ÉTICA: Entre a singularidade coletiva e a pluralidade individual.

Ética.

Caim perguntou a Deus porque deveria cuidar do seu irmão. Não obteve resposta. Pareceria natural que devêssemos cuidar uns dos outros. Mas não é assim. E nem todos pensam que deva ser assim.

Na metáfora da Caverna, de Platão, o que foi libertado para a luz não é obrigado a voltar para resgatar os demais. Tendo alcançado a mais alta forma de vida – o bios theorétikos, a sophía, a phrónesis –, por que alguém deveria retroceder e se misturar com a gente comum? O próprio Platão argumenta que aqueles que constatam a insensatez da multidão e que reconhecem que não há nada de sadio em administrar a coletividade, têm escolha. Podem cuidar de si, viverem livres das injustiças e das obras ímpias, ou podem cuidar dos outros, tentar livrá-los da ignorância e trazê-los para o campo das obras pias.

A segunda opção é a do agir de acordo com a ética altruísta, uma invenção que os gregos justificaram por lógica. Para eles – e, desde então, para muitos no Ocidente – a conquista da liberdade, de sair para a luz do espaço aberto, não seria completa se não incluísse a emancipação de tudo o que a alteridade possui em valores negativos.

Inexiste solução categórica para o pêndulo que oscila entre o altruísmo e o egoísmo. No presente, o horror ao comunismo – muitas vezes inconfessado – é o de ver interditada a opção individual. Não existe o comunismo que não seja o de caserna, o da disciplina coletiva, em que se é obrigado a agir segundo o que foi determinado como sendo o interesse de todos. Do outro lado, o horror ao liberalismo econômico – muitas vezes inconfessado – é o de ver impedido o convívio franco. Não existe liberalismo que não seja o da salvaguarda do interesse próprio, o da competição, o do homem lobo do homem. 

Passados tantos séculos, o dilema perdura. Não podemos nos negar moralmente a nós mesmos, nem podemos negarmo-nos aos outros, porque o negarmo-nos aos outros é nos negar moralmente a nós mesmos.

UTILIZE E CITE A FONTE.

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Elogio da solitude.

Epistemologia – Heurística.

Os dicionários não assinalam a disparidade, mas os termos latinos de së e sölus têm distintas conotações. A solidão – o sentir-se só – difere da solitude – o estar só.

A solidão é o atributo do abandonado e do segregado. A solitude é o atributo do retirado e do autárquico.

Joy Umali – Mobile Engineer & Product Designer San Francisco, USA

 

Enquanto a solidão é involuntária e patológica, a solitude é voluntária e terapêutica. Deve ser buscada para que a invenção e a descoberta sejam possíveis (Platão).

O solitário está sem os outros, mesmo quando está entre eles. Já o autárquico não prescinde das relações oferecidas pelo ambiente e pela vida cotidiana. Apenas procura se retirar para a comunicação com a natureza, com a verdade e com os seres humanos. Os coexistentes, os do passado e os do futuro.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Hall, Donald. (2016). Between solitude and loneliness. In, The New Yorker. October, 15, 2006 

Platão (1981). Sofista. In, Platón, Obras completas (1981). Traducción y notas de María Araujo et al. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

EPISTEMOLOGIA: O fato, o dado, o real e o abstrato.

Epistemologia.

Os platônicos intuíram que as ideias são realidades. Os aristotélicos intuíram que as ideias são generalizações. Os idealistas são platônicos. Os realistas aristotélicos. Divergem, mas nem uns, nem outros pensam que ideias e fatos são a mesma coisa. Ambos reconhecem que os fatos não se apresentam sob a forma de linearidade causal.

Nem mesmo são necessariamente conectados.

Alçar o factual à condição de real, como faz a maior parte dos métodos de investigação nas ciências sócio-humanas, é um contrassenso. As linhas de causa e efeito que dão “validade” e “representatividade” a estas investigações são constructos, são ponderações de um sentido que a vida não tem.

