Rousseau

Trabalho e alienação.

Trabalho.

A expressão “trabalho alienante” designa o impedimento de a consciência controlar o produto e o processo da atividade laboral. O termo é de Rousseau. Hegel reformou o conceito para significar a transformação de seres humanos de sujeitos criativos em sujeitos passivos de processos sociais.

Resultado de imagem para George Tooker's work expressed a 20th-century brand of anxiety and alienation. Above, "The Subway" from 1950.

A partir da concepção hegeliana, Marx entendeu o trabalho alienante como a quádrupla disjunção entre o trabalhador e: o produto do seu trabalho; a atividade como simples meio de sobrevivência; a sua consciência; a comunidade a que pertence, a qual não interessa o processo e o produto do seu trabalho.

Multíplice e inexato, este entendimento se tornou problemático e esquivo.

Primeiro porque o termo alienação requer que o objeto de que se aliene seja explicitado, o que não ocorre satisfatoriamente com o referente do termo “trabalho”, que tem inumeráveis nuances e conotações.

Segundo, porque é difícil encontrar uma atividade profissional contemporânea que não seja alienante no variado sentido marxista do termo. São escassos exemplos de processos e produtos em que o trabalhador tenha participação, seja no processo decisório do que produzir, seja na forma que se deve produzir.

Terceiro, porque Marx, como fizeram Rousseau e Hegel antes dele, conjectura que a natureza humana é atemporal, o que foi demonstrado como falso pela ciência da antropologia.

Quarto, porque supõe uma sociabilidade limitada às relações de produção. Restringe a possibilidade de autorrealização à autonomia coletiva, não levando em conta a autarquia individual.

O certo é que a ideia denotada pela expressão “trabalho alienante” esgotou a capacidade de explicar o que aí está, a realidade em que o trabalho mental tem sido minimizado e o trabalho físico eliminado. Seus atributos são demasiadamente amenos para designar o ofício desnaturado de manter em função os autômatos e a burocracia digital.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Blaumer, Robert (1964). Alienation and freedom: the factory worker and his industry. Chicago. University of Chicago Press.

Campbell, Sally Howard (2012) Rousseau and the Paradox of Alienation. Lanham, MD. Lexington Books. Rowman & Littlefield.

Fischbach, Franck (2011) Transformations du concept d’aliénation. Hegel, Feuerbach, Marx. In, Revue Germanique Internationale. [En ligne]. URL: http://rgi.revues.org/377

Marx, Karl (1985). Trabajo asalariado y capital. Barcelona. Editorial Planeta
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Rousseau – O trabalho e a vontade geral.

Trabalho & Produtividade.

As chamadas conquistas trabalhistas atendem ao interesse comum? Não necessariamente, e cada vez menos.

Costuma-se definir o interesse comum como o somatório dos interesses particulares. Mas se entendermos que a vontade de cada um é a de viver sem ser obrigado a trabalhar, a soma das vontades particulares implicaria no banimento do trabalho, o que, certamente, não seria de interesse comum.

O diagnóstico da incongruência lógica é de Jean-Jacques Rousseau, quem, para resolvê-la, propôs a conciliação dos interesses particulares e dos interesses de todos com base no que denominou de “vontade geral”. (mais…)

O filósofo e maman.

Epistemologia & Método.

Francoise.jpgNo Domingo de Ramos de 1728, fugindo do duro sistema de ensino a que era submetido na sua Genebra natal, Jean-Jacques Rousseau, foi acolhido pela baronesa Françoise-Louise de Warens, que à época, por razões não muito claras, auxiliava o padre Monsieur de Pontverre na conversão de jovens protestantes.

Os três anos que passou na maison de Charmettes, na Savoia, usufruindo os favores de Mme. de Warens, a quem Jean-Jacques traçava amavelmente – ela com 29 anos, ele com 16 – e a quem, freudianamente, chamava de “maman”, foram os da sua conversão, os de seu adestramento existencial e os da sua formação filosófica. (mais…)

Primeira tese sobre a perda de centralidade no trabalho – Rousseau

CATEGORIA PT

Talvez a mais sedimentada das teses sobre decaimento do trabalho enquanto atributo da existência humana seja a que deriva da ideia rousseauniana de que o ser humano nasce bom, mas é degradado pela sociedade.

Figura de proa do iluminismo, Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 1712 – Senlis, 1778) jamais se pretendeu filósofo. Teve uma trajetória errática. Foi um dos grandes romancistas da sua época. Escreveu peças de teatro. Músico, compôs óperas de sucesso.

