ÉTICA: John Rawls – a economia moral da justiça.

Notícias.

Neste texto descrevo como o filósofo norte-americano John Rawls reformulou o pensamento moral contemporâneo, ao propor a subordinação da ética à justiça.

Resumo a defesa que apresentou para uma moral fundada em um pacto que compensasse, sem tentar anulá-las, as assimetrias econômico-sociais do mundo em que vivemos.

Concluo com uma discussão sobre as dificuldades teóricas que encontrou para absorver o pluralismo cultural, filosófico, político e religioso do Ocidente.

Artigo publicado no Vol. 26 N 3 da revista Sociedade e Estado.

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Novos Ebooks

Os livros, em sua versão digital, já encontram-se disponíveis no site da Editora FGV. A Editora FGV oferece livros digitais em dois formatos: ePub e PDF. Eles podem ser lidos na tela de um computador ou em leitores portáteis (tablets e smartphones), sendo uma opção de leitura mais prática e econômica. Confira abaixo os detalhes de cada E-book:

Sobreviver ao Trabalho        174 173 Conceitos & Definições

 

 

 

 

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Civilização e barbárie

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montesquieuCharles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu (Bordeaux, 1689 — Paris, 1755) deixou escrito no prefácio às Lettres persanes (i) que a barbárie é a era dos fatos e que a civilização é marcada pelas “ideias vagas”,  pela reflexão filosófica.
 
O mundo do trabalho da atualidade, assolado pela economia dos índices e devastado pela numerologia gerencial, vive seu momento de barbárie.
 
Pouco a fazer. Nada a temer. Como na vida social, na esfera do trabalho há, para os lúcidos, o refúgio da introspecção e do convívio afetivo. Para os demais, há o amparo da observância das metas e do congraçamento, seja o burocrático, o digital ou o religioso.

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(i) Montesquieu, (1951) Œuvres complètes; Éditeur,Roger Caillois; Bibliothèque de la Pléiade, n° 86, Paris

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Reverência ao trabalho

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Sobreviver ao trabalho

Grande parte do que se postula sobre o trabalho na atualidade é simples reverência a uma categoria do pensamento social imperante entre meados do século XIX e meados do século XX. A que define o trabalho como a atividade consciente e planejada na qual o ser humano, ao mesmo tempo em que extrai da natureza os bens capazes de satisfazer suas necessidades materiais, cria as bases de sua realidade sociocultural.

A reverência, do latim re-verērí, reassegurar por medo, é umas das formas mais sombrias de se conter o avanço da conhecimento. Anula a crítica, abate as vontades. Reverenciar linhas de reflexão fundadas em um conceito que antiguidade grega e a romana desconheciam, idealizar o que a antropologia registra como empírica e semanticamente inexistente, é mais que uma tolice: é sustar a possibilidade de lançar luz sobre a realidade crua da existência humana.

O trabalho como fenômeno que eleva o ser humano, um conceito de John Locke apropriado pelo pensamento social dos séculos XIX e XX, se algum dia existiu está hoje desaparecido. Os que ainda sustentam a validade deste conceito edificante de trabalho são tão inocentes como as crianças pequenas, que não podem aceitar que se altere uma vírgula da história da carochinha que uma vez lhes contaram.

A recusa em admitir a plasticidade no tempo e no espaço da esfera social, a reverência pelas realidades vencidas e pelos entendimentos caducos desvela a ânsia por segurança e conforto própria da indolência mental. Reverenciar a parte da nossa vida ativa dedicada à sobrevivência material perdeu o sentido desde que passamos a trabalhar sobre fluxos impalpáveis de informação, desde que cada vez mais o agir estandardizado que patrocina a nossa existência nos limita e nos avilta física e intelectualmente, desde que o que produzem nossas mãos e cérebros se liquidifica e se esvai sem deixar traços.

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O arcano sincrônico: em prol de uma abordagem etológica do trabalho.

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Sobreviver ao trabalho

O ano da graça de 2014 ficará marcado na história da ciência como aquele em que, depois de um longo e penoso afã, os etólogos Steven Portugal e James Usherwood[i], da Royal Veterinary College, UK[ii], demonstraram a razão das formações em V na sociedade das aves migratórias.