Aliada ao temor de desarranjar os esquemas acadêmicos, esta inconsistência leva a acomodações explicativas artificiais, erige distorções sobre o que foi e o que é.

Não se trata de uma simples fraude. O pseudo-realismo dos modelos epistemológicos provoca uma euforia cega. Graças a eles, a realidade deixa de ser assustadoramente obscura e estranha: torna-se conveniente, clara e familiar. Um espelho do que se gostaria que ela fosse.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.

ÉTICA: A moralidade tirânica.

Ética.

Trasímaco, de acordo com que relatou Platão na República, pensava que o certo é o que atende o interesse do mais poderoso.

Sócrates contra-argumentou que se a moralidade não for referida a um universal decorrente do acordo da Razão consigo mesma, ou com Deus, ou com os deuses, ou com uma constituição não haveria como diferenciar os humanos dos demais seres da natureza.

Na Atenas clássica, Trasímaco defendia a imoralidade vulgar, em que existem somente interesses conflitantes.

Sócrates inaugurava a postulação ética, talvez o maior avanço civilizatório da Humanidade.

Estabeleceu-se, assim, a distinção entre a moral e a ética: a moral é o que se acredita ser o certo; a ética é o que se demonstra ser o certo. Uma é simplória e despótica. Outra intelectual e ajuizada.

Ainda hoje, a moral prevalecente costuma ser uma antiética, em que o bem e o correto são estabelecidos tiranicamente seja pelos líderes do momento, seja pelas classes dominantes, seja pelas igrejas, seja pelos representantes de maiorias circunstanciais.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Platão. A República. In, Platón (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

ÉTICA: A fraqueza gregária.

Ética.

É preciso conhecer a noite para distinguir a claridade. Não há sol sem sombra, e toda verdade joga luz sobre os que vivem no aconchego da escuridão. Ao fazê-lo, retira suas referências mais confortadoras.

O escapado da caverna de Platão pode voltar e libertar seus companheiros. Só ele se arrisca a ser repudiado. O escapado das engrenagens do mundo contemporâneo, não. Ao mostrar que o rei está nu, faz recair sobre ele e sobre os que lhe escutam o ódio mundano.

COURAGE BY ADITYA 777

Camus escreveu que o que distingue a sensibilidade contemporânea da sensibilidade clássica é que essa se nutre de problemas morais e aquela de problemas metafísicos. O argumento é esquemático, mas verdadeiro. A sensibilidade contemporânea se alimenta de problemas da psique. Cada um se volta sobre seu pequeno mundo, interpreta a si mesmo, tenta ajustar-se à evidência da sua insignificância, procura se socorrer no convívio destituído de sentido.

Não se trata do gregarismo biológico, mas do pertencimento, da disposição infantil a aderir a qualquer coletividade, ainda que seja a dos que assistem a mesma série na Internet.

O ser humano precisa de signos de reconhecimento que o protejam da lucidez. Acena para o trem que parte e para o navio que passa, embora saiba que os passageiros não o podem ver.

Somos como o menino que assovia na escuridão da noite para dissimular o medo que sente de estar só.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Camus, Albert (1951) L’homme révolté. Paris. Gallimard

EPISTEMOLOGIA: Conceito – O que é a intuição.

Heurística.

 “Com a lógica se demonstra, com a intuição se inventa.” (Poincaré)

 

Descartes definiu a intuição evidente como oposta à dedução necessária. Kant, como tudo que o intelecto experimenta com rigor, em si mesmo ou na imaginação. Schopenhauer, como percepção direta, sem mediação do conhecimento discursivo e das suas relações. O pós-idealismo seguiu Schopenhauer.

No século passado, Husserl diferenciou a intuição empírica, que capta os objetos individuais; a intuição eidética, que capta a essência das coisas; e a intuição categorial, que capta as estruturas, os padrões e os números. A intuição empírica ou individual é transformada na visão da essência [ideação] que é uma abstração [algo insubsistente por si mesmo]. De modo que, para a fenomenologia, a intuição é uma faculdade que permite perceber o todo, no sentido de que se pode examinar um objeto, uma árvore, por exemplo, de muitos ângulos, mas só a intuição permite apreendê-lo integralmente.

