EPISTEMOLOGIA: Heurística – Epifania.

Epistemologia – Heurística.

Ao longo dos séculos, o termo grego epipháneia se prestou a entendimentos variados. Mas o sentido básico permaneceu: uma epifania é um ato cognitivo que se dá na ausência de mediação.

A festa cristã da Epifania comemora a manifestação reveladora de Jesus como divindade. Outras confissões religiosas empregam a palavra no mesmo sentido. Já as neurociências usam o termo para designar a súbita compreensão da essência de um fenômeno, a solução instantânea de um problema ou o assomo imediato de uma ideia à mente.  Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: O instante heurístico.

Epistemologia – Heurística.

 

No prefácio à Metafísica, Tommaso Campanella descreveu o instante heurístico como um movimento da consciência por “tactum intrinsecum in magna suavitate”.

As narrativas colhidas nas investigações contemporâneas abonam que o descobrir e o inventar consistem em uma aquisição íntima, que assoma despercebida e com grande suavidade.

Mas como uma ideia, um objeto, ou uma relação penetra na vida mental? 

Difícil responder. A consciência é, em si, um enigma. Um “não sei quê” (nescio quid), nas palavras de Leibniz. Conscientizar-se não é como adquirir um conhecimento. Sabemos todos que vamos morrer, mas quantos de nós estamos conscientes da inevitabilidade da própria morte? 

A consciência também não é uma sensação, nem deriva de um esforço científico. É algo que está simultaneamente nos campos da percepção e do juízo. A imagem exemplar é a de quando somos tocados pela arte. Sentimos, mas não podemos narrar o que sentimos. O belo e o feio, o significativo e o insignificante chegam à mente por um influxo interno, assim como áspero e o acetinado chegam ao tato. 

Ao tomarmos consciência alguma coisa é revelada. O intelecto se eleva sobre si mesmo. Ingressa em um estado em que o significado está em processo de aparecimento. O que ocorre então não pode ser descrito. Só recordado. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Agamben, Giorgio (2017). Gosto. Trad. Claudio Oliveira. Belo Horizonte. Autêntica Editora

Ernst, Germana (ed.) (2007). Tommaso Campanella: Le Livre et le corps de la nature. Paris, France. Les Belles Lettres.

Headley, John M. (1997). Tommaso Campanella and the transformation of the world. Princeton. Princeton University Press

Leibniz, Gottfried Wilhelm Leibniz (1989) The source of contingent truths. In, Leibniz: Philosophical Essays (Hackett Classics) Trad, Rogerl Ariew e Daniel Garber. Hackett Publishing Co. eBook Kindle

EPISTEMOLOGIA: O campo da heurística.

Epistemologia – Heurística.

A heurística é disciplina do invento e da descoberta. Seu foco é o da tomada de consciência de objetos e relações. 

A definição é importante porque as ciências particulares costumam empregar o termo “heurística” de forma limitada ou equívoca. Na ciência da história, entende-se a heurística como significando a pesquisa documental. Na pedagogia, considera-se método heurístico aquele que permite ao aluno descobrir o que se quer que aprenda. 

Fora do âmbito da filosofia, os atos e momentos heurísticos têm sido objeto apropriado de estudo da psicologia cognitiva e do aglomerado reunido sob a denominação de neurociências. Esses saberes se ocupam primordialmente dos processos de autodescoberta, de auto-diálogo, de auto-procura e do despertar das emoções e aberturas de sentido (Moustaka). 

Os estudos heurísticos contribuíram para a superação das restrições arcaicas e a consequente restauração da universalidade dos saberes. São exemplos do progresso alcançando a ruptura, fusão e empréstimos entre as disciplinas particulares; o surgimento de ramos de conhecimento como a fisioquímica, a biônica e a mecatrônica; bem como a outorga do Nobel de economia a Daniel Kahneman, um dos pais fundadores da psicologia heurística. 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Moustaka, Clark (1990). Heuristic research: design, methodology, and applications. California. Sage Publications.

Nadeau, Robert (1999) Vocabulaire technique et analytique de l’épistémologie. Paris. Presses Universitaires de France. P. 290

EPISTEMOLOGIA: Heurística e epistemologia.