Utilizando sensores de última geração, Portugal e Usherwood, provaram que a posição de cada membro do grupo e a sincronia de batidas das asas proveem condições aerodinâmicas para que gansos, pelicanos e íbis-eremitas consigam viajar quilômetros nas épocas de migração com um baixo gasto de energia.

Para os menos avisados a descoberta pode não parecer sensacional, mas vem muito a calhar. Vem impulsionar a etologia (ethos, maneira de ser + logia, ciência) no momento em que a nova disciplina transcendeu o estudo do comportamento social e individual dos animais para constituir-se em ramo da pesquisa que se ocupa das bases dos modelos comportamentais inatos e de condições que os deslancham, daquilo que vagamente denominamos de “instinto”.

As conquistas da etologia ainda são modestas.  Sabemos muito pouco sobre os arcanos dos papos inflados, dos traseiros multicoloridos, das danças malucas, dos acasalamentos mortais, dos suicídios em grupo, das condutas sincrônicas.

Particularmente temos uma dificuldade imensa para separar o que é aprendido e o que é instintivo na espécie humana.

Pouco estudado, a comportamento corporal no trabalho encerra aspectos que vão muito além da estética, da moralidade e da ergonomia. Revela (ou esconde) condições mentais dos indivíduos e dos grupos na sociabilidade forçada das organizações. O estudo dos impulsos demonstraria o que há de congênito e instintivo nas relações de trabalho. Porque uma coisa é o grupo natural, anterior até mesmo à família. Outra, completamente diversa, o grupo no qual exercemos a atividade laboral.

Raramente escolhemos as pessoas com quem compartilhamos nossa vida de trabalho. Não são nossos amigos ou pessoas com quem necessariamente tenhamos afinidades. Foram selecionadas por outros, de acordo com parâmetros estranhos a nós, segundo atributos de eficiência, de disponibilidade, de aparência, de nepotismo.

É com esforço que nos ajustamos aos colegas, como é com esforço que nos ajustamos aos vizinhos que os azares da geografia e da economia nos atribuíram. Aprendemos a execução dos artifícios necessários à convivência imposta pela civilidade. Escondemos nossos sentimentos, disfarçamos quem verdadeiramente somos e o que pensamos.

Tudo isto é cultural e bem sabido. Gentes de outras terras e de outras épocas agem de forma diversa.  Mas há comportamentos humanos no trabalho que não são culturais, que são (ou seriam) instintivos. Não voamos em formação, mas temos condutas próprias da espécie que têm uma importância decisiva para o entendimento do fenômeno do trabalho. Talvez a mais misteriosa delas seja a sincronização das condutas.

Sabemos que a música tem origem no ritmo marcado do trabalho do barqueiro, do agricultor, do homem primitivo. Desde os primórdios da nossa existência como espécie ritmamos para tolerar os padecimentos da lida, para ordenar as energias, para coordenar o grupo. A regularidade dos sons e dos movimentos tem explicação funcional. Mas carecemos ainda de explicação fundada para fenômenos como o da sincronização instintiva. O mistério da sincronia reside no caráter inevitável, não refletido, não aprendido, das condutas cadenciadas.

Se o corpo defende-se dos estímulos externos – fechando os olhos à luz intensa, vestindo um casaco quando faz frio – aos estímulos internos não se pode fugir. Podemos voluntariamente não nos alimentar, mas não podemos deixar de sentir fome, ou de nos apaixonar, ou de bocejar, ou de, gregariamente, sincronizar. Em muitas instâncias somos como os vagalumes que quando se reúnem formam um padrão simétrico de lampejos[iii]. Como os sapos, que coaxam em uníssono. Camuflagem, conflito, coincidência?

Os etologistas não chegaram ainda a concluir se os ritmos animais são ritualísticos, comunicativos ou se são, simplesmente, uma forma instintiva de poupar energia. A sincronização é um fenômeno da natureza, tanto que a compartilhamos com outras espécies. Sua ocorrência é randômica e sem razão aparente. Não conhecemos suas causas, embora saibamos da sua existência. Ninguém tem ideia do que há na psique do homem natural que nos leva a compassar, sejam manifestações físicas, como a sincronização do bater de palmas, sejam manifestações psíquicas, como ocorre (documentadamente[iv]) com colegas que sincronizam seus períodos menstruais.

