ÉTICA: A direita, a esquerda a filosofia política e a ética.

Ética.

As expressões “direita” e “esquerda” têm origem na distribuição dos parlamentares na Assembleia Nacional Constituinte francesa de julho de 1791. À direita do Presidente, sentavam-se os representantes dos interesses da aristocracia, dos proprietários, e do clero superior. Defendiam os institutos do Ancien Regime. À esquerda, sentavam-se os republicanos, os profissionais liberais e os que protegiam os trabalhadores e o baixo clero. Propunham a supressão dos institutos do Ancien Regime.

Não se tratava de ideologia, mas dos interesses dos constituintes. À direita havia os nacional socialistas, os rentistas, os empregados no comércio, os libertários individualistas, parte dos liberais e parte da pequena burguesia. À esquerda havia os socialistas, os socialdemocratas, os intelectuais, os libertários socialistas, os trabalhadores na indústria e na agricultura, parte dos liberais e parte da pequena burguesia.

No século XIX, os termos “esquerda” e “direita” vieram a nomear os seguidores de Hegel. Aqueles que pretenderam emparelhar o seu pensamento às religiões (direita) e os que se dirigiam contra a religiosidade (esquerda).

No século passado, a expressão “direita” nomeou os contrários às transformações que implicassem a instauração de igualdade política e econômica; a expressão “esquerda” nomeou os favoráveis a estas transformações. Em questão de décadas, parcelas extremistas de ambas a tendências passaram a advogar posições moralmente questionáveis: o totalitarismo, o populismo, o afrouxamento completo ou o controle estrito das estruturas políticas, econômicas e morais.

Na realidade substancial contemporânea, as pessoas que se consideram de esquerda veem a si mesmas como abertas e bem informadas. Pensam que os direitistas são opressores. Não conseguem entender por que a classe trabalhadora vota na direita. Imaginam que esteja sendo enganada.

As pessoas consideradas de direita creem ser necessário manter a estabilidade moral e institucional. Se associam a visões de mundo que sustentam valores comunitários tradicionais e hierárquicos. Pensam que os esquerdistas são tacanhos. Não conseguem entender por que pessoas instruídas votam na esquerda. Imaginam que estejam sendo enganadas.

No plano da filosofia moral, o contraditório decorre da equivalência dos imaginários. A direita fabula com a paz social; a esquerda com a justiça social. Estão convencidas que uma é prioritária em relação à outra. Ambas estão enganadas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bobbio, N. (1996). Left and right: The significance of a political distinction. Cambridge, United Kingdom: Polity Press.

Iyengar, S., Sood, G., & Lelkes, Y. (2012). Affect, not ideology. A social identity perspective on polarization. Public Opinion Quarterly, 76, 405–431.

Jost, John Thomas (2017). Ideological asymmetries and the essence of political psychology. Political Psychology, 38, 167–208.

Vecchione, M., Caprara, G. V., Schoen, H., Gonzàlez Castro, J. L., & Schwartz, S. H. (2012). The role of personal values and basic traits in perceptions of the consequences of immigration: A three nation study. British Journal of Psychology, 103, 359–377.

EPISTEMOLOGIA: Dialética e epistemologia.

Epistemologia.

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Hegel torneou o pensamento de Heráclito até transformá-lo em um automatismo inexorável. Convenceu-se, e a muitos, de que o conhecimento sobre o homem e a sociedade nasceria da apreensão de um fluxo dialético de ocorrências contraditórias. 

A marcha da realidade seria descrita por meio de um discurso lógico, um discurso em que uma posição teórica produziria inevitavelmente sua contrapartida. Do jogo de posição e contraposição – tese e antítese – destes elementos surgiria algo novo, uma nova tese, que, inevitavelmente, produziria uma nova antítese, e assim por diante. 

Para que a dialética tivesse acolhida como método, foi necessária a admissão de duas crenças filosóficas improváveis (não passíveis de serem provadas): a da anima mundi e a da nulidade racional das singularidades e do acaso.

