Trabalho & Produtividade

A ferramenta de Thoureau

Trabalho & Produtividade.

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Há exatos 163 anos Henry David Thoureau (Massachussets 1817-1862), poeta, naturalista e filósofo trazia à luz sua autobiografia-manifesto: Walden ou a vida nos bosques [1854] (tradução Astrid Cabral; Lisboa; Edições Antígona, 2009).

Referência na luta pela autárkeia, a emancipação social ambicionada desde os filósofos da Academia e do Pórtico, Walden iria inspirar mobilizações abolicionistas e libertárias em todo o mundo. Proposições como “não peço imediatamente a destituição dos governos, mas exijo imediatamente um governo melhor” se encontram nas bases dos movimentos beat, hippie e dos atuais manifestantes, indignados e occupy.

Thoureau não poderia antecipar o que passaria um século e meio depois da sua morte. Não poderia prever a alienação hiperbólica provocada pela automação do trabalho. No entanto, deixou publicada – 13 anos antes do Capital de Marx – a lastimosa constatação de que já no seu tempo “as pessoas haviam se tornado ferramentas das suas ferramentas”. 

postado originalmente em 21/02/2014.
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Entre contemplação e indolência

Trabalho & Produtividade

The Woman with the Stylus - Pompeii, Italy Roman

Na Antiguidade grega o trabalho, ou, mais propriamente, a necessidade de trabalhar era julgada indutora de indignidade.

Para os antigos, o que conferia humanidade era o raciocínio especulativo, a contemplātĭo. A contemplação ou, em grego, theoria [théa (através) + horós (ver)], era considerada o mais alto grau de conhecimento que se pode atingir, a conjunção da ciência e da sabedoria.

A contemplação não deve ser confundida com a elevação mística ou com a beatitude. Nem são seus objetos as coisas úteis, temporárias e contingentes. Os objetos do raciocínio especulativo são as coisas abstratas, imateriais, perenes. Objetos como os números, as designações, a figuras geométricas e, acima de tudo, os atributos imutáveis, necessários e eternos: os elementos da metafísica, da gnosiologia, da ética. A contemplação tem valor nela mesma. Não é um meio para atingir objetivos. É a reflexão que se destina exclusivamente a descobrir a verdade, único fim que realiza plenamente o ser humano.

Esta forma de ver pouco se alterou na Antiguidade romana. Sêneca criticou as vidas dissipadas na busca da riqueza, da glória e do poder. Argumentou, realisticamente, que se as necessidades materiais nos impedem de sermos contemplativos, não há razão que nos impeça de compensar a indignidade do trabalho com a sabedoria. Por que, perguntou, não organizarmos a vida para o máximo de tempo e dedicação ao conhecimento? (Da brevidade da vida).

Marca a forma de ver dos romanos a distinção de Sêneca entre dois tipos de conduta: a dos occŭpāti, os que trabalham e negociam na busca de bens sobre os quais jamais refletem, e a dos ōtĭōsi, que administram a sua vida com equilíbrio e sabedoria.

Os occŭpāti se agitam, sacrificam sua individualidade, formam laços (redes) de dependência uns em relação aos outros, conformam-se em serem elos, em não serem. Quando despertam para vida, quando e se acumulam as condições materiais para começar a viver, a vida já está no fim. A biologia e o intelecto decadentes já os impedem de fruí-la. “Jazem no seu leito, em plena solidão”. Descansam interinamente a espera do repouso definitivo.

O oposto dos occŭpāti são os ōtĭōsi, que não são os indolentes (pĭgĕr), mas os que têm controle da sua existência, os que se isolam da multidão e da vida laboral. Os ōtĭōsi dedicam o tempo que podem ao exame da própria consciência, ao estudo do mundo, aos exercícios espirituais e físicos, à prática das virtudes (excelências) e ao lazer. O ōtĭum, na acepção romana, não é a inatividade preguiçosa e estéril (dēsĭdĭa), mas a construção e a reconstrução de si e da relação com o mundo circundante.

Ao final da Antiguidade, a Igreja, ávida de dominação e fausto, matou a contemplātĭo e o ōtĭum. Santo Agostinho e as ordens monásticas deram o golpe de misericórdia no primeiro humanismo ao imporem a substituição da contemplação pela prece e do ócio pelo labor.