Uma pista talvez esteja na divisão do tempo de trabalho. Os antigos diferiam os dias fastos dos nefastos. Já haviam notado que há dias em que todos nos mostramos satisfeitos e contentes, como sabiam que vivenciamos dias que são simultaneamente mortos para todos, em que o trabalho é penoso e infrutífero. A sincronização também ocorre nos dias comuns. Há momentos – diferentes para cada microcultura – em que simultaneamente sentimos necessidade litúrgica de nos comunicarmos, seja nos cafezinhos, seja pelo telefone, seja nos corredores, seja digitalmente. As épocas são igualmente sincronizadas. Há aquelas de anomia, como há épocas de insatisfação genérica imotivada. Sem razão que dispare a impaciência, os ânimos se exaltam, a produtividade esmorece. Declara-se um basta amplo e genérico. Sincronicamente nos indignamos, nos manifestamos, ocupamos a praça, abandonamos a lida, proclamamos o Estado de Última Gota. Por que agimos assim, se as coisas não estavam melhores antes? Por que aqui? Por que agora? Por que sincronicamente?

 

[i] (2014).Upwash exploitation and downwash avoidance by flap phasing in ibis formation flight; Nature; 505,399–402; (16 January 2014)

[ii] http://www.rvc.ac.uk/

[iii] Os padrões são complicados. Cf: Maynard, A and Merritt, DJ (2013). Synchronization of circadian bioluminescence as a group-foraging strategy in cave glowworms. Integrative and Comparative Biology 53(1): 154-164

[iv] McClintock, M. K. (1971). Menstrual Synchrony and Suppression. Nature 229 (5282): 24

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Relações Modernas de Trabalho

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A animação El Empleo (O Emprego), do diretor argentino Santiago Grasso, questiona as relações de trabalho modernas, na qual as pessoas são tratadas como objetos.

Em 5 minutos e sem diálogos, o filme retrata um dia na vida de um trabalhador – do café da manhã até a chegada no escritório. A animação ganhou 103 prêmios internacionais.

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Terceira tese sobre a perda de centralidade no trabalho – Foucault

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Sobreviver ao trabalhoPosição lateral às teses da desnaturalização de Rousseau e da sobreorganização de Kropotikin é a do confinamento. A ideia-mestra é de Michel Foucault (Poitiers, 1926 – Paris, 1984) que estudou os dispositivos do poder disciplinar, e sustentou que o confinamento desqualifica o ser humano, tornando-o dócil e conformista. Foucault desenvolveu sua reflexão em torno da recuperação do saber filosófico, do dito e do escrito sobre as prisões, a sexualidade, a governabilidade e as práticas de subjetivação.

A sua tese sobre a prática e os efeitos do confinamento nas prisões foi demonstrada empiricamente por Haslam e Reicher (2012) nas midiáticas (e cientificamente corretas) séries da BBC. Segundo esta tese, o ser humano confinado nas organizações, seja fisicamente seja digitalmente, se tornaria moralmente nulo. A perda de centralidade do trabalho como componente da existência humana seria fruto da aversão à ancoragem no espaço e na razão unidimensionais regida pelo poder disciplinar.michel_foucault

As teses da desnaturalização, da sobreorganização e do confinamento têm em comum a atribuição do mal estar no trabalho não ao volume ou a intensidade do esforço, mas às interações sociais. Segundo as três teses, é o desgaste na interação entre o trabalho e o trabalhador que consome e aliena o que resta de humano na atividade produtiva.

Referências:
Foulcault, Michel (1977). Vigiar e punir: nascimento da prisão [1975]; Tradução de Lígia Pondé Vassalo; Petrópolis; Editora Vozes.
Haslam, S. A., & Reicher, S. D. (2012). Contesting the ‘nature’ of conformity: What Milgram and Zimbardo’s studies really show. PLoS Biology, 10(11).

 
Sobre a primeira tese,  leia aqui.
Sobre a segunda tese, leia aqui.