Contemporâneo da fenomenologia, Henri Bergson escreveu que a intuição é algo que se encontra entre o instinto e a intelecção. É o que apreendemos em um lampejo no espírito, aquilo que sabemos, mas que “não sabemos como dizer”. O intuído é o que fica na ponta da língua, o que se perde inevitavelmente na continuidade fluida do tempo, o verso melhor, que já não podemos recordar.

A definição contemporânea da intuição – faculdade interna de fazer inferências e chegar ao conhecimento de estruturas e de dinâmicas -, supera as distinções entre o sensível e o intelectual. Um longo caminho desde a filosofia Antiga e a Medieval, que deram a intuição (lat.ecl. intuitìo,ónis: imagem refletida no espelho) como ato puro da consciência, como a apreensão imediata das Ideias (Platão) e de Deus (S. Agostinho).

Esta capacidade de captar padrões e significados imediatamente do real ao intelecto permanece desde sempre no âmago do processo heurístico, que a distingue, da adivinhação, da fantasia, da inclinação, e de toda evidência.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Descartes, René (1989). Regras Para a Direção do Espírito [ III]. Tradução de João Gama. Lisboa. Edições 70.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura [I, passin, particularmente § 3] Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Idéias e Letras.

Kant, Immanuel (1989). Crítica da razão pura, Estética transcendental. I, 1. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian.

Paty, Michel (2005) Pensée rationnelle et création scientifique chez Poincaré. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00004166

Platon (1981) Fedro 247a .In Platon, Obras completas (1981). Traducción y notas de Maria Araujo et ali. Marid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Poincaré, Henri (1947). [1908]. Science et méthode, Flammarion, Paris. [137]

Santo Agostinho (2010). Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora Vozes

EPISTEMOLOGIA: Heurística – Intuição: deixar fluir o simples.

Epistemologia.

(image credit: Lissy Laricchia)

O intuído é um simples que não de-forma a realidade. Mas a simplicidade da intuição é destruída pelas abstrações que tentam representá-la. Na tentativa de a exprimirmos, retificamos, justapomos, complicamos cada vez mais o lampejo que tivemos.

Tentar reconstruir o simples – o não-composto e invariável (Leibniz) – é como tentar reconstruir um objeto pela sombra que projeta (Platão). Mesmo um grande intuitivo, um grande artista não reconstitui a realidade e a emoção. Ele as representa de tal forma que as percebemos como verdadeiras.

O mundo congelado da ciência é uma sombra do real. Toma o passado como abolido e o futuro como inevitável. Entende passado e futuro como ausências. A inteleção mapeia o mundo como resultado de uma leitura da consciência (to read in himself. Hobbes). Mas o passado às costas, o futuro à frente, se referem ao espaço, não ao tempo.

A intuição se dá no tempo real da consciência, que não é redutível, nem divisível. Não é possível representar espacialmente o belo, o verdadeiro, o sentimento, …. Por isso, se quisermos provocar a intuição, devemos nos livrar dos hábitos que aprendemos no processo educacional (Rousseau) e dos vícios que toldam a apreensão das circunstâncias que vivenciamos (Husserl).

O simples é denso. Para nos abrirmos à intuição, devemos diferir os elementos constitutivos do seu meio. Não se trata sermos idealistas, mas de perguntarmos sobre o que há de material na madeira, o que há de vitalidade na vida, o que há de social na sociedade, o que há de essencial no intuído.

Se tivermos êxito, obteremos “imagens mediatrizes” (Bergson), impressões evanescentes. Essas imagens são como torrões de açúcar, que se dissolvem no café sem que possamos dizer como eram exatamente.

