ÉTICA: O compromisso moral de Karl Marx.

Ética.

A insegurança constante e o transtorno contínuo distinguem a época burguesa de todas as precedentes. 

Até o século XVIII, a ideia de progresso foi a de um desenvolvimento gradativo, baseado nos valores da prudência e da virtú e no equilíbrio entre paciência e impaciência, característicos da formação clássica e humanista. Com a Revolução Industrial, o equilíbrio passou a ser visto como não progressivo, como indutor da “perenização do status quo“. As relações sociais, com seu cortejo de ideias antigas e veneráveis, se dissolveram. Os costumes e as instituições passaram a estiolarem antes que se cristalizassem. No advento da burguesia, tudo o que era sólido se desmanchou no ar (1966). 

O verbo no tempo passado, a bem da verdade, não é adequado. O processo não cessou, nem a história chegou ao fim. Em monótona insistência, segue-se fazendo da exploração e do desiquilíbrio o motor da economia. Continua-se sacrificando o bem-estar em favor do progresso, a sociedade em favor da individualidade, a massa trabalhadora em favor das elites econômicas.

Marx deixou escrito que a burguesia só pode existir revolucionando constantemente os instrumentos e as relações de produção (1982). Daí que o seu ativismo tenha sido orientado a quebrar esta pertinácia. Fundava-se, acima de tudo, em um imperativo ético: o de “derrubar todas as condições sociais em que o homem é rebaixado, submetido, abandonado, desprezível” (1998).  

A intenção era moralmente sublime. Quanto à posta em prática, o tempo passado da verbo não é fortuito.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Marx, Karl & Frederick Engels (1966). Manifeste du Parti Communiste. Paris. Sociales.
Marx, Karl (1982). L’Idéologie allemande, in, Œuvres. Paris. Gallimard, [II22-II23]
Marx, Karl (1998). Contribution à Ia critique de Ia philosophie du droit de Hegel. Trad. Jules Molinor, Paris. AIlia. [25]

EPISTEMOLOGIA: Dialética e epistemologia.

Epistemologia.

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Hegel torneou o pensamento de Heráclito até transformá-lo em um automatismo inexorável. Convenceu-se, e a muitos, de que o conhecimento sobre o homem e a sociedade nasceria da apreensão de um fluxo dialético de ocorrências contraditórias. 

A marcha da realidade seria descrita por meio de um discurso lógico, um discurso em que uma posição teórica produziria inevitavelmente sua contrapartida. Do jogo de posição e contraposição – tese e antítese – destes elementos surgiria algo novo, uma nova tese, que, inevitavelmente, produziria uma nova antítese, e assim por diante. 

Para que a dialética tivesse acolhida como método, foi necessária a admissão de duas crenças filosóficas improváveis (não passíveis de serem provadas): a da anima mundi e a da nulidade racional das singularidades e do acaso.

A Anima mundi (alma do mundo) é um conceito cosmológico. A convicção de que existe um espírito regente do universo, pelo qual o pensamento sobrenatural pode manifestar-se. Sua origem é o motor imóvel (asynkínitos kínisis) de Aristóteles

O exemplo mais conhecido desta convicção é o comentário sobre a entrada de Napoleão, em 1806, em Jena. Hegel escreveu ter visto “a alma do mundo a cavalo”. Para ele, os 16.000 mortos e o dobro de aleijados na Batalha de Jena–Auerstedt teriam um propósito, e um propósito inquestionável, já que só conhecido pela divindade.

A segunda crença, a da nulidade racional do acaso, é corolário da anima mundi. Reza que, se a natureza e a história fazem um sentido, este sentido deve ter uma direção, isto é, a natureza e a história não conformariam uma sucessão de acontecimentos acidentais, mas seriam fruto de um encadeamento lógico-dialético, uma articulação de eventos que geram sínteses. Este servomecanismo se aproximaria mais e mais do objetivo, até alcançar o absoluto, o empíreo, o socialismo, a redenção ou o que quer que norteasse o Mundo e a História. 