Epistemologia – Heurística.

Gabrielle d’Estrées 1995 – Aldéhy Phil

A heurística é a disciplina devotada ao estudo do descobrir e do inventar. Tem em comum com as epistemologias a busca dos atributos, condições e relações que subjazem à perplexidade, à dúvida ou à curiosidade. Mas o paralelo cessa aqui.

Contrariamente ao que ocorre na descoberta e na invenção, os métodos epistemológicos congregam princípios arbitrários que estabelecem o campo, os problemas e as modalidades de trabalho do cientista-praticante. 

Na forma afirmativa, as epistemologias compreendem temas, métodos, práticas e regras excludentes, como da recusa em absorver a mântica e o acaso. Na forma positiva, as epistemologias determinam os temas, procedimentos, e métodos que constituem o hardcore dos saberes particulares, e que os colocam a salvo dos dissidentes, dos refutadores, dos rebeldes, e, também, dos descobridores e dos inventores. 

Alguns teóricos aventam uma integração entre a heurística e as epistemologias. Argumentam que é possível passar da dedução, da indução e da abdução a um novo campo, a uma nova teoria, ou a uma hipótese de ruptura com o estabelecido. Não é o caso de disputar o ponto. Mas nada leva a crer que as epistemologias e seus métodos sejam heuristicamente mais férteis do que qualquer outra atividade intelectual. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Lakatos, Imre (1970). Falsification and the methodology of scientific research programmes, in Lakatos & Alan

Musgrave (ed.). Criticism and the growth of knowledge. Cambridge. Cambridge University Press.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – O enigma da invenção.

Epistemologia – Heurística.

Paul Klee – Senecio

O descobrir corresponde à revelação do desconhecido. O inventar corresponde à geração do novo. Descobre-se a América. Inventa-se o avião. 

Kant foi o primeiro filósofo a romper com a rotina de unir a imagem e a imaginação. Ambas são representações de objetos ausentes, mas a imagem tem, para ele, uma “função reprodutiva”, a de descobrir. Já a imaginação é uma capacidade de combinar significados díspares e gerar o inédito, tem uma função produtiva, a de inventar. 

Mas nem Kant conseguiu explicar como, exatamente, a imaginação gera algo que não existia. 

Quem chegou mais próximo de deslindar o arcano foi Koestler. A ideia nova despertaria na consciência no instante em que uma mistura de elementos, oriundos de duas matrizes independentes e viajando em sentidos distintos, casualmente se encontram. O significado seria dado por meio da “bissociação”, isto é, da analogia, da comparação, da metáfora, da categorização e da abstração. 

Um esquema engenhoso, mas meramente especulativo. Para a ciência, o “ponto de gênese” (Klee), “o momento eureca!” ou como quer se denomine a geração do novo, é um enigma que perdura.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Koestler, Arthur (1964) The act of creation. London. Hutchinson & Co.

Matherne, Samantha (s/d). Kant’s Theory of the Imagination, Routledge Handbook of the Imagination. https://www.academia.edu/11319761/Kants_Theory_of_the_Imagination. 

Paul Klee (2002) The Nature of Creation, Works, 1914-1940. London. Lund Humphries Pub Ltd 

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Invenção e acaso.

Epistemologia – Heurística.

Arthur Rimbaud escreveu poemas sem sujeito, sem intercorrências e auto-referidos à linguagem. Não sabemos como foi capaz disto, e especulamos sobre o que o levou a inventar algo tão diferente do que existia antes dele.

Rimbaud foi um gênio, mas o seu caso não é excepcional. O inventor e a invenção parecem ser frutos do puro acaso. Pelo menos, ninguém ainda conseguiu documentar a geração de uma singularidade nova que não fosse eventual e imprevisível. A única característica comum aos inventores, grandes e pequenos, que a neurociência pode determinar até agora, é a de fazerem parte do conjunto de pessoas que não têm medo de se expor ao fracasso.

