NOTAS: A Face Oculta do Parecerista.

Notas.

Nesse artigo exponho discussões éticas sobre o processo de avaliação de mérito de trabalhos científicos. O sistema de revisão cega pelos pares em periódicos, partindo do debate sobre as pressões para publicação presentes na comunidade acadêmica de Administração no Brasil.

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UTILIZE E CITE A FONTE.
Dilthey, Wilhelm; Introduction a l’etude des sciences humaines: essai sur le fondement qu’on pourrait donner a l’etude de la societe et de l’histoire ; Paris: Presses Universitaires de France, 1942.

__________ ; La esencia de la filosofia; Buenos Aires; Losada; 1952

 

ÉTICA: A ética do antes e do depois.

Ética.

O suspense tecnológico mostrado por Spielberg em Minority Report externa um paradoxo insolúvel: o juiz que mata os criminosos futuros, que assassina as pessoas que cometerão crimes, faz com que o crime não seja cometido, mas mata um inocente.

O futuro jamais oferece parâmetros éticos aceitáveis. O tempo, irreversível, obriga a que os princípios morais não se antecipem nem posterguem. Ademais, os predicados analíticos – bom, justo, valioso – e os predicados normativos – necessário, interdito, recomendável –, diferem entre os povos e as gerações.

Kant achava inconcebível que a marcha da humanidade fosse a construção de uma morada que apenas a última geração pudesse habitar. Tinha razão. Estenderia, se vivo fosse, a advertência sobre a imoralidade da redenção futura ao improvável advento da ordem perfeita ou do igualitarismo social.

O problema ético do antes e do depois é embaraçoso. Nem o mérito, nem a culpa retroagem. Na antecipação castiga-se o inocente. Na postergação, os culpados e as vítimas já terão deixado de existir.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kant, Immanuel (2010). Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. Tradução de Artur Mourão. São Paulo. Martins Fontes.
Minority Report (Filme) (2002). Direção Steven Spielberg. USA. 20th Century Fox Corporation.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – O enigma da invenção.

Epistemologia – Heurística.

Paul Klee – Senecio

O descobrir corresponde à revelação do desconhecido. O inventar corresponde à geração do novo. Descobre-se a América. Inventa-se o avião. 

Kant foi o primeiro filósofo a romper com a rotina de unir a imagem e a imaginação. Ambas são representações de objetos ausentes, mas a imagem tem, para ele, uma “função reprodutiva”, a de descobrir. Já a imaginação é uma capacidade de combinar significados díspares e gerar o inédito, tem uma função produtiva, a de inventar. 

Mas nem Kant conseguiu explicar como, exatamente, a imaginação gera algo que não existia. 

Quem chegou mais próximo de deslindar o arcano foi Koestler. A ideia nova despertaria na consciência no instante em que uma mistura de elementos, oriundos de duas matrizes independentes e viajando em sentidos distintos, casualmente se encontram. O significado seria dado por meio da “bissociação”, isto é, da analogia, da comparação, da metáfora, da categorização e da abstração. 

Um esquema engenhoso, mas meramente especulativo. Para a ciência, o “ponto de gênese” (Klee), “o momento eureca!” ou como quer se denomine a geração do novo, é um enigma que perdura.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Koestler, Arthur (1964) The act of creation. London. Hutchinson & Co.

Matherne, Samantha (s/d). Kant’s Theory of the Imagination, Routledge Handbook of the Imagination. https://www.academia.edu/11319761/Kants_Theory_of_the_Imagination. 

Paul Klee (2002) The Nature of Creation, Works, 1914-1940. London. Lund Humphries Pub Ltd 

ÉTICA: Fontes da filosofia moral – Kant: O legado crítico.

Ética.

A Revolução Crítica, forjada por Kant, trouxe ao mundo o entendimento da verdade e da justiça como resultado da tessitura de um sentido comum, de uma dimensão de intersubjetividade própria à razão humana.

Depois de Kant, em lugar de uma verdade definida como a adequação de um enunciado à realidade em si, e do ditame de um fim absoluto de justiça, passou-se a demandar uma aferição de verdade e de justiça que tenha legitimidade universal. 