O exemplo mais conhecido desta convicção está nos textos de Marx em que expõe a inevitabilidade do esgotamento e alternância dos modos de produção. Para os que seguem esta forma de pensar, o simplismo do esquema, as superposições, o entremeio, as relações não econômicas e a dificuldade de descrever os meios de produção da nossa época são irrelevantes.

Em termos cognitivos, as premissas correlatas da anima mundi, da inexistência de singularidades e da negação do acaso são condições ásperas para se lidar. Mas o que inviabiliza a dialética como epistemologia generalizável é a impossibilidade de garantir a terceira condição requerida: a da confluência dos fatores em um todo pré determinável. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Burckhardt, Martin (2011). Pequena História das grandes ideias. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro. Tinta Negra

Englund, Steven (2005). Napoleão: Uma biografia política.  Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Zahar

EPISTEMOLOGIA: Compreender, explicar, entender, preconizar.

Epistemologia.

por Igor Morski

Compreender é o ato de alcançar os elementos essenciais de uma situação. Explicar é o ato de tornar inteligível o compreendido. Entender é o ato que precede e torna possível pautar a ação racional.

Entendemos nos explicando, isto é, “lendo” a memória e a circunstância da mesma forma que lemos um texto: tratando de inferir significados para que possamos apreender o mundo e a nós mesmos.

A visão oitocentista, de Marx à Comte, procurou compreender a gênese e a projeção da vida social. Não chegou a entendê-la. Insistiu sobre a essencialidade da sociologia numérica, da demografia computacional e da investigação estatística. Graças a esta forma de ver, até hoje nada se perquire que não seja o antecipado. As regularidades que se constata repousam sobre convicções, sobre convenções, sobre incompreensões.

Os saberes acadêmicos se cristalizaram. Não encontram significados, mas congruências. Ignoram, ou preferem esquecer, que a ordenação econômica ou as estruturas organizacionais em que estamos naufragados são artificialidades.

As epistemologias dominantes nas ciências sócio-humanas, produtos normativos vencidos, preceituam o futuro como repetição do ocorrido. Buscam solucionar dificuldades da existência que já não vigem. São incapazes de descobrir o real ou de pensar ordenamentos socioeconômicos diferentes dos consagrados. Propõe-se entender sem ler, sem decifrar os signos sussurrantes do passado, sem escutar os gritos lancinantes do presente.

UTILIZE E CITE A FONTE.

ÉTICA: Fontes da filosofia moral – Jacques Maritain e o Neotomismo.

Ética.

Portrait de Jacques Maritain, par Otto van Rees

A despeito do propósito de subordinar a filosofia à teologia, Jacques Maritain (Paris, 1882 – 1973) infundiu vida nova à reflexão moral do século XX

Discipulo de Bergson, socialista revolucionário na juventude, católico converso, Maritain agregou dados históricos, conhecimentos da psicologia e da etnografia para reedificar a ética cristã.

Ao destacar o sentido sagrado da vida, Jacques Maritain atualizou o pensamento tomista, que até então estava firmado unicamente em uma suposta “lei da natureza humana”. Fez aflorar as deficiências do subjetivismo, do irracionalismo, do pragmatismo e dos humanismos de fundo biológico (Freud) e de fundo materialista (Marx) como sustentáculos da conduta ética.

O humanismo integral, fortemente espiritualizado, que legou para o século em curso, deu alento à ideia de que acedemos à lei moral a partir da compreensão dos propósitos de preservação física e psíquica do ser humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Maritain, Jacques (1951). Neuf leçons sur les notions premières de la philosophie morale. Paris. Pierre Téqui Éditeur.

Maritain, Jacques (1965) Humanismo integral. Tradução de Afrânio Coutinho. São Paulo. Companhia Editora Nacional

Maritain, Jacques (1973). A filosofia Moral. Trad. de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro. Agir.

TRABALHO: Trabalho e desenvolvimento.

Trabalho.