Ao representar o intuído, nós o turvamos. Infelizmente, não há outro modo de anunciar o inédito.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Hobbes, Thomas (1975). Leviatã [I, 6]. In, Leviathan, or, matter form, and power of a Commonwealth ecclesiastical and civil. London. Encyclopaedia Britannica.

Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP. Ideias e Letras.

Leibniz, Gottfried (2009) A monadologia e outros textos. Tradução de Fernando Luiz Barreto Gallas de Souza. São Paulo. Hedra. [§ 1]

Platão, República. In, Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.

Rousseau, Jean-Jacques (1979). Emilio ou da educação. Tradução de Sérgio Millet. Rio de Janeiro. DIFEL

Trabalho voluntário & Trabalho espontâneo.

Trabalho & Produtividade.

Os dicionários comuns costumam dar “voluntário” e “espontâneo” como sinônimos. Mas estes conceitos são antagônicos. Voluntário significa o que se pode optar por fazer ou não. Espontâneo é o que se faz sem intervenção da vontade. Continuar lendo

Boécio – Consolação do trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia.

boecio

Ancius Maulius Torquatus Severinus Boecius, ou, simplesmente, Boécio (Roma, 480; Pavia, 526), considerado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos, foi poeta, matemático, músico e filósofo. Deixou uma obra que tem sido o esteio dos inconsolados e o alento dos inconsoláveis.

Acusado de trair o imperador Teodorico, rei dos Ostrogodos, em favor de Justino I, imperador do Oriente, Boécio foi condenado ao suplício e à morte. Enquanto aguardava as idas e vindas dos pedidos de revisão e das súplicas por clemência, escreveu a Consolação da Filosofia (1998), um diálogo a modo platônico, redigido em cinco livros, em prosa e em verso.

A trama é simples: a Filosofia, travestida de uma Nobre Dama, discute com Boécio sobre a vida e o destino que o aguarda. As alegações são as de que a verdadeira felicidade não depende das circunstâncias biográficas, mas da Providência divina, de que os bens materiais e a gloria pessoal de nada valem e de que só a bondade eleva o homem.

Clique aqui para continuar lendo.

UTILIZE E CITE A FONTE.

O executivo e o conatus de Spinoza.

Perplexidades & Filosofia.

O executivo contemporâneo, premido pela competitividade impositiva, vê-se constrangido a anular sua identidade na tentativa de ser mais do que o outro, de ocupar um lugar ao sol no lúgubre pináculo corporativo.

Dente da engrenagem desatinada em que as metas são ditadas unicamente pelos interesses menores de poder (liderança), de riqueza (salários e bônus), de status (a duvidosa respeitabilidade dos bem sucedidos), vê-se impelido a defraudar o tempo e o estatuto da introspeção. Continuar lendo

O que é trabalho criativo?

Trabalho & Produtividade

Cosignificadookmo toda noção nova, ou que parece nova, a ideia de “economia criativa” abriu caminhos, despertou desconfianças, oxigenou a reflexão, suscitou palermices, gerou dúvidas.

A noção derivada de “trabalho criativo” replica estes desdobramentos. O que se segue é uma contribuição no sentido de elucidar o que viria a ser o conteúdo, o referente desta expressão.

O problema da criatividade remonta aos primórdios da filosofia. Platão dividiu as artes produtivas entre divinas e humanas. As artes divinas são criativas e miméticas, as artes humanas unicamente miméticas. Nada produzem, só reproduzem. No Timeu (29 e) expôs a criação como uma emanação a partir de um princípio pré-existente.

Aristóteles concebeu um céu natural (De Caelo), nele colocando um elemento primário, o Motor Imóvel, causador do movimento celeste (Metafísica) o que tornou o céu vivo e instituiu um Princípio (Dales; 1980; 532). O suposto deus unívoco dos gregos, como todos os deuses egípcios, gregos e romanos era demiurgo. A sua atividade era a poiesis (a obra, a produção), não a criação.