Muitos duvidam de que seja possível alcançar este fim, mas não podem negar que a razão prática dispõe dos meios e da capacidade para estabelecer objetivos suscetíveis de validação para todos, e não somente para aqueles que os propõem. 

A argumentação de Kant evidencia que o determinismo, seja na forma natural do destino biológico, seja na forma espiritual da vocação histórica, é falso. Mostra que as ideias de vida como tarefa inevitável a realizar, ou como resultado de uma dialética infalível são improváveis. No duplo sentido de que são meras aspirações e de que não podem ser provados. 

A filosofia kantiana deixou como herança mais sensível para a reflexão moral da atualidade ter dado alento à ética de Habermas e de toda a teoria crítica; e à ética de Rawls e de todo o neo-contratualismo. 

Ainda que a poluição não nos permita mais ver o céu estrelado, ele continua sobre nossas cabeças, e se não pudemos dar com a Lei moral dentro de nós, foi a polêmica em torno dela que fez prosperar nos dois últimos séculos as discussões sobre o fundamento da ética.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cherques, Hermano (2011). John Rawls: a economia moral da justiça. Sociedade e Estado (UnB. Impresso), v. 26, p. 551-564.

Habermas, Jürgen. (2003). Consciência moral e agir comunicativo. Tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro.

Habermas, Jürgen. (2013). A Ética da discussão e a questão da verdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo. Martins Fontes

Rawls, John. (1981). Uma teoria da Justiça. Tradução de Vamireh Chacon. Brasília: Editora Universidade de Brasília.

Renaut, Alain (1997). Kant aujourd’hui. Paris. Aubier

ALMANAQUE: O Sentido da Vida.

Almanaque.

Kant observou que, embora como seres morais tenhamos que fazer a pergunta sobre o sentido da vida, como cientistas não temos como respondê-la­.

UTILIZE E CITE A FONTE.

TRABALHO: Kant – A emancipação pelo trabalho.

Trabalho.

Kant escreveu que a liberdade é pré-requisito para se alcançar a liberdade (1990).

Se a frase parece equívoca, é porque o envolve os dois aspectos da liberdade: a liberdade de e a liberdade para.

Aplicado ao trabalho, o raciocínio esclarece o caminho que vai da autonomia, enquanto condição, à autarquia, enquanto propósito.

A liberdade de corresponde ao trabalho autônomo. Os imperativos da autonomia são categóricos e formais. Não tratam da matéria da ação nem do seu resultado pretendido, mas da forma da ação e do princípio de onde ela dimana (2009). A liberdade de se trabalhar do modo que se quer, que as economias estreitam e controlam, corresponde à emancipação de qualquer dependência, como a do emprego. É uma condição, não um fim.

A liberdade para, que nós, por fraqueza intelectiva e moral, bloqueamos, corresponde à autarquia (autakeia). A liberdade para produzir o que se quer da forma que se quer concerne à emancipação do controle exterior à consciência. É o que Kant descreve como a liberdade do sujeito de legislar sobre si (2008). Nós nos libertamos não do trabalho, mas pelo trabalho. A autarquia é um fim, não uma condição.

Insensato esperar pela outorga da liberdade. A emancipação não depende de aguardar pelo tempo nem em confiar no obséquio alheio, mas de construirmos para nós mesmos uma atitude libertária em relação ao trabalho.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kant, Immanuel (1990). Resposta à pergunta: o que é o iluminismo (1784), in A paz perpétua e outros opúsculos, Lisboa, Edições 70 

Kant, Immanuel (2008). O conflito das faculdades (1798). Tradução Artur Morão. Covilhã. Universidade da Beira Interior.

Kant, Immanuel (2009). Fundamentação da metafísica dos costumes (1786). Tradução nova com introdução e notas por Guido Antônio de Almeida. São Paulo. Discurso Editorial e Barcarolla

 

EPISTEMOLOGIA – Heurística: Kant – Invenção e descoberta.

Epistemologia.

Pawel Kuczynski – Perfect Garden

Inventar, escreveu Kant, é muito diferente de descobrir. O que se descobre já existia, embora não fosse conhecido: Colombo descobriu a América. O que se inventa não existia antes: os chineses inventaram a pólvora.