O crime é antigo, já prescrito, mas é importante recordá-lo para advertir que inexiste fundamento lógico ou argumento moral que impeça os que puderem de se voltar à contemplação e ao ócio, mesmo que, infelizmente, a maioria ainda deva sofrer o cativeiro do trabalho decorrente da necessidade material, mesmo que a minoria sobrante tenha que padecer sob a repreensão da moralidade arcaica da cristandade, que persiste na impostura de identificar a fruição da vida com a indolência.

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Seneca (sd). The complete works of Seneca, the younger, Kindle – Delphi Classics. On the shortness of life.

Liderança segundo Pessoa

categoria PERPLEXIDADES 2016fernando pessoa

“Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.”

Pessoa, Fernando (1990). Livro do Desassossego. Vol. I. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha) Coimbra. Presença.

A verdade sobre o trabalho

CATEGORIA PT

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Uma obra que marca a crítica contemporânea, “A verdade em pintura”, de Jaques Derrida, oferece uma pista dos caminhos a serem percorridos após a superação do positivismo no século XXI pelas investigações sócio-humanas.

A forma de análise proposta por Derrida resolve ou contorna a impossibilidade de se abarcar a totalidade das dimensões de um fenômeno como o do trabalho. A ampliação do conhecimento estabelecido deriva da evidenciação da sua fragilidade, pela denúncia dos sectarismos, dos reducionismos ou das simples evocações contidas na proposição “o trabalho é ..isto ou aquilo”.

Derrida mostra que desde a descrição do que se vê até o julgamento do significado, passando pela interpretação das intenções, persiste o que denominou de “fantasmas”. Espectros que projetam significados que turvam uma pretensa verdade sobre o objeto analisado. Levanta em ponto fulcral e de difícil aceitação: o de que os sentidos da verdade são múltiplos e contestáveis.

Na tradição filosófica temos múltiplos entendimentos sobre a verdade. O mais antigo é o da teoria grega da correspondência com o real (Alethéia) que faz Platão diferir o verdadeiro do aparente, e Aristóteles o verdadeiro do falso. A teoria latina da coerência (Veritas) opõe a verdade à mentira. Existem outras concepções. As mais frequentadas na atualidade talvez sejam a que dá a verdade como uma idealização fundamentada por um ser cognoscente e a que imputa o verdadeiro à experimentação. Derrida prefere trabalhar com a verdade como a representação do percebido – o testemunho – e a verdade como a adequação do significado.

Qualquer que seja a acepção de verdade, a análise de Derrida evidencia a insuficiência da interpretação dos fenômenos segundo teses, convicções sobre origens ou sobre lógicas. Os equívocos desta natureza podem carreiam efeitos significativos sobre as avaliações ditas científicas. Por exemplo, a “verdade” que as pessoas almejam a liderança, as posições de chefia nas organizações é errônea e incompleta. Não há uma psique que seja universal, como não há uma biografia que não seja individual. A história da vida e a circunstâncias espaço-temporais tendem à particularização.

A sociedade, o management, as ideias dominantes inibem a expressão das individualidades, não as suprimem. A crítica mostra de imediato a fantasmagoria da aspiração à liderança, da cobiça aos postos de chefia. Um pressuposto que orienta um sem número de teses, de atitudes, de conflitos, 51SH8PN55ML._SX288_BO1,204,203,200_e que não tem outra fundamentação do que a crendice estabelecida. Uma verdade que causa prejuízos pessoais, inadaptações profissionais, mas, também, dificuldades organizacionais que acabam repercutindo na produtividade laboral.

A análise crítica na forma desconstrutivista proposta por Derrida evidencia que as definições inconsistentes (de-finir, mostrar os fins, os limites) do que vem a ser o fenômeno do trabalho não consideram, ou, ao menos, não consideram suficientemente, instâncias tais como meio cultural, diferenças biográficas como idade, sexo, estrato econômico de origem e orientação psíquica dos indivíduos. Denuncia as superstições convencionais que orientam as pesquisas que se querem cientificas. Mostram que a única e definitiva verdade sobre o trabalho é a de que não existe uma verdade única e definitiva sobre o trabalho.

