Walter Benjamin

Heurística – Benjamin, pescador de pérolas.

Epistemologia.

Em um ensaio quase sentimental, Hannah Arendt escreveu que Walter Benjamin “despertava os mortos”, para, com eles, construir uma nova iluminação. No fundo do mar do esquecimento, recobrava “pérolas do passado”, colhia relações e esclarecia o eterno.

Pescador de pérolas, Benjamin recuperou gemas de pensamento. Buscou no fundo do mar do passado o inesperado, o estranho e o omitido. Repensou poeticamente a memória; não para restaurar eras extintas, mas para reaver algo outrora vivo e que, cristalizado, sobrevive no âmago da sabedoria. (mais…)

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Walter Benjamin: o trabalho visto pelo Angelus Novus

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Coll IMJ,  photo (c) IMJ“Todo conhecimento humano tem a forma de interpretação”[i]

A undécima das Teses de filosofia da história[ii], que Walter Benjamin (1892–1940) escreveu para si mesmo, em Paris, no ano em que se daria morte, contém uma tentativa desesperada de resgatar um conceito que sabia demasiadamente tacanho.

O trabalho a que se referira até então fora o do trabalhador…, “amestrado pela máquina”, a quem “falta o elemento de aventura, … mas não o vazio, o não poder concluir, … daquele que exerce … um trabalho livre de conteúdo[iii].

Mas Benjamin via muito além disto. Havendo dominado a arte de inquirir, as respostas que ofereceu, quando e se as ofereceu, se abriam para novas inquirições. Não admitiam o fechamento que lhe imputaram a mística judaica de Gershon Scholen[iv] e o marxismo demiúrgico de Bertold Brecht[v], nem mereciam os reparos que Habermas[vi] com franqueza, e outros com dissimulação, as condenaram.

Anarcomarxista soreliano [(Sorel)], teólogo do materialismo, Benjamin foi abençoado por “iluminações profanas” – entre elas a de que a revolução organiza o pessimismo – e exerceu livremente a autocontradição. Não padeceu do pudor da coerência sintética de si mesmo.

Havia descoberto que o que chamamos de progresso é meramente a progressão técnica no sentido da catástrofe, inclusive da catástrofe pessoal. Via com os olhos do “Angelus Novus” que parece afastar-se daquilo que olha, o anjo que vê apenas catástrofes e ruínas e parece não compreender aquilo que vê:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”[vii]

Benjamin é para ser pensado, não para ser explicado. Intérprete político dos sonhos, seus conceitos pertencem enigmaticamente à memória, não ao processo consciente da recordação histórica, mas à lembrança dos vestígios com que se esculpe a visão onírica do futuro e do adeus à aura que um dia circunscreveu o trabalho.

Anti-otimista autoproclamado, Benjamin nos enche de esperanças quanto à emancipação do trabalho tanto da religião do mercado quanto da monarquia do operariado. Havendo ultrapassado o conceito marxista, Benjamin o repete como não querendo abandoná-lo. Mas chega a surpreendente antecipação do conceito de trabalho que

… visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos polos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis[viii]

 

[i] Benjamin, Walter (1892–1940), Letter, Dec. 9, 1923, quoted in Susan Sontag, “Under the Sign of Saturn,” introductory essay to One-Way Street and Other Writings (1978). Briefe (Frankfurt, 1966), no. 126

[ii] Benjamin, Walter (1985). Teses Sobre o Conceito de História. In: Benjamin, Walter; Obras Escolhidas, v. I, Magia e técnica, arte e política, trad. Sérgio Rouanet, São Paulo: Brasiliense.

[iii] Benjamin, Walter (1999) Sobre algunos temas en Baudelaire; Ediciones elaleph.com, p. 51-56

[iv] Sholem, Gershon (2003) Walter Benjamin a story of a friendship, NY, New York Review Books Classics

[v] Wizisla, Erdmut (2009) Walter Benjamin and Bertolt Brecht, trans Christine Shuttleworth, Yale, Yale University Press

[vi] Habermas, Jürgen (1988) Walter  Benjamin: consciousness-raising or rescuing critique; in Smith, Gary (ed.) On Walter Benjamin; Cambridge, Mass. : The MIT Press

[vii] Benjamin, Walter (1985). 9ª das Teses Sobre o Conceito de História.

[viii] Benjamin, Walter (1985). 11ª das Teses Sobre o Conceito de História.

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