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No ambiente despoticamente vulgar das corporações, a avaliação do rendimento do trabalho tende à farsa. Avalia-se a quantidade, não a qualidade; a conduta, não o feito; a conformidade, não a iniciativa.

Nos meios acadêmicos não é diferente. Os cientistas sociais esquecem que é o fenômeno do trabalho que deveria ser ajuizado e o substituem por interesses (a economia), artifícios (as organizações), abstrações (a sociedade), utopias (a ideologia), e por miragens (as gerações vindouras). Continuar lendo

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Benjamin, pescador de pérolas.

Epistemologia.

Em um ensaio quase sentimental, Hannah Arendt escreveu que Walter Benjamin “despertava os mortos”, para, com eles, construir uma nova iluminação. No fundo do mar do esquecimento, recobrava “pérolas do passado”, colhia relações e esclarecia o eterno.

Pescador de pérolas, Benjamin recuperou gemas de pensamento. Buscou no fundo do mar do passado o inesperado, o estranho e o omitido. Repensou poeticamente a memória; não para restaurar eras extintas, mas para reaver algo outrora vivo e que, cristalizado, sobrevive no âmago da sabedoria. Continuar lendo

Trabalho e alienação.

Trabalho.

A expressão “trabalho alienante” designa o impedimento de a consciência controlar o produto e o processo da atividade laboral. O termo é de Rousseau. Hegel reformou o conceito para significar a transformação de seres humanos de sujeitos criativos em sujeitos passivos de processos sociais.

Resultado de imagem para George Tooker's work expressed a 20th-century brand of anxiety and alienation. Above, "The Subway" from 1950.

A partir da concepção hegeliana, Marx entendeu o trabalho alienante como a quádrupla disjunção entre o trabalhador e: o produto do seu trabalho; a atividade como simples meio de sobrevivência; a sua consciência; a comunidade a que pertence, a qual não interessa o processo e o produto do seu trabalho.

Multíplice e inexato, este entendimento se tornou problemático e esquivo.

Primeiro porque o termo alienação requer que o objeto de que se aliene seja explicitado, o que não ocorre satisfatoriamente com o referente do termo “trabalho”, que tem inumeráveis nuances e conotações.

Segundo, porque é difícil encontrar uma atividade profissional contemporânea que não seja alienante no variado sentido marxista do termo. São escassos exemplos de processos e produtos em que o trabalhador tenha participação, seja no processo decisório do que produzir, seja na forma que se deve produzir.

Terceiro, porque Marx, como fizeram Rousseau e Hegel antes dele, conjectura que a natureza humana é atemporal, o que foi demonstrado como falso pela ciência da antropologia.

Quarto, porque supõe uma sociabilidade limitada às relações de produção. Restringe a possibilidade de autorrealização à autonomia coletiva, não levando em conta a autarquia individual.

O certo é que a ideia denotada pela expressão “trabalho alienante” esgotou a capacidade de explicar o que aí está, a realidade em que o trabalho mental tem sido minimizado e o trabalho físico eliminado. Seus atributos são demasiadamente amenos para designar o ofício desnaturado de manter em função os autômatos e a burocracia digital.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Blaumer, Robert (1964). Alienation and freedom: the factory worker and his industry. Chicago. University of Chicago Press.

Campbell, Sally Howard (2012) Rousseau and the Paradox of Alienation. Lanham, MD. Lexington Books. Rowman & Littlefield.

Fischbach, Franck (2011) Transformations du concept d’aliénation. Hegel, Feuerbach, Marx. In, Revue Germanique Internationale. [En ligne]. URL: http://rgi.revues.org/377

Marx, Karl (1985). Trabajo asalariado y capital. Barcelona. Editorial Planeta

Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar? Continuar lendo

O sonho do jovem Karl.

Perplexidades & Filosofia.

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Para os que olham com o distanciamento que só a perda da fé proporciona o Marx da juventude, o Marx dos Manuscritos econômico-filosóficos, é infinitamente mais interessante que o da maturidade, daquele o senhor barbudo que escreveu O Capital.