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O Coro dos Contentes

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sousandrade2aJoaquim de Sousa Andrade, ou simplesmente Sousândrade, (Guimarães, 9 de julho de 1832 — São Luís, 21 de abril de 1902) poeta, engenheiro, jornalista e político maranhense morreu louco e na miséria. Mas não de tédio, com certeza. Produziu obstinada e errantemente, embora sem reconhecimento. Resgatado na década de 1960 pelos irmãos Campos, a sua obra revela-se como precursora da vanguarda de meio século adiante. Sousândrade foi tudo, exceto monótono.

Alguém que escreveu “..no ar circunvoando/vivo-escarlatas/indolentemente…”, sabia que a rotina mata a vontade de trabalhar. Para que o desejo de trabalhar desperte e se mantenha é essencial o inesperado. Somos arrastados ao trabalho pela necessidade, mas incitados a trabalhar pelas possibilidades em aberto. A necessidade, Ananke para os gregos da época clássica, é a mãe do destino, de Moros, um deus cego. Tike, a deusa do acaso, também é cega, mas carrega a cornucópia da abundância. Abre-se positivamente para o imprevisível.

Para que o trabalho não nos mate de tédio é imprescindível que estanque a monotonia da vida psíquica, que desarrume a ordem burguesa da vida social, que desafine “o coro dos contentes”, como queria Sousândrade.

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Segunda tese sobre a perda de centralidade no trabalho – Kropotkin

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Uma segunda tese, a de Kropotkin, sugere a sobre organização do trabalho contra Darwin, que a luta pela existência leva à cooperação, não ao combate. Que a seleção natural elimina os isolados, os abandonados, os solitários, mas não, necessariamente nem principalmente, os mais fracos.

Em sua obra principal, “A ajuda mútua” (1987), uma coletânea de artigos contra as posições darwinistas, Kropotkin procurou demonstrar que só lutamos uns contra os outros quando perdemos o juízo ou quando somos coagidos pelas pressões do Estado e de grupos sociais. Deixados ao nosso alvedrio, ajudamos naturalmente os nossos semelhantes. A marcha de história nada mais sendo do que o percurso da solidariedade, da cooperação sem necessidade de repressão.kropotkin-portrait

Curiosamente comprovada pela psicologia do século XXI, que demonstrou empiricamente o instinto solidário entre mamíferos (Ben-Ami et al; 2011), a tese imputa a perda de centralidade do trabalho como componente da existência pessoal à artificialidade decorrente da parametrização das interações laborais.

Referências:
Ben-Ami, Bartal Inbal; Jean Decety, and Peggy Mason (2011). Empathy and pro-social behavior in rats; Science 9 December 2011: 1427-1430
Kropotkin, Petr Alekseevich (1987). Mutual aid, a factor of evolution [1902]; London; Freedom Press.

Sobre a primeira tese, leia aqui.
Sobre a terceira tese, leia aqui.

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Primeira tese sobre a perda de centralidade no trabalho – Rousseau

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Talvez a mais sedimentada das teses sobre decaimento do trabalho enquanto atributo da existência humana seja a que deriva da ideia rousseauniana de que o ser humano nasce bom, mas é degradado pela sociedade.

Figura de proa do iluminismo, Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 1712 – Senlis, 1778) jamais se pretendeu filósofo. Teve uma trajetória errática. Foi um dos grandes romancistas da sua época. Escreveu peças de teatro. Músico, compôs óperas de sucesso.

Desde o Discuso sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens (Rousseau; 1754) e ao longo da sua trajetória intelectual nãoJean-Jacques Rousseau abandonou a convicção de que o progresso, ao contrário do que se pensava na época, é negativo para a vida moral e para a liberdade. O progresso, disse, torna a sociedade egoísta e corrupta. Promove a desigualdade, sustentando privilégios de riqueza e de poder. O progresso cria convenções e instituições que asseguram estes privilégios.As matrizes dos males da sociedade são a opressão requerida pela conservação do poder e pela acumulação de riquezas que decorre da renda sem o trabalho. Presa na armadilha do progresso, das regalias e das opressões, a atividade laboral sofre um processo de desnaturalização, uma degradação na ordem das vivências pessoais.