A Anima mundi (alma do mundo) é um conceito cosmológico. A convicção de que existe um espírito regente do universo, pelo qual o pensamento sobrenatural pode manifestar-se. Sua origem é o motor imóvel (asynkínitos kínisis) de Aristóteles

O exemplo mais conhecido desta convicção é o comentário sobre a entrada de Napoleão, em 1806, em Jena. Hegel escreveu ter visto “a alma do mundo a cavalo”. Para ele, os 16.000 mortos e o dobro de aleijados na Batalha de Jena–Auerstedt teriam um propósito, e um propósito inquestionável, já que só conhecido pela divindade.

A segunda crença, a da nulidade racional do acaso, é corolário da anima mundi. Reza que, se a natureza e a história fazem um sentido, este sentido deve ter uma direção, isto é, a natureza e a história não conformariam uma sucessão de acontecimentos acidentais, mas seriam fruto de um encadeamento lógico-dialético, uma articulação de eventos que geram sínteses. Este servomecanismo se aproximaria mais e mais do objetivo, até alcançar o absoluto, o empíreo, o socialismo, a redenção ou o que quer que norteasse o Mundo e a História. 

O exemplo mais conhecido desta convicção está nos textos de Marx em que expõe a inevitabilidade do esgotamento e alternância dos modos de produção. Para os que seguem esta forma de pensar, o simplismo do esquema, as superposições, o entremeio, as relações não econômicas e a dificuldade de descrever os meios de produção da nossa época são irrelevantes.

Em termos cognitivos, as premissas correlatas da anima mundi, da inexistência de singularidades e da negação do acaso são condições ásperas para se lidar. Mas o que inviabiliza a dialética como epistemologia generalizável é a impossibilidade de garantir a terceira condição requerida: a da confluência dos fatores em um todo pré determinável. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Burckhardt, Martin (2011). Pequena História das grandes ideias. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro. Tinta Negra

Englund, Steven (2005). Napoleão: Uma biografia política.  Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Zahar

TRABALHO: O pêndulo dialético – o senhor, o escravo e o trabalho digital.

Trabalho.

Recordemos o argumento de Hegel.

De um lado, temos o senhor, o mestre, o proprietário, … De outro, o escravo, o servo, o trabalhador, …

Um depende do outro. O senhor para subsistir material, social e psiquicamente; o escravo para continuar existindo materialmente. Nem o domínio do senhor é completo: não subjuga a consciência do escravo; nem o domínio do escravo é completo: está sempre em face da possibilidade do castigo e da morte.

Pawel Kuczynski

A autoconservação funda a estratégia tanto de um como de outro. O trabalho do escravo nutre as duas personalidades. Sem o trabalho ambos deixarão de ser.

O duelo não é só pela sobrevivência. É, principalmente, pela identidade.

A disputa é incessante. Mas, não pode ser consumada porque sem o trabalho do escravo não há progresso social.

Esta tensão pôs em marcha os ideais do comunismo e do liberalismo econômico. É a insolubilidade do confronto que alimenta o sentimento mais despótico do socialismo autoritário e o sentimento mais egoísta do capitalismo sem peias.

Ambos os regimes são centrados na interdição de o escravo tornar-se o senhor da sua vida.

A esperança é de que, à medida em que a automação avance, o poder dinâmico sobre o trabalho rescinda. Com a cessação do embate, o pêndulo dialético tenderia a estancar.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1992). Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Menezes. Petrópolis. Vozes.

ÉTICA: Ética e moral.

Ética.