Ao apresentar a deterioração da individualidade como consequência imediata do trabalho que “aliena a natureza do homem, aliena o homem de si mesmo, o papel ativo, a sua atividade fundamental, aliena do mesmo modo o homem a respeito da espécie; transforma a vida genérica em meio da vida individual.”[1] Marx, o moço, pintou uma imagem trágica do trabalho não criativo em qualquer época e, contrariamente ao que ele sempre acreditou, um retrato válido em qualquer sistema econômico que tenha existido ou que venha a existir.

O Marx jovem é ainda mais cativante ao descrever o ser humano livre e consciente que viria à luz quando fosse suplantada a divisão do trabalho assalariado, feito mercadoria[2]. Naquele futuro distante, o trabalhador desalienado pela falência das relações do sistema capitalista de produção, seria finalmente emancipado. Um momento que, como sabemos, não chegou a existir. E que, infelizmente, não vemos como possa vir a existir, porque as categorias que o Marx jovem e sonhador acreditou serem exclusivas do capitalismo são inerentes ao tipo de trabalho e não ao sistema econômico que o rege e explora.

UTILIZE E CITE A FONTE.
[1] MARX, Karl (2003) Manuscritos econômico –filosóficos; Tradução de Jesus Ranieri; São Paulo; Boitempo.

[2] Mészários, István (2006) A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo.

O que é identidade?

Perplexidades & Filosofia

Colored-Fingerprint-Vector“Idem” significa, em latim, “o mesmo”, uma noção que reúne os atributos de igualdade e de continuidade. Aplica-se àquilo que é único nos diferentes momentos de sua existência, ainda que percebido, concebido ou nomeado de várias maneiras.

A identidade é um conceito que tem dupla denotação: unidade em meio à diversidade e permanência em meio à mudança. Nas duas acepções, o termo “identidade” é aplicado tanto a indivíduos – a cada trabalhador – como a coletividades – a grupos de trabalhadores.

Individual

A identidade individual, no sentido da unidade em meio à diversidade, alude à busca de determinação da pessoa, do modo como o Eu se vê a si como objeto e como um objeto em meio a outros[1]. A principal linha analítica da identidade individual é a da construção social da pessoa, o estudo de como uma comunidade constrói as concepções de cada um dos seus membros e da sua inserção na vida social[2]. Interessa particularmente ao campo do trabalho, a construção da identidade profissional, de como o trabalhador se situa e é situado entre seus pares.

No sentido da permanência em meio à mudança, a identidade individual toma o cerne da estrutura psíquica como identidade continua (o ego psicológico). Analisa os conflitos, problemas, etc. ao longo da vida individual e, por consequência, da vida laboral.[3]

As duas acepções da identidade laboral estão presentes nas discussões das ciências humanas em tematizações como “perda de identidade”, “crise de identidade”, “busca de identidade” e “colapso do ego”. Situações provocadas ou impostas por distúrbios da psique, por tradições, ideologias, pela cultura, religião, pressão social, etc.[4]

Coletiva

Aplicada a coletividades, a identidade refere à característica de um grupo de indivíduos distintos no tempo e no espaço que, no entanto, apresentam atributos e propriedades comuns. Nas ciências humanas a identidade coletiva alude a concepções como a de consciência de classe. Trata da questão de como um grupo – oprimido ou opressor – desenvolve uma percepção autoconsciente de si e se mobiliza para a ação.[5] Refere-se também à identificação de instituições e grupos, com na “identidade visual”.

A identidade coletiva no campo do trabalho liga-se, de forma similar, à recuperação ou afirmação dos denominados grupos identitários, conjuntos étnicos, etários, religiosos, de orientação sexual, etc. enquanto coletividades de trabalhadores.

Especificamente nos estudos relacionados ao trabalho, consideram-se dois tipos de identidade coletiva: a identidade de inquietações, que conformam os “grupos de interesse”, e a identidade de atributos, que conformam os grupos com predicados comuns, geralmente denominados “grupos identitários”.