Derrida, Jacques (2010). La vérité en peinture. Paris. Flammarion.

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O patinho feio: o trabalho visto pelos outros.

CATEGORIA AST

UglyO que produzimos, o output do nosso trabalho pode ser previsto e computado. O que não é o caso dos efeitos, o outcome dos nossos esforços.

Todos conhecem a obra de Hans Christian Andersen, autor do Patinho feio, da Roupa nova do imperador e da Pequena sereia. Poucos sabem ou recordam que Andersen escreveu mais de trinta peças de teatro e outros tantos romances e livros de poesia.

Como Voltaire, Andersen pensava que sobreviveria na memória dos leitores graças ao seu trabalho como poeta, aos inúmeros versos românticos a que dedicou a maior parte da vida.

Se ressuscitassem dos mortos, Andersen e Voltaire ficariam surpresos e decepcionados que a posteridade tenha escolhido respectivamente a prosa infantil e a filosofia para recordá-los.

Como é trabalhar na Amazon?

CATEGORIA NT
1389693101816423458Deu no Gizmodo:

Por Maddie Stone

Os depósitos da Amazon, que trabalham com horários e cronogramas de entrega insanos, são conhecidos como péssimos locais de trabalho. Mas a parte corporativa da empresa também não é nenhum piquenique. Ali, o tenebroso ambiente de trabalho do CEO Jeff Bezos permeia todos os aspectos da vida.

Em um trabalho fascinante que entrevistou mais de 100 atuais e antigos funcionários da Amazon, o New York Times expõe um retrato detalhado de como é trabalhar nos escritórios de Seattle da gigante do varejo. Enquanto o Google e o Facebook motivam seus funcionários com academia, refeições e benefícios, a Amazon, diz o Times, “não dá a entender que cuidar de seus funcionários é uma prioridade”. Em vez disso, a empresa insiste que os funcionários dêem sua performance máxima o tempo inteiro, extrapolando os limites da vida fora do trabalho e encorajando seus “Amabots” a criticarem a si mesmos e aos colegas de trabalho pelos erros.

“Bons” funcionários na Amazon trabalham por longas horas, raramente tiram férias e nunca reclamam sobre a carga de trabalho. Os gerentes esperam receber respostas imediatas para emails enviados após a meia noite, e buscarão um retorno por mensagem de texto caso não sejam respondidos. Como as equipes são classificadas, e aquelas no final de cada ranking são eliminadas ao final do ano, é de interesse mútuo eliminar problemas e ser melhor que todos os outros. Isso é facilitado com a ferramenta “Feedback a Qualquer Momento” da Amazon, que permite aos funcionários dedurarem uns aos outros quando eles notam que alguém está demorando muito no almoço ou saindo mais cedo do trabalho.

Ah, e caso você tenha qualquer vestígio de vida pessoal ou alguma doença, a Amazon provavelmente não é o melhor lugar para se buscar um emprego. O Times apontas diversos casos perturbadores nos quais empregados foram criticados por diminuir as horas de trabalho para tratar alguma doença ou lidar com familiares com doenças terminais ou crianças pequenas. Uma mulher com câncer na tireoide recebeu um feedback de performance ruim depois de ter retornado do tratamento, enquanto uma outra mulher sofrendo de câncer de mama foi inserida no “plano de melhoria de performance” porque as “dificuldades” pessoais dela interferiam no cumprimento de objetivos no trabalho.

Isso pode soar desumano, mas conforme mostra o Times, é tudo uma consequência natural da cultura corporativa na qual empregados são vistos como dados em tabelas de performance.

E por falar em dados: os gerentes corporativos na Amazon fazem uso de toneladas de medições em tempo real sobre os consumidores para determinar quando páginas não estão carregando rápido o suficiente ou quando o estoque de algum produto fica baixo. O Times mostra ainda que empregados recebem impressões com detalhes sobre número de estoque regularmente e podem receber um quiz sobre estes dados em reuniões. Quando um empregado não se recorda quantas luvas de jardim estavam em estoque na semana anterior, ele é criticado.