A ideia de invenção está vinculada ao destino, não à origem. Barthes, em “A morte do autor” sustentou que o cronista diz quando e como Cesar atravessou o Rubicão e que o historiador interpreta o porquê e o para quê da ocorrência. O método histórico não cria nem Cesar, nem a travessia, nem o cronista. É o historiador quem suprime o incômodo do acaso. Inventa – o termo é este mesmo – uma explicação arbitrária para o fato, e uma interpretação a posteriori para que a ocorrência tenha sido notada.

Os domesticados pelas instituições acadêmicas não podem conviver com o acaso. Por isto se prendem às fontes e às tradições. Refratários ao fortuito, são como o rabino mítico que, ensandecido de tanto estudar, corre pelas ruas gritando: “tenho as questões corretas para as suas respostas”.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Barthes (1988) A morte do autor, in O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo. Editora Brasiliense S. A.

Mlodinow, Leonard (2009). O andar do bêbado. Tradução de Diego Alfaro. Rio de Janeiro. Zahar. [P. 19]

Rimbaud, Arthur (2014) Iluminuras. Tradução, notas e ensaio: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Editora: Iluminuras

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Heráclito, os indícios e as singularidades.

Epistemologia – Heurística.

Banksy – Girl with Balloon.

O vigésimo terceiro dos fragmentos conhecidos do legado de Heráclito de Éfeso assinala: “O Senhor, de quem é o oráculo em Delfos, nem diz, nem oculta, mas dá indícios”.

Não é pouco. O indício é tudo o que se pode ter na descoberta de singularidades.

Uma singularidade é um termo ou uma proposição que denota um único objeto. Enquanto a proposição universal concerne à totalidade dos sujeitos de uma mesma classe, a proposição particular se relaciona à alguns sujeitos, a proposição singular se refere a um, e somente um sujeito.

Todo e qualquer singular é nomeado por um título: Cervantes, a Torre Eiffel, o pintor da Mona Lisa, o homem mais alto do mundo, eu, …

Da mesma forma que não se pode ter dois universais “seres humanos”, não se pode ter dois singulares “René Descartes”. Por isto, o singular nunca é uma derivação ou uma cópia. Os singulares devem ser descobertos ou inventados.

Em outro fragmento, o décimo oitavo, Heráclito deixou a lição de que “quem não espera… não encontrará o inencontrável e o inacessível”. De fato, o singular só ocorre àquele que espera, ao atento, ao consciente, ao que é capaz de identificar o incomum e o desusado.

Heráclito ficou conhecido como “o obscuro” e o “filósofo lastimoso”. Obscuro terá sido, mas a lástima não era por isto. Era pela estupidez humana, na maior parte incapaz de reconhecer os indícios do novo e do diferente.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Heráclito (1982). Fragmentos; Tradução de Luis Farre; Buenos Aires; Aguilar Argentina S.A. de Ediciones. 

Leibniz, Gottfried Wilhelm (2000) Novos ensaios sobre o entendimento humano. Tradução: Luiz João Baraúna. São Paulo. Nova Cultural. [IV, XVII § 8]

Mondolfo, Rodolfo (1971) O pensamento antigo: história da filosofia greco-romana; Tradução de Lycurgo Gomes da Motta; São Paulo; Mestre Jou. 

Pereira, Maria Helena da Rocha (1979). Estudos de história da cultura clássica; Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

EPISTEMOLOGIA: O ciclo anti-heurístico.

Epistemologia – Anti-Heurística.

“A realidade é o que tomamos como verdade.

O que tomamos como verdade é aquilo em que acreditamos.

Aquilo em que acreditamos é baseado em nossa percepção.

O que percebemos depende do que nós procuramos.

O que nós procuramos varia de acordo com o que pensamos.

O que nós pensamos depende do que nós percebemos.

O que percebemos determina o que acreditamos.

Aquilo em que nós acreditamos determina o que tomamos como verdade.

O que tomamos como verdade é nossa realidade.”

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
De uma palestra de David Bohm, físico de Berkeley, citado por Ricard,  Matthieu & Thuan,  Trinh Xuan (2004). The
Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet. New York. Broadway Books.

