NOTAS: A Face Oculta do Parecerista.

Notas.

Nesse artigo exponho discussões éticas sobre o processo de avaliação de mérito de trabalhos científicos. O sistema de revisão cega pelos pares em periódicos, partindo do debate sobre as pressões para publicação presentes na comunidade acadêmica de Administração no Brasil.

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UTILIZE E CITE A FONTE.
Dilthey, Wilhelm; Introduction a l’etude des sciences humaines: essai sur le fondement qu’on pourrait donner a l’etude de la societe et de l’histoire ; Paris: Presses Universitaires de France, 1942.

__________ ; La esencia de la filosofia; Buenos Aires; Losada; 1952

 

EPISTEMOLOGIA: Retorno à Aristóteles.

Epistemologia.

De Aristóteles conservamos as ideias de que em todo objeto há algo imutável – sua essência – e elementos que se modificam – os acidentes.

Conservamos a ideia de que existem formas artificiais, como é o caso de uma estátua; naturais, como a alma; substanciais, como o corpo; acidentais, como a cor; inerentes, como a matéria; e exemplares, como em uma maquete.

Mas abandonamos a prática de procurar obsessivamente a essência das coisas e a compulsão de classificar rigidamente as formas em que os objetos se apresentam.

Conservamos a ideia de que existem categorias – conceitos unívocos – do pensamento: aquilo que tem a ver com as coisas, os tamanhos, as características, os relacionamentos, os locais, o tempo e o estado; com o ter, o fazer e o sofrer.

Mas levantamos dúvidas quanto estas categorias serem excludentes entre si, e sobre a possível existência de outras categorias.

De Aristóteles conservamos a ideia de que as relações entre o sujeito e o predicado de uma proposição obedecem a quatro tipos: a definição, que é conversível e essencial; a propriedade, que é conversível e não essencial; o gênero, que é não conversível e essencial e o acidente, que é não conversível e não essencial.

Mas não mantemos que inexistam outras predicações e predicações interpoladas.

Conservamos a evidência de que dirigimos nossa atenção em primeiro lugar ao que é passível de mudança. Por isto, seguimos afirmando a existência de uma natureza humana e nos atribuindo um potencial igualmente grande para experimentar tanto a tristeza quanto a felicidade, tanto entusiasmo quanto tédio.

Mas discordamos amplamente sobre o que venha a ser a natureza humana e se esta natureza é neutra e universal.

De Aristóteles, conservamos a ideia de que a razão prática procura determinar o melhor fim para agir. Isto é, que a ação racional consiste não em determinar os meios para um fim dado (instrumentalismo), não em fundamentar-se em leis eternas (normativismo), mas em encontrar o propósito (o fim) mais razoável para a ação.

Mas aceitamos uma gama imensa de visões acerca da interferência do tempo e das circunstâncias sobre o ser humano.

Esta posição preserva outra ideia de Aristóteles: a do domínio do contingente nas nossas ações efetivas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Aristóteles (1982). Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones: Ética a Nicômaco, 1112-31; Tópicos. 1, 4, 101b e ss.; Sobre el alma.

EPISTEMOLOGIA: A academia – entre o medo e a angústia.

Epistemologia.

Edvard Munch – Anxiety 1894

As desavenças entre o positivismo e o historicismo, que aborreceram o final do século passado, levaram os saberes instituídos à um estado de perplexidade.

Por mais que tenham sido debilitados, nem o positivismo veio à óbito, nem a anunciada morte do historicismo ocorreu. Ao contrário. Um e outro partido seguem regurgitando suas frágeis razões.

Náufragos em meio à tormenta, os praticantes nas ciências sócio-humanas se equilibram em uma dinâmica que oscila entre o medo e a angústia.

O medo faz com que tentem validar a reflexão na positividade descarnada dos fatos e dos experimentos. Contraditoriamente, faz com que procurem refúgio na linhagem que vem do Círculo de Viena e que deveria ter terminado em Wittgenstein, ou, no máximo em Quine.

A angústia, no sentido de Kierkegaard, de aperto, de estreitamento, faz com que se aferrem à filosofia com sua carga histórica. Simultaneamente, faz com que a neguem, aderindo à linhagem que procede de Nietzsche e que chega aos que procuram conciliar uma teoria geral do Ser com o cotidiano das existências.

A dialética da angústia e do medo deixa sequelas. Entre elas o abandono da reflexão sobre questões insolúveis, como a das singularidades, a das formas, e a do acaso.

O que é inquietante.

Aquele que deixa de procurar o inencontrável e de pensar no insolúvel está fadado claudicar entre a mera constatação e o reencontro com o já sabido.