Referências:
Rousseau, Jean-Jacques (1993). Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens [1755]; Tradução de Maria Ermantina Galvão; São Paulo; Martins Fontes.

Sobre a segunda tese, leia aqui.
Sobre a terceira tese, leia aqui.

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O hipster enquanto funcionário

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hipster

A cultura hipster é balizada pela indefinição com relação às manifestações artísticas, particularmente em relação à música, por comportamentos descolados e estilo de vida alternativo. Nasceu em Nova York nos anos 2000 e se espalhou pelos grandes centros urbanos de todo o mundo.

O hipsterismo tem sido apontado como indutor de uma nova forma de relacionamento com o trabalho. Mas não é assim. O hipster é um produto da educação pasteurizada, a informatização e a automação que nos aproximam da época em que todos (isto é, qualquer um) poderemos ser adestrados rapidamente para a produção, o que tornará os produtos e serviços cada vez mais acessíveis e o trabalho cada vez mais irrelevante.

O hipsterismo assinala a perda da valência revolucionária do gosto e da conduta sobre a vida e, em particular, sobre a vida laboral. Ser beatnik nos anos 1950 ou ser hippie nos anos 60 foi, à época, uma opção inteiramente diferente do que ser hipster hoje. Significou rejeitar o trabalho convencional a partir de uma ideologia refletida e professada.

Ser hipster hoje é uma coisa por completo diversa. É assumir uma fantasia, uma má-criação, uma atitude de superfície que se esgota em si mesma. Inútil procurar. Não existe um movimento hipster, nem mesmo uma diretiva hipster sobre a dinâmica das condutas. O hipsterismo é uma palhaçada: uma composição sem uma estética, uma conduta sem causa, uma mobilização sem discurso, uma ocorrência sem outro legado que não seja o da crônica do fait divers.

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O recurso à criatividade

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Sobreviver ao trabalho

Está nas folhas que os estudantes brasileiros estão na lanterna em termos capacidade de raciocínio. Ficamos em 38º lugar entre 44 países considerados.

O consabido fracasso do sistema educacional na elevação da capacidade de pensar do povo de Pindorama, por incrível que possa parecer, tem um lado positivo: a elevação forçada da criatividade, da capacidade de improvisação dos nossos profissionais.

Ancorada nos condicionamentos econômicos e sociais do inicio do século XX, a soi-disant academia naufragou ao se aferrar ao propósito de assegurar a empregabilidade. Deixou de lado o alargamento do intelecto, não se dando conta de que o ambicionado emprego “como antigamente” anda mal das pernas. Que o digam os destemidos da autonomia descolada e os acomodados concurseiros em busca da segurança sem vínculo pessoal.

O establishment acadêmico não percebeu que as alterações estruturais ocorridas neste século deslocaram o eixo dos requisitos para o trabalho da superficialidade do adestramento para a profundidade da formação. Este deslocamento fez caducar um sistema que incapacita para o novo, um sistema em que tudo é recitado – a técnica, o dado, o caso – e nada problematizado – a teoria, o fundamento, o extraordinário.

O positivo desta quase tragédia é que, preparado para a descoberta e não para a invenção, o profissional do século XXI vê-se obrigado à engenhosidade. Tecnologicamente assistido, apreendeu por conta própria a edificar os saberes que lhe facultam superar o legado das referências peremptas e dos certificados vazios que a lei e o preconceito lhe obrigam a ostentar. Os nossos profissionais são viradores. Limitados para o raciocínio formal, se safam como podem.

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Frustração

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Vilem_Flusser

Em um ensaio publicado na revista Comentários em 1972 e recuperado pela revista CULT (187, fev, 2014), Vilém Flusser, o filósofo do design, faz um reparo essencial para o entendimento da frustração do impulso para o trabalho na atualidade.

Diz ele que a asserção tácita de que a capacidade consumidora humana será sempre maior do que a sua capacidade produtora está vencida. A geração atual não é capaz de consumir uma parte considerável dos produtos materiais e imateriais que sobre ela se precipitam. A impotência para o consumo significa que uma parte cada vez maior do que produzimos está destinada à degradação dos arquivos, dos depósitos e das lixeiras.