EPISTEMOLOGIA: Anti-heurística – Popper, o irrelevante acadêmico.

Epistemologia – Anti-Heurística.

O epistemólogo Karl Popper sustentou que a coerência científica de uma época não reside na forma e na natureza das respostas que dá, mas nas questões que ela se coloca.

Tinha razão.

Na atualidade, ante o engessamento das abstrações ideológicas, como ocorre no marxismo, e da fixação em situações pretéritas, como ocorre no positivismo (aquilo que esteve posto), vivemos em uma época de indigência intelectual.

Pressionados pelo arcaísmo estabelecido, os universitários das áreas sócio-humanas se homiziam atrás de matérias sobre as quais já se demonstrou o essencial (sim as mulheres são exploradas, os pobres abandonados, a educação equivocada, a saúde esquecida, ….).

Ao se lançarem sobre temas desconectados das premências das sociedades contemporâneas, ao se repetirem, ao replicarem, ao reiterarem o já sabido, as frações da academia que se autodenominam de ciências aplicadas, se dedicam, em sua maioria, ao inaplicável.

As ciências básicas não devem, é claro, se sujeitar às demandas do momento. Deixariam de ser básicas ou puras, como alguns preferem denominar. Mas os saberes instituídos não deveriam marginalizar os temas do momento: fundamentalismos, opressão governamental, drogas, fim do emprego, tirania empresarial, criação e acesso, ….

É verdade que sempre houve, e deve mesmo haver, uma defasagem entre o foco da instituição acadêmica e o interesse das sociedades. Mas esta defasagem tem um limite: o da irrelevância.

Viciados em chavões, os universitários se tornaram monomaníacos. Especialistas em autores e não em ideias, desenvolveram competências unicamente para a repetição.

Como os papagaios.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Popper, Karl (2008) Conjecturas e refutações: o progresso do conhecimento científico. Brasília, tradução Sérgio
Bath. Editora da UNB

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Trânsito cultural: a pós-produção.

Epistemologia – Heurística.

Fonte (1917), Marcel Duchamp

O processo heurístico de “inventar novamente”, implicado no ato de recepção, foi descrito por Max Weber como “trânsito cultural”.

A prática é antiga. Já estava formalizada nos centões, conglomerados em que o escritor reordena versos de outros poetas, como o centão de Antônio, que compôs um epitálamo (hino nupcial), com versos de Virgílio para celebrar as bodas de Valentiniano.

No século passado, o tráfego cultural esteve no urinol–touro de Duchamp, na poesia compósita de Eliot, na “montagem” das Passagens de Walter Benjamin. Esteve em Jorge Luis Borges, que não copiou ninguém, mas que atribuiu a quem o lesse a coautoria dos seus textos; não por generosidade, mas por ter constatado que, ao absorver a criação alheia, nós a reinventamos.

A técnica contemporânea de fazer transitar elementos coexistentes em vários segmentos culturais é denominado pós-produção. No essencial, o exercício segue a tradição de regenerar, deslocar, recontextualizar e rearranjar ideias, imagens e imaginários.

De valor heurístico exemplar, a pós-produção operacionaliza sistemas de interação (wiki, redes sociais, compartilhamentos) e de recriação (cut and paste; mashups, editores de imagens e até geradores de trololó). Com isto, contribui extraordinariamente para a descoberta de novas afinidades sociais e de formas inéditas de entendimento do mundo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Borges, Jorge Luis (1996). Textos cautivos. In Obras Completas. Barcelona. Emecé Editores España S.A.

Bosco, Francisco (2013). O futuro da ideia de autor. In, Mutações: o futuro não é mais o que era. org. Adauto Novaes. São Paulo. Edições SESC SP. p. 403

Kalinowski, Isabelle (2015) Réception. In, Berner, Christian & Thouard, Denis (direction). L’interprétation : un dictionnaire philosophique. Traduit de l’allemand par Christian Berner. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.

Weber, Max (2010) Le judaísme antique. Paris. Flamarion.

EPISTEMOLOGIA: Foucault – Na análise das epistemes, a chave heurística.

Epistemologia – Heurística.