Seguindo a denominação filosófica – em que as identidades diferem dos indiscerníveis (a identidade lógica (≡)) por não apresentarem a totalidade dos atributos e propriedades em comum – os grupos de interesse e os grupos identitários podem ser caracterizados por um único item – seja de interesse ou de atributo.

No campo do trabalho, os grupos de interesse mais frequentemente estudados são aqueles que apresentam traços, ambições ou rejeições comuns relacionados ao poder, a rendimentos e à segurança. Os grupos identitários mais frequentemente estudados são aqueles que apresentam traços, posições e relações ligadas ao gênero (feminismo), à formação e à faixa etária.

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[1] Berger, Peter L. & Thomas Luckmann (201). A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento. Petropolis. Vozes.
[2] Lasch, Christopher (1985) The Minimal Self: Psychic Survival in Troubled Times. New York. W. W. Norton & Company
[3] Freud, Sigmund (1999) Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu.
[4] Erik H. Erikson. Identity, youth and crisis. New York: W. W. Norton Company, 1968
[5] Marx, Karl (2004) Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. Boitempo Editorial.

O trabalho transformante

CATEGORIA PT

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Maximilien Luce – Les batteurs de pieux entre 1902 et 1905

No início do século XIX Hegel sustentou que é pelo trabalho e não pela contemplação ou pelo ócio que nos elevamos acima da natureza, que nos alçamos à humanidade. O trabalho nos transforma e transforma o mundo, adequando-os às nossas necessidades. Nos leva a colaborar, a reconhecer o outro. Para Hegel, a obra feita no honra e nos eleva.

Esta fórmula, emprestada de Locke, e reproduzida por muitos, principalmente por Marx, por mais bela e inspiradora que seja, é um dislate argumentativo. Seus frágeis alicerces são uma abstração e uma ilusão. Abstração derivada do conceito idealizado de trabalho. A ilusão da ideia de que o trabalho conforma o mundo à vontade geral.

Hegel abstrai que a quase totalidade do trabalho, de então como da atualidade, é não criativo e que não visa nem tem como adequar o mundo às nossas necessidades. A maior parte do trabalho, de então como de hoje, é mecânico, burocrático, repetitivo, alienante, isto é, distanciado da humanidade, do que há de humano no homem. Tem como propósito deliberado adequar o mundo aos interesses de uns poucos. Por isto restringe, ordena e adestra. Amolda o ser humano ao trabalho, e não o contrário.

Ao longo das últimas décadas, mesmo os mais delirantes devotos das tradições laborais, mesmo os ideologizados de estrita observância, vêm se dando conta que o inverso do trabalho tal como o conhecemos não é nem a indiferença ao mundo e aos outros, nem a solidão, nem a desmoralização pessoal. Que o oposto do trabalho não é a estagnação e o retrocesso. Que a necessidade de trabalhar se redime pela emancipação dos resíduos da servidão ancestral e pelo projeto da esquivança do sacrifício despropositado da vida pessoal ao interesse de poucos.

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Economia e fantasia

CATEGORIA TR

adam_smithEm uma noite de inverno anterior ao ano de 1776, em Glasgow, na Escócia, um amável professor de filosofia moral imaginou que se em um povo de caçadores custa habitualmente duas vezes mais tempo e sacrifício para matar um castor do que uma camurça, naturalmente um castor valerá ou se trocará por duas camurças.

É sobre esta postulação de Adam Smith (Kirkcaldy, 1723 — Edimburgo, 1790), que dá início ao sexto capítulo do livro primeiro de A riqueza das nações[i], que repousa grande parte da teoria contemporânea sobre o trabalho. E, no entanto, esta alegoria não passa de uma especulação inventiva sem fundamento antropológico.

De fato, não se tem notícia de que o tempo ou a dificuldade para obter um bem tenha servido ou sirva de base de atribuição de valor entre povos primitivos[ii]. Isto seria irrelevante se os avatares do conceito econômico do trabalho não se mantivessem desde então ancorados a esta fábula.