A frustração deriva de que temos consciência de que ao longo da vida laboral escrevemos um livro que provavelmente jamais será lido.

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2013 in review

As estatísticas do WordPress.com prepararam o relatório anual de 2013 para este blog.

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Cotas de Trabalho: Outra Opinião

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Por: Graciano Coutinho – Jornalista

Não Sou: – Nem Negro, Nem Homossexual, Nem Índio, Nem Assaltante, Nem Guerrilheiro, Nem Invasor De Terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais? Na …verdade eu sou branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero… E tudo isso para quê?

Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins*

Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna).

Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso. Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.

Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do Governo!

Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse cumpre a lei.

Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos.

E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema?

Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.

(*Ives Gandra da Silva Martins, é um renomado professor emérito das Universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército Brasileiro e Presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo).

Para os que desconhecem o Inciso IV, do art. 3°, da Constituição Federal a que se refere o Dr. Ives Granda, eis sua íntegra: “Promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

 

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Mímesis ou criação

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O que há de criação na economia criativa?

Esta poucas vezes formulada questão pode merecer uma resposta penosa. Tomemos, por exemplo, Platão. Lemos no Sofista (265b) que as artes produtivas (poetikai technai) são divididas em humana e divina, mas que existe outro tipo de produção, comum aos humanos e aos deuses, que não gera originais, mas (re)produz meras cópias. Esta é a mímesis, termo que em grego significa imitação, reprodução.

A mímesis humana se divide em mímesis icástica, cujas cópias são fiéis do modelo, e mímesis fantástica ou arte dos simulacros (phantasmata), cujos produtos são cópias ilusórias do modelo (Sofista 235d-236d; 265a e ss.) A mímesis identifica a arte do poeta, do pintor, do escultor e, por excelência, a arte do ator, que produz a cópia na sua própria pessoa.

As ideias de Platão às vezes são inversas daquelas que estamos acostumados. No Timeu (30c-d), por exemplo, o demiurgo divino toma como modelo (paradeigma) as criaturas inteligentes (zoön noeton) para criar o cosmos. Mas o seu raciocínio é claro e nada perdeu em valor. Na República (596b) vemos como o artesão divino cria o original, o “eidos” de uma cama, como o artesão humano (re)produz a cama física, uma mera imitação, mas que será o eidos do pintor que a (re)trata. Por isto, o artista, o pintor, não é, para Platão, um criador. Ele produz a cópia de uma cópia, uma contrafação desprovida de essência. É seguindo esta linha de raciocínio que Platão deixa clara a distinção entre o engenho criador (demiurgia) e o engenho imitador (mímesis).

O passar dos séculos ira assistir uma feroz discussão sobre estes dois conceitos e a quê se aplicam. Já Aristóteles irá chamar de miméticas as artes em geral, mesmo as artes como a da culinária, que, ao cozinhar os alimentos, imita e antecipa o processo de digestão. A mímesis a partir de Aristóteles não é só representação, mas o obrar similar ao da natureza. Outros, muitos outros, irão emprestar a um e a outro termo força e vigência distinta. Mas, seja como for, parece evidente que chamar de criativa a atividade econômica que hoje leva este epíteto é distorcer e estender um conceito para muito além do seu domínio.

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O que é o trabalho – conceito

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Conceitos & DefiniçõesAfinal é possível dizer que é o trabalho?

O problema de definir o que vem a ser o trabalho corresponde ao questionamento do suposto de que a competência linguística deriva do conhecimento da descrição do significado do termo em relação ao seu objeto.

Existem quatro ordens de argumentação sobre as condições de possibilidade da expressão de um conceito:

1. o argumento do engano ou da ignorância em relação aos atributos;

2. o argumento do externalismo ou da impossibilidade de conceituar fora de contexto;

3. o argumento do limiar ou da impossibilidade de determinar os limites precisos de validade do conceito;

4. o argumento da tipicidade ou da percepção dos casos que recaem sob o conceito.