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ÉTICA: Limites do discernimento ético.

Ética.

No Ocidente, os preceitos de ordem moral remetem a duas fontes cardeais. Uma advém da reflexão sobre a experiência vivida na Grécia clássica, se apoia na racionalidade e se organiza na filosofia. Outra, decorre da hierarquia de valores tirados da experiência do povo judeu e distorcidos pela Igreja cristã ao se autodeclarar verus Israel.

Justificado pelo duplo conjunto de preceitos acima, o acadêmico moralista se concentra na formatação dos gestos, dos ritos e dos lugares-comuns da sociedade. O viés do acadêmico é o de, quando a moral contraria a ética, pensar que se deve tomar o lado da ética, isto é, restaurar a moralidade convencionada.

Já o filosofo tenta ajustar a lógica moral ao que se passa na cultura viva. Procura evidenciar os gestos, ritos e lugares-comuns nocivos da sociedade da sua época. O viés do filósofo moralista é o de, no caso em que a moral contraria a ética, procurar reconstruir a ética conforme seu tempo e circunstância.

Os acadêmicos estão longe demais da articulação entre os elementos informes que regem o convívio contemporâneo. Os filósofos estão perto demais de questões como a da eutanásia, da corrupção, do aborto, do ateísmo, da desobediência civil, ….

Essa distância e essa proximidade viciam o discernimento ético.

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ÉTICA: Fontes da filosofia moral – A ética anarquista de Kropotkin.

Ética.

stjohn_kropotkin3Feito prisioneiro na Rússia tzarista, expulso dos países em que buscou refúgio, o príncipe Piotr Alesksiwicht Kropotkin (1842-1921), apoiou-se no evolucionismo para justificar uma ética de aperfeiçoamento da humanidade.

Legou ao século em curso uma filosofia anarquista que se alicerça na cooperação, na igualdade e na justiça distributiva. Uma perspectiva que dispensa a descrição de conteúdos por não ser normativa. Uma lei moral deduzida, não imanente.

A ética de ajuda mútua, que Kropotkin postulou, reúne a teoria rousseauniana de justiça social ao corolário da constatação darwiniana, modificada por Jenkin, que diz que a sobrevivência do mais apto requer a cooperação entre os membros da mesma espécie.

O princípio anarquista, que afirma que a moralidade é dar aos outros mais do que se espera receber deles, nutre e embasa o feminismo, o ambientalismo, o cooperativismo e o pacifismo contemporâneos.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kropotkin, Piotr (2009). Ajuda mútua: um fator de evolução. Tradução de Waldyr Azevedo Jr. São Sebastião. A Senhora Editora.

Kropotkin, Pëtr (2009) Ethics: Origin and Development. Ética origem e desenvolvimento (1922).  dwardmac.pitzer.edu

Kropotkine Pierre (2018). La Science Moderne et l’Anarchie. Version numérique réalisée sur la base de la seconde édition française, parue en 1913 chez P.-V. Stock & Cie, Bibliothèque sociologique n° 49. Recuperável em https://auprochainchapitre.wordpress.com/bibliotheque/la-science-moderne-et-lanarchie/

ÉTICA: Fontes da filosofia moral – Habermas e a ética argumentativa.

Ética.

O legado para a filosofia moral de Jürgen Habermas (Dusseldorf, 1929) será o de haver trazido à luz a ideia de que o diálogo e os conhecimentos acumulados pelas ciências humanas são passíveis de fundamentar uma ética deontológica contextualizada.

Nas obras em que trata da questão ética, Habermas defende a tese de um agir orientado à intercompreensão. Considera uma racionalidade em que a norma moral válida seria fruto do consenso obtido segundo condições ideais de comunicação, tendo os participantes os mesmos direitos e mantendo relações de liberdade e de igualdade. Continuar lendo

Boécio – Consolação do trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia.

boecio

Ancius Maulius Torquatus Severinus Boecius, ou, simplesmente, Boécio (Roma, 480; Pavia, 526), considerado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos, foi poeta, matemático, músico e filósofo. Deixou uma obra que tem sido o esteio dos inconsolados e o alento dos inconsoláveis.

Acusado de trair o imperador Teodorico, rei dos Ostrogodos, em favor de Justino I, imperador do Oriente, Boécio foi condenado ao suplício e à morte. Enquanto aguardava as idas e vindas dos pedidos de revisão e das súplicas por clemência, escreveu a Consolação da Filosofia (1998), um diálogo a modo platônico, redigido em cinco livros, em prosa e em verso.