Foucault utilizou a palavra grega épistémè (entendimento) para significar as relações que conectam os diferentes tipos de discurso em uma situação espaço-temporal.

A episteme é um mosaico que conforma uma totalidade, como os pixels conformam uma imagem. Discrimina o modo de perceber, de conceituar, de definir e de agrupar os elementos de um meio cultural dado.  Estabelece um corpo de prescrições cuja função é vigiar os desvios dos paradigmas tidos como verdadeiros.

A análise das epistemes rompe com o dogma da identificação de problemas. Entende que quando nos referimos ao problema moral, ou ao problema do trabalho ou de qualquer outro objeto, incorremos em uma petição de princípio: a de que a ética, o trabalho, ou qualquer objeto são dificuldades, antes de serem temas de reflexão.

As análises tradicionais abordam o objeto sócio-humano problematicamente; como algo que deve ser resolvido; isto é, que deve ter uma solução na forma matemática, mas, também, na forma em que os nazistas falavam do “problema judaico” e que hoje o Ocidente fala do “problema muçulmano”.

A abordagem prescrita por Michel Foucault abandona a interrogação sobre o conteúdo do objeto; desmonta a estrutura de normas de relacionamento entre elementos dos discursos; concentra-se no entendimento da constituição do seu significado.

O valor heurístico da análise das epistemes está em observar os interstícios da narrativa, em abrir-se para além da constatação e da hermenêutica, em trazer à luz (ou em inventar) a chave que poderá rescindir o quadro das inadequações sociais persistentes.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Foucault, Michel (2007). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo. Martins Fontes.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Indutivismo – quase-nulidade heurística.

Epistemologia.

O Indutivismo é a doutrina de que toda pesquisa científica deve proceder seguindo os passos: observação, classificação, interpretação das relações entre os fenômenos, generalização e predição.

Na inferência indutiva passa-se de indícios percebidos à realidade desconhecida, do especial ao mais geral, dos indivíduos às espécies, das espécies ao gênero, dos fatos às leis.

Embora seja de uso quase obrigatório nas publicações acadêmicas do campo sócio-humano, a indução envolve generalizações não comprováveis, só se aplica a observações diretas e dificilmente gera descobertas ou invenções.

Como instrumento heurístico, o processo indutivo tem pouco ou nenhum valor. Tende a gerar novas proposições, mas não novos conceitos, isto é, conceitos que não aparecem na base de dados considerada.

Não sendo possível observar a partir do nada, as hipóteses lançadas pelo pesquisador ou bem são infundadas ou bem são programáticas, ou seja, predeterminadas no que se refere à relevância dos dados e informações.

Ao se inferir indutivamente encontra-se – ou não – o que se esperava encontrar, sendo possível, no entanto, como em qualquer forma de experiência, que o simples exercício de investigar leve casualmente a descobertas e invenções.

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Experiência e experimentação.

Epistemologia.

Muitas expressões heurísticas têm base empírica. Não porque advenham, como os métodos epistemológicos, da experimentação, mas porque derivam da experiência.

A experimentação consiste em observar, interpretar e descrever um fenômeno em condições controladas. A experiência é o conhecimento obtido por meio dos sentidos, da prática não organizada, ou da sabedoria adquirida de maneira espontânea.

Enquanto os procedimentos epistemológicos buscam leis e regularidades, os procedimentos heurísticos se voltam para singularidades. Na experimentação testamos para ver o que acontece. Na experiência absorvemos o que acontece a nós e ao mundo.

A experimentação é sempre uma fotografia. O que a imagem fotográfica oferece é uma emanação da realidade que se deu no passado. Um fato, um dado, um real morto. Não se pode revivê-lo. Só se pode lembrá-lo como notícia do sinal colhido, daquilo que já não é.

A experiência é presente. Existe enquanto dura. Só se pode vivê-la uma vez. Tudo na experiência permanece íntimo. Seu sinal é colhido como sensação intuitiva do que é.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Barthes, Roland (1984) A câmara clara: Nota sobre a fotografia. Trad. Julio Castanon Guimaraes. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.