Naturalmente, muitos funcionários da Amazon sofrem com a pressão, adquirindo doenças físicas ou sofrendo colapsos nervosos (“Vi quase todas as pessoas com quem trabalhei chorando em suas mesas”, diz Be Olson, ex-funcionária da Amazon, que trabalhou no setor de marketing de livros). Ou, sabiamente, eles decidem abandonar a Amazon. “O padrão de entrada e saída, que resulta em um número desproporcional de candidatos na porta da Amazon, é claro e consistente”, diz Nimrod Hoofien, ex-funcionário da Amazon e hoje diretor de engenharia no Facebook.

Mas talvez seja ainda mais perturbador saber que muitos funcionários internalizam este ambiente de trabalho darwinista, obcecando pela pontuação da performance e priorizando trabalho acima de qualquer outro aspecto pessoal.

“Eu estava simplesmente viciada em obter sucesso ali”, diz Dina Vaccari, ex-funcionária da Amazon, à Times. “Para nós, que trabalhávamos ali, era como uma droga que nos valorava”.

Um funcionário da Amazon respondeu ao artigo em um post de sua página pessoa no LinkedIn. Nick Ciubotariu, diretor de Desenvolvimento de Infraestrutura na Amazon, rebate diversos aspectos do texto da New York Times, como por exemplo o quiz em reuniões: ele não é obrigatório, pode ser feito a qualquer momento e o funcionário recebe um acessório de celular como premiação caso responda corretamente.

E o questionário não seria necessariamente sobre o estoque de algum produto, mas sim sobre a experiência do usuário. Uma destas perguntas, por exemplo, questiona por que a Amazon informa ao usuário que ele já comprou determinado produto quando o cliente está prestes a comprá-lo novamente.

Ciubotariu afirma também que emails enviados por gerentes depois da meia noite e respostas cobradas por mensagem de texto não são algo encorajado pela companhia. “Vamos à reuniões e discutimos coisas, como qualquer outra companhia faz. Se chegarmos rapidamente a um consenso — ótimo. Ganhamos tempo e vamos embora mais cedo. Se não chegamos, debatemos — e debatemos de forma educada e respeitosa”, explica o diretor.

Você pode tirar suas próprias conclusões lendo a matéria de Maddie Stone aqui, o artigo completo da New York Times neste link e o texto completo de Ciubotariu neste link.

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Uso do Whatsapp no trabalho pode dar demissão

CATEGORIA NTwhatsappDeu no G1:

O aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp, assim como as demais redes sociais, agiliza a comunicação entre as pessoas em qualquer lugar e hora. Mas, quando se trata do uso do aplicativo no trabalho, é preciso cuidado e bom senso. A regra vale tanto para o empregado quanto para o empregador.

Segundo o advogado trabalhista Bruno Gallucci, do escritório Guimarães & Gallucci, com a popularização do WhatsApp aumentou o número de ações trabalhistas na Justiça. Isso principalmente porque é cada vez mais comum que os profissionais, depois do horário do expediente, continuem sendo acionados pelo empregador para resolver questões do trabalho por meio do aplicativo. “As conversas fora do expediente de trabalho podem servir de prova e, dependendo do caso, abrem caminho para pedido de horas extras”.

Gallucci alerta, porém, que todos os casos devem ser avaliados. “Caso sejam apresentados os prints das conversas, isso pode servir de prova contra o empregador e resultar em uma condenação trabalhista em favor do empregado. O mais indicado é que a empresa evite esse tipo de contato com os empregados, ainda mais fora do expediente de trabalho”, recomenda.

Para Daniela Moreira Sampaio Ribeiro, advogada do escritório Trigueiro Fontes, o empregado deve ter cuidado ao se dirigir aos colegas ou a um superior hierárquico nas conversas do aplicativo e também ter moderação na sua utilização durante o expediente. “O empregador tem o direito de exigir do empregado concentração total no seu trabalho, proibindo ou restringindo a utilização da ferramenta para fins particulares. Nesse caso, a desatenção do empregado à orientação pode ter como consequência a aplicação de penalidades disciplinares”, diz.

A advogada trabalhista Vanessa Cristina Ziggiatti Padula, do escritório PK Advogados, alerta que se o aplicativo for utilizado de forma inadequada pelos funcionários eles podem ser advertidos, suspensos ou até ter o contrato rescindido por justa causa.

Confira aqui a matéria completa por Marta Cavallini.