Kandinsky – Composición VIII 1923

Até o início do século XIX, a tradução latina “moralis” para o termo grego “ethikos” foi julgada exata. A diferenciação entre os termos ética e moral são recentes e arbitrárias:

  • a ética seria afeta à busca do bem viver (a bela vida, o conatus, o esforço para realizar a natureza humana), e a moral à noção de enunciado de obrigações (baseada em Aristóteles);
  • a ética seria referida às prescrições particulares, convenientes à “realização de si”, ao desejo de dar sentido à própria existência; e a moral seria afeta aos deveres universais, conveniente à autonomia do sujeito enquanto parte da humanidade (popularizada por Habermas);
  • a ética seria referida à conduta pública e coletiva, e a moral à conduta privada e social (sem fonte precisa. Talvez se deva a que o termo ethos denote também “comportamento” e “caráter”, como na expressão “o ethos de um povo”);
  • a moralidade indicaria o aspecto subjetivo da conduta e a intenção do agente, e a eticidade indicaria o conjunto de valores morais efetivamente realizados na história (Hegel):
  • a ética seria universal, se dirigiria a todos, enquanto a moral seria particular, se dirigiria a cada pessoa (sem fonte precisa);
  • a ética seria a ciência que tem por objeto as ideias morais justificadas, e a moral denotaria a boa conduta segundo os preceitos socialmente aceitos.

A última acepção empresta ao termo “ética” uma conotação filosófica: a da reflexão sobre a conduta e sobre os princípios que permitem separar o bem do mal, o certo do errado; e empresta à moral uma conotação antropológica, ligada à cultura e à história. Este é o entendimento da maior parte dos filósofos, que segue a distinção dos estoicos entre os atos conformes (katorthômata) e os atos convenientes (kathekonta).

UTILIZE E CITE A FONTE.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1997) Princípios de filosofia do direito. Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo. Martins Fontes. (§ 106 e ss. e § 142 e ss)

Cicéron (2002) Les Paradoxes des Stoïciens. Texte établi et traduit par: J. Molager. Paris. Belles Lettres. [Parad. III]

EPISTEMOLOGIA: Anti-heurística regressiva.

Epistemologia.

Revelation by Heidi Taillefer.

A busca de aconselhamento no passado e a busca de conhecimento no futuro são empresas insensatas. Tanto o tempo passado como o tempo futuro não advém, mas sobrevém. O passado, porque é da natureza da recordação assomar ao espírito. O futuro, porque é da natureza do futuro estar em aberto.

A lembrança e a antecipação compartilham o deleite impune da fantasia. Como crianças, que de um pedaço de madeira fazem um automóvel ou uma boneca, as recordações nos permitem adoçar ou salgar o que já foi, e as projeções nos permitem dourar ou obscurecer o que ainda não é. Continuar lendo

TRABALHO: Trabalho e desenvolvimento.

Trabalho.

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No ambiente despoticamente vulgar das corporações, a avaliação do rendimento do trabalho tende à farsa. Avalia-se a quantidade, não a qualidade; a conduta, não o feito; a conformidade, não a iniciativa.

Nos meios acadêmicos não é diferente. Os cientistas sociais esquecem que é o fenômeno do trabalho que deveria ser ajuizado e o substituem por interesses (a economia), artifícios (as organizações), abstrações (a sociedade), utopias (a ideologia), e por miragens (as gerações vindouras). Continuar lendo

Trabalho e alienação.

Trabalho.

A expressão “trabalho alienante” designa o impedimento de a consciência controlar o produto e o processo da atividade laboral. O termo é de Rousseau. Hegel reformou o conceito para significar a transformação de seres humanos de sujeitos criativos em sujeitos passivos de processos sociais.

Resultado de imagem para George Tooker's work expressed a 20th-century brand of anxiety and alienation. Above, "The Subway" from 1950.

A partir da concepção hegeliana, Marx entendeu o trabalho alienante como a quádrupla disjunção entre o trabalhador e: o produto do seu trabalho; a atividade como simples meio de sobrevivência; a sua consciência; a comunidade a que pertence, a qual não interessa o processo e o produto do seu trabalho.

Multíplice e inexato, este entendimento se tornou problemático e esquivo.

