Heidegger

Heidegger – Convívio & Convivência.

Perplexidades.

O termo “convívio denota a circunstância. O termo “convivência” alude a uma conquista. O convívio é uma formalidade, uma situação em que as pessoas se encontram. Como quando nos referimos ao convívio familiar. A convivência é uma escolha, como na convivência pacífica. O convívio (lat. – convívi,is,vixi,victum,ère, viver com), não pressupõe animosidade latente. A convivência (lat. convivìum,ìi, participação em banquete), corresponde a situações em que um embate é potencial.

Alex Alemany

É esta distinção que Heidegger assinala em Ser e Tempo. Queiramos ou não, diz ele, os outros fazem parte da nossa vida. Mesmo o estar só designa uma ausência: é estar sem os outros. Nunca estamos sós. Os outros estão nas nossas memórias, nos nossos projetos, no nosso trabalho. (mais…)

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Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? (mais…)

O trabalho sem qualidades.

Trabalho & Produtividade.

O emblema de um produto artesanal como obra de arte é o saleiro fabricado para o rei da França, Francisco I, pelo pintor, escultor, escritor e multimídia florentino Benvenuto Cellini (1500 – 1571), cujos quinhentos e dezessete anos de nascimento se comemoram neste 3 de novembro.

A peça, de 26 x 33,5 cm, pode ser vista no Museu Kunsthistorisches de Viena. Consta de um pequeno barco onde se coloca o sal, rodeado pelas personagens mitológicas Cibele e Netuno, a deusa da terra e o deus do mar. Esferas de marfim incrustadas sob o pedestal permitem deslocar o saleiro na superfície da mesa. (mais…)

A ética de si – orientação moral em uma sociedade mutante.

Ética & Credibilidade.

robotsDiversas perspectivas – como as de Sartre[1], de Cavell[2] e de Foucault[3] –  postulam o auto aperfeiçoamento moral como caminho de ajustamento às situações e significados no mundo contemporâneo.

Conciliadas sob a denominação genérica de “éticas de si”[4], estas formas de ver são desdobramentos da proposição de Heidegger[5], da responsabilidade que temos sobre a nossa própria existência.

O seu ponto de partida é a constatação da inevitabilidade da perda dos valores referenciais. O deslocamento do padrão moral como algo que ocorreu e que continuará ocorrendo aceleradamente face à metamorfose das instituições sociais, econômicas, políticas. (mais…)

A ordem do querer dizer.

Epistemologia & Método.

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A previsibilidade do entendimento e da internalização dos signos é uma aspiração que está longe de ser alcançada. O que está fora de alcance não é somente a complexidade da mente humana, mas a sintetização computacional das interações sígnicas. Por mais que os devotos das epistemologias em vigor insistam, a equalização do processo de entendimento esbarra no distanciamento entre a recepção do percebido e sua compreensão. (mais…)

A medida da felicidade

Epistemologia & Método

Happiness-hot-air-balloon-590x393Uma constelação de intelectos de primeira categoria, que inclui Karl Krauss, Wittgenstein, Heidegger e Canetti, recusou in limine primo a teoria psicanalítica[1].

A rejeição decorre da fragilidade da teoria, não da epistemologia adotada por Freud.

Os materiais de prova de que Freud dispunha – os sonhos, os atos de fala, os gestos – correspondem à Europa judaica, classe média, fin-de-siècle de uma estreiteza quase absurda. Eram incompletos, inconsistentes. Caducaram. Ainda assim, Freud extraiu deles um método analítico de grande alcance e seriedade. Uma epistemologia que leva em conta marcadores e não escalas, comutações (presente / ausente), e não medidas.

Freud teria sido infantil se quisesse graduar uma pulsão, um desejo, um sentimento. Soube evitar a tolice para a qual resvalaram as ciências sócio-humanas. Estas disciplinas servem-se da tèchnè, das tradições e das ilusões em partes iguais; recorrem mais aos sentimentos, aos expedientes, à imaginação, do que à razão lógica. Parodiam a Ciência, que tomam como referencia absoluta, então se tornam um pastiche, um feixe mal amarrado de crendices e técnicas numéricas desconexas[2].

É preciso desfaçatez, uma visão simplória do mundo ou um transtorno psicanalítico para aceitar que unidades escalares meçam universalmente contínuos – como a riqueza e a felicidade – e definam em graus os limites que separam a miséria da vida modesta, a indiferença da exaltação delirante.

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[1] Steiner, George (2012) Tigres no espelho e outros textos da revista The New Yorker. Trad. Denise Bottmann. São Paulo. Globo
[2] Enriquez, Eugène (2013) A vida como tempo da experiência sempre inacabada, in Adauto Novaes (org.). Mutações: o futuro não é mais o que era; São Paulo; Edições SESC SP.