O trabalho transformante

CATEGORIA PT

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Maximilien Luce – Les batteurs de pieux entre 1902 et 1905

No início do século XIX Hegel sustentou que é pelo trabalho e não pela contemplação ou pelo ócio que nos elevamos acima da natureza, que nos alçamos à humanidade. O trabalho nos transforma e transforma o mundo, adequando-os às nossas necessidades. Nos leva a colaborar, a reconhecer o outro. Para Hegel, a obra feita no honra e nos eleva.

Esta fórmula, emprestada de Locke, e reproduzida por muitos, principalmente por Marx, por mais bela e inspiradora que seja, é um dislate argumentativo. Seus frágeis alicerces são uma abstração e uma ilusão. Abstração derivada do conceito idealizado de trabalho. A ilusão da ideia de que o trabalho conforma o mundo à vontade geral.

Hegel abstrai que a quase totalidade do trabalho, de então como da atualidade, é não criativo e que não visa nem tem como adequar o mundo às nossas necessidades. A maior parte do trabalho, de então como de hoje, é mecânico, burocrático, repetitivo, alienante, isto é, distanciado da humanidade, do que há de humano no homem. Tem como propósito deliberado adequar o mundo aos interesses de uns poucos. Por isto restringe, ordena e adestra. Amolda o ser humano ao trabalho, e não o contrário.

Ao longo das últimas décadas, mesmo os mais delirantes devotos das tradições laborais, mesmo os ideologizados de estrita observância, vêm se dando conta que o inverso do trabalho tal como o conhecemos não é nem a indiferença ao mundo e aos outros, nem a solidão, nem a desmoralização pessoal. Que o oposto do trabalho não é a estagnação e o retrocesso. Que a necessidade de trabalhar se redime pela emancipação dos resíduos da servidão ancestral e pelo projeto da esquivança do sacrifício despropositado da vida pessoal ao interesse de poucos.

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Com a mão de obra robotizada, quais são os trabalhos que deixarão de ser dos humanos?

CATEGORIA NTJobs That Humans Will Never Do Again, As Long As We Have RobotsDeu no Gizmodo:

Robôs estão entrando no mercado de trabalho. Alguns vão trabalhar junto com você. Já outros, infelizmente, vão tomar o seu lugar. E aí entra a questão: quais empregos estão na berlinda?

A resposta já foi abordada das mais diversas formas pela mídia, mas conversamos com especialistas que nos propuseram alternativas mais realistas de quais carreiras humanas correm risco de extinção — e porquê.

Confira aqui a matéria completa por Bryan Lufkin.

Sêneca: o trabalho salva

CATEGORIA PT

Sobreviver ao trabalho– Para que nos serve trabalhar quando já asseguramos a satisfação das nossas necessidades materiais?

– Para suprir as infinitas necessidades incorpóreas”, ensinou Sêneca.

Lucius Annaeus Seneca (4ac. – 65) pregou que, em sendo o mundo exterior perfeito (inteiramente feito, na acepção do termo), o nosso trabalho nada agrega ao Universo. Por isto, devemos nos amoldar ao mundo. Praticar as virtudes da diligência e do esforço físico e intelectual para nos ajustarmos à ordem das coisas.

Sêneca foi professor, depois conselheiro e, ao cabo, vítima do imperador Nero (Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus (37-68)), o jovem matricida e incendiário. Trabalhou intensamente. Proscrito, dedicou-se à vida intelectual enquanto aguardava a ordem para matar-se. Firmado na disciplina e no “amorem laboris”, evitou o vício e o desespero decorrentes da inação. Quando, por fim, obedientemente deu-se morte, era já velho para a época. Contava 68 anos. Trabalhou até o último dia. Tinha o corpo são e o espírito lúcido.

 

Seneca (sd). Sobre la providencia. eBook Kindle.

Economia e fantasia

CATEGORIA TR

adam_smithEm uma noite de inverno anterior ao ano de 1776, em Glasgow, na Escócia, um amável professor de filosofia moral imaginou que se em um povo de caçadores custa habitualmente duas vezes mais tempo e sacrifício para matar um castor do que uma camurça, naturalmente um castor valerá ou se trocará por duas camurças.