Na Crítica do Juízo, Kant explicou que a obra de gênio requer inspiração, mas não regras. As faculdades que intervêm na inventividade são a imaginação produtora (intuitiva), o acoplamento entre intuição e intelecto “livre” (não condicionado), e a faculdade do juízo.

Os descobrimentos científicos não devem ser considerados invenções porque seus métodos podem ser descritos, explicados, imitados e ensinados – a inventividade não pode ser aprendia. Não se pode aprender a ser um artista, um filósofo, um poeta, um cientista uma vez que a própria pessoa de gênio não sabe de que maneira inventa, e, portanto, não tem como formular regras para si e para os outros.

Kant também advertiu sobre o perigo inerente a dispensar o aprendizado e a investigação. Perguntou se o gênio inventivo contribui para o progresso da Humanidade de forma mais significativa do que as “cabeças mecânicas” que se apoiam no bastão da experiência.

Posição que talvez desculpe as instituições acadêmicas, as déspotas do saber estabelecido que eventualmente se abrem para descoberta, mas invariavelmente estorvam a invenção.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kant, Immanuel (2006). Antropologia de um ponto de vista pragmático. Trad. Clécia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras.  § 57 - § 58

Kant, Immanuel (1952) The critique of judgment. London. Encyclopedia Britannica, Inc. [Crítica do juízo, Introdução]

EPISTEMOLOGIA: Conceito – O que é a intuição.

Heurística.

 “Com a lógica se demonstra, com a intuição se inventa.” (Poincaré)

 

Descartes definiu a intuição evidente como oposta à dedução necessária. Kant, como tudo que o intelecto experimenta com rigor, em si mesmo ou na imaginação. Schopenhauer, como percepção direta, sem mediação do conhecimento discursivo e das suas relações. O pós-idealismo seguiu Schopenhauer.

No século passado, Husserl diferenciou a intuição empírica, que capta os objetos individuais; a intuição eidética, que capta a essência das coisas; e a intuição categorial, que capta as estruturas, os padrões e os números. A intuição empírica ou individual é transformada na visão da essência [ideação] que é uma abstração [algo insubsistente por si mesmo]. De modo que, para a fenomenologia, a intuição é uma faculdade que permite perceber o todo, no sentido de que se pode examinar um objeto, uma árvore, por exemplo, de muitos ângulos, mas só a intuição permite apreendê-lo integralmente.

Contemporâneo da fenomenologia, Henri Bergson escreveu que a intuição é algo que se encontra entre o instinto e a intelecção. É o que apreendemos em um lampejo no espírito, aquilo que sabemos, mas que “não sabemos como dizer”. O intuído é o que fica na ponta da língua, o que se perde inevitavelmente na continuidade fluida do tempo, o verso melhor, que já não podemos recordar.

A definição contemporânea da intuição – faculdade interna de fazer inferências e chegar ao conhecimento de estruturas e de dinâmicas -, supera as distinções entre o sensível e o intelectual. Um longo caminho desde a filosofia Antiga e a Medieval, que deram a intuição (lat.ecl. intuitìo,ónis: imagem refletida no espelho) como ato puro da consciência, como a apreensão imediata das Ideias (Platão) e de Deus (S. Agostinho).

Esta capacidade de captar padrões e significados imediatamente do real ao intelecto permanece desde sempre no âmago do processo heurístico, que a distingue, da adivinhação, da fantasia, da inclinação, e de toda evidência.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Descartes, René (1989). Regras Para a Direção do Espírito [ III]. Tradução de João Gama. Lisboa. Edições 70.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura [I, passin, particularmente § 3] Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Idéias e Letras.

Kant, Immanuel (1989). Crítica da razão pura, Estética transcendental. I, 1. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

Paty, Michel (2005) Pensée rationnelle et création scientifique chez Poincaré. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00004166

Platon (1981) Fedro 247a .In Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali. Marid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Poincaré, Henri (1947). [1908]. Science et méthode, Flammarion, Paris. [137]

Santo Agostinho (2010). Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora Vozes

Trabalho – o olhar especulativo.

Epistemologia & Método.