O monoteísmo judaico pensou o Universo como criado pela poder da voz de Deus. Mas os hebreus não professavam a criação ex-nihilo, já que na Torá o caos antecede ao ato da criação. Embora a tradição judaica fale na criação (Genesis I, 1. 1:2; Eclesiastes XVIII, 1), trata-se de uma criação a partir de alguma coisa, do chaos, literalmente da confusão. Eloin, Adonai, Jeová ou como quer que nos refiramos ao Deus único e inominável hebraico é, conceitualmente, também ele, um demiurgo.

A creatio ex-nihilo é uma ideia exclusiva dos cristãos (Romanos 4:17; Hebreus, 11:3), que pretendiam, como seguem pretendendo, que, se Deus criou tudo o que existe, não poderia haver um algo anterior a Ele, mas só um inconcebível Nada. O vazio anterior à criação foi aventado pelos gregos e pelos romanos que o rejeitaram por contra intuitivo e contrafático. De modo que, afora a suposta faculdade até hoje só atribuída ao Incriado Deus do cristianismo, a replicação do ideal abstrato, a Criação (do latim, causativo de cresco, brotar) refere não propriamente a uma geração a partir do nada, mas a um engendramento, a uma poiesis.

De novo aqui é preciso uma diferenciação entre o ato de reproduzir algo, o ato da produção e o ato gerador. Aristóteles (Et. Nic. I, 1094ª) distingue entre os objetos que têm como fim (telos) um produto, seja material ou imaterial (a saúde é o telos da medicina) e os objetos que tem como fim a atividade em si mesma, entre poiesis e praxis, produção e ação. Na Metafísica (1050ª) refina o conceito. Dá ergon como “estar em trabalho”, em funcionamento, em processo (en-energeia) para distinguir o telos da energeia do telos da en-telecheia (estar em realização). Na poiesis a energeia está na coisa gerada, enquanto na práxis a energeia está naquele que produz. O trabalho “poético” é aquele referido à coisa gerada. É o novo a partir do existente, o inventado, seja ele tangível ou intangível.

Temos assim que desde a Antiguidade latina o vocábulo “criativo” aplicado à economia, às organizações, ao trabalho, ou às pessoas é equívoco. O termo correto seria “inventivo” (do latim invent, particípio passado de invenīre, dar com, achar). Mesmo no cristianismo, os anjos e os mortais não procedem a um criar, mas a um inventar, a um encontrar, como se encontra um item no inventá-rio. Nem Leonardo da Vinci foi um criador, mas um descobridor, como sustenta Paul Valery que abraça a postulação do matemático Jules Poincaré de que a invenção é um descobrimento (Steiner 2012; 1227).

Além do equívoco terminológico, a expressão “trabalho criativo” comporta uma ambiguidade de referência. Toma a parte pelo todo (falácia de composição). Não existe uma tarefa, uma profissão, um campo em que o trabalho não possa ser inventivo. O designer industrial não exerce uma função menos criativa do que o escultor. O burocrata que aperfeiçoa um processo administrativo exerce mais criatividade do que o roteirista de cinema que sequencia chavões, como o da carroça derrubada na correria, a câmara focada nos pés do assassino que se aproxima, etc.

A criatividade é uma parcela de qualquer trabalho e não um atributo essencial de uma categoria específica de trabalho. O que há é uma variação de escala e de relevância. A fantasia coral de Beethoven, primeiro a unir uma peça para piano a um canto, seria o pináculo do trabalho criativo.  A invenção do sutiã por uma costureirinha no século XIX teria menos relevância e mérito. Ou talvez não para as mulheres da época, insanamente comprimidas nos espartilhos.

O termo “trabalho criativo” é, portanto, escalar. Conota o quantum de trabalho é referido ao esforço intelectual de geração de uma ideia (conceito), de um bem (artístico ou científico, intelectual ou material) ou de um serviço antes inexistentes, isto é, o grau em que uma categoria de trabalho implica na transformação de potência em ato. O trabalho será tanto mais criativo (inventivo) quanto mais atualizar um potencial.