É sobre esta postulação de Adam Smith (Kirkcaldy, 1723 — Edimburgo, 1790), que dá início ao sexto capítulo do livro primeiro de A riqueza das nações[i], que repousa grande parte da teoria contemporânea sobre o trabalho. E, no entanto, esta alegoria não passa de uma especulação inventiva sem fundamento antropológico.

De fato, não se tem notícia de que o tempo ou a dificuldade para obter um bem tenha servido ou sirva de base de atribuição de valor entre povos primitivos[ii]. Isto seria irrelevante se os avatares do conceito econômico do trabalho não se mantivessem desde então ancorados a esta fábula.

O exemplo de Smith teve o dom, ou a sina, de reduzir à categoria de trabalho toda atividade destinada a obter bens de consumo. Mais do que isto: reduziu o valor do trabalho ao tempo e à dificuldade requeridos para se obter um bem. Uma noção que repercutiu na conhecida formulação de Marx de que os valores das mercadorias são diretamente proporcionais ao tempo de trabalho empregado na sua produção e inversamente proporcional à força produtiva do trabalho empregado[iii].

A fantasia antropológica de Adam Smith cobra o preço de todo mito: obscurece a realidade ao se por no seu lugar. Nem só o trabalho primitivo – intermitente, esporádico, autofrenante (cessa imediatamente ao atingir seu objetivo) – é desvinculado do tempo ou da dificuldade. Historicamente, é desvinculado do tempo e da dificuldade toda a concepção de trabalho anterior às relações capitalistas de produção. Até então o trabalho era entendido como uma atividade descontínua, com vinculações mágicas e depois religiosas.

Ninguém sabe quanto tempo levou para que as gárgulas, anjos e santos medievais fossem esculpidos, nem quanto custou para encarapitá-las nos tetos e beirais das igrejas. Isto não interessava. Estas esculturas não foram feitas para uso ou para troca. Nem mesmo foram feitas para a elevação dos humanos. Se hoje realizamos acrobacias, nos fatigamos e nos arriscamos para apreciá-las é porque não foram feitas para nós, mas para que Deus nas alturas as visse.

Depois da Renascença a cristandade perdeu esta fé intensa nos cuidados de Deus para com os mortais. Talvez porque tenha se descoberto desvalida, talvez porque a prometida redenção ainda demore. Não é o caso da fé no conceito do trabalho fruto da imaginação adâmica. Passados mais de dois séculos da sua formulação, o paralelismo entre esforço, tempo e preço continua a viciar a ótica econômica do trabalho. Uma ideia que que não pode ser atribuída ao uisge beatha, mais tarde conhecido por whisky, já que até 1880 este álcool não teve difusão fora das granjas dos highlanders que o fabricavam[iv].


[i] Smith, Adam (1975). An induiry into the nature and causes of the wealth of nations; London; Encyclopaedia Britannica Inc.

[ii] Cartier, Michel (2001) org. Le travail et ses représentations; Paris; Éditons des Archives Contemporaines.

[iii] Marx, Karl (2013) Salário, preço e lucro. Trad. Edmilsom Costa; São Paulo; EDIPRO

[iv] MacLean, Charles (2005) Scotch Whisky: A Liquid History, London, Cassell Illustrated

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Meditações profissionais: Sêneca

CATEGORIA AST

 

“O náufrago não pode

nadar com bagagem”

 

Duas ressalvas óbvias:

i) ao longo da vida profissional os naufrágios são frequentes. Pequenos e grandes.
ii) o náufrago não é um derrotado. Ao contrário.

Sêneca, Lúcio Anneo (2008). Cartas à Lucílio (Aprendendo a viver). Tradução de Lúcia Sá Rabello Porto Alegre L&PM

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Avatares do trabalho

CATEGORIA PT

VishnuHá décadas fala-se sobre o fim do trabalho e o trabalho não desaparece. O que desapareceu foram as certezas. Muito do que se tinha por certo sobre o trabalho e o trabalhador mostrou-se falso, irrelevante. O que desapareceu foram os avatares de uma abstração hipostasiada.

No campo das ciências humana e sociais persiste a recusa em aceitar o fato de que o determinismo, seja na forma natural do destino biológico, seja na forma espiritual de vocação histórica, é falso. A ideia de que a vida é uma tarefa a realizar e a ideia de que a vida é uma resultante dialética inevitável são suposições improváveis, no duplo sentido de que são meras especulações e de que não podem ser provadas.