Primeiro porque o termo alienação requer que o objeto de que se aliene seja explicitado, o que não ocorre satisfatoriamente com o referente do termo “trabalho”, que tem inumeráveis nuances e conotações.

Segundo, porque é difícil encontrar uma atividade profissional contemporânea que não seja alienante no variado sentido marxista do termo. São escassos exemplos de processos e produtos em que o trabalhador tenha participação, seja no processo decisório do que produzir, seja na forma que se deve produzir.

Terceiro, porque Marx, como fizeram Rousseau e Hegel antes dele, conjectura que a natureza humana é atemporal, o que foi demonstrado como falso pela ciência da antropologia.

Quarto, porque supõe uma sociabilidade limitada às relações de produção. Restringe a possibilidade de autorrealização à autonomia coletiva, não levando em conta a autarquia individual.

O certo é que a ideia denotada pela expressão “trabalho alienante” esgotou a capacidade de explicar o que aí está, a realidade em que o trabalho mental tem sido minimizado e o trabalho físico eliminado. Seus atributos são demasiadamente amenos para designar o ofício desnaturado de manter em função os autômatos e a burocracia digital.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Blaumer, Robert (1964). Alienation and freedom: the factory worker and his industry. Chicago. University of Chicago Press.

Campbell, Sally Howard (2012) Rousseau and the Paradox of Alienation. Lanham, MD. Lexington Books. Rowman & Littlefield.

Fischbach, Franck (2011) Transformations du concept d’aliénation. Hegel, Feuerbach, Marx. In, Revue Germanique Internationale. [En ligne]. URL: http://rgi.revues.org/377

Marx, Karl (1985). Trabajo asalariado y capital. Barcelona. Editorial Planeta

Mântica heurística – Divinatória.

Epistemologia & Método.

Que a profecia, a adivinhação, o pressentimento e as demais categorias de impressionismo heurístico carecem de aceitação científica, é um fato. Que seguem sendo praticados nos laboratórios e nos centros de pesquisa, não resta dúvidas.

O recurso à adivinhação não é, como pode parecer, um ato estranho à busca do conhecimento. Houve, ou ainda há, uma disciplina capaz de prever o futuro: a mântica (gr. Mantiké téchnē, de mantikós,ê,ón, adivinho).

A mântica se divide em dois ramos: a de inspiração divinatória e a do deciframento dos signos. Na da adivinhação, a mântica de Apolo, a alma dos deuses se apossa do sujeito e fala por sua boca, como acontece no sonho ou na possessão. Na outra mântica, a de Hermes, existem duas vertentes. Na vertente profética o futuro é antecipado pela inspiração ou pela intuição. Na vertente interpretativa o futuro é conhecido pela decifração de signos, como o voo dos pássaros, a leitura dos fígados de bois, a quiromancia, etc.

Trataremos aqui da primeira: a mântica espiritual, divina ou de Apolo, que se ocupa dos presságios e dos vaticínios. Continuar lendo

O servidor público em sua armadilha.

Trabalho & Ética.

Há uma insistência surda em culpar o servidor pela desmoralização dos sistemas de ingresso e acesso na administração pública. A finalidade é perversa. Fazer da vítima o algoz.

A degradação moral que assistimos não decorre do servidor, mas da obsolescência dos ideais, da evolução dos esquemas de gestão, da ignorância sobre as mentalidades e da vilania dos governantes.

A ilusão de Hegel, que propôs a função pública como garante da universalidade do Estado, expirou sem nunca ter vigido. A idealidade weberiana do profissionalismo, da formalidade e da impessoalidade foi rebaixada à retórica dos discursos de posse.
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Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? Continuar lendo

Efeméride.

Perplexidades & Filosofia.

hegelEm Stuttgart, neste dia 27 de agosto, mas de 1770, nascia Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

O ano de 2016 marca o bicentenário do seu ingresso como professor em Heidelberg. Hegel tinha 46 anos e já havia publicado a Fenomenologia do Espírito e a Ciência da Lógica.

