Lebenzwelt

Mundo da vida X Esfera do trabalho.

Trabalho & Produtividade

Sobreviver ao trabalho

O agregado dos resultados das pesquisas internacionais sugerem que a inserção do trabalho no “mundo da vida”¹ está se diluindo.

Aparentemente há uma acentuação no movimento divergente do vínculo entre a pessoa que trabalha, o trabalho que exerce e a entidade contratante-empregadora. Intensa até meados do século XX, a inserção do trabalho na vida pessoal teve seu perfil alterado nas décadas de 1980-2000, quando os laços deixaram de ser majoritariamente afetivos e permanentes (o contrato-emprego de toda uma vida) para se tornarem cômodos e frequentes (o contrato de produção, o emprego temporário). O movimento que assistimos na década inaugural do século XXI é o do redirecionamento das estruturas relacionais entre existência e trabalho. A posição do trabalho no mundo da vida – que havia passado de um contato permanente a frequente – agora se desarticula, transitando do frequente ao eventual.

Em sequência cumulativa, o trabalho se distancia do eixo da esfera do familiar, do cotidiano, e do natural. O profissionalismo aparta o trabalho da sociabilidade. A especialização amplia a distância entre a atividade laboral e o mundo circundante. Os mecanismos gerenciais, acionados no propósito de fazer retornar o foco do trabalho do processo para o produto, acarretam a perda de tonicidade dos laços cotidianos de presença e compartilhamento. O objetivismo do sistema de metas desnatura as experiências relacionais do trabalhador, que passam da estrutura em rede de assimetria variável para a disposição em teia, cuja tessitura converge impositivamente para o ponto focal do resultado sacralizado.

O movimento é sutil e difícil de ser aferido. A força inercial dos dispositivos administrativos e legais faz com que o enfraquecimento e a intermitência das interações entre a esfera do trabalho e a da organização econômica passem despercebidas e deixem de ser registradas. Mas é evidente que a lenta composição e recomposição dos liames entre o trabalhador e o seu trabalho cederam vez à multiplicidade de respostas emergenciais requeridas pelos deslocamentos do foco e das metas que deles derivam. Apoiada na tecnologia, a atividade laboral parece se deslocar irremediavelmente para ocupar uma posição periférica na vida contemporânea. Cada vez mais os currículos se diluem nas biografias.

utilize¹ O “mundo da vida” (Lebenzwelt), um conceito da fenomenologia de Husserl², compreende a esfera do familiar (Heimwelt) e a esfera do público, este último uma síntese da Umwelt (mundo ambiental/circundante),  da Alltagswelt (mundo cotidiano), da Erfahrungswelt (mundo da experiência) e do conceito natural de mundo (natürlicher Weltbegriff).

² Husserl. Edmund (1996). A crise da humanidade europeia e a filosofia; Tradução de Urbano Zilles; RS; Editora EDIPUCRS.

 

 

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