A consequência destas idealizações infundadas é o acúmulo de estatísticas e de experimentos versando sobre o inexistente. O afã de superar a incerteza e a ignorância sobre a atividade laboral redundou em um quadro fantasmagórico de codificações restritas (trabalho=emprego), viciadas (trabalho=ocupação), formalistas (trabalho=registro legal) infundadas (trabalho=destino manifesto), ou simplesmente absurdas (trabalho=necessidade natural).

 

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Tipos de serviço

CATEGORIA AST

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O propósito criativo do tédio

CATEGORIA ASTalone_smith1

Em 1958, o auto-proclamado “criança de 42 anos” Robert Paul Smith escreveu um pequeno livro intitulado How to Do Nothing With Nobody All Alone By Yourself, ilustrado por sua esposa Elinor. Trata-se de um guia para transformar objetos simples e caseiros em engenhocas divertidas, muito antes do surgimento da cultura hacker e do Movimento Maker, auge do DIY.

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O livro alcança a façanha de nos libertar das altas tecnologias hiperconectadas dos smartphones por algumas horas. É um manual sobre a prevenção do tédio, uma cartilha sobre a solidão, uma declaração de independência. Como Fazer Nada Com Ninguém Sozinho por Si Mesmo descreve em detalhes coisas reais, fascinantes, que nossos pais já fizeram. É um livro para crianças, mas adultos não estão proibidos de ler e se informar sobre o trabalho solitário.

Clique aqui para saber mais sobre sua criatividade.

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Como Isaac Asimov previu que seria 2014, 50 anos atrás

CATEGORIA AST

isaac-asimovEm 1964, durante a Feira Mundial de Nova York, o New York Times convidou o escritor de ficção científica e professor de bioquímica Isaac Asimov a fazer previsões de como seria o mundo 50 anos depois, ou seja, este ano. Asimov escreveu mais de 500 trabalhos, entre romances, contos, teses e artigos e sempre se caracterizou por fazer projeções acuradas sobre o futuro. As previsões do escritor, que morreu em 1991, são surpreendentes.

O artigo do Times e a acurácia das previsões foram temas de um texto do site Open Culture.

Sobre o trabalho Asimov previu uma população entediada, como sinal de uma doença que “se alastra a cada ano, aumentando de intensidade, o que terá consequência mentais, emocionais e sociais”. Depressão?  “Ouso dizer”, prossegue ele, “que a psiquiatria será a especialidade médica mais importante em 2014. Aqueles poucos que puderem se envolver em trabalhos mais criativos formarão a elite da humanidade”.

Clique aqui para ler a matéria original com outras previsões.

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“Mentoring” Reverso

CATEGORIA TRMENTORINGMentoring é uma forma eficaz de se transmitir a experiência e conhecimento dentro de uma organização. Empresas de todos os setores têm programas formais e informais destinados a aprimorar seus talentos e aguçar sua vantagem competitiva.

Mas a revolução da tecnologia criou uma ironia para o mentoring tradicional. Hoje é comum para um jovem trabalhador de nível júnior ter uma melhor compreensão de tecnologia ou de algum aspecto da operação do que o seu gerente.

O tema já foi discutido no artigo de Wendy Marcink Murphy “Reverse Mentoring at Work”. Até Jack Welch, quando era presidente da General Electric, em 1999, anteviu esta tendência e desenvolveu um programa no qual os mais jovens poderiam auxiliar os mais velhos.

Clique aqui para ler mais no artigo de Lee Colan para a Inc.com.

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Rastejando para subir

CATEGORIA TR

6049006_0cebecbb2c_mTendo constado que o réptil chega ao cimo dos rochedos com facilidade enquanto o cavalo mais fogoso jamais o consegue, Paul Henri Thiry, Barão d’Holbach (1723-1789) descreveu a regra de conduta para ascensão organizacional em termos categóricos.

Explicou que o homem que galga as posições na corte, ou em qualquer organização formalizada, deve ser uma entidade compósita: arrogante por cortesia, pródigo por avareza, audaz por covardia, deve ter a cabeça de vidro e o coração meio ferro, meio lama.