A trama é simples: a Filosofia, travestida de uma Nobre Dama, discute com Boécio sobre a vida e o destino que o aguarda. As alegações são as de que a verdadeira felicidade não depende das circunstâncias biográficas, mas da Providência divina, de que os bens materiais e a gloria pessoal de nada valem e de que só a bondade eleva o homem.

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Ocasionalismo – o que é?

Ética & Credibilidade.

ocasionalismoOrigem

O termo deriva do latim occidere, cair, como o cair do sol (o ocaso), o lugar onde o sol se põe (o Ocidente), o que recai conforme a circunstância (o caso) ou a oportunidade (a cadência).

O ocasionalismo é uma concepção do filósofo francês Nicolas de Malebranche (Paris; 1638-1715), décimo terceiro filho do conselheiro de Luiz XV, rei de França.

Destinado ao sacerdócio, sem para isto ter vocação, Malebranche dedicou-se aos estudos eclesiásticos de má vontade. Continuar lendo

O filósofo e maman.

Epistemologia & Método.

Francoise.jpgNo Domingo de Ramos de 1728, fugindo do duro sistema de ensino a que era submetido na sua Genebra natal, Jean-Jacques Rousseau, foi acolhido pela baronesa Françoise-Louise de Warens, que à época, por razões não muito claras, auxiliava o padre Monsieur de Pontverre na conversão de jovens protestantes.

Os três anos que passou na maison de Charmettes, na Savoia, usufruindo os favores de Mme. de Warens, a quem Jean-Jacques traçava amavelmente – ela com 29 anos, ele com 16 – e a quem, freudianamente, chamava de “maman”, foram os da sua conversão, os de seu adestramento existencial e os da sua formação filosófica. Continuar lendo

Liderança segundo Pessoa

categoria PERPLEXIDADES 2016fernando pessoa

“Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.”

Pessoa, Fernando (1990). Livro do Desassossego. Vol. I. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha) Coimbra. Presença.

O patinho feio: o trabalho visto pelos outros.

CATEGORIA AST

UglyO que produzimos, o output do nosso trabalho pode ser previsto e computado. O que não é o caso dos efeitos, o outcome dos nossos esforços.

Todos conhecem a obra de Hans Christian Andersen, autor do Patinho feio, da Roupa nova do imperador e da Pequena sereia. Poucos sabem ou recordam que Andersen escreveu mais de trinta peças de teatro e outros tantos romances e livros de poesia.

Como Voltaire, Andersen pensava que sobreviveria na memória dos leitores graças ao seu trabalho como poeta, aos inúmeros versos românticos a que dedicou a maior parte da vida.

Se ressuscitassem dos mortos, Andersen e Voltaire ficariam surpresos e decepcionados que a posteridade tenha escolhido respectivamente a prosa infantil e a filosofia para recordá-los.

Universidade e Trabalho: a humanização do futuro.

CATEGORIA TR

Sobreviver ao trabalho

Uma pesquisa da Hart Research Associates publicada recentemente está mexendo com os curricula dos cursos de graduação norte-americanos. É que ao entrevistar 318 grandes empregadores, a Hart ratificou o que todos já sabíamos: a discrepância entre a formação e os requisitos do mercado de trabalho.

A pesquisa deixa claro que a ênfase nas técnicas e nos métodos quantitativos e o descuido com as “humanities” constituem uma “uncommon idiocy”, um termo utilizado por nada menos que o Wall Street Journal.

Os principais resultados da pesquisa são os seguintes:

  1. Quase todos os entrevistados (93%) endossam a assertiva de que, “a capacidade demonstrada para pensar criticamente, comunicar claramente e resolver problemas complexos é mais importante do que o tema da graduação”.
  2. Mais de nove em dez dos entrevistados dizem ser importante que os candidatos a emprego demonstrem julgamento ético e integridade, competências interculturais e capacidade de aprendizagem continuada.
  3. Mais do que três em cada quatro empregadores sugerem que as faculdades procurem focar o desenvolvimento de cinco habilidades-chave: pensamento crítico, resolução de problemas complexos, comunicação oral e escrita e conhecimento aplicado ao mundo real.

A distância entre o que o mercado americano e internacional está demandando e os temas em voga nas graduações e pós-graduações preocupam as universidades americanas. Elas estão tratando de se adequar, restringindo os conhecimentos técnicos e ampliando os temas ligados às humanidades: filosofia, antropologia, estudos culturais, línguas, psicologia, história, etc.

Quanto a nós, estamos distantes destas inquietações. Seguimos alegremente arremedando o que era moda nos cursos americanos do já distante século XX.

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