 

utilize

Aristóteles (2011). Obra completa; Miguel Candel. ed.; Madrid: Editorial Gredos.
Dales, Richard C. (1980). The de-animation of the heavens in the Middle Ages; Journal of the History of Ideas; vol. 41 (4). Oct-Dec. 1980 [531-550]
Platon (1981). Obras completas. Traducción y notas de María Araujo et alli. Madrid. Aguilar S.A. de Ediciones.
Steiner, George (2012). La poesia del pensamento. Trad. De Maria Condor; Madrid; Ediciones Siruela [Kindle edition].

O que é um valor?

Perplexidades & Filosofia

Conceitos & DefiniçõesValor é um bem subjetivo. Tanto no sentido abstrato, de ter valor, como no sentido concreto, de ser um valor, o termo designa um atributo das coisas que consiste em merecerem mais ou menos estima por um individuo ou por um grupo (serem desejadas), ou que consiste em satisfazerem certo fim ou interesse (serem úteis).

O valor não tem substância. É um objeto autônomo das realidades existentes. Não se pode ver o belo, mas podemos qualificar uma coisa de bela, ou de nociva, ou de boa, ou de cara …

O termo ‘valor’ tem origem econômica nos mercados da Grécia arcaica. A palavra grega para valor – áksios,a,on, – conota o bem, tangível ou não, que merece o preço que se paga por ele. A partir da Antiguidade, o conceito de valor percorre um longo caminho. Para os sofistas era uma apreciação relativa, expressa no dito de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Já Platão – contra a concepção dos sofistas de que os valores são conferidos pelos homens – sustentou que o valor deriva de uma apreciação absoluta. Tem valor o que é – em si – bom, belo, justo e verdadeiro.

Clique aqui para saber mais.

UTILIZE E CITE A FONTE.

A verdade sobre o trabalho

CATEGORIA PT

jacques derrida first session by luca del baldo

Uma obra que marca a crítica contemporânea, “A verdade em pintura”, de Jaques Derrida, oferece uma pista dos caminhos a serem percorridos após a superação do positivismo no século XXI pelas investigações sócio-humanas.

A forma de análise proposta por Derrida resolve ou contorna a impossibilidade de se abarcar a totalidade das dimensões de um fenômeno como o do trabalho. A ampliação do conhecimento estabelecido deriva da evidenciação da sua fragilidade, pela denúncia dos sectarismos, dos reducionismos ou das simples evocações contidas na proposição “o trabalho é ..isto ou aquilo”.

Derrida mostra que desde a descrição do que se vê até o julgamento do significado, passando pela interpretação das intenções, persiste o que denominou de “fantasmas”. Espectros que projetam significados que turvam uma pretensa verdade sobre o objeto analisado. Levanta em ponto fulcral e de difícil aceitação: o de que os sentidos da verdade são múltiplos e contestáveis.

Na tradição filosófica temos múltiplos entendimentos sobre a verdade. O mais antigo é o da teoria grega da correspondência com o real (Alethéia) que faz Platão diferir o verdadeiro do aparente, e Aristóteles o verdadeiro do falso. A teoria latina da coerência (Veritas) opõe a verdade à mentira. Existem outras concepções. As mais frequentadas na atualidade talvez sejam a que dá a verdade como uma idealização fundamentada por um ser cognoscente e a que imputa o verdadeiro à experimentação. Derrida prefere trabalhar com a verdade como a representação do percebido – o testemunho – e a verdade como a adequação do significado.

Qualquer que seja a acepção de verdade, a análise de Derrida evidencia a insuficiência da interpretação dos fenômenos segundo teses, convicções sobre origens ou sobre lógicas. Os equívocos desta natureza podem carreiam efeitos significativos sobre as avaliações ditas científicas. Por exemplo, a “verdade” que as pessoas almejam a liderança, as posições de chefia nas organizações é errônea e incompleta. Não há uma psique que seja universal, como não há uma biografia que não seja individual. A história da vida e a circunstâncias espaço-temporais tendem à particularização.

