, p. 20-27, 2009.

A saturação é o instrumento epistemológico que determina quando as observações deixam de ser necessárias, pois nenhum novo elemento permite ampliar o número de propriedades do objeto investigado. A dificuldade maior que o emprego do “critério de saturação” apresenta é o do dimensionamento ex-ante da pesquisa. Não há como prognosticar com rigor o tamanho e o tempo necessários à saturação. Neste texto discute-se a possibilidade de construir uma estimativa da extensão e do dispêndio de recursos com observações, a partir da predição do ponto de saturação baseada em indicadores determinados empiricamente.

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Bergson: a intuição heurística.

Epistemologia

https://i0.wp.com/www.coreyhelfordgallery.com/images/products/FIRST-OF-DAYS-2004-AP-2-OF-2-01.jpgAo darmos de comer a uma criança, abrimos a boca em um movimento simpático. A intuição é este tipo de experiência. Algo que não comandamos e que não se destina a convencer, mas a comunicar. É a sympatheia, que nos leva diretamente ao outro e à nós mesmos a partir daqueles que nos cercam.

O intuitivo se dá entre o instintivo e o intelectual. Corresponde ao conhecimento direto no e pelo espírito, como ocorre na apreciação artística ou na experiência mística religiosa. Esta participação da consciência em um movimento que lhe é exterior rege as três fontes da heurística de Henri Bergson (Paris, 1859 – 1941): a problematização, a diferenciação e a apreensão da realidade no tempo. Continuar lendo

Heurística – A Cabala e o déficit de significado.

Epistemologia.

Dutch Oil on wood painting of Fool 16th Century at AuctionAo lermos e exploramos o mundo pelo caminho descarnado da Internet, nos dispensamos de o interpretar. Acrônica e acromática, a linguagem da Web convence por ser imediatamente inteligível. É facilmente aceita porque não implica em nenhum significado a ser descoberto. São palavras, símbolos e ícones parqueados para que possam ser colhidos e excretados quando conveniente.

O rebaixamento de nível no processo de decodificação fez com que, em apenas duas décadas, muitos de nós abandonássemos a aspiração milenar de sermos interpretes de nós mesmos para sermos pacientes da experiência equalizada dos outros. Rastreáveis, nos inscrevemos na crônica da manada. Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Mântica heurística – hermenêutica

Epistemologia.

A necessidade de crer supera o desejo de saber. Nisto reside a fortuna da mântica, a disciplina heurística da antevisão.

A mântica tem duas vertentes: a divinatória e a interpretativa. A mântica de Apolo e a mântica de Hermes. Tratamos da primeira anteriormente. Agora examinaremos a face hermenêutica da segunda. A que se ocupa do deciframento e da signalética.

A previsão hermenêutica é aplicada às experiências simbólicas, aos ensaios com fármacos, à medição das marés, ao movimento dos astros e às estatísticas. Articula os saberes por comparação de semelhanças, regularidades e permanências. Opera no nível da magia (astromancia, nigromancia, etc.), e no nível da razão (o estudo da reação dos animais na prevenção de catástrofes, os cálculos de possibilidades).

Esta mântica persiste ao longo dos séculos, se não como ciência posta, pelo menos como imperativo antropológico: o da necessidade humana de ultrapassar as relações causais ao estabelecer analogias e prever consequências. A hermenêutica de Hermes descobre pela aplicação de técnicas de recuperação e de reconstituição de acontecimentos. Repousa sobre o exame de quantidades, indicadores, índices, sinais e vestígios.

A forma de predição contemporânea, o probabilismo, integra seu corpus. E isto se demonstra: imaginemos uma urna contendo bolas pretas e brancas, na relação de duas pretas para cada branca. Tomamos uma bola ao acaso e devolvemos à urna. Trata-se de apostar na cor da bola. Probabilisticamente, apostamos na preta. Será preciso apostar sempre na preta, embora saibamos, com certeza científica, que, em média, em um terço dos casos estaremos condenados a errar (Dupuy).

A mântica de Hermes é formalmente negada. A academia prefere esquecer que as projeções de situações futuras e os cálculos das probabilidades são suposições com “graus de confiabilidade” muito amplos. Prefere omitir que desde a equipossibilidade de Laplace até as teorias subjetiva de Savage e axiomática de Kolmogorov, a regra é que uma “função de crença” satisfaça os requisitos de racionalidade subjetiva.

Ainda que seja inegável a existência de alguma lógica na presunção conjectural (Scholz) ou na formação de inferências abdutivas (Eco), a instituição acadêmica finge não saber que não é a racionalidade, mas a indiscrição hermética que anima os cientistas a buscarem desvendar signos ocultos e desconexos sobre o que está por vir.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Dupuy, Jean-Pierre (2004) Pour un catastrophisme éclairé. Quand l'impossible est certain. Paris. Seuil.

Eco, Umberto (1994) Les limites de l'interprétation. Paris. Biblio Essais – Le Libre de Poche.

Kolmogorov, Andrei N. (1956) Foundations of the theory of probability. Michigan. Chelsea Pu. Co. University of Michigan.

Mijolla-Mellor, Sophie de (2004). Le besoin de croire, Paris, Dunod.

Savage, Leonard Jimmie (1972) Foundations of statistics. New York. Dover Publications.

Pierre Bourdieu: a teoria na prática.

Epistemologia.

Este artigo apresenta um programa para aplicação da forma de investigar de Pierre Bourdieu às pesquisas em ciências humanas e sociais. A partir da exposição sobre as suas fontes e práticas epistemológicas, o artigo discute o sistema de conceitos que Bourdieu utiliza e desenvolve um roteiro genérico de pesquisa baseado nas suas investigações.

Conclui com um resumo das críticas às suas concepções e uma apresentação sintética do seu legado.

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UTILIZE E CITE A FONTE.

Heurística – Conhecimento Tácito e abertura.

Epistemologia & Método.

Deve-se à Michael Polanyi (1891 – 1976), físico e psicólogo húngaro, a concepção da figura que denominou de “conhecimento tácito”: um saber que é informal, assistemático e quase incomunicável.

O conceito tem duas fontes. A primeira é a assertiva de Maslow de que não há substituto para a experiência pessoal. A segunda, é a proposta da Teoria da Forma, da Gestalt, de que a experiência é constituída por processos dinâmicos, organizados segundo princípios estruturais autônomos, isto é, que os indivíduos podem conhecer a totalidade de uma determinação sem interpretarem seus detalhes. Continuar lendo

Pesquisadores querem padrões mais altos em resultados científicos para evitar falsos positivos.

Epistemologia & Notícias.

Deu no Gizmodo por Ryan F. Mandelbaum:

“Ciência” pode significar algo maluco para você, como novos tratamentos inovadores, novos animais incríveis, explosões no espaço ou alguma química maluca. Mas, em sua essência, a ciência nada mais é do que o descarte de hipóteses baseado em evidências. Um novo debate agora está pegando fogo, sobre um dos conceitos importantes da ciência: como decidimos o que constitui um resultado positivo.

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