O argumento da ignorância diz que é possível aplicar corretamente um conceito e estar errado em relação aos seus atributos. Por exemplo: até a era moderna, acreditava-se que a varíola originava-se de miasmas no sangue, o que era incorreto, é claro, mas a identificação da doença e parte do tratamento dispensado aos enfermos, como a higiene e o isolamento, praticados a partir deste conceito errôneo, eram corretos. O argumento diz ainda ser possível ignorar a extensão do conceito [seus atributos e propriedades associadas] e aplicá-lo corretamente. Por exemplo: é possível tratar-se correta e eficazmente uma doença sem conhecer os seus elementos constituintes e a sua etiologia, como é o caso de medicamentos indígenas e dos remédios caseiros. Tanto que a pesquisa médica procede muitas vezes de forma inversa, conceitualiza as propriedades de um medicamento a partir dos efeitos dos tratamentos e não a partir de hipóteses sobre atributos de uma planta. Segundo este argumento uma definição completa e acabada do que vem a ser o trabalho é não só impossível, uma vez que o nosso conhecimento sobre o fenômeno não cessa de aumentar, como desnecessária.

O argumento do externalismo diz que uma definição baseada em atributos internos do conceito não tem como fornecer as condições necessárias e suficientes para sua aplicação. Se este fosse o caso, todos os modos de apresentação do conceito deveriam coincidir, o que nunca ocorre. Tomemos o caso do conceito /ser humano/. Não há quem discorde que os seres humanos formam uma espécie distinta das demais e de que pertencemos a esta espécie. No entanto, existem pessoas que incluem como atributos essenciais dos seres humanos o terem sido criados por uma divindade e terem uma alma imortal, como existem pessoas que pensam que os seres humanos são o resultado de partículas unidas por acaso e que desaparecem integralmente ao término de suas vidas. Não há como garantir que uma ou outra perspectiva é a correta, o que não impede que o conceito /ser humano/ seja inteligível. Segundo este argumento, uma definição cabal do conceito trabalho deveria incluir todas a visões e entendimentos históricos e por existir do termo, o que é uma impossibilidade, mas que não impede que discorramos sobre o fenômeno.

O argumento do limiar ou da impossibilidade de determinar os limites precisos do conceito parte da contradição de que uma vez que as teorias tradicionais sustentam que os conceitos têm estruturas definicionais, não poderia haver dúvidas sobre os objetos que recaem sob sua definição. O argumento é fraco. Estas dúvidas existem, até para casos simples, como o de saber se os tapetes são ou não são móveis, e são difíceis de serem resolvidas logicamente. Para muitos objetos, principalmente das ciências humanas e sociais (finanças são um tema administrativo ou econômico?), parece não haver uma linha clara de demarcação dos limites do conceito, mas uma franja, uma zona de penumbra. Segundo este argumento, a definição do conceito de trabalho seria sempre imprecisa e questionável.

O argumento da tipicidade ou, como foi denominado pelos psicólogos, o argumento do efeito típico, consiste em que temos a tendência a considerar alguns exemplares como mais típicos ou representativos de um conceito. As investigações empíricas levadas a efeito nos anos 1970 e 1980 demonstraram que tendemos a categorizar, por exemplo, /pardal/ como mais representativo de /ave/ do que /galinha/ ou do que /avestruz/. Além disto, a nossa categorização perceptual tem mais presteza e segurança em considerar correta a proposição “um pardal não é um peixe” do que a proposição “um pinguim não é um peixe”. E esta distinção na forma como percebemos os casos se dá independentemente do fato de sabermos perfeitamente que pinguins não são peixes, mas uma espécie do mesmo gênero de bípedes, emplumados, com asas, que põe ovos, que nidificam etc. Esta constatação empírica levou a psicologia a uma visão não tradicional, não filosófica, mas exclusivamente psicológica dos conceitos: a de que categorizamos os objetos tendo em mente um protótipo da classe de referência do objeto. O argumento da tipicidade implica que os atributos, aquilo que atribuímos como componente de do conceito trabalho, são fruto de condicionamentos mentais, não passíveis de estabilização lógica.

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O Trabalho Individualizado: uma discussão estruturalista da aplicação da categoria da dádiva de Marcel Mauss nas relações organizacionais.

