tempo

Heurística – Benjamin, pescador de pérolas.

Epistemologia.

Em um ensaio quase sentimental, Hannah Arendt escreveu que Walter Benjamin “despertava os mortos”, para, com eles, construir uma nova iluminação. No fundo do mar do esquecimento, recobrava “pérolas do passado”, colhia relações e esclarecia o eterno.

Pescador de pérolas, Benjamin recuperou gemas de pensamento. Buscou no fundo do mar do passado o inesperado, o estranho e o omitido. Repensou poeticamente a memória; não para restaurar eras extintas, mas para reaver algo outrora vivo e que, cristalizado, sobrevive no âmago da sabedoria. (mais…)

Anúncios

Bergson: a intuição heurística.

Epistemologia

https://i2.wp.com/www.coreyhelfordgallery.com/images/products/FIRST-OF-DAYS-2004-AP-2-OF-2-01.jpgAo darmos de comer a uma criança, abrimos a boca em um movimento simpático. A intuição é este tipo de experiência. Algo que não comandamos e que não se destina a convencer, mas a comunicar. É a sympatheia, que nos leva diretamente ao outro e à nós mesmos a partir daqueles que nos cercam.

O intuitivo se dá entre o instintivo e o intelectual. Corresponde ao conhecimento direto no e pelo espírito, como ocorre na apreciação artística ou na experiência mística religiosa. Esta participação da consciência em um movimento que lhe é exterior rege as três fontes da heurística de Henri Bergson (Paris, 1859 – 1941): a problematização, a diferenciação e a apreensão da realidade no tempo. (mais…)

Bergson: o tempo invisível

CATEGORIA PThenri_bergson_smallO management firmado na tradição da cultura técnica considera equivocamente o tempo algo a ser administrado, seja como ordenação da vida profissional, seja como medida do seu resultado. Ignora ou tenta anular a realidade e os efeitos da duração na sua característica mais própria: a de passagem, a de decurso. Substitui a temporalidade pela permanência, pela subsistência, pela estabilidade. Dá prioridade ao fato e ao dado sobre o vir a ser, sobre a transformação, sobre o imprevisto.

A perspectiva gerencial contemporânea desconhece a reflexão de Henri Bergson para a compreensão da temporalidade. Como se sabe, Bergson considerou a nossa constituição biopsíquica, cuja finalidade primeira é estabelecer condições favoráveis ao estar no mundo, para mostrar que o homo sapiens havia se transmutado em homo faber. Sustentou que ao homo faber interessa não o conhecido, o documentado, mas o vir a ser, o desconhecido, o representado.

Nas formas organizacionais em que estamos imersos, o conhecimento serve ao agir, serve para orientar a ação. Já o saber documentado serve à previsão. De modo que representa o vir a ser a partir de do que está aí, daquilo que esteve posto (positivismo), ou a partir de uma suposta inevitabilidade lógica do esgotamento dos modos de produzir (marxismo). Tende a escamotear a realidade do tempo. Ancora a vida laboral a antecipações formais ou transcendentais firmadas em crenças não comprovadas e não comprováveis. Restringe o vir a ser à clareza e à objetividade do ideado, do sabido, do usado e do consumido. Planeja no vazio, com base no que, por definição lógica, não virá a ser.

Cf. Silva, Franklin Leopoldo da (2013) O visível e o invisível do tempo, in Adauto Novaes (org.). Mutações: o futuro não é mais o que era; São Paulo; Edições SESC SP.

UTILIZE E CITE A FONTE.

Proust: O Tempo do Trabalho

CATEGORIA PT

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Paris 1871; 1922)

A mais óbvia das lições que Marcel Proust nos deixou foi a de que o tempo só pode ser recuperado pela evocação.

A mente estimulada, seja por uma Madeleine, seja por um simples trecho de música, nos traz de volta sensações e atmosferas. Podemos refrear mentalmente o transcurso do tempo vivendo com intensidade e coerência, ou deixar a vida escoar na tolice das distrações e no esforço sem sentido.

Quando imersa na realização da tarefa, a mente se ausenta do tempo. Surpreendemo-nos ao nos darmos conta do intervalo transcorrido enquanto absorvidos pelo trabalho. Também nos surpreendemos, na maturidade, ao nos darmos conta do tempo gasto no esforço desprovido de significado.

O trabalho não pode ser figurado. Como a música, que só pode ser representada por algo que ela não é – pautas, notas, gráficos – o trabalho só pode ser expresso por aquilo que ele não é: os bens, as riquezas, o corpo e a mente esgotados ou saciados. Da essência do trabalho retemos a lembrança do momento vivido: o esforço com significado e a sensação do tempo inventivo.

Proust, Marcel (1981) Em busca do tempo perdido; Tradução Mário Quintana; Porto Alegre; Editora Globo

UTILIZE E CITE A FONTE.