EPISTEMOLOGIA – Heurística – Xenófanes: A invenção de Deus e a descoberta do Mundo.

Epistemologia.

A heurística tem um de seus próceres no filósofo jônico Xenófanes de Cólofon (ca. 570 a.C. — 475 a.C.).

Rapsodo, Xenófanes escreveu somente em versos, o que lhe permitiu desenvolver um tipo de reflexão comparativa e conciliadora. Sua na doutrina é a da unidade em todo subsistente. Observador dos elementos, foi o primeiro a identificar os fósseis longe da costa, concluindo sobre a lenta dinâmica da Natureza.  Observador da Humanidade, combateu o antropomorfismo, descobriu que a Terra é um globo e inventou o monoteísmo teórico.

Confrontando as reflexões de Empédocles, que havia sustentado que a Terra era plana, de Demócrito, que dissera que vivemos no oco do mundo, de Leucipo, que pensou a Terra como um tambor, de Heráclito, que havia dito que a Terra tinha forma de uma taça e de Anaximandro, que garantira que era infinita para baixo, Xenófanes deduziu que a Terra teria que ser globular, a única forma que compreende todas as demais.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Xenófanes estudou a relação que existe entre as imagens que diversas sociedades criam dos seus deuses. Verificou que eram similares às próprias características físicas. Em lugar de simplesmente registrar o fato, alcançou a conclusão de que existe um só Deus, único e eterno, e que este Deus, que reúne as características de todos os povos, tem uma forma esférica e, talvez, espelhada.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Gerd A. Bornheim (1967), Xenófanes de Cólofon. In, Os filósofos pré-socráticos. São Paulo. Cultrix.

Kirk, G.S., Raven, J.E. and Schofield, M. (1983) The Pre-Socratic Philosophers. Cambridge. Cambridge University Press [ chapter 5 pag. 163-80])

EPISTEMOLOGIA: Conceito – O que é a intuição.

Heurística.

 “Com a lógica se demonstra, com a intuição se inventa.” (Poincaré)

 

Descartes definiu a intuição evidente como oposta à dedução necessária. Kant, como tudo que o intelecto experimenta com rigor, em si mesmo ou na imaginação. Schopenhauer, como percepção direta, sem mediação do conhecimento discursivo e das suas relações. O pós-idealismo seguiu Schopenhauer.

No século passado, Husserl diferenciou a intuição empírica, que capta os objetos individuais; a intuição eidética, que capta a essência das coisas; e a intuição categorial, que capta as estruturas, os padrões e os números. A intuição empírica ou individual é transformada na visão da essência [ideação] que é uma abstração [algo insubsistente por si mesmo]. De modo que, para a fenomenologia, a intuição é uma faculdade que permite perceber o todo, no sentido de que se pode examinar um objeto, uma árvore, por exemplo, de muitos ângulos, mas só a intuição permite apreendê-lo integralmente.

Contemporâneo da fenomenologia, Henri Bergson escreveu que a intuição é algo que se encontra entre o instinto e a intelecção. É o que apreendemos em um lampejo no espírito, aquilo que sabemos, mas que “não sabemos como dizer”. O intuído é o que fica na ponta da língua, o que se perde inevitavelmente na continuidade fluida do tempo, o verso melhor, que já não podemos recordar.

A definição contemporânea da intuição – faculdade interna de fazer inferências e chegar ao conhecimento de estruturas e de dinâmicas -, supera as distinções entre o sensível e o intelectual. Um longo caminho desde a filosofia Antiga e a Medieval, que deram a intuição (lat.ecl. intuitìo,ónis: imagem refletida no espelho) como ato puro da consciência, como a apreensão imediata das Ideias (Platão) e de Deus (S. Agostinho).

Esta capacidade de captar padrões e significados imediatamente do real ao intelecto permanece desde sempre no âmago do processo heurístico, que a distingue, da adivinhação, da fantasia, da inclinação, e de toda evidência.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Descartes, René (1989). Regras Para a Direção do Espírito [ III]. Tradução de João Gama. Lisboa. Edições 70.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura [I, passin, particularmente § 3] Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Idéias e Letras.