Immanuel Kant escreveu que a ciência – ao demonstrar as mentiras da metafísica e a irracionalidade dos mitos das sociedades tradicionais – nos fez “sair da minoridade”.

Tentando se comportar como adultos, os próceres dos conhecimentos sobre o trabalho caíram no engodo adolescente de copiar as epistemologias e os métodos dos saberes naturais. Continuar lendo

Heurística – Fantasia, o triunfo de Averróis.

Epistemologia.

No sexto volume do Kulliyat, Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) descreveu propriedades medicinais que só foram redescobertas oito séculos depois de sua morte. Há um tópico sobre as virtudes do azeite feito de “azeitonas puras e não fervidas” cuja descrição é idêntica a das publicações contemporâneas.

Isto foi possível graças à “phantasia”, uma habilidade de produção de descobertas perdida, que hoje se procura recuperar.

As fantasias são apresentações em potência de ideais e imagens sem precedentes. Diferem da imaginação, que é estéril, capaz unicamente de combinações extrínsecas. A fantasia é inteiramente intrínseca e particular. Continuar lendo

Ocasionalismo – o que é?

Ética & Credibilidade.

ocasionalismoOrigem

O termo deriva do latim occidere, cair, como o cair do sol (o ocaso), o lugar onde o sol se põe (o Ocidente), o que recai conforme a circunstância (o caso) ou a oportunidade (a cadência).

O ocasionalismo é uma concepção do filósofo francês Nicolas de Malebranche (Paris; 1638-1715), décimo terceiro filho do conselheiro de Luiz XV, rei de França.

Destinado ao sacerdócio, sem para isto ter vocação, Malebranche dedicou-se aos estudos eclesiásticos de má vontade. Continuar lendo

O que é compreender?

Epistemologia & Método.

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A epistemologia deve muito ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833 – 1911) que procurou fundamentar o que batizou de “ciências do espírito” para explicar a vida e a sociedade. Foi Dilthey quem rompeu os laços que prendiam ao kantianismo, ao demonstrar que as verdades têm uma história e que o sentido do mundo e de si mesmo é dado e mudado pelo homem na sua trajetória pela vida.

Atônito ante a inépcia dos seus contemporâneos, Dilthey recuperou o pensamento filosófico desde o Renascimento, e aplicou um arsenal inteiramente renovado de conceitos ao conhecimento do humano. O conceito que mais influência exerceu e exerce é o do verbo “compreender”. Continuar lendo

Kant: trabalho criativo ou vazio existencial

Perplexidades & Filosofia.

kantNa Antropologia (2006), Kant deixou escrito que a partir do momento em que tomamos consciência do tempo que passa sobrevém o horror ao vácuo (horror vacui), a sensação da morte lenta, da vida que se esvai.

É o sentimento de vacuidade que nos faz procurar as diversões, os prazeres, os passatempos, os jogos, a sociabilidade inócua. Mas logo nos damos conta que o desperdício do tempo vital não o substitui.  O ser humano preenche sua vida através de ações e não através de distrações. No lazer, na ociosidade, experimentamos uma “falta de vida”. Continuar lendo

O que é um valor?

Perplexidades & Filosofia

Conceitos & DefiniçõesValor é um bem subjetivo. Tanto no sentido abstrato, de ter valor, como no sentido concreto, de ser um valor, o termo designa um atributo das coisas que consiste em merecerem mais ou menos estima por um individuo ou por um grupo (serem desejadas), ou que consiste em satisfazerem certo fim ou interesse (serem úteis).

O valor não tem substância. É um objeto autônomo das realidades existentes. Não se pode ver o belo, mas podemos qualificar uma coisa de bela, ou de nociva, ou de boa, ou de cara …

O termo ‘valor’ tem origem econômica nos mercados da Grécia arcaica. A palavra grega para valor – áksios,a,on, – conota o bem, tangível ou não, que merece o preço que se paga por ele. A partir da Antiguidade, o conceito de valor percorre um longo caminho. Para os sofistas era uma apreciação relativa, expressa no dito de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Já Platão – contra a concepção dos sofistas de que os valores são conferidos pelos homens – sustentou que o valor deriva de uma apreciação absoluta. Tem valor o que é – em si – bom, belo, justo e verdadeiro.

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