Hannah Arendt

Heurística – Benjamin, pescador de pérolas.

Epistemologia.

Em um ensaio quase sentimental, Hannah Arendt escreveu que Walter Benjamin “despertava os mortos”, para, com eles, construir uma nova iluminação. No fundo do mar do esquecimento, recobrava “pérolas do passado”, colhia relações e esclarecia o eterno.

Pescador de pérolas, Benjamin recuperou gemas de pensamento. Buscou no fundo do mar do passado o inesperado, o estranho e o omitido. Repensou poeticamente a memória; não para restaurar eras extintas, mas para reaver algo outrora vivo e que, cristalizado, sobrevive no âmago da sabedoria. (mais…)

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Derrida: trabalho & “différance”.

Trabalho & Epistemologia.

focus face optical illusionO termo  différance (um homófono à différence) foi cunhado por Jacques Derrida (1930, El-Biar, Argélia; 2004, Paris). Significa a resultante da operação de “fazer diferir”, na tripla acepção de distinguir, de postergar e de discordar.

A  différance não é um conceito, mas a forma de fazer surgir um conceito. A técnica consiste em expor a fragilidade dos atos de fala. Aplicado ao conceito “nação”, por exemplo, evidencia imediatamente a distância entre o entendimento de nação-política, daquele de nação-cultura. Do que se trata, afinal, quando dizemos, ou quando nos dizem “a nação espera que…”, a “nação está ameaçada por…”? (mais…)

Laborar, produzir, agir.

Trabalho & Produtividade.

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Hoje, 14 de outubro, Hanna Arendt faria 110 anos.

Arendt foi o pensador (ela não gostava de ser chamada de filósofa) que mais contribuiu para o entendimento da condição humana na atualidade.

Fez com que compreendêssemos a existência como uma série de atividades – o laborar, o produzir e o agir – em relação as quais abrimos ou fechamos os caminhos que condicionam a nossa existência. (mais…)

Arendt: o sentido do trabalho

CATEGORIA PT

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Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

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A liquefação do trabalho e a dissolução de sua medida.

Trabalho & Produtividade.

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A fórmula renascentista de John Locke tomada por Hannah Arendt no já longínquo ano de 1958 “o trabalho de nosso corpo e obra de nossas mãos[i] inaugurou uma era de sofisticação na composição de indicadores e de índices de produtividade. Mas será que ainda faz sentido hoje? Será que o labor repetitivo, próprio do animal laborans, que é o do operário, do burocrata, do lavrador, do motorista, daquele que produz para o consumo, é facilmente distinguível do obrar descontínuo, próprio do homo faber, que é o do criador, o do fabricador de objetos, daquele que produz o que será usado? (mais…)