Kant, Immanuel (1989). Crítica da razão pura, Estética transcendental. I, 1. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

Paty, Michel (2005) Pensée rationnelle et création scientifique chez Poincaré. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00004166

Platon (1981) Fedro 247a .In Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali. Marid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Poincaré, Henri (1947). [1908]. Science et méthode, Flammarion, Paris. [137]

Santo Agostinho (2010). Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora Vozes

EPISTEMOLOGIA: Derrida – A atitude heurística da desconstrução.

Epistemologia.

Abed Alem

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo terminal do século XX, filósofo inaugural do século XXI, demonstrou o esgotamento da capacidade explicativa do idealismo, da semiologia e das práticas analíticas que se fecham sobre seus sistemas pré-circunstanciados, pré-históricos, pré-conceituosos.

A “desconstrução” que inventou é uma variante da Destruktion, heideggeriana. Consiste em redesenhar criticamente o que Kuhn denominou de paradigma: o conjunto articulado de conceitos, práticas, métodos, instrumentos e técnicas que vige em uma determinada época e circunstância.

Desconstruir é rescindir uma estrutura para fazer aparecer seu esqueleto. O procedimento abandona a pretensão do conceito-signo, de ter acesso às coisas mesmas, em favor do conceito-rastro, do rastreamento do subjacente, do que foi apagado pelo tempo, pelas convenções, pelos espaços, pelas certezas.

Trata-se de uma analítica (gr. análusis, dissolver os laços) radical (até a raiz) dos conceitos e dos discursos. De deslocar os objetos, as ideias, os valores da funcionalidade estabelecida. De despolarizar dicotomias como homem/mulher, noite/dia, etc., e como o cortejo de oposições implícitas na metafísica – dentro/fora; essência/aparência; originário/derivado …

Derrida se esforçou para cunhar termos que não carregassem em si nenhuma definição precisa. “Indecidíveis”, “quase-conceitos”, que remetessem a objetos, sem darem conta de um significado fechado. Como “différance” em lugar de “différence“. Com isto, ele instaurou uma forma de ver autônoma, perturbadora, sediciosa. Um “racionalismo incondicional”, que descobre nas fraturas e incongruências do estabelecido os lapsos, os hiatos, os traços, expondo a fragilidade das significações, as cinzas das reduções, os resíduos das intenções.

Derrida inventou uma heurística a partir da identificação do inapreensível. Provou que só há “invenção” e “descoberta” quando se deixa de encontrar o que estava antecipado. Demonstrou que existem sempre e indefinidamente outras instâncias de sentido adormecidas, apagadas pela história, pela ideologia, pelo conforto da repetição. Que a única certeza é a de que não existem certezas.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Derrida, Jacques (1973). Gramatologia. Tradução Mirian Schneiderman e Renato Jeanine Ribeiro. São Paulo. Editora Perspectiva

Derrida, Jacques (1991). Margens da filosofia. Tradução de Joaquim Torres Costa & Antônio M. Magalhães. Campinas. Papirus Editora.

Derrida, Jacques (2014). L'écriture et la différence. Paris. Points-Essais.  

Heidegger, Martin (2012). Os problemas fundamentais da fenomenologia. Tradução: Marco Antonio Casanova Petrópolis. Vozes.

Kuhn, Thomas A. (1989). A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo. Editora Perspectiva.

EPISTEMOLOGIA: Nietzsche – A heurística do deslocamento.

Epistemologia.

O que costumamos denominar projeções objetivas não passam de representações ingênuas e de antecipações acanhadas. São perspectivas centralizadas, imagens e imaginários lançados na direção de um ponto diretamente adiante no espaço e no tempo.

A convergência de linhas de profundidade em um ponto de fuga é uma forma de ver tão simples e natural que parece única. É muito antiga. Figura já nos modestos cenários do teatro grego. Leonardo da Vinci a descreveu no seu Tratado de pintura como arte primogênita, anterior mesmo à música. Está presente em todos os domínios do saber. Nicole de Oresme (ca. 1360) formulou, em seu “Tratado sobre a mutação monetária”, a projeção idealizada de um estado em projeção direta no futuro.