Afável, polido e afetuoso, deve abafar os apelos da razão, subjugar a individualidade até alcançar a insensibilidade. Sua escalada é paga em complacência, assiduidade, bajulação e baixezas. Para manter os dirigentes em bom humor é necessário que se sacrifique ao tédio, que anule seu amor próprio e sua natureza. Muito importante é não ter opinião. A sagacidade ascensional consistindo em pressentir a julgamento do líder, o que pressupõe desenvolver o conhecimento da alma humana, o domínio do estomago e o da fisionomia.

É característica dos regimes formalizados, seja qual for a sua índole, o seu lugar e o seu tempo o serem servo assistidos. Quem os denuncia é visto não como libertário, mas como subversivo, como agitador ou como anarquista. Talvez por isto, o Barão tenha tido o bom senso de morrer antes de ter-se publicado, no ano da graça de 1813, pela casa editora F. Buisson de Paris o opúsculo intitulado “Ensaio sobre a arte de rastejar para uso dos cortesãos”, no qual expõe em detalhes as condições para se conseguir o bom posicionamento intra-organizacional, aqui resumidas.

O “Ensaio”, uma facécia filosófica extraída dos “Manuscrits de feu” e outros escritos anarco-ateístas valeram a Paul Thiry e à sua descendência, tanto a biológica como a intelectual, o ódio das direitas empedernidas, dos comissariados canhotos e dos burocratas de estrita observância. Mas nada impediu que legasse a regra que, edulcorada e eufemisticamente, é reproduzida nos livros, artigos, blogs e quejandos de aconselhamento laboral: para subir rasteje, rasteje, rasteje.

Referências

D’Holbach (2010). Essai sur l’art de ramper à l’usage des courtisans. Paris. Éditons Payot et Rivages.

UTILIZE E CITE A FONTE

Trabalhar por dinheiro.

Trabalho & Produtividade.

Simmel

Georg Simmel, em “Filosofia do dinheiro”, sustentou que a moeda, um “meio absoluto”, embora não tenha valor em si, é superior ao trabalho.

O dinheiro é superior a tudo o que pode adquirir, incluindo o trabalho, porque sempre servirá para comprar outro objeto, o que lhe torna o veículo de uma liberdade infinita de escolha. Comparado ao trabalho, o dinheiro é mais valioso, porque o trabalho se troca contra o seu equivalente em dinheiro, mas não pode ser restituído, armazenado e substituído.

Não se pode aplicar o talento e saber do trabalhador para um ofício diverso daquele que exerce. Um bailarino não pode transmutar-se em matemático. Mas o dinheiro permite ao matemático assistir a um balé, e permite ao dançarino seguir um curso de matemática.

A posição social é dada pelo nascimento e pelas relações, mas é nivelada pelo dinheiro. Se o trabalhador permanece dependente do patrão ou do cliente para ganhar dinheiro, ele é inteiramente livre para gastá-lo. De modo que, segundo Simmel, se não se cede às tentações da ganância e da rapacidade, trabalhar por dinheiro é a forma racional de obter liberdade, desenvolvimento pessoal, posição e conforto.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Simmel, Georg (2011). The Philosophy of Money. Routledge (Reprint edition). New York.

 

Conceitos-chave – o trabalho grego.

CATEGORIA PT

ESCRAVOS NA GRECIA ANTIGA

Os gregos da época clássica desconheciam o termo “trabalho” na forma que utilizamos hoje. Não que desconhecessem o fenômeno, mas davam tratamento normativo, moral e relevância distinta, conforme se tratasse das subdivisões do esforço com produto tangível, poíesis, e do esforço com resultado intangível.

A poïesis, “fabricação” era dividida em:

  • esforço penoso – pónos, “pena”, a lida diária e constante,
  • esforço criativo – érgon (dispêndio de energia), o trabalho que gera resultados;

Enquanto o esforço com resultado intangível compreendia:

  • a administração do viver ou o viver eticamente – prâxis, o cuidado de si mesmo;
  • a contemplação e a ciência – theoria;
  • a gestão da polis, do social e, talvez, a luta pelo poder – política.

O confuso conceito de ”trabalho em geral” data do Renascimento.

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