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Métodos Estruturalistas

Neste artigo, procuramos estabelecer um paralelo entre a categoria da dádiva, tal como definida por Marcel Mauss, e as estruturas relacionais do trabalho. Com base em pesquisa realizada junto a 122 organizações publicas e privadas, de diversos setores da economia, pudemos identificar: i) a superação da estrutura do trabalho em equipe (teamwork) e ii) a prevalência de uma estrutura que privilegia o trabalho individualizado.  A partir desta constatação, discutimos a possibilidade de que o sistema de compra-venda do trabalho fragmentado esteja sendo substituído pelo sistema da dádiva-reconhecimento do trabalho individualizado.

A pesquisa cujos resultados são comentados neste texto indica que este movimento não é fruto de uma evolução ou de uma circunstância momentânea, mas de uma mutação. Na tentativa de sobreviver às pressões do mercado, as organizações se encontraram na contingência de impor uma mudança radical na gestão de seus ativos. Como decorrência, a maneira como os recursos humanos são contratados, utilizados e descartados se alterou. A forma estrutural do trabalho-mercadoria vendido fragmentariamente se viu substituída pela estrutura em que o resultado do trabalho em lotes e frações integrais é transacionado contra recompensas que transcendem a simples remuneração.

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Conferência:”O Invento na Administração”

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Linha de Argumentação:

1. O invento se distingue da criação e da inovação:
1.1. Criar de creo, o causativo de cresco, brotar;
1.2. Inventar, de in venire, vir a produzir uma nova síntese do natural ou do criado;
1.3. Inovar, de neo, introduzir o novo, o que foi criado e inventado.

2. O invento se opõe diretamente ao natural, isto é, a uma suposta natureza social do ser humano.

3. Ao contrário do que muitos pensam, os elementa fundamentais da administração, a forma como estruturamos e gerimos as organizações, são inventos. São sínteses produzidas para atender necessidades em uma determinada situação espaço-temporal.

4. A estrutura das organizações, a sua estática, em contraposição à sua dinâmica (os fluxos e as técnicas), é o elemento que mais resiste à passagem do tempo e às mudanças socioeconômicas.

5. Os objetos relacionais da estrutura hierárquica piramidal – a chefia ou liderança encadeada e a distribuição de encargos unívocos – têm uma origem precisa: datam da alta Idade Média, e um autor conhecido: Pseudo-Dionísio Aeropagita. Decorrem, portanto, de circunstâncias, necessidades e quereres (vontades e desejos) desta época e lugar.

6. Esta forma estrutural básica se manteve mais ou menos intacta. Seus elementa, a divisão interna do trabalho e a hierarquia, tendem ao arrasto, a resistir no tempo. É o arrasto inercial das estruturas organizacionais e os dispositivos normativos que as acompanham que faz com que pareçam ser naturais, não inventos presos a um meio social caduco (que caiu) ou extinto;

7. As modificações operacionais e tecnológicas nas organizações neste século sinalizam a perda acelerada de funcionalidade da forma de distribuição horizontal de tarefas e da hierarquização fixa.

8. As estruturas organizacionais que aí estão, baseadas em um invento medieval, vêm sendo descartadas. Os administradores de países emergentes, caso do Brasil, precisam entender este processo de forma a reinventar as formações estruturais das organizações, contribuindo para que as pressões econômico-sociais não informalizem inteiramente o processo, tornando-o anárquico e ainda mais disfuncional.

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Robert Castel

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Sobreviver ao trabalho

A morte de Robert Castel no mês passado marca talvez o final de um ciclo de esforços intelectuais e políticos para dar alento ao trabalho assalariado. O mundo do trabalho precário, da “desfiliação” – o conceito que Castel utilizou para retratar o isolamento social dos excluídos do sistema de emprego – e a denuncia da existência de uma esfera de “infra-assalariados”, são retratos vivos deste esforço. A sociedade salarial, um dia amparada pelo Estado Social, parece ter sido irremediavelmente desfigurada pelo neoliberalismo. O mundo que Castel denunciou foi o do ressentimento e da angústia, o mundo que aí está, em que as posições sociais são instáveis, em que tudo se mede, mas nada se avalia. Infelizmente ele morreu antes que o hiato entre a sociedade salarial e a do individuo autárquico, livre do jugo do emprego, pudesse emergir.

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