A perspectiva central foi a forma de ver dominante nas artes, na filosofia e na ciência até que, no século XIX, os Impressionistas rechaçaram a representação naturalista, os poetas e músicos transcenderam as formas e Nietzsche postulou o perspectivismo, a consideração de um objeto e do mundo segundo diversos pontos de vista.

A heurística da transposição de cenário deriva remotamente de Leibniz, mas Nietzsche foi o primeiro a criticar a condição pela qual cada centro de força constrói todo o resto do universo partindo de si mesmo. Não só propôs ver como o outro veria, mas ver de outra maneira. Fundou, com isso, uma heurística do deslocamento de perspectiva, a prática de introduzir variações sucessivas das ligações do campo perceptivo com o objeto para fazê-lo emergir numa configuração não habitual, que nutriu o método fenomenológico de Husserl e que rege grande parte da gnosiologia contemporânea.

Um exemplo do deslocamento de perspectiva é o uso de artifícios como a microscopia ou a telescopia temporal. Dilatando ou contraindo a escala do tempo, como na aceleração ou no slow motion cinematográficos, esclarecem-se as causas das flutuações de preços, da mancha de ozônio, do mercado de trabalho, da bolsa, etc.

Nietzsche abriu caminho para entender os objetos não só do lugar e do tempo de onde falamos, mas para os descobrir na fluidez do seu transcurso. Reivindicou a possibilidade de uma transfiguração do banal. Legou à heurística não uma episteme da ruptura, como, mais tarde, fez Bachelard, mas uma ruptura da episteme que havia vigorado até a sua data.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bachelard, Gaston (1996) A Formação do espírito científico. Trad. Esteia dos Santos Abreu. Rio de Janeiro. Contraponto

Da Vinci, Leonardo (2004). Tratado de pintura. Tres Cantos, España. AKAL Ediciones.

Hülsmann, Jörg Guido(s/d). Nicolás Oresme y el primer tratado monetario. Recuperável em http://www.institutoacton.com.ar/articulos/12arthulsmann2.pdf

Husserl, Edmund (1981); Pure phenomenology, its method and its field of investigation, (inaugural lecture at Freiburg im Bresgau – 1917) in McCormick, Peter e Elliston, Frederick A. Editores; Husserl: Shorter works; Indiana; University of Notre Dame Press.

Leibniz, Gottfried W. (2009). A Monadologia e outros textos. Trad. Fernando Luiz B. G. e Souza. São Paulo: Hedra.

Nietzsche, Friedrich (2009). Genealogia da Moral. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo. Cia das Letras.

EPISTEMOLOGIA: Anti-heurística regressiva.

Epistemologia.

Revelation by Heidi Taillefer.

A busca de aconselhamento no passado e a busca de conhecimento no futuro são empresas insensatas. Tanto o tempo passado como o tempo futuro não advém, mas sobrevém. O passado, porque é da natureza da recordação assomar ao espírito. O futuro, porque é da natureza do futuro estar em aberto.

A lembrança e a antecipação compartilham o deleite impune da fantasia. Como crianças, que de um pedaço de madeira fazem um automóvel ou uma boneca, as recordações nos permitem adoçar ou salgar o que já foi, e as projeções nos permitem dourar ou obscurecer o que ainda não é. Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Heurística – A Máquina de Lúlio.

Epistemologia.

A Ars compendiosa inveniendi veritatem seu ars magna et maior, de Raimundo Lúlio, é um sistema de articulação das categorias da memória, da descoberta e da cognição. O seu fundamento é a certeza de que tudo o que existe é espelho do divino. O seu propósito é o da aproximação da Verdade. A sua dinâmica é a do esgotamento sistemático de todas as combinações elementais possíveis.

Em 1272, Lúlio (Ramón Lulll; Mallorca; 1235 – 1315), filósofo neoplatônico, havendo subido ao monte Randa, sofreu a experiência mística que lhe revelou os princípios da Ars. Inventou, então, a Máquina de Pensar que lhe deu fama. Continuar lendo