Desde o Discuso sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens (Rousseau; 1754) e ao longo da sua trajetória intelectual nãoJean-Jacques Rousseau abandonou a convicção de que o progresso, ao contrário do que se pensava na época, é negativo para a vida moral e para a liberdade. O progresso, disse, torna a sociedade egoísta e corrupta. Promove a desigualdade, sustentando privilégios de riqueza e de poder. O progresso cria convenções e instituições que asseguram estes privilégios.As matrizes dos males da sociedade são a opressão requerida pela conservação do poder e pela acumulação de riquezas que decorre da renda sem o trabalho. Presa na armadilha do progresso, das regalias e das opressões, a atividade laboral sofre um processo de desnaturalização, uma degradação na ordem das vivências pessoais.

Referências:
Rousseau, Jean-Jacques (1993). Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens [1755]; Tradução de Maria Ermantina Galvão; São Paulo; Martins Fontes.

Sobre a segunda tese, leia aqui.
Sobre a terceira tese, leia aqui.

UTILIZE E CITE A FONTE.

Governo e Setor Público – Conceitos Básicos

Trabalho & Produtividade

Governo e Setor Público: Produtividade do trabalho no setor público
CNPq nº 4001199/2008-4

O propósito deste artigo é o de trazer à discussão alternativas para a superação das barreiras à produtividade do trabalho, decorrente dos exageros normativos que pautam o setor público brasileiro.

O horizonte de investigação é o do posicionamento da administração pública em face do contexto socioeconômico contemporâneo. A metodologia utilizada foi a da análise de conteúdo de entrevistas não estruturadas que compõem a fase de sondagem de uma pesquisa em curso orientada para o tema.

A interpretação das declarações dos entrevistados evidencia origens de improdutividade: a perpetuação dos servidores improfícuos, a naturalização da ineficiência, o desvio de foco, a recusa à inovação e a reprodução dos sistemas normativos existentes.

O estudo sugere três estratégias para superação das barreiras à produtividade: simplificação dos sistemas normativos, aferição do resultado do trabalho e flexibilização das normas.

O termo “governo” tem uma acepção antiga, a de Rousseau, que o dá como o poder executivo submetido à autoridade do soberano, e quatro acepções contemporâneas:

  1. A forma de organização do Estado, seu regime constitucional, equivalente ao termo grego “politeia”, que Montesquieu dividiu em três espécies: republicano, monárquico e despótico. É a conotação própria da filosofia e da ciência política, que utilizamos, por exemplo, quando falamos em governo democrático;
  2. O conjunto de organismos controlados e dirigidos pelos que detém o poder, termo inadequado, que se confunde com a administração pública, mas é de larga utilização nas considerações econômicas e na mídia;
  3. O conjunto de órgãos de poder no âmbito do Estado, sinônimo de autoridade pública. Esta é que mais convém à segmentação necessária aos estudos da administração pública. É a acepção utilizada, por exemplo, quando se trata da qualidade da gestão dos negócios públicos.
  4. A acepção em voga é a de Michel Foucault, que diz que o governo não é nem um órgão, nem uma instância de dominação, mas o conjunto de relações de poder que conformam o dispositivo normalizador das sociedades modernas. Foucault construiu esta concepção a partir do conceito de “pastoral”, dos primórdios do cristianismo. Uma noção completamente diversa das formas greco‐romanas, a pastoral visava dirigir as almas para a sua salvação. O governo contemporâneo visaria, mediante o uso de técnicas de poder, orientar as vidas dos indivíduos e dos grupos para a salvação do Estado.

Para fins de pesquisa, adotamos a denominação “governo” para conotar a instância do Estado que congrega a autoridade pública. Neste sentido, o governo distingue‐se da administração pública pelo caráter abstrato, exterior à materialidade das organizações.

Adotamos o termo “setor público” para designar o conjunto de organizações financiadas pelo orçamento público, dirigidas e controladas pelos governos. Esta definição é uma síntese operacional de definições encontradas na literatura técnica sobre o tema.

Utilizamos termos como “função pública” e “servidor público” genericamente. Procuramos evitar as imprecisões da legislação. A expressão “servidor público”, por exemplo, é definida pela lei 8112, que versa sobre o regime jurídico dos servidores civis da União, das autarquias e das fundações pública federais, em seu artigo 2º como “a pessoa investida em cargo público” . A mesma lei define a expressão “cargo público” como “o conjunto de atribuições e responsabilidades previstas na estrutura organizacional que devem ser cometidas ao servidor”. Ou seja um dialelo: o servidor é o que se ocupa do cargo e o cargo é aquilo de que o servidor se ocupa.

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