As datas devem ser comemoradas com discrição e recato.

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Esquecendo o futuro.

Trabalho & Produtividade.

Editora Globo

Ilustração Indio San

O que está por acontecer corresponde diversamente ao futuro e ao porvir.

O futuro é o que ocorrerá dado o que sabemos sobre o passado e sobre o presente. O porvir (o que está por vir). É o sentimento informado (Derrida) de que haverá sempre na nossa vida o advento do impensado, o aparecimento do Outro, o que inclui a chegada outro em nós, as alterações do ego, que não antecipamos. Continuar lendo

O trabalho transformante

CATEGORIA PT

Maximilien_Luce_-_Les_batteurs_de_pieux_entre_1902_et_1905

Maximilien Luce – Les batteurs de pieux entre 1902 et 1905

No início do século XIX Hegel sustentou que é pelo trabalho e não pela contemplação ou pelo ócio que nos elevamos acima da natureza, que nos alçamos à humanidade. O trabalho nos transforma e transforma o mundo, adequando-os às nossas necessidades. Nos leva a colaborar, a reconhecer o outro. Para Hegel, a obra feita no honra e nos eleva.

Esta fórmula, emprestada de Locke, e reproduzida por muitos, principalmente por Marx, por mais bela e inspiradora que seja, é um dislate argumentativo. Seus frágeis alicerces são uma abstração e uma ilusão. Abstração derivada do conceito idealizado de trabalho. A ilusão da ideia de que o trabalho conforma o mundo à vontade geral.

Hegel abstrai que a quase totalidade do trabalho, de então como da atualidade, é não criativo e que não visa nem tem como adequar o mundo às nossas necessidades. A maior parte do trabalho, de então como de hoje, é mecânico, burocrático, repetitivo, alienante, isto é, distanciado da humanidade, do que há de humano no homem. Tem como propósito deliberado adequar o mundo aos interesses de uns poucos. Por isto restringe, ordena e adestra. Amolda o ser humano ao trabalho, e não o contrário.

Ao longo das últimas décadas, mesmo os mais delirantes devotos das tradições laborais, mesmo os ideologizados de estrita observância, vêm se dando conta que o inverso do trabalho tal como o conhecemos não é nem a indiferença ao mundo e aos outros, nem a solidão, nem a desmoralização pessoal. Que o oposto do trabalho não é a estagnação e o retrocesso. Que a necessidade de trabalhar se redime pela emancipação dos resíduos da servidão ancestral e pelo projeto da esquivança do sacrifício despropositado da vida pessoal ao interesse de poucos.

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Hegel: o trabalho provedor da moralidade e da consciência

CATEGORIA PT

hegel_morettiDe acordo com Hegel (1770-1831) há duas razões para que trabalhemos. Uma é moral: aquele que não trabalha vive à custa dos que trabalham. Outra é intelectual: aquele que não trabalha é privado da consciência de si.

A razão moral figura nos “Princípios de filosofia do direito”. Ali Hegel argumenta que em uma sociedade que se organiza em função do objetivo de ganhar dinheiro, o trabalho é o equalizador moral. Não ganhar o suficiente torna o trabalho desumano e ganhar mais do que o justificado pelo esforço feito é cair na iniquidade de explorar a miséria alheia.

A razão intelectual consta da “Fenomenologia do espírito”, onde Hegel sustenta que o trabalho é o formador da humanidade. É o trabalho, lê-se na “dialética do senhor e do escravo”, que torna o escravo mais humano que o seu senhor. Pelo trabalho o escravo aprende a controlar as forças da natureza, a imprimir sua marca na matéria que transforma. Ao contrário do senhor, o escravo toma consciência do mundo e de si.

Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (2000) Princípios da Filosofia do Direito. Tradução Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes.

Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1992) Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Menezes. Petrópolis. Vozes

UTILIZE E CITE A FONTE.