O exemplo de Smith teve o dom, ou a sina, de reduzir à categoria de trabalho toda atividade destinada a obter bens de consumo. Mais do que isto: reduziu o valor do trabalho ao tempo e à dificuldade requeridos para se obter um bem. Uma noção que repercutiu na conhecida formulação de Marx de que os valores das mercadorias são diretamente proporcionais ao tempo de trabalho empregado na sua produção e inversamente proporcional à força produtiva do trabalho empregado[iii].

A fantasia antropológica de Adam Smith cobra o preço de todo mito: obscurece a realidade ao se por no seu lugar. Nem só o trabalho primitivo – intermitente, esporádico, autofrenante (cessa imediatamente ao atingir seu objetivo) – é desvinculado do tempo ou da dificuldade. Historicamente, é desvinculado do tempo e da dificuldade toda a concepção de trabalho anterior às relações capitalistas de produção. Até então o trabalho era entendido como uma atividade descontínua, com vinculações mágicas e depois religiosas.

Ninguém sabe quanto tempo levou para que as gárgulas, anjos e santos medievais fossem esculpidos, nem quanto custou para encarapitá-las nos tetos e beirais das igrejas. Isto não interessava. Estas esculturas não foram feitas para uso ou para troca. Nem mesmo foram feitas para a elevação dos humanos. Se hoje realizamos acrobacias, nos fatigamos e nos arriscamos para apreciá-las é porque não foram feitas para nós, mas para que Deus nas alturas as visse.

Depois da Renascença a cristandade perdeu esta fé intensa nos cuidados de Deus para com os mortais. Talvez porque tenha se descoberto desvalida, talvez porque a prometida redenção ainda demore. Não é o caso da fé no conceito do trabalho fruto da imaginação adâmica. Passados mais de dois séculos da sua formulação, o paralelismo entre esforço, tempo e preço continua a viciar a ótica econômica do trabalho. Uma ideia que que não pode ser atribuída ao uisge beatha, mais tarde conhecido por whisky, já que até 1880 este álcool não teve difusão fora das granjas dos highlanders que o fabricavam[iv].


[i] Smith, Adam (1975). An induiry into the nature and causes of the wealth of nations; London; Encyclopaedia Britannica Inc.

[ii] Cartier, Michel (2001) org. Le travail et ses représentations; Paris; Éditons des Archives Contemporaines.

[iii] Marx, Karl (2013) Salário, preço e lucro. Trad. Edmilsom Costa; São Paulo; EDIPRO

[iv] MacLean, Charles (2005) Scotch Whisky: A Liquid History, London, Cassell Illustrated

UTILIZE E CITE A FONTE.

Esclarecimento sobre o pleno emprego

CATEGORIA AST

homerHá dois ou três anos a ideia de que um país com as dimensões do Brasil pudesse alcançar o pleno emprego era vista como delírio irresponsável. O pleno emprego era impossível de ser alcançado em face das condições objetivas da economia e da capacidade de racionalização da microeletrônica e da globalização. A confirmação de tais condições e o incremento destas capacidades só fez aumentar a certeza: o pleno emprego é hoje, mais do que nunca, impossível de ser alcançado.

Dito isto, é evidente que a casualidade de estarmos praticamente em situação de pleno emprego não pode ser imputada à circunstância internacional, ao descortino do nosso empresariado, à operosidade do trabalhador brasileiro e muito menos às políticas governamentais. As declarações pretéritas dos acadêmicos deixam claro que o estarmos em pleno emprego carece de fundamento. Logo a realidade se curvará ante a férrea lógica bizantina e se verá que o impossível teórico é independente do impossível empírico. Posto que o pleno emprego só exista na realidade e não no imaginário, ninguém intelectualmente sério se propõe a especular sobre a duração de tal fenômeno.

Marx

CATEGORIA AST

karl-marxO trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades.”

Karl Heinrich Marx (Tréveris, 1818 —Londres, 1883)