A sociedade, o management, as ideias dominantes inibem a expressão das individualidades, não as suprimem. A crítica mostra de imediato a fantasmagoria da aspiração à liderança, da cobiça aos postos de chefia. Um pressuposto que orienta um sem número de teses, de atitudes, de conflitos, 51SH8PN55ML._SX288_BO1,204,203,200_e que não tem outra fundamentação do que a crendice estabelecida. Uma verdade que causa prejuízos pessoais, inadaptações profissionais, mas, também, dificuldades organizacionais que acabam repercutindo na produtividade laboral.

A análise crítica na forma desconstrutivista proposta por Derrida evidencia que as definições inconsistentes (de-finir, mostrar os fins, os limites) do que vem a ser o fenômeno do trabalho não consideram, ou, ao menos, não consideram suficientemente, instâncias tais como meio cultural, diferenças biográficas como idade, sexo, estrato econômico de origem e orientação psíquica dos indivíduos. Denuncia as superstições convencionais que orientam as pesquisas que se querem cientificas. Mostram que a única e definitiva verdade sobre o trabalho é a de que não existe uma verdade única e definitiva sobre o trabalho.

Derrida, Jacques (2010). La vérité en peinture. Paris. Flammarion.

UTILIZE E CITE A FONTE

Arendt: o sentido do trabalho

CATEGORIA PT

tumblr_mj342z3wfq1s44m9wo1_400

Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

UTILIZE E CITE A FONTE

Mímesis ou criação

CATEGORIA PT

Plato(216x340)

O que há de criação na economia criativa?

Esta poucas vezes formulada questão pode merecer uma resposta penosa. Tomemos, por exemplo, Platão. Lemos no Sofista (265b) que as artes produtivas (poetikai technai) são divididas em humana e divina, mas que existe outro tipo de produção, comum aos humanos e aos deuses, que não gera originais, mas (re)produz meras cópias. Esta é a mímesis, termo que em grego significa imitação, reprodução.

A mímesis humana se divide em mímesis icástica, cujas cópias são fiéis do modelo, e mímesis fantástica ou arte dos simulacros (phantasmata), cujos produtos são cópias ilusórias do modelo (Sofista 235d-236d; 265a e ss.) A mímesis identifica a arte do poeta, do pintor, do escultor e, por excelência, a arte do ator, que produz a cópia na sua própria pessoa.

As ideias de Platão às vezes são inversas daquelas que estamos acostumados. No Timeu (30c-d), por exemplo, o demiurgo divino toma como modelo (paradeigma) as criaturas inteligentes (zoön noeton) para criar o cosmos. Mas o seu raciocínio é claro e nada perdeu em valor. Na República (596b) vemos como o artesão divino cria o original, o “eidos” de uma cama, como o artesão humano (re)produz a cama física, uma mera imitação, mas que será o eidos do pintor que a (re)trata. Por isto, o artista, o pintor, não é, para Platão, um criador. Ele produz a cópia de uma cópia, uma contrafação desprovida de essência. É seguindo esta linha de raciocínio que Platão deixa clara a distinção entre o engenho criador (demiurgia) e o engenho imitador (mímesis).

O passar dos séculos ira assistir uma feroz discussão sobre estes dois conceitos e a quê se aplicam. Já Aristóteles irá chamar de miméticas as artes em geral, mesmo as artes como a da culinária, que, ao cozinhar os alimentos, imita e antecipa o processo de digestão. A mímesis a partir de Aristóteles não é só representação, mas o obrar similar ao da natureza. Outros, muitos outros, irão emprestar a um e a outro termo força e vigência distinta. Mas, seja como for, parece evidente que chamar de criativa a atividade econômica que hoje leva este epíteto é distorcer e estender um conceito para muito além do seu domínio.

UTILIZE E CITE A FONTE.