Platão

Trabalho voluntário & Trabalho espontâneo.

Trabalho & Produtividade.

Os dicionários comuns costumam dar “voluntário” e “espontâneo” como sinônimos. Mas estes conceitos são antagônicos. Voluntário significa o que se pode optar por fazer ou não. Espontâneo é o que se faz sem intervenção da vontade. (mais…)

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Boécio – Consolação do trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia.

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Ancius Maulius Torquatus Severinus Boecius, ou, simplesmente, Boécio (Roma, 480; Pavia, 526), considerado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos, foi poeta, matemático, músico e filósofo. Deixou uma obra que tem sido o esteio dos inconsolados e o alento dos inconsoláveis.

Acusado de trair o imperador Teodorico, rei dos Ostrogodos, em favor de Justino I, imperador do Oriente, Boécio foi condenado ao suplício e à morte. Enquanto aguardava as idas e vindas dos pedidos de revisão e das súplicas por clemência, escreveu a Consolação da Filosofia (1998), um diálogo a modo platônico, redigido em cinco livros, em prosa e em verso.

A trama é simples: a Filosofia, travestida de uma Nobre Dama, discute com Boécio sobre a vida e o destino que o aguarda. As alegações são as de que a verdadeira felicidade não depende das circunstâncias biográficas, mas da Providência divina, de que os bens materiais e a gloria pessoal de nada valem e de que só a bondade eleva o homem.

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O executivo e o conatus de Spinoza.

Perplexidades & Filosofia.

O executivo contemporâneo, premido pela competitividade impositiva, vê-se constrangido a anular sua identidade na tentativa de ser mais do que o outro, de ocupar um lugar ao sol no lúgubre pináculo corporativo.

Dente da engrenagem desatinada em que as metas são ditadas unicamente pelos interesses menores de poder (liderança), de riqueza (salários e bônus), de status (a duvidosa respeitabilidade dos bem sucedidos), vê-se impelido a defraudar o tempo e o estatuto da introspeção. (mais…)

O que é trabalho criativo?

Trabalho & Produtividade

Cosignificadookmo toda noção nova, ou que parece nova, a ideia de “economia criativa” abriu caminhos, despertou desconfianças, oxigenou a reflexão, suscitou palermices, gerou dúvidas.

A noção derivada de “trabalho criativo” replica estes desdobramentos. O que se segue é uma contribuição no sentido de elucidar o que viria a ser o conteúdo, o referente desta expressão.

O problema da criatividade remonta aos primórdios da filosofia. Platão dividiu as artes produtivas entre divinas e humanas. As artes divinas são criativas e miméticas, as artes humanas unicamente miméticas. Nada produzem, só reproduzem. No Timeu (29 e) expôs a criação como uma emanação a partir de um princípio pré-existente.

Aristóteles concebeu um céu natural (De Caelo), nele colocando um elemento primário, o Motor Imóvel, causador do movimento celeste (Metafísica) o que tornou o céu vivo e instituiu um Princípio (Dales; 1980; 532). O suposto deus unívoco dos gregos, como todos os deuses egípcios, gregos e romanos era demiurgo. A sua atividade era a poiesis (a obra, a produção), não a criação.

O monoteísmo judaico pensou o Universo como criado pela poder da voz de Deus. Mas os hebreus não professavam a criação ex-nihilo, já que na Torá o caos antecede ao ato da criação. Embora a tradição judaica fale na criação (Genesis I, 1. 1:2; Eclesiastes XVIII, 1), trata-se de uma criação a partir de alguma coisa, do chaos, literalmente da confusão. Eloin, Adonai, Jeová ou como quer que nos refiramos ao Deus único e inominável hebraico é, conceitualmente, também ele, um demiurgo.

A creatio ex-nihilo é uma ideia exclusiva dos cristãos (Romanos 4:17; Hebreus, 11:3), que pretendiam, como seguem pretendendo, que, se Deus criou tudo o que existe, não poderia haver um algo anterior a Ele, mas só um inconcebível Nada. O vazio anterior à criação foi aventado pelos gregos e pelos romanos que o rejeitaram por contra intuitivo e contrafático. De modo que, afora a suposta faculdade até hoje só atribuída ao Incriado Deus do cristianismo, a replicação do ideal abstrato, a Criação (do latim, causativo de cresco, brotar) refere não propriamente a uma geração a partir do nada, mas a um engendramento, a uma poiesis.

De novo aqui é preciso uma diferenciação entre o ato de reproduzir algo, o ato da produção e o ato gerador. Aristóteles (Et. Nic. I, 1094ª) distingue entre os objetos que têm como fim (telos) um produto, seja material ou imaterial (a saúde é o telos da medicina) e os objetos que tem como fim a atividade em si mesma, entre poiesis e praxis, produção e ação. Na Metafísica (1050ª) refina o conceito. Dá ergon como “estar em trabalho”, em funcionamento, em processo (en-energeia) para distinguir o telos da energeia do telos da en-telecheia (estar em realização). Na poiesis a energeia está na coisa gerada, enquanto na práxis a energeia está naquele que produz. O trabalho “poético” é aquele referido à coisa gerada. É o novo a partir do existente, o inventado, seja ele tangível ou intangível.

Temos assim que desde a Antiguidade latina o vocábulo “criativo” aplicado à economia, às organizações, ao trabalho, ou às pessoas é equívoco. O termo correto seria “inventivo” (do latim invent, particípio passado de invenīre, dar com, achar). Mesmo no cristianismo, os anjos e os mortais não procedem a um criar, mas a um inventar, a um encontrar, como se encontra um item no inventá-rio. Nem Leonardo da Vinci foi um criador, mas um descobridor, como sustenta Paul Valery que abraça a postulação do matemático Jules Poincaré de que a invenção é um descobrimento (Steiner 2012; 1227).

Além do equívoco terminológico, a expressão “trabalho criativo” comporta uma ambiguidade de referência. Toma a parte pelo todo (falácia de composição). Não existe uma tarefa, uma profissão, um campo em que o trabalho não possa ser inventivo. O designer industrial não exerce uma função menos criativa do que o escultor. O burocrata que aperfeiçoa um processo administrativo exerce mais criatividade do que o roteirista de cinema que sequencia chavões, como o da carroça derrubada na correria, a câmara focada nos pés do assassino que se aproxima, etc.

A criatividade é uma parcela de qualquer trabalho e não um atributo essencial de uma categoria específica de trabalho. O que há é uma variação de escala e de relevância. A fantasia coral de Beethoven, primeiro a unir uma peça para piano a um canto, seria o pináculo do trabalho criativo.  A invenção do sutiã por uma costureirinha no século XIX teria menos relevância e mérito. Ou talvez não para as mulheres da época, insanamente comprimidas nos espartilhos.

O termo “trabalho criativo” é, portanto, escalar. Conota o quantum de trabalho é referido ao esforço intelectual de geração de uma ideia (conceito), de um bem (artístico ou científico, intelectual ou material) ou de um serviço antes inexistentes, isto é, o grau em que uma categoria de trabalho implica na transformação de potência em ato. O trabalho será tanto mais criativo (inventivo) quanto mais atualizar um potencial.

 

utilize

Aristóteles (2011). Obra completa; Miguel Candel. ed.; Madrid: Editorial Gredos.
Dales, Richard C. (1980). The de-animation of the heavens in the Middle Ages; Journal of the History of Ideas; vol. 41 (4). Oct-Dec. 1980 [531-550]
Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.
Steiner, George (2012). La poesia del pensamento. Trad. De Maria Condor; Madrid; Ediciones Siruela [Kindle edition].

O que é um valor?

Perplexidades & Filosofia

Conceitos & DefiniçõesValor é um bem subjetivo. Tanto no sentido abstrato, de ter valor, como no sentido concreto, de ser um valor, o termo designa um atributo das coisas que consiste em merecerem mais ou menos estima por um individuo ou por um grupo (serem desejadas), ou que consiste em satisfazerem certo fim ou interesse (serem úteis).

O valor não tem substância. É um objeto autônomo das realidades existentes. Não se pode ver o belo, mas podemos qualificar uma coisa de bela, ou de nociva, ou de boa, ou de cara …

O termo ‘valor’ tem origem econômica nos mercados da Grécia arcaica. A palavra grega para valor – áksios,a,on, – conota o bem, tangível ou não, que merece o preço que se paga por ele. A partir da Antiguidade, o conceito de valor percorre um longo caminho. Para os sofistas era uma apreciação relativa, expressa no dito de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Já Platão – contra a concepção dos sofistas de que os valores são conferidos pelos homens – sustentou que o valor deriva de uma apreciação absoluta. Tem valor o que é – em si – bom, belo, justo e verdadeiro.

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A verdade sobre o trabalho

CATEGORIA PT

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Uma obra que marca a crítica contemporânea, “A verdade em pintura”, de Jaques Derrida, oferece uma pista dos caminhos a serem percorridos após a superação do positivismo no século XXI pelas investigações sócio-humanas.

A forma de análise proposta por Derrida resolve ou contorna a impossibilidade de se abarcar a totalidade das dimensões de um fenômeno como o do trabalho. A ampliação do conhecimento estabelecido deriva da evidenciação da sua fragilidade, pela denúncia dos sectarismos, dos reducionismos ou das simples evocações contidas na proposição “o trabalho é ..isto ou aquilo”.

Derrida mostra que desde a descrição do que se vê até o julgamento do significado, passando pela interpretação das intenções, persiste o que denominou de “fantasmas”. Espectros que projetam significados que turvam uma pretensa verdade sobre o objeto analisado. Levanta em ponto fulcral e de difícil aceitação: o de que os sentidos da verdade são múltiplos e contestáveis.

Na tradição filosófica temos múltiplos entendimentos sobre a verdade. O mais antigo é o da teoria grega da correspondência com o real (Alethéia) que faz Platão diferir o verdadeiro do aparente, e Aristóteles o verdadeiro do falso. A teoria latina da coerência (Veritas) opõe a verdade à mentira. Existem outras concepções. As mais frequentadas na atualidade talvez sejam a que dá a verdade como uma idealização fundamentada por um ser cognoscente e a que imputa o verdadeiro à experimentação. Derrida prefere trabalhar com a verdade como a representação do percebido – o testemunho – e a verdade como a adequação do significado.

Qualquer que seja a acepção de verdade, a análise de Derrida evidencia a insuficiência da interpretação dos fenômenos segundo teses, convicções sobre origens ou sobre lógicas. Os equívocos desta natureza podem carreiam efeitos significativos sobre as avaliações ditas científicas. Por exemplo, a “verdade” que as pessoas almejam a liderança, as posições de chefia nas organizações é errônea e incompleta. Não há uma psique que seja universal, como não há uma biografia que não seja individual. A história da vida e a circunstâncias espaço-temporais tendem à particularização.

A sociedade, o management, as ideias dominantes inibem a expressão das individualidades, não as suprimem. A crítica mostra de imediato a fantasmagoria da aspiração à liderança, da cobiça aos postos de chefia. Um pressuposto que orienta um sem número de teses, de atitudes, de conflitos, 51SH8PN55ML._SX288_BO1,204,203,200_e que não tem outra fundamentação do que a crendice estabelecida. Uma verdade que causa prejuízos pessoais, inadaptações profissionais, mas, também, dificuldades organizacionais que acabam repercutindo na produtividade laboral.

A análise crítica na forma desconstrutivista proposta por Derrida evidencia que as definições inconsistentes (de-finir, mostrar os fins, os limites) do que vem a ser o fenômeno do trabalho não consideram, ou, ao menos, não consideram suficientemente, instâncias tais como meio cultural, diferenças biográficas como idade, sexo, estrato econômico de origem e orientação psíquica dos indivíduos. Denuncia as superstições convencionais que orientam as pesquisas que se querem cientificas. Mostram que a única e definitiva verdade sobre o trabalho é a de que não existe uma verdade única e definitiva sobre o trabalho.

Derrida, Jacques (2010). La vérité en peinture. Paris. Flammarion.

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Arendt: o sentido do trabalho

CATEGORIA PT

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Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

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Mímesis ou criação

CATEGORIA PT

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O que há de criação na economia criativa?

Esta poucas vezes formulada questão pode merecer uma resposta penosa. Tomemos, por exemplo, Platão. Lemos no Sofista (265b) que as artes produtivas (poetikai technai) são divididas em humana e divina, mas que existe outro tipo de produção, comum aos humanos e aos deuses, que não gera originais, mas (re)produz meras cópias. Esta é a mímesis, termo que em grego significa imitação, reprodução.

A mímesis humana se divide em mímesis icástica, cujas cópias são fiéis do modelo, e mímesis fantástica ou arte dos simulacros (phantasmata), cujos produtos são cópias ilusórias do modelo (Sofista 235d-236d; 265a e ss.) A mímesis identifica a arte do poeta, do pintor, do escultor e, por excelência, a arte do ator, que produz a cópia na sua própria pessoa.

As ideias de Platão às vezes são inversas daquelas que estamos acostumados. No Timeu (30c-d), por exemplo, o demiurgo divino toma como modelo (paradeigma) as criaturas inteligentes (zoön noeton) para criar o cosmos. Mas o seu raciocínio é claro e nada perdeu em valor. Na República (596b) vemos como o artesão divino cria o original, o “eidos” de uma cama, como o artesão humano (re)produz a cama física, uma mera imitação, mas que será o eidos do pintor que a (re)trata. Por isto, o artista, o pintor, não é, para Platão, um criador. Ele produz a cópia de uma cópia, uma contrafação desprovida de essência. É seguindo esta linha de raciocínio que Platão deixa clara a distinção entre o engenho criador (demiurgia) e o engenho imitador (mímesis).

O passar dos séculos ira assistir uma feroz discussão sobre estes dois conceitos e a quê se aplicam. Já Aristóteles irá chamar de miméticas as artes em geral, mesmo as artes como a da culinária, que, ao cozinhar os alimentos, imita e antecipa o processo de digestão. A mímesis a partir de Aristóteles não é só representação, mas o obrar similar ao da natureza. Outros, muitos outros, irão emprestar a um e a outro termo força e vigência distinta. Mas, seja como for, parece evidente que chamar de criativa a atividade econômica que hoje leva este epíteto é distorcer e estender um conceito